5 de dezembro de 2010

Arrependimento

Por razões suficientemente documentadas, o uso de certos termos da órbita cristã, de suspeito, parece fazer gelar as entranhas de qualquer ouvinte. Com efeito, “arrependei-vos” só por ironia – porque o linguajar religioso também se presta à comédia – serviria de anúncio publicitário. De facto, a expressão mais depressa evoca dores de dentes que água na boca. No entanto, é possível que somente um entusiasta salivante de gozo e apetite possa adivinhar o gosto escondido por dentro do arrependimento. Porquê?

O trecho do evangelho de Mateus coloca-nos diante duma figura invulgar: João, profeta. O grito do Profeta é o grito da memória: “Lembra-te de quem és”. Para o povo de Israel, o futuro – de que os profetas falam – é Deus. Por isso, avançar é entrar no tesouro de Deus, esse tesouro posto em Tábuas e forrado de Templo e Ritos. Os pés deslizam sobre o chão, mas os “olhos estão postos” no clarão de Deus. Contudo, e se os olhos se desviarem e ficarem enxutos de brilho?


O deserto, para Israel, é como um retábulo da memória familiar: foi ali que o povo se fez. O ventre de Israel é feito de areia. Areia e libertação. Para João, pisar aquele chão é já o primeiro passo do regresso a Casa. Há que manter fresca a memória de quem somos. Estranhamente, o deserto pode ser o começo de uma fonte, ou de um baptismo. Arrepender-se: ser radical: regressar à raiz de si: Deus.

O arrependimento – este arrependimento – é uma coisa de apaixonados, de sequiosos, de nómadas. Porque voltaria a casa se dela não tivesse memória e sede? O que nos deveria apressar, no arrependimento, não seria apenas o “de quê” (o pecado), mas sobretudo o “para quê” (encontro com Deus). Se eu conhecesse Aquele que me coseu com grãos de areia e O trouxesse estampado no desejo, então correria para Ele. Isso seria arrepender-me; isso seria próprio de um entusiasta. Se O receasse, não seria meu Pai. E a fé é coisa de filhos.

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