31 de outubro de 2010

Zaqueu

[Sobre Lc 19.1-10]
A árvore foi a forma de te ver

E desci para abrir a casa.

De me teres visitado e avistado

Entre ramos

Fizeste-me passagem

Da folha ao voo do pássaro

Do sol à doçura do fruto.

Para me encontrares me deste

A pequenez.

Daniel Faria


Como se um dia alguém usasse os olhos para procurar os espaços ridículos, entre as folhas de uma das árvores da cidade...

Numa cidade há muitas possibilidades e sugestões: as vias organizam-se de forma que a malha urbana seja a mais cómoda possível; as praças são traçadas e deixam as esplanadas serem montras de pessoas: vêem-nos e somos vistos. As cores e as luzes reclamam atenção, os toques e os cheiros, berros de lotaria e compras...

O Estrangeiro atravessa a cidade e uma multidão segue-O, confundindo o trânsito, as horas de ponta. São “mirones”, reformados, vendedores, ladrões, ricos e pobres, uma multidão. Mas nem a Cidade nem as pessoas pararam o olhar do Transeunte; somente o absurdo, um Traidor. Esse, escondido entre as folhas da mentira e empoleirado nos grandes ramos do sicómoro, não podia ver o Estrangeiro por culpa da multidão, que o tornava mais que anónimo, mas desprezível e repugnante. O Traidor não era “mirone”, pois procurava ver de facto; e foi visto. O olhar do homem tão desejado descansou inesperadamente sobre os espaços ridículos entre as folhas. De todas as possibilidades da cidade e da multidão o Traidor escondido foi casa para o Estrangeiro.

2 comentários:

aservicodoreino disse...

Um homem, que talvez levado pela curiosidade, encontrou uma verdade até então desconhecida para ele.
Gostei deveras da maneira que Zaqueu foi abordado

Anónimo disse...

Aprendi muito