8 de novembro de 2010

Entre o conservar e o inovar: que ousadias pede o Espírito à Igreja?*





A multidão proveniente de todas as nações que há debaixo do céu ouvia nas suas línguas, atónita e maravilhada, os discípulos anunciar as maravilhas de Deus.
(Act 2, 3-11)



Depois da instituição da Igreja sobre Pedro e os Apóstolos e a dispersão dos discípulos a anunciar a Boa Nova do Reino, nunca mais o Espírito de Deus deixou de suscitar em homens e mulheres o desejo de viver esse Anúncio e dar testemunho dele. As primeiras comunidades, os Padres, os mártires dos primeiros séculos, as santas e os santos conhecidos e anónimos, todos a concorrer para manter actual, no seu tempo, a mensagem de Jesus. O Espírito do Pentecostes desce hoje sobre cada católico que é enviado a falar a língua do território em que se encontra. Mas a verdade é que, no séc. XXI, os territórios não são geográficos e as línguas não são barreiras intransponíveis; essas terras de missão são os corações dos homens e mulheres que não encontram sentido, que andam confusos e perdidos e a língua é a do amor, que se traduz em gestos concretos, tal como Jesus viveu a Sua vida.

Que significa ser a Igreja de Deus e anunciar o Reino de Deus? O Reino de Deus não é lá no alto dos céus, nem é um região com fronteiras geográficas. Não tem tronos nem palácios. É um Reino de Paz, Justiça e Amor, em que cada um é chamado a servir e deixar-se servir gratuitamente. Pertencer à Igreja não é estar “filiado” num clube, estar num grupo coral ou no grupo de jovens, nem sequer é ir sempre à Missa e cumprir todos os preceitos. Não é estar, é ser; ser como os discípulos, viver ao estilo deles – que era o estilo de Jesus, o Cristo.

Vivemos num tempo privilegiado, após o Concílio Ecuménico Vaticano II (CVII) (11.Outubro.1962 – 8.Dezembro.1965). E vivemos há muito tempo a ouvir dizer que a Igreja Católica é retrógrada, conservadora, “cheira a mofo”. A Igreja não permaneceu inerte espectadora da evolução dos povos, do progresso científico, das revoluções sociais (Humanae Salutis §4). Partindo da Sagrada Escritura, da Tradição, dos Sacramentos, da oração, das actividades caritativas e sociais – de sacerdotes, religiosos e leigos –, a Igreja virou-se, com o CVII, ainda mais para os problemas e trabalhos da realidade do mundo em que se insere: vivificando a ordem temporal com a luz de Cristo, revela também os homens a si mesmos, o próprio ser, a própria dignidade e a própria finalidade. Daí a presença viva da Igreja, estendida, hoje, de direito e de facto, às organizações internacionais, e daí a elaboração da sua doutrina social referente à família, à escola, ao trabalho, à sociedade civil e a todos os problemas conexos (HS §7). Passados quase 50 anos do CVII, a presença da Igreja no mundo é visível em todos estes meios, homens e mulheres que colaboram com tantos homens e mulheres de boa vontade na sustentação e avanço do mundo.

Durante o CVII, Paulo VI sucedeu a João XXIII, depois da sua morte (3.Junho.1963). Desde então, serviram a Igreja João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI. Documentos oficiais, cartas e encíclicas são o lado mais formal de uma Igreja que vive o Reino de Deus no concreto da vida de cada católico.

Não vivemos numa Igreja estagnada, ancorada a um passado que já não é. Vivemos numa Igreja consciente do mundo em que vive, que vive no mundo, inculturada nas realidades culturais, políticas, sociais, etc. de cada continente, de cada pessoa. E somos uma Igreja consciente da sua História, da Tradição recebida como herança, transmitida ininterruptamente. Uma Tradição actualizada pelos Profetas, encarnada por Jesus e incarnada por nós, que a recebemos e temos o compromisso de a entregar aos filhos que nos sucederão.

Só o exemplo de cada um pode mostrar que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura (Bento XVI, em Lisboa).

A Igreja não é o contrário do Mundo, como alguns nos querem levar a crer. A Igreja está no Mundo e vibra com a sua realidade. E o Espírito está na Igreja, em cada um dos que a constrói. O que é pedido ao coração de cada um é que bata ao ritmo da actualidade, se entregue a cada Irmão seu. João Paulo II já nos falava desta necessidade: precisamos de Santos que amem apaixonadamente a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um copo ou comer uma pizza no fim-de-semana com os amigos. Precisamos de Santos que estejam no mundo; e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo, mas que não sejam mundanos.

O que choca não é uma Igreja arcaica, porque está ao alcance de todos vê-la actual, no mundo de hoje. O que choca é ver a Igreja a ir onde ninguém quer, a fazer o que ninguém quer e a estar onde estão todos, mas não como estão todos: quer estar como é próprio de Jesus, isto é, completamente apaixonado pelo mundo que encontra.

* título do workshop apresentado no AfterBen, dia 2 de Outubro de 2010 (www.afterben.com)

11 comentários:

Anónimo disse...

Escrevem a utopia mas a realidade é um pouco diferente... "Ouve o que eu digo, não olhes para o que faço"...

Será fatalidade da condição humana, ser ummanu?

Quantos padres não afirmaram em casamentos que "só nestas alturas gostam do espetáculo, mas desses não precisamos"... quantos?

O que diz Bento sobre o preservativo?

Inovar?

Na missa não há lugar a diálogo...

Teresa Sarmento disse...

A Igreja somos cada um de nós quando procuramos -com todos os nossos erros e limitações - viver como os primeiros cristão: por amor a Cristo, apaixonados pelo mundo!
Se damos mau exemplo? Ás vezes daremos, mas também pedimos perdão e rectificamos.
A vida da Igreja é um diálogo de Amor. A Eucaristia é vida, é força, é Dialogo com Deus.
Obrigada Samuel!

Anónimo disse...

Eucaristia: mito de Cristo na última ceia.
Quando é que um jantar é um monólogo?
Quão aborrecidos tem de ser os jantares para dizer, não muito obrigado?

Anónimo disse...

Outra ousadia: não omitir.

A igreja parece muito treinada a não mentir com voltas e voltas. Mas no que toca a omitir ainda falta qualquer coisa...

Facilmente se percebe que alguém está a desconversar e que confrontado com algumas perguntas omite.

Que confiança se pode ter numa igreja que omite?

Omitiram a pedófilia e o que aconteceu?

Fica mais a sugestão: não omitirás!

samuel disse...

1/2
A Igreja não omite. Não esconde os seus erros e não só se arrepende profundamente por eles e pede perdão, como os tenta reparar. A Igreja é um Corpo Vivo de homens e mulheres, que têm consciência da sua condição limitada de ser humano e da sua condição de filhos muito amados de Deus.

A questão do preservativo nunca terá uma resposta à altura da que procura, porque se fala mais de pode-se/não se pode do que das razões. Não se trata de uma proibição ou de uma castração, como alguns querem fazer crer. Se alguém ainda pensa que é esta a posição da Igreja é porque vive apenas a ler as manchetes dos tablóides. O amor conjugal é plenamente humano, total, fiel e exclusivo, fecundo. A união sexual de duas pessoas é um acto de amor, conexão inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do acto conjugal: o significado unitivo e o significado procriador. Sim, a Igreja anuncia e defende o Matrimónio, como sacramento e como testemunho do Amor: “O matrimónio não é fruto do acaso, ou produto de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador, para realizar na humanidade o seu desígnio de amor. Mediante a doação pessoal recíproca, que lhes é própria e exclusiva, os esposos tendem para a comunhão dos seus seres, em vista de um aperfeiçoamento mútuo pessoal, para colaborarem com Deus na geração e educação de novas vidas".

O Magistério da Igreja é para os fiéis. Porque se preocupa quem não se quer pôr dentro da Igreja com os máximos de quem está dentro?

Na sua viagem a Angola, em Março de 2009, a propósito do combate à SIDA, responde o Santo Padre: A solução pode vir apenas da conjugação de dois factores: o primeiro, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que inclua um novo modo de comportar-se um com o outro; o segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem, a disponibilidade à custa até de sacrifícios, de renúncias pessoais, para estar ao lado dos doentes. E estes são os factores que ajudam e proporcionam progressos visíveis. Diria, pois, que esta nossa dupla força de renovar o homem interiormente, de dar força espiritual e humana para um comportamento justo em relação ao próprio corpo e ao do outro, e esta capacidade de sofrer com os doentes, de permanecer presente nas situações de prova. Parece-me que esta é a resposta justa, e a Igreja faz isto e deste modo presta uma grandíssima e importante contribuição.

samuel disse...

2/2
Quanto à Eucaristia e à última ceia: ninguém pode conceber – nem em Portugal, no séc. XXI, nem na Judeia há 2000 anos – que 12 homens sentados a uma mesa a jantar só deixassem falar um!
Jesus era judeu e também os Apóstolos. Celebravam a Páscoa, a “passagem”, a libertação e fuga do povo do Egipto. É para os judeus um dia de festa. Para os cristãos ganhou um novo significado, é o memorial da Ressurreição do Cristo. Jesus e os Apóstolos estavam a celebrar o sêder, o jantar ritual próprio desta festa. Nos Evangelhos, a Última Ceia é um diálogo, basta ler: Mt26, 17-35; Mc14, 17-26;Lc 32, 14-38.
A Missa é um diálogo: entre o sacerdote e a assembleia de Deus, o memorial da morte e Ressurreição de Jesus, que Se entrega. Se dividirmos a Missa através de cada momento litúrgico (aqui apresento-o de uma forma muito simples): temos uma saudação de boas-vindas; um acto de perdão e reconciliação; escutamos a Palavra de Deus; o sacerdote comenta-a. Professamos a nossa fé em Deus. Depois, entramos numa segunda parte em que oferecemos o fruto do nosso trabalho – pão e vinho – que se tornarão Corpo e Sangue: é um Mistério, mas mesmo que fosse só simbólico, dá para reflectir nesta imagem de “transformar” o trabalho do homem em corpo de Deus; fazemos o memorial da Paixão de Jesus e a experiência máxima da Sua entrega por nós, que O comungamos. Por fim, agradecemos e despedimo-nos. Sempre juntos, em comunidade. Não há diálogo? E se parece que ali só um é que fala – que facilmente vemos não ser verdade – o maior diálogo é o serviço de cada cristão depois, quando sai animado pelo Espírito e vive a Ressurreição no seu dia-a-dia.

Anónimo disse...

O Magistério da Igreja é para os fiéis. Porque se preocupa quem não se quer pôr dentro da Igreja com os máximos de quem está dentro?

:)

Porque se indigna a igreja com a despenalização aborto? A Lei é só para quem quer e não obriga nenhum dos fiés...

Como podes ver, a tua pergunta parece ter o efeito de urinar contra o vento...

Anónimo disse...

"A Missa é um diálogo: entre o sacerdote e a assembleia de Deus"

Interessante definição de diálogo, em que "a assembleia de Deus" apenas responde com o que já foi escrito...

Tens medo dos comentários ao discurso do padre em público?

Tens medo das perguntas que podem aparecer?

Anónimo disse...

Se a igreja não omite...

Qual a explicação sem balões do "milagre" do "Sol" em Fátima?

Cumprimentos,

Anónimo disse...

O Preservativo é um instrumento de protecção física de transmissão de doenças sexuais.

As doenças de transmissão sexual não tem transmissão exclusivamente sexual.

Ex: HIV, Hepatites...

Eu entendo que alguém queira dizer:

"Pois... não posso usar preservativo, a minha religião proibe..."

Muito útil sem dúvida...
Mas de que pode resultar em contágio!

Anónimo disse...

Conforme a Resolução n° RDC 140/2003 da ANVISA, a bula do medicamento informa que “os homens que utilizam a Talidomida e mantém vida sexual ativa com mulheres em idade fértil, mesmo tendo sido submetidos à vasectomia, devem ser orientados a adotar o uso de preservativo durante o tratamento” e ainda “sobre a importância dos usuários não doarem sangue ou esperma”.