13 de dezembro de 2010

Vem aí o Natal - III


Como temos vindo a explicar, nas 2ªs feiras anteriores, este ícone do Nascimento de Jesus Cristo abarca realidades e dimensões que têm a ver com toda a história do Amor de Deus para connosco. História, que em cada um de nós, por nossa limitação, está ainda inacabada. Na Igreja Ortodoxa o ícone, como a Sagrada Escritura, não se esgota nos seus significados e está aberto à descoberta que cada um vai fazendo. Por isso, se diz que o ícone é uma janela aberta ao transcendente. A própria composição em que o ponto de fuga da perspectiva não está por traz do quadro, mas nos olhos de quem o contempla, tem como efeito que a pessoa se sente atraída e introduzida no ícone.

Em baixo à direita, o Verbo Incarnado sujeita-se ao banho do nascimento. É lavado numa pia que pela forma recorda as pias baptismais, a significar o baptismo em que todos participaremos da sua vida. Segundo a tradição bizantina quem deita a água para o banho do recém-nascido é Eva; Salomé, com a mão seca e paralisada por ter querido verificar a virgindade de Maria, é miraculosamente curada. Ambas, ultrapassando o tempo e o espaço, pelo facto de lavarem o Menino Jesus, manifestam-nos a sua humanidade em tudo igual a nós excepto no pecado. No ícone nada é colocado por acaso, pois tudo obedece aos cânones e está carregado de significados.

Do outro lado, à esquerda, está José sentado numa atitude de reflexão. O epicentro do conflito entre as trevas e a luz, que cada pessoa vive no seu coração, encontra eco na figura de José. Na sua frente está um personagem de perfil, vestido com pele de ovelha, é o demónio tentador disfarçado de pastor. Ele foi divinamente esclarecido, mas nem por isso deixa de se interrogar sobre todo o imenso mistério de que é verdadeiro testemunha.

O céu e a terra são doravante reunidos pelo nascimento de Jesus Cristo. Nesse dia, Deus veio à terra e o homem subiu aos céus. O mundo material é de novo ligado aos seres imateriais e a criação reencontra a misericórdia do Pai.

1 comentário:

Anónimo disse...

É muito bom, caro P. Belchior sj.

Muito obrigada!