23 de novembro de 2010

Humor, uma biografia

É difícil falar da morte; de qualquer morte. Parece estranho que algo se levante de um corpo caído, como um hino. Qualquer som, depois da derradeira bala, fica engolido pelo impacto, porque o seu silêncio é maior. E mesmo as espingardas lhe fazem continência logo que tossem o seu rugido. Por isso, há que avançar com solenidade e prudência por esse Trilho Maior dos que partiram em plena “salva”, não aconteça que busquemos triunfos grandiosos num terreno onde só os pobres reinam. E todos somos mendigos nessa mesma via.

Quero ver se por este modo capto a simpatia da minha senhora sogra (o Governo de Calles) e me livro das suas carícias que já fizeram cardeais nas minhas costas, pisaduras nas minhas rodasas faces e depilatórios nas minhas sedosas guedelhas. Eustáquio Zendejas.

Encomenda-se às orações e à generosidade dos fiéis uma pessoa que não tem dinheiro suficiente para fazer o voto de pobreza.

Frases soltas (e irónicas) de Miguel Pro.

A 23 de Novembro de 1927 caía um homem leve. Se a vida de Miguel Pro fala de tenacidade no testemunho da sua fé convicta e criativa, principalmente junto dos operários mexicanos, durante um período de relações tensas entre Igreja e Estado, fala também, e muito, de sentido de humor. Miguel foi um homem de uma alegria contagiante e até subversiva. Talvez por adivinhar que não há sombras sem luz, via gargalhadas onde os outros não suponham senão lágrimas. Esse “milagre” de ver o brilho simples que as coisas têm quando as examinamos com espanto fê-lo profundamente cativante. E também perigoso. Porque este humor revoluciona.

A bala derramou-se nele, cumprindo o voto de que cessasse o riso insurrecto. O problema da bondade é ser resistente.

Seria bom resgatarmos estas biografias aos mitos. Tirar os santos das prateleiras em que os guardámos - cativeiros de cristal -, e sentá-los numa poltrona suja e com migalhas para que nos tragam as boas notícias que os fizeram humanos. E assim, animados por uma história trivial, possamos tornar a nossa vida num conto igual, feito com a carne da alegria de nos descobrirmos no álbum de família de tantos santos, e mais: do próprio Deus.

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