9 de dezembro de 2010

Voz



Barnett Newman foi um dos melhores representantes do expressionismo abstracto. A Voz, de 1950, é uma pintura a partir do paradoxo. O título contradiz o silêncio que ocupa todo o espaço da tela. A mão do artista parece não ter pintado este trabalho; não há um vestígio manual, apenas uma grande extensão de cor aplicada de forma uniforme onde a única textura vem do tecido da tela em si. Esta é a voz, a marca subtil desta pintura que parte mais da boca do que das mãos, que se apresenta mais no título do que na tela. E todo este som tem a função de instalar no espectador uma espécie de vazio necessário à elaboração de um novo olhar. É o desconhecido que o sujeito tem de conhecer a partir dos cinco sentidos. Assim, a nossa imaginação consiste em apercebê-lo cinco vezes seguidas por cada um dos cinco sentidos; ver o espaço cândido que nos ocupa o olhar, ouvir o vazio da cor, cheirar a tinta dispersa e perdida no espaço da tela, saborear a distância e tocar no silêncio. Num certo sentido, trata-se aqui da tentativa de abolir a barreira entre pintura e vida no extremo exercício da pintura. Sob uma pintura vazia e sobre um corpo terrestre, somos forçados ao silêncio. Mas depois dele, há certamente ainda a Voz.

[imagem: Barnett Newman - The Voice, 1950]

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