30 de novembro de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo



Décimo primeiro equívoco: a incompatibilidade entre criação e evolução


1. Darwin deixou-nos o desenho da ‘árvore da vida’ que pressupõe que os processos evolutivos seguem uma direcção vertical. Desenvolvimentos em genética mostram com conclusiva evidência que as transferências genéticas ocorrem não apenas verticalmente mas também horizontalmente, o que torna o processo evolutivo muito mais complexo do que o próprio Darwin supunha. Poderemos então afirmar ainda que há uma direcção na evolução que conduziu ao aparecimento da Humanidade? Não terá todo o processo evolutivo sido apenas uma sequência de acontecimentos aleatórios nos quais não há lugar para qualquer perspectiva teleológica e, por conseguinte, para a ideia de um Deus criador? Autores de renome quer na área da biologia, como Richard Dawkins e Stephen Jay Gould, quer de outras áreas como a Filosofia, representada por Daniel Dennett, não têm qualquer dúvida em afirmar que a teoria da evolução das espécies exclui a existência de um Deus criador. Criação e evolução excluem-se reciprocamente.

2.
O que podemos responder a esta tese é que a evolução se dá por um processo de interacção entre o acaso e a necessidade imposta pelas leis naturais. O acaso verifica-se sobretudo ao nível molecular através da deriva genética aleatória. Também as mutações genéticas, fonte de novidade no processo de selecção natural, têm o mesmo carácter aleatório. Algumas destas mutações são benéficas para a sobrevivência do organismo, outras são nocivas, outras ainda neutras. Como afirma Denis Edwards, “sem estas mutações aleatórias não haveria evolução através de selecção natural, uma vez que não haveria variações susceptíveis de ser transmitidas à geração seguinte.” (El Dios de la Evolution, Salterrae, p. 58). Mas este processo não se verifica apenas de uma forma aleatória. A selecção natural tende a preservar as mutações que são benéficas para a sobrevivência do organismo na sua adaptação ao meio ambiente e a eliminar as que não nocivas. Além disso, os processos aleatórios tornam reais algumas das possibilidades já presentes nas leis da natureza. Esta hipótese torna possível conceber a existência de seres vivos em outros planetas que tenham sido o resultado de processos evolutivos que tenham actualizado outras potencialidades não actualizadas na Terra.

3. Os autores que negam a compatibilidade entre evolução e criação partem do pressuposto de que, segundo os crentes, o processo evolutivo que conduziu ao aparecimento das diversas espécies, sobretudo a espécie humana, deveria ser unidireccional e contínuo, sem desvios nem recuos nem becos sem saída, e claramente racional e identificável pela ciência. Mas por que razão uma racionalidade não linear, incluindo elementos aleatórios, é incompatível com a existência de um Deus criador inteligente e racional?

4. Deus poderia ter criado o mundo em seis dias, como afirmam os criacionistas, mas hoje sabemos sem margem para dúvidas que não o fez. Deus criou, ou melhor, continua a criar, quer o universo quer a vida por um processo evolutivo. Para que seja possível um tal processo, a interacção entre acaso e necessidade parece ser uma boa escolha por parte de Deus. Como afirma D. Bartholomew, “a evolução é a condição imprescindível para a vida tal como a conhecemos. Se o ADN fosse completamente invariável, e todas as características se tivessem reproduzido sem defeito algum, nada se teria desenvolvido a partir das algas primitivas. Além disso, mesmo que alguma das espécies existentes tivesse sido criada de uma vez por todas - e, por conseguinte, sem qualquer mutação celular-, por um mago divino, não possuiria uma diversidade genética suficiente para que os seus membros pudessem adaptar-se a condições ambientes em mudança. Uma espécie assim, condenada a repetir-se a si mesma sempre do mesmo modo, e incapaz de se adaptar, sucumbiria à primeira mudança ambiental.” (God of Chance, SCM, pp. 97-98).

5. Há no processo de evolução biológica das espécies algo de semelhante ao que acontece numa viagem que eu possa fazer de carro de Braga para Lisboa. Muitos dos acontecimentos que sucederão durante a viagem são aleatórios, imprevisíveis, e até mesmo contraditórios com a ideia de uma viagem planeada para chegar de Braga a Lisboa. A meio da viagem posso lembrar-me que uma pessoa amiga residente em Santarém faz anos nesse dia, e que eu posso ir saudá-la através de um simples desvio de rota. Entretanto, eu poderia lembrar-me de que me esquecera de parar em Fátima para comprar algo que necessitava levar para Lisboa, e assim ao deixar Santarém faria inversão de marcha para entrar em Fátima, após o que retomaria a marcha na direcção de Lisboa. Qualquer observador que seguisse os meus movimentos seria incapaz de predizer que eu, desde o início da viagem, tencionava dirigir-me para Lisboa. Com efeito, os movimentos atrás descritos pareceriam erráticos e aleatórios – e, em parte, eram – de tal modo que pela sua análise meramente empírica não se poderia encontrar neles qualquer intencionalidade. Somente quando a minha viagem terminasse em Lisboa e alguém voltasse a analisar os meus movimentos poderia compreender que havia desde o início uma intenção mas que essa intenção se realizou através de uma lógica não linear, e de movimentos inesperados ou até mesmo incompreensíveis.

6. Conclusão: a biologia não tem que detectar a existência de qualquer teleologia na evolução da vida. As intenções de Deus, como as humanas, não são factos biológicos. Acresce ainda que a intencionalidade de um processo ou movimento não está necessariamente nos pormenores mas sim no movimento global. O Deus criador não é um agente que está a agir continuamente em cada mutação genética. A ideia de que a criação implica que o criador guia de forma permanente e determinista todos e cada um dos factos evolutivos não corresponde à ideia de criação dos cristãos. Além disso, o carácter teleológico da evolução, não sendo unidireccional nem excluindo o elemento aleatório, é compreensível num olhar que parta do presente para o passado, e não vice-versa.

7. Há ainda um outro modo de compreender de que forma se pode compatibilizar criação e evolução por selecção natural. Dadas as possibilidades de mutações e transferências genéticas se produzirem de forma aleatória conduzindo ao aparecimento de uma infinidade de seres vivos, poderemos pensar que a evolução se tenha desenvolvido em milhares de milhões de planetas em todo o universo, e que em cada um desses planetas o processo evolutivo tenha conduzido a formas de vida inteiramente diversas. S. Jay Gould afirmou que se a evolução se repetisse na Terra, iria dar origem a seres vivos diversos dos que hoje conhecemos. Segundo o autor, a evolução biológica é irrepetível. Nada há de estranho em admitir que há milhares de milhões de processos evolutivos nos quais os elementos aleatórios estão fortemente presentes, e que apenas alguns esses processos evolutivos conduzem ao aparecimento de seres conscientes e capazes de conduzir debates sobre a evolução como nós, seres humanos. Deus seria ainda a condição de possibilidade e de inteligibilidade de todos os processos produtivos que se actualizariam no espaço e no tempo.

Alfredo Dinis

14 comentários:

Sinais no Mundo... disse...

Em sua exemplaridade para a Igreja, Maria é plenamente a Virgem do Advento na dupla dimensão que a liturgia tem sempre em sua memória: presença e exemplaridade. Presença litúrgica na palavra e na oração, para uma memória grata dAquela que transformou a espera em presença, a promessa em dom. Memória de exemplaridade para uma Igreja que quer viver como Maria a nova presença de Cristo, com o Advento e o Natal no mundo de hoje.

nmhdias disse...
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alfredo dinis disse...

Caro nmhdias,

Disse e repito que Deus é a condição de possibilidade e de realidade dos fenómenos evolutivos, não apenas ao nível da vida na Terra, mas também ao nível do universo - fenómenos que continuam a acontecer neste momento. Desta perspectiva, Deus não se torna supérfluo, antes pelo contrário. Compreendo que se um ateu parte do pressuposto de que Deus não existe, a conclusão já está no pressuposto: Deus não é necessário para explicar a evolução do universo e da vida. Se não existe, como poderia ser necessário? Mas Deus é desnecessário porque não existe, ou não existe porque é desnecessário?

Saudações,

Alfredo Dinis

Ilídio Barros disse...

nmhdias,

"De que forma se encontra o ateísmo equivocado?"

Aqui tens um exemplo:
http://ktreta.blogspot.com/2010/11/modelos-incompativeis.html

Um abraço.

nmhdias disse...
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Carlos Ricardo Soares disse...

Por mais que se esforce o homem não é capaz de imaginar ou conceber o que quer que seja que se compare a Deus. O equívoco (?) dos ateus, se por mais não fosse, labora no ridículo de falar em superstição, em astrologia, em pai natal, etc..., para tentarem fazer crer (a quem?) que Deus é uma astrologia ou uma história da carochinha. Fico com a impressão de que os ateus não sabem nada de Deus porque não sabem nada de ateísmo, e só distinguem realidade de ficção se lhes aprouver.

nmhdias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Ricardo Soares disse...

nmhdias,

prepotência? Essa é boa!
E quem disse que eu sei tanto ou mais de Deus do que qualquer outra pessoa? Depois o meu discurso é que é prepotente?

Nuno Gaspar disse...

Atenção Prof. Alfredo,
Não meta o Stephan Jay Gould no mesmo saco do Dawkins:

"E - Podemos dizer que a teoria da evolução de Darwin exclui , já de entrada, a presença de Deus?

S.J.Gould - Não. Acontece, simplesmente, que a teoria da evolução, bem como a ciência em geral, não toca em questões ligadas à religião e, portanto, não as responde. Se uma força ultrapoderosa age no universo, ela está fora do âmbito de referência que a ciência engloba e preenche. A ciência baseia-se no empirismo e na evidência; para todo o resto, ela não tem explicações. Contudo, os religiosos não têm por que se preocupar com isso: eles nunca fundamentaram sua visão em estruturas reais da natureza."
em entrevista a C. von Barloewen

alfredo dinis disse...

Caro Nuno,

Obrigado pelo interessante texto da entrevista de Gould.

S. Jay Gould ficou conhecido pela sua posição sobre a relação entre ciência e religião conhecida como 'autoridades que não se sobrepõem', o que provoca a fúria de muitos darwinianos radicais, incluindo Dawkins. Também eu não os meto no mesmo saco.

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis

Miguel Oliveira Panão disse...

Caro nmhdias,

Olhando para o seu livro, encontro um paralelismo sobre a possibilidade da existência de Deus em comparação com a astrologia. Não precisamos de superstições sobre astros para nada, não conseguimos demonstrar que os conceitos que se regem são falsos, é tudo bastante vago e subjectivo.

Não será esta afirmação vaga e subjectiva?

Cordiais saudações

nmhdias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Tanto a teoria da criação como a teoria da evolução por selecção natural, não passam disso mesmo teorias.

Que espécie evolui para duas espécies diferentes?

A definição de espécie implica a incapacidade de reprodução viável entre os indivíduos.

Que espécie foi "criada" em laboratório? É possível criar um satélite? Um planeta? Um sistema solar? Uma galáxia? Um Universo? É possível criar vida? Clonagem é criação de vida?

Todas estas possibilidades originam equivocos em qualquer abordagem, cientifica ou religiosa...

Cumprimentos,

Anónimo disse...

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