10 de outubro de 2010

Votos hoje?


Viver em pobreza, obediência e castidade? Um desaproveitamento da vida. Pobreza, numa sociedade onde as coisas que nos podem fazer mais felizes são facilmente atingíveis em troca de certa quantidade de dinheiro? Obediência, tendo com a nossa autonomia oportunidade nestes tempos de nos transformarmos comodamente em deuses pessoais? Castidade, rodeado de tantas possibilidades de prazer? Quase um absurdo, estes votos.”

Esta bem poderia ter sido a minha resposta com vinte anos. Mas não cinco anos depois. A vivência deste compromisso enche de sentido cada dia da minha vida.
A emoção ao ajoelhar- me diante da Eucaristia naquela manhã radiante em Loyola era incontida. Um gesto que quis mostrar o meu desejo de entregar a própria vida àquele que ma permitiu primeiro. Por isso, esta pobreza, esta obediência e esta castidade são perante Deus e para as pessoas. E, no meio e no centro, Jesus, como exemplo de que os seus valores -propostos por ele naquelas alturas- ainda são possíveis. Possíveis e desejáveis.
Quem não fala hoje de valores? Quem não os procura? Eis aqui, pois, alguns. Aparecem na vida de Jesus. Ele age no Evangelho. E no mundo. No nosso mundo. Este mundo que tantas vezes nos incomoda ou nos desilude, mas no qual ainda acreditamos, pois contém histórias fascinantes de pessoas. Inclui momentos espantosos de encontro entre gente, simplesmente, boa. É o mundo no qual vivemos, e o qual tanto precisa de nós: jovens com votos e também sem eles, cristãos de todas as idades, homens e mulheres decididos a fazer da convivência com os mais próximos algo desejável e não evitável. Trabalhar, cada um desde a sua profissão, por esse outro mundo mais humano e habitável do qual tanto falamos. Façamo-lo, então!
E eu, pessoalmente, encontro ajuda e agradeço esta pobreza, que me faz livre a respeito das coisas; e esta castidade, que me faz livre a respeito das pessoas; e esta obediência, que me faz livre a respeito do eu próprio.
Assim, consegue-se amar e servir sem descanso.
Assim fica uma vida aproveitada.
Sim. Votos hoje.

17 comentários:

Anónimo disse...

Falando de Paradoxos...

"Obediência me faz livre"

É claramente falso...

Qual a melhor designação da pessoa que mata por obediência?
(livre da consciência e do sentimento de culpa?)

Qual a melhor designação da pessoa que engana por obediência?
(livre da consciência e do sentimento de culpa?)

Quem abdica da própria consciência abdica... da própria moralidade...
concluindo: obdiência cega é imoral... (livre do eu)...

Anónimo disse...

Até faz lembrar "O Código DaVinci"...
Que imagem tenebrosa essa... de um pau mandado para todo o serviço... até matar...

joão de brito disse...

Caro anónimo,

Obrigado pelo seu comentário. Como a pobreza e a castidade, a obediência é claramente algo que nos choca. Sobretudo se quem faz voto dela pretende viver livre da consciência e do sentimento de culpa, abdicar da própria consciência e, desse modo, da própria moralidade.

Como também eu escolhi fazer voto de obediência, permita-me que troque algumas palavras consigo, pois parece-me que, mesmo que não chegemos a concordar um com o outro, podemos certamente chegar a um melhor entendimento sobre o que o Alberto e os demais jesuítas entendemos por obediência.

Creio que é necessário antes de mais ter em conta que a obediência, enquanto acto de alguém que escuta, é obediência a alguém. Não será, portanto, uma obediência cega, pois o jesuíta (como todo o religioso/a que faz votos) terá diante dos seus olhos a quem obedece. Obedecer não será, por isso, um acto indiscriminado, mas um acto de fé em quem oiço, como tantos actos de confiança do nosso dia-a-dia, desde que fomos crianças e confiámos nos nossos pais.

Sendo uma obediência a alguém, um acto de fé em como o que me é dito é digno de ser cumprido, é caso para perguntar a quem obedece o jesuíta. A obediência do jesuíta, é em primeira e última análise, obediência a Deus. Existe um corpo intermédio de homens, mas o voto que o jesuíta faz é a Deus. O acto de fé nesta "estrutura" implica outra chave importante de leitura -- o discernimento. A obediência não faz sentido se for um jogo de pau mandado. Aquele que faz voto de obediência acredita que a Igreja é um corpo de discernimento onde cada um procura o que de facto é a vontade de Deus e não que os outros façam o que lhe parece. Funcionou sempre? Não. Funciona sempre? Não. Mas o cristão acredita que o Espírito de Deus não desiste da Igreja que gerou e continua a esforçar-se no coração de cada mulher e cada homem para que a Igreja seja casa de mulheres e homens livres.

Porquê essa "estrutura" intermédia? Porque só juntos podemos aferir critérios.
Porque toda a gestão de uma tarefa implica repartição de trabalhos, seja numa Faculdade, seja num Estado, numa família, numa empresa, nos mais diversos grupos humanos, e essa mesma repartição implica o papel de alguns que servem o todo pensando-a.
Porque ninguém nasce ensinado. E na verdade, todos em tudo somos discípulos de alguém (uns por simples imitação, outros por desejo consciente). E acredito que somos mais saudáveis (e livres) quando nos tornamos capazes de escolher, e pelos melhores critérios, aquele(s) de quem somos discípulos.

Por fim, porquê esse acto de fé em Deus que leva a uma procura obediente da sua vontade? A resposta está encarnada na vida de cada cristão e, assim, na vida de cada jesuíta. Tece-se nos episódios onde Deus Se deu a conhecer. Quando um cristão se dispõe assim é porque Deus Se manifestou na sua vida (geralmente de modos subtis, com a percepção que só o coração consegue) como um Deus de amor e cuja vontade é desejo de justiça. Não se trata de um acto racional (correria, então, o risco de ser irracional), de uma "boa razão", mas de uma relação que o cristão vai descobrindo à medida que Deus Se vai dando a conhecer. Uma relação que cresce na confiança. Por isso, Ele é digno de fé. Se a sua vontade é a justiça e o amor é digna de ser procurada. É procurada com outros, numa relação de confiança que como todas as outras relações supõe risco, mas que, parece-me, está longe de ser uma relação de risco.

Espero ter ido ao encontro do seu comentário


Deixo-lhe um abraço,
João

Francisca disse...

Alberto!
Gostei da tua publicação; É bom saber que ainda há pessoas a pensar correctamente, por isso o mundo continua em pé! Os jesuítas são grandes pessoas, parabéns por essa vossa capacidade de optar e fazer os outros sentirem-se bem...

Beijinho
Francisca da Serra da Estrela =)

Anónimo disse...

Caro João,

Se:

A obediência não será uma obediência cega. Obedecer não será, por isso, um acto indiscriminado, mas um acto de fé, como tantos actos de confiança do nosso dia-a-dia, desde que fomos crianças e confiámos nos nossos pais.

Então:

esta obediência, NÃO me faz livre a respeito do eu próprio.

PORQUE:

Essa obediência é selectiva pelo seu EU.

O texto é ilógico, irreal e perigoso!

É uma noção perigosa, porque:

Como há pais que dizem ao filho/a "És Burro/a" "És um/a inútil" "Só fazes asneiras" "tens de te confessar para teres perdão"

Essa obediência por fé já levou Homens inteligentes a fazer cruzadas... e o braço militar da Igreja permanece...

"por minha culpa, minha tão grande culpa"

NÃO!

Por culpa desta Igreja, Por TÃO GRANDE CULPA desta igreja...

Têm tantas incongruências que é impressionante...

O Vaticano é o grande exemplo de Cristo... (ironia)

Porque presta tributo a Calígula com o oblisco no centro da praça de Pedro... Porquê aquele oblisco? E o oblisco na praça do povo em Roma?

João, os melhores cumprimentos.

Cristo, merece a nossa reflexão...
Mas usar essa imagem para fazer exactamente o contrário...

joão de brito disse...

Caro anónimo,

De facto, a experiência de Igreja que tenho é diferente da sua. Bastaria dizer que a relação que tenho tido com a Igreja, primeiro como quem se aproxima, depois como quem se sente em casa, é uma experiência de crescer em liberdade. Mas isso não é aqui argumento. As experiências pessoais não são argumentos, mas testemunhos. Mais eloquentes, mas fora do ciberespaço.

A culpa assumida por cada crente no início de uma missa (a que refere na citação) é também assumida pela própria Igreja. As cruzadas estão no elenco desse acto de contrição. Não têm feito outra coisa os últimos papas senão lançar a mão ao peito pedindo perdão a Deus e à humanidade pelos pecados da Igreja. Ela própria tem consciência de como aconteceu ao longo da História, e por vezes escandalosamente, deixar o caminho de Deus para optar segundo outros critérios.

A Igreja é composta de humanidade e, por isso, sujeita à mesma incongruência que pauta a História humana. Mas o Espírito conduz essa fragilidade e a Igreja vive também de vidas que se entregam, sem procurarem algo em troca, por causas sociais nos mais diversos pontos do globo, incluindo no nosso país, ou na discreta, mas essencial consolação dos que mais sofrem, dos que perderam o ânimo. Veja a entrevista feita a Frei Fernando Ventura há dias em http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/Edicao+da+Noite/2010/10/frei-fernando-ventura-sobre-a-situacao-do-pais02-10-2010-01611.htm, já por si um interessante comentário à situação actual do país, e como refere, numa breve referência a pedido da jornalista, a acção da Igreja em Portugal face a este tempo de grave crise. Nem tudo corre bem, mas também não corre tudo mal e o rosto da Igreja que conheço não diz "És Burro/a" "És um/a inútil" "Só fazes asneiras" "tens de te confessar para teres perdão". Antes pelo contrário, é um rosto sorridente, acolhedor, que me possibilita uma vida cada vez mais humana, alegre, livre.

Referir as cruzadas é cliché de quem não olha para os erros da própria vida para ter um olhar compreensivo para com qualquer realidade humana, neste caso a Igreja. "Quem nunca tiver pecado que atire a primeira pedra" permanece com a mesma actualidade. E se a Igreja for apanhada em adultério, quem lhe atira a primeira pedra?

Afinal quem é que aqui é incapaz de perdoar? Quem é que está a recusar perdoar a quem?

Não reconheço na Igreja o braço militar que refere. Reconheço antes o constante apelo à paz, face a tantos conflitos armados, e à tolerância religiosa.

O Vaticano não pretende ser o exemplo de Cristo, mas o discípulo de Cristo. Com toda a fragilidade daqueles que se arriscam a tanto.


Os melhores cumprimentos,
João

Carlos Ricardo Soares disse...

Começo por manifestar a minha simpatia e compreensão por quem faz votos de caridade, castidade e obediência, não por serem virtudes no sentido ético-filosófico em que se pode invocar "as virtudes de sempre", mas por serem vivência e expressão de fé. Nunca vi campeonatos em que os competidores tivessem como meta serem os mais caridosos, os mais castos e os mais obedientes. E não será por tal não ser viável, mas antes porque a caridade, a castidade e a obediência só têm sentido na transcendência da fé.

Quanto ao facto de a Igreja ser humana e de lhe ser assacada responsabilidade por actos "desumanos", violentos, contrários aos mandamentos da Lei de Deus, temos de nos penitenciar pelos pecados, mas não me parece justo que alguém julgue a Igreja, do lado de fora mediante a lei da própria Igreja, apesar de lhe não reconhecer valor. Com uma justiça especial e não com uma justiça geral. Quero dizer com isto que, por exemplo, se os cristãos forem perseguidos não deixarão de estar impedidos de invocar o direito que lhes assiste de se defenderem. Se o fizerem, não o fazem por serem cristãos, mas por serem pessoas. Se alguém os criticar por isso está a negar às pessoas o direito de se defenderem. Se o ser cristão impusesse algum dever acrescido, por exemplo, de não se defender, a gestão desse dever já não era da conta do crítico, ou do juiz, não cristão.
Decepcionam-me aqueles que se enchem do direito ou da desculpa de cometerem atrocidades porque não são cristãos, ou não crêem em Deus, mas que, ao mesmo tempo, se arrogam autoridade moral para condenar os cristãos por essas mesmas atrocidades.
Os cristãos não têm como objectivo e talvez não sejam melhores que os não cristãos. Se o forem darão testemunho da sua fé.

Carlos Ricardo Soares disse...

Onde se lê
«se os cristãos forem perseguidos não deixarão de estar impedidos de invocar o direito que lhes assiste de se defenderem»

leia-se
«se os cristãos forem perseguidos não estarão "impedidos" de invocar o direito que lhes assiste de se defenderem e de o fazerem»

Anónimo disse...

Caro João,

Pode explicar:

"Referir as cruzadas é cliché de quem não olha para os erros da própria vida para ter um olhar compreensivo para com qualquer realidade humana, neste caso a Igreja"

Posso concordar com o cliché, mas a alternativa é debater opções pessoais de Capelanias militares...
Venezuela, Colombia...

Claro que olho para os meus erros, a meditação faz parte da minha vida, tento fazer o melhor que sei e posso, todos os dias...

Mas sem depender de uma organização que em última instância é "ROMA" e não "Cristo".

Parece que concorda com a incongruência da frase "obediência me faz livre" nada mais referiu sobre o assunto...

Parabéns por admitir a incongruência da própria igreja, da fragilidade. A expectatitva é elevada uma vez que prometem o "Paraíso eterno" e a palavra de "Deus". E no final são humanidade à procura de soluções como os outros e que nenhuma garantia podem dar sobre as decisões hodiernas...

Poderão sempre alegar no futuro que "era um tempo conturbado"...

Qual o pilar, qual a fundação, qual o suporte que se mantêm inalterado, firme, ao longos dos tempos e para o futuro para que alguém posso fazer "votos" sem a mão no peito a pedir perdão?

Para pedir perdão, eu também peço quando tenho consciência que erro...

Para ter o Paraíso? Eu também tenho o meu paraíso aqui na terra e já preparei o meu paraíso para a "eternidade". Mas concordo consigo, é necessário aferir com os outros os limites da nossa liberdade.

Aqui apenas uso o meu gosto pelo conhecimento, a minha filosofia, com esperança de aprender e melhorar...

Cumprimentos,

Anónimo disse...

Caro Carlos Soares,

"mas não me parece justo que alguém julgue a Igreja, do lado de fora mediante a lei da própria Igreja, apesar de lhe não reconhecer valor."

A elementar justiça é SÓ lei da própria igreja?

E deve existir um equívoco. Onde viu que não é reconhecido valor à igreja?

As perguntas servem para aferir a veracidade, a congruência do que é afirmado. É sua a interpretação de que daí resulta ausência de valor para a Igreja. No meu caso resulta em desilusão com uma instituição que tem por ambição representar "Deus".

Claro que a Igreja tem o direito de se defender. TODOS temos.

Mas eu uso:
Absit violentia rebus, omnia sponte fluant
e "ROMA" usa:
Omnia sponte "fluant", Absit violentia rebus

Cumprimentos

Anónimo disse...

Caro João,

Já visitou o Vaticano?

Considera de facto que o Vaticano é o exemplo da casa de um discípulo de Cristo?

Considera de facto que o vaticano é o reflexo do espírito de Cristo?

Estou a falar do que pode observar, medir, verificar fisicamente no vaticano. E não de palavras vãs que vão com o vento...

Anónimo disse...

Caro Carlos Soares,

A moral, a ética é propriedade dos Cristãos?

Cristo não dá a outra face?
Um Cristão não deve dar a outra face?

joão de brito disse...

Caro anónimo,

A Igreja não é uma pessoa. É uma multidão delas. É um povo, se quisermos usar a imagem bíblica do povo que Iavé conduz. Nesse sentido, é feita de uma multiplicidade de opções pessoais. Umas são de esfera mais pessoal e exigem a avaliação do indivíduo, o tal olhar sobre os erros da própria vida. Outras são de carácter público, como serão, suponho, as que refere, as quais ainda assim pertencem a conjuntos particulares ("militares", "Venezuela", "Colômbia") e não ao todo que é julgado por arrasto. Esse todo, essa multidão a que chamamos Igreja, é frequentemente personalizado, como se se tratasse de uma senhora inevitavelmente incoerente. Mas não é uma pessoa, é uma multidão delas. É um povo e, porque intercomunicado, inter-responsável, mas não no sentido de que "a Igreja" tomou essa opção pessoal. Essa opção é, como diz, pessoal.

Quanto à última instância ser Roma e não Cristo, claro que lhe vou dizer que é Cristo e não Roma. Esta, quando se pronuncia, pretende ser a tal aferição conjunta de critérios. Se quiser, aferição dos limites da nossa liberdade. Eu não formularia assim, porém, uma vez que, e repito, "a relação que tenho tido com a Igreja, primeiro como quem se aproxima, depois como quem se sente em casa, é uma experiência de crescer em liberdade" e "o rosto da Igreja que conheço (...) é um rosto sorridente, acolhedor, que me possibilita uma vida cada vez mais humana, alegre, livre". Daí que não posso "concordar com a incongruência da frase «obediência me faz livre»" pois referi explicitamente o assunto.

Permita-me ainda comentar o parágrafo onde diz "E no final são humanidade à procura de soluções como os outros e que nenhuma garantia podem dar sobre as decisões hodiernas...". Porque poderia parecer que isso se deduz de se "admitir a incongruência da própria Igreja", que eu também corrigiria por "admitir que há também incongruência na Igreja". Da fragilidade da Igreja pode-se afirmar que ela é tão incapaz de dar garantias sobre as decisões hodiernas como qualquer outro grupo humano, mas ela, afirmando a sua fragilidade, não afirma contudo essa incapacidade. Aqui estamos de novo no campo da fé e não do estritamente racional (repito, estritamente). Ao afirmar a sua fragilidade, afirma que por si não é capaz, mas que o Espírito de Deus pode por meio dela falar ao mundo. Porque o Espírito está presente nela, ela não é humanidade à procura de soluções como os outros, sem poder dar nenhuma garantia. Ela reconhece-se como humanidade inspirada, não por seu mérito (é frágil), mas porque Deus não olha ao mérito para Se revelar. Se tirarmos Deus do cenário, ela é um grupo humano como outro. No campo da fé, e portanto para todo o cristão, o Espírito é a garantia.

Acrescento que, desde o Concílio Vaticano II, a Igreja tem afirmado que o mesmo Espírito age também nos outros grupos humanos e no coração de cada ser humano não crente, embora tenha gerado a Igreja como lugar da sua revelação por excelência e encontre (e porque encontra) no coração do crente um maior acolhimento e florescimento. Quanto mais não seja, por aí a relação ser consciente e, portanto, mais plena e fértil.

(continua)

joão de brito disse...

O pilar, ou fundação, ou suporte, firme ao longo dos tempos e para o futuro para que alguém possa fazer votos é a presença de Deus na Igreja e na vida desse alguém que por isso os deseja fazer. Se quiser aparecer na Sé nova de Coimbra este sábado pelas 17h para ver quatro homens a fazer votos, verá como eles e os demais baterão com a mão no peito no início da celebração, já que os votos estarão inseridos numa missa como as outras e o bater no peito faz parte dos gestos quotidianos da Igreja nas celebrações de cada dia. O problema, parece-me, é se formos apenas uma religião de bater a mão no peito. Quem nos ouvir, ou ler, pensará que dizemos que a Igreja não deve ser outra coisa senão uma religião de mão no peito e disso acusaram-nos outros ao longo da História.

Nunca visitei o Vaticano, embora já tenha ouvido acerca dele histórias e notícias dos mais variados teores, as quais não recuso à partida, sejam ou não abonatórias. Assim como não é uma pessoa, a Igreja não é também uma cidade. Independentemente do testemunho que a Igreja dá no Vaticano (e haverá bons e maus testemunhos por lá), a Igreja que observo, meço e verifico fisicamente, aquela por onde tenho passado, confirma-me na adesão a esta multidão de mulheres e homens de fé. E não são palavras vãs que o vento leva. São vidas de carne e sangue.


Os melhores cumprimentos,
João

Anónimo disse...

Caro João,

Muito obrigado pelas suas palavras.
Acredito que sente o diz e que acredita nessa imagem de igreja.

No entanto, eu já não consigo ter a inocência infantil de acreditar sem ver. Verifico que há muitas pessoas de carne e sangue que sentem algo semelhante ao que descreve e perpetuam esta ideia... do "pai natal" da "fada boa" de "Deus" se assim entender... mas também do contrário "do papão", da "fada má", do "Diabo", se quiser...

Retirando a santidade do povo, das ovelhas inocentes, fica o pastor...

E o pastor está rodeado de um séquito obediente, guardado pelos pretorianos, e que nunca diz que não a mais uma prenda de ouro, quer seja um cálice, uma cruz, um anel, uma "rosa" de ouro...

Aconselho a ler o livro "O Príncipe" de Maquiavel e ler a história da igreja e de Roma. Desde Calígula até Constantino e mais 100 anos...

O resto? O resto são interpretações pessoais, são sonhos com pés de barro, mas que têm o mérito de gerar santidade no povo, nas ovelhas a tosquiar...

Continuam a dar 1 dia de esmolas para o Vaticano?

Que percentagem para os pobres? 4%? Já vi 20% mas era uma excepção...

Conhece o Butão? O que acha?

Pensamos que fazemos opções em "liberdade" mas a nossa visão é limitada. Também a minha... e por isso tento continuar a melhor a percepção do que penso que vejo...

Cumprimentos,

joão de brito disse...

Caro anónimo,

Aperto-lhe a mão e levanto-me desta nossa esplanada. Parece-me que ambos entendemos um pouco melhor a posição do outro. Entretanto, outras ocupações solicitam o meu tempo.

Pode ser que um dia nos voltemos a cruzar.


Os melhores cumprimentos,
João

Anónimo disse...

Caro João,

O mundo é muito pequeno.

Cordiais saudações,