23 de dezembro de 2010

canções de natal

Vinte e poucos anos não foram suficientes para silenciar uma canção de embalar que se escapava, de noite, do quarto da minha irmã mais nova para o meu, quando a nossa mãe assumia a tarefa de, depois de lhe ter dado corpo, lhe oferecer bons sonhos. Assim como, os mesmos vinte e poucos anos não conseguiram apagar o som do embate da minha bicicleta num caixote do lixo quando, para perseguir o meu irmão mais velho, aprendi a acelerar, mas não a travar. As datas têm sabor: o Natal não chegou, ainda, mas já me sinto hipercalórico, a pingar de filhós. Os acontecimentos meteóricos da nossa vida deixam enormes crateras na memória, a ponto de, como na História, reconfigurarem a [nossa] paisagem. Se sondássemos todos os tresloucados que assentiram um “sim”, depressa descobriríamos um padrão assustador: em todos há uma banda-sonora – “a nossa música” –, uma roupa – “uma camisola verde” –, um gesto –“sorriu” ou “gritou” ou “beijou-me”.

Em todos ficou essa pegada densa de cores, cheiros, sons – a “tua voz” –, que nenhum registo poderia descrever suficientemente. Ora, que memória gritante estará por dentro de tantos zumbidos vermelhos, azuis, verdes, amarelos? Que colisão foi essa que transformou a culinária no mês de Dezembro e que celebrizou as barbas brancas como adereço irresistível? Ou que “sim” foi dito que mereceu tantas versões pan-pipe que povoam qualquer centro comercial?

Um escritor cristão – de nome Lucas –, ao meditar sobre aquela noite, deixou para a História um texto precioso onde, em poucas linhas, o mundo é despido para ficar todo descrito. Uma noite. Homens estendidos sob um céu cru. Um sonho. Uma luz e o medo que temos de não a ver bem. A notícia. Chega uma multidão – a orquestra. Os homens vêem-se de novo sozinhos, mas já não têm medo. Têm a luz nos olhos. Vêem-n’O.

Encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: «Nada temam, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor.» De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» Quando os anjos se afastaram deles em direcção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: «Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.» (cf. Lc 2, 8-15)

Os ecos que deixo espetados neste muro brilhante e frio – como as calçadas em tempo de Inverno – têm-me servido para entrar no estoiro de há dois mil e fracções de anos. Poder-se-ia pensar que a alegria só pode ser cantada em sons maiores. Estas peças, porém, recordam-nos os soluços que os sorrisos por vezes nos trazem. Algo me diz que dificilmente entraremos naquela noite sem fazer o exercício de desligar as decorações interiores para ficar, como os pastores, a pernoitar no silêncio de uma gravidez que nos deixa sem posição na cama, com dores nas costas e com uma pergunta tremenda ao colo. Quem é Este que vem? E trazê-l’O derramado em mim: para onde me leva?

Os pastores adoram o Menino, que é o Bom Pastor, de Francisco Tavares, é uma meditação sobre aquela mesma noite. O som deita-nos no escuro, e uma cortina de vozes chove sobre nós um refrão. A glória parece ser suave, senão mesmo frágil. A multidão celeste parece comovida; ouve-se um choro alegre. Três solistas soltam-se desse manto, como porta-vozes das nossas próprias perguntas a Deus, aos anjos, e aos nossos próprios sonhos.


Ó meu Menino, de Eurico Carrapatoso, recupera uma letra tradicional alentejana (Pias) num ambiente sem tempo – incrustado na talha dourada. A melodia sugere um movimento pendular, como uma pulsação, como uma canção de embalar. Mas nesta música, Mãe e Filho estão ao colo um do outro, porque ao embalá-l’O a Mãe segreda-Lhe que nos guarde…


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