6 de novembro de 2010

Enquanto vivo, digo-te… (Lc 20, 27-38)


“Vais morrer”. “Obrigado pela novidade, mas já o sabia”.

Sim, sabemo-lo, mas poucos são os que ficam tranquilos ao ouvirem falar dela. Quer com a própria, quer com a dos próximos, surge uma reacção no nosso interior.

Alguns temem as circunstâncias nas quais perderão a vida, outros agitam-se ao imaginarem o que virá depois. Infelizmente, também há quem se deleita metendo medo.

Na cena do Evangelho de hoje, o problema que os saduceus apresentam a Jesus não é uma questão de cálculo matemático infantil, nem um conflito familiar irresolúvel.
Apenas pretendem provocá-lo, com certa originalidade, mais uma vez. Pretendem pôr a prova o seu ensino, se calhar também a sua fé pessoal. Mas ele não duvida, o nosso Mestre parece sereno e convincente (mais uma vez).
Essa vida futura é segura, mas como será? É então que a nossa imaginação começa a trabalhar. Cada um elabora uma imagem de algum paraíso verdadeiramente desejável, sempre segundo a espiritualidade que conhece, e dependendo muito do que ouviu dizer aos outros. Também de um inferno cheio de tudo o que é desagradável.
Mas possivelmente isto seja algo parecido a uma lenda bem argumentada, perpetuada ao longo dos séculos. Possivelmente ninguém está certo o que será na realidade.
Ninguém pode saber, com certeza.
Pois, o que significará o facto tão intrigante de “sermos como anjos?”, em que se traduzirá o “sermos filhos de Deus?”, como é que “participaremos na Ressurreição?”.

Imaginem, mas não temam!
“Anjo”, “filho” e “participar” são palavras que, antes de mais, soam a “amor”. Esta presença prometida junto ao Pai, com tantos irmãos perto, enche-me de paz.
De facto, preocuparmo-nos erradamente sobre o que acontecerá depois despista-nos da nossa missão principal agora: viver (acertadamente).

Quem não se atreveu a descrever a chegada daquele Messias Salvador?
Alguém imaginaria que iria chorar numa manjedoura escura?

Quem de entre nós, mortais, sabia que ia nascer antes de nascer? Porém, inconscientemente, confiamos.
Quem de entre nós, viventes, sabe o que acontecerá quando chegar o momento de deixar de viver?

Confiemos, então. E vivamos em paz. E partilhemos essa paz.
A razão é simples: o nosso Deus escolheu sê-lo não de mortos, mas de vivos.
E tu, ainda estás vivo.

2 comentários:

Anónimo disse...

Quando deixar de viver, estarei morto.

Quando deixar de viver, a minha acção terá a paz eterna.

Quando deixar de viver, caberá aos vivos manter a conciência das minhas perturbações que realizei neste mundo.

A conclusão é muito próxima de um livro interessante:

http://www.wook.pt/ficha/a-apokalypsis/a/id/2340158

Cumprimentos,

A Apokálypsis disse...

A provocação é a base para fazer os outros pensarem...

A Apokálypsis?

O próprio título tem um erro, que poucos sabem...

o artigo devia ser masculino:
O Apokálypsis, assim o grego seria respeitado...

Então porquê um erro no título?

Porque "a apokálypsis" quer dizer "a revelação". Mas qualquer revelação terá erros. Erros de emissão e erros de descodificação do leitor, para além do esforço de tentar perceber "a revelação"...

Cumprimentos,