31 de janeiro de 2010

O caminho de Deus

Foto: João Tuna - Breve Sumário da História de Deus


«Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta das nações. Tu, porém, cinge os teus rins, levanta-te e diz-lhes tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles; se não, serei Eu a fazer-te temer na sua presença. E eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer, porque Eu estou contigo para te salvar»


Estas são as palavras que Deus dirige ao profeta Jeremias. Ele é profeta, enviado a ser voz de Deus, denunciadora e anunciadora. Denunciadora de toda a forma de injustiça, anunciadora da salvação de Deus, da sua misericórdia, da sua justiça. A mesma “vocação” de Jeremias é dirigida à Igreja, ela que é, com Cristo, povo de profetas.

No Evangelho do Domingo passado, Cristo, “segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito:

«O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres;
enviou-me a proclamar a libertação aos cativos
e, aos cegos, a recuperação da vista;
a mandar em liberdade os oprimidos,
a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.»”

Ele é o Profeta, a cuja profecia a Igreja tem a graça de poder dar voz. Esta é a sua profecia, a sua missão, o seu programa de vida.

O Evangelho de hoje é a continuação deste. E se o primeiro nos apresenta a missão que Jesus toma para a sua vida, o de hoje, por seu lado, condensa o que será a vida de Jesus, como a sua missão será recebida pelo seu povo. Primeiro, é aclamado pelos da sua terra; depois, rejeitado por trazer uma Boa-Nova que contrasta com os interesses dos que O escutam. “Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum, fá-lo também aqui na tua terra.” Contudo, a resposta de Jesus é decepcionante: “Em verdade vos digo, havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.” Quem O escuta esquece-se que os prodígios que Jesus fez em Cafarnaúm e continuará a fazer até à sua morte e Ressurreição são secundários quanto a um bem maior que é anunciado e em nome do qual eles são sinal. Esse bem maior é o próprio Deus presente no meio dos homens. A justiça e salvação de Deus anunciadas feitas carne entre nós. Quem O escuta permanece surdo e cego. A sua atenção está presa ao proveito que lhes sobrará de alguém tão bem-falante e generoso. Não é a isso que Jesus vem.

Frustrados nas suas expectativas, “todos se encheram de fúria. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo”. É a mesma frustração e a mesma fúria que Jesus conhecerá naqueles que o ouvem sem a liberdade de acolher Deus tal como Ele é e Se dá, com gratuidade, sem O aprisionar naquilo que d’Ele esperam. Atentam contra a sua vida do mesmo modo que os chefes do povo o quererão fazer. Do mesmo modo o farão, expulso da cidade, de Jerusalém, do povo ao qual é enviado como Salvador, levado ao cimo do monte para aí ser morto, crucificado.

“Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho”. Segue o caminho da sua missão. A sua hora, aquela em que os pés que anunciam a paz hão-de ser travados, ainda não chegou. Este episódio é ainda apenas antevisão do mistério de toda a sua vida, uma vida marcada pela rejeição, pelo insucesso. Que Deus estranho!

Mas, precisamente porque também, quando chegar a sua hora, Jesus, padecendo, há-de seguir o seu caminho vencendo a morte com a Ressurreição, vencendo a culpa com o perdão, o ódio com o amor, a sua vida e a sua morte são uma história de triunfo. Os sinais dados nos seus prodígios e na sua palavra terão encontrado sentido, porque Deus, dando a vida pelos seus amigos, realiza o prodígio maior, aquele donde nos vem o maior e essencial proveito – salva-nos e toma-nos como seus filhos. Que Deus surpreendente! Talvez diferente do que esperávamos.

31 de Janeiro de 2010 - Dom IV do Tempo Comum, Ano C
LEITURA I Jer 1, 4-5.17-19

SALMO RESPONSORIAL
70(71)
LEITURA II 1 Cor 12, 31 - 13,13
EVANGELHO Lc 4, 21-30


30 de janeiro de 2010

Terras sem Sombra 2010


6.º Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo "Terras sem Sombra"

Programa:

23 de Janeiro de 2010, 21h30
Santiago do Cacém, Igreja Matriz de Santiago Maior
- Oriente-Ocidente: Diálogo entre as Músicas Antigas e as Músicas do Mundo
- Jordi Savall e Pedro Estevan

6 de Fevereiro de 2010, 21h30
Castro Verde, Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição
- Lux Perpetua: Improvisos sobre Música Sacra Medieval e Renascentista
- Mário Franco Ensemble

20 de Fevereiro de 2010, 21h30
Almodôvar, Igreja do Convento de Nossa Senhora da Conceição
- Requiem de W. A. Mozart (1756-1791): A Versão para Quarteto de Cordas de P. Lichtenthal (1780-1853)
- Quarteto Arabesco

6 de Março de 2010, 21h30
Alvito, Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção
- Cantares antigos: Da Aquitânia ao Brasil
- Vozes Alfonsinas

20 de Março de 2010, 17h30
Beja, Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres
- A Música Antiga e a Máquina do Tempo: Redescoberta, Releitura, Reinvenção
- Conferência Rui Vieira Nery

10 de Abril de 2010, 21h30
Beja, Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres
- Um Discurso sem Palavras: Retórica na Música Instrumental Europeia dos Séculos XVII e XVIII
- Concerto Campestre

24 de Abril de 2010, 17h30
Grândola, Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção
- Concerto Pedagógico: Os Caminhos da Música
- Ensemble Alpha

8 de Maio de 2010, 21h30
Grândola, Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção
- Kleine Musik: Música de Heinrich Schütz (1585-1672) e Ivan Moody (1964)
- Sete Lágrimas


http://www.terrassemsombra.com/

29 de janeiro de 2010

P. Manuel Antunes Um utópico tranquilo

O P. Manuel Antunes nasceu na Sertã, a 3 de Dezembro de 1918 (dia de S. Francisco Xavier). Entrou na Companhia de Jesus em 1936, foi ordenado sacerdote em 1949, depois dos estudos de Filosofia (em Braga) e de teologia (em Granada e Lovaina). A partir de 1955 fixou-se em Lisboa, na revista Brotéria, primeiro como colaborador e depois director, de 1965 até 1982. Entre 1957 e 1982 foi professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de várias cadeiras na área da filosofia, história e cultura clássica. Como jesuíta participou nas Congregações Gerais 31ª (1965) e 32ª (1974) que procuraram adaptar a Companhia de Jesus às directivas do Concílio Vaticano II. Morreu em Lisboa a 18 de Janeiro de 1985.

Este jesuíta do mundo da cultura e em especial da universidade não foi um académico brilhante, grande especialista nalguma área do saber. A marca deixada pelo P. Manuel Antunes, em especial nos seus alunos, colegas, companheiros jesuítas e amigos não é a de um homem de um saber só, mas a de quem constrói pontes e convida à síntese.

O P. Manuel Antunes, como professor e, mais do que isso, como homem de cultura desempenhou um papel de relevo na área da educação, em anos de grande instabilidade e procura de orientações. O olhar atento sobre a realidade nacional não podia deixar de ver que na educação estavam, e estão, os principais desafios que o país enfrenta para ultrapassar as crises e as dificuldades. O fascínio que exercia sobre os seus alunos, e as suas reflexões na revista Brotéria valeram a sua associação a um “Mito do Pedagogo”, tendo chegado a ser convidado para ministro da educação.

A intervenção cultural do P. Manuel Antunes ultrapassou largamente o espaço dos auditórios onde leccionava e as páginas da Brotéria, chegando a todo o mundo intelectual e cultural de um país em mudança. Enquanto professor e redactor teve de enfrentar a censura do Estado Novo e as conturbações do período revolucionário, mas soube sempre recolher a admiração e o respeito de todos. A sua postura dialogante e conciliatória permitiu-lhe continuar a exercer as suas actividades, mesmo no meio da agitação.

Através de quase toda a segunda metade do século XX, o P. Manuel Antunes acompanhou a evolução social e política de Portugal, partilhando o seu olhar clarividente e apontando caminhos para o futuro. Depois do 25 de Abril, congratulou-se com a liberdade, mas não deixou de apontar os perigos que poderiam fazer perder a oportunidade da democracia. Perante as dificuldades materiais e as clivagens ideológicas, assumiu a postura de um realismo utópico, apelando a uma “revolução moral” que abrisse caminho ao desenvolvimento humano integral, privilegiando o ser face ao ter, não optando nem pela via da pura maximização do lucro nem da sacralização do poder. A sua profecia para Portugal apontava quatro objectivos estratégicos: desburocratizar, para tornar a actuação do Estado menos pesada, desideologizar, para alimentar ideologias sem fanatismo, desclientelizar, para acabar com o flagelo da corrupção e descentralizar, para assegurar uma verdadeira partilha do poder que o torne mais próximo das comunidades. O diagnóstico ainda hoje é certeiro…

A figura do P. Manuel Antunes marcou (e ainda marca) o panorama cultural português num tempo de transição (talvez ainda não terminado) para uma democracia consolidada. A sua descrição, ponderação e equilíbrio (à imagem da sua estatura física) fizeram dele uma referência e um apoio numa sociedade em busca de modelos, que viu nele a paciência e clarividência que ele mesmo pedia para Portugal. O P. Manuel Antunes pode por isso continuar a inspirar o país, enquanto homem que soube viver no e para o seu tempo, encarnando ideais que permanecem vivos e atractivos, lançando propostas que não perderam nada da sua urgência…

Para saber mais, aconselho a leitura do livro “Repensar Portugal”, do P. Manuel Antunes (reeditado em 2005 com prefácio de José Eduardo Franco) que reúne textos escritos entre 1975 e 1979.

28 de janeiro de 2010

encontro ibérico de taizé no porto

Nos nossos dias, com crises económicas, judiciais, com escutas judiciais no youtube, etc… a confiança e a alegria verdadeiras não são valores que abundam. Precisamos de perceber porque é que outros foram capazes de ser felizes e ter esperança em alturas bem piores que a nossa. Essa esperança alimenta-se da convicção de que pode nascer uma nova fraternidade entre os homens. Uma nova solidariedade pode renovar a vida das nossas sociedades… Como purificar em nós a fonte de esperança e de alegria? Não será, antes de mais, ao procurar descobrir a presença de um Deus de amor na nossa vida? (Ir. Alois)

“Por isso no Carnaval de 2010 celebraremos no Porto, com os Irmãos de Taizé, «As fontes da alegria».” (D. Manuel Clemente – bispo do Porto)



No Carnaval de 2010, entre 13 e 16 de Fevereiro, vão reunir-se no Porto milhares de jovens para procurar juntos as fontes da alegria através:

- de uma experiência de hospitalidade proporcionada pelas famílias da Invicta;
- da beleza de uma comunhão com Deus celebrada em orações comunitárias;
- da descoberta de iniciativas que visam dar um rosto mais humano à sociedade;
- do encontro com jovens vindos de horizontes muito diversos;
- da reflexão bíblica e sobre a relação da fé com temas sociais, culturais ou artísticos;
- de uma vivência concreta em Igreja, em espírito de simplicidade, partilha e acolhimento.

Para mais informações clique aqui.


24 de janeiro de 2010

“Não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza.”

Esta semana, as leituras destacam dois aspectos no modo de vivermos a nossa Fé: vivê-la em comunidade e escutar a Sagrada Escritura. Assim acontecia antes do nascimento de Cristo – como escutamos na leitura do Livro de Neemias –, durante a Sua vida – diz-nos o Evangelho – e agora, no tempo em que vivemos, como S. Paulo, o tempo da Ressurreição – somos membros de um só corpo, como diz o Apóstolo aos Coríntios.

A Fé não é particular. Aliás, muitos não encontram sentido em crer em Deus, porque o tentam pelas suas forças, sozinhos. A relação pessoal com Deus é importante, fundamental para alimentar essa Amizade. Mas não pode ser desenraizada da Igreja que Jesus instituiu sobre os Apóstolos, chegou até nós e da qual fazemos parte. Ser Igreja é pertencer-lhe, aceitá-la, senti-la como Corpo que nos une. E a maneira de estarmos unidos é pertencermos a essa comunidade, dando do que temos e somos, sofrendo e alegrando-nos com as dores e alegrias de cada um dos outros membros. Mais ainda: pôr os dons recebidos ao serviço do Corpo e abrir-nos aos dons dos outros.


A Fé não exclui a razão. Antes, o uso da inteligência é necessário para sabermos em Quem acreditamos. Deus sempre Se manifestou ao Seu Povo, que sempre viveu na esperança de ser resgatado. Não de alguma coisa, mas para alguma coisa: a vida eterna, a alegria plena. Neemias, Esdras e os levitas disseram ao povo que celebrasse o dia consagrado ao Senhor, explicavam o sentido do Livro da Lei para esclarecer quem os ouvia. Esta tradição é a do tempo de Jesus e que Ele vive; também foi à sinagoga, leu o Livro e apresentou-Se: é Ele próprio a explicação da passagem do Livro de Isaías. A Revelação está feita no Deus feito homem, Jesus Cristo.


Hoje, estejamos atentos à proclamação da Palavra de Deus, escutemo-la e perguntemos o seu significado. Ouçamos o que a Igreja, pelo Sacerdote, nos diz sobre ela. E voltemos a lê-la, pausadamente, e deixemo-la ecoar nos nossos corações e responder às perguntas que dai possam surgir.


É dia de alegria, acreditar no Senhor é a nossa fortaleza. Isso nos há-de fazer alegres, essa Alegria que não se esgota.


Leituras: : Ne 8, 2-4a. 5-6.8-10 Salmo: 18B (19), 8.9.10.15 (R. Jo 6, 63c) : 1Cor 12, 12-30 Evangelho: Lc1, 1-4; 4, 14-21

imagem: Keith Harring - Pentecostes (pormenor)

23 de janeiro de 2010



"Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes" - G. K. Chesterton

20 de janeiro de 2010

da periferia ao centro

O mundo é redondo. O facto do mundo ser redondo faz com que não tenha um lado ou lugar principal. Não há uma referência geográfica perene. Habitualmente, nos nossos dias, é a comunicação social que nos orienta a atenção para uma ou outra área geográfica. Ora por motivos económicos, ora por motivos de algum evento social, ora por motivos religiosos, … Estes dias temos sido orientados para o Haiti.


Se há coisa que me intriga é pensar porque é que estas tragédias nos implicam a todos de certa forma como se tivéssemos alguma responsabilidade ou laço inato com quem sofre. Se calhar temos mesmo e hoje o referente geográfico é o Haiti. Subsiste sempre uma vaga ideia de que evitar qualquer forma de sofrimento e retira-lo das nossas conversas é um bem a preservar. Contudo, hoje o Haiti impôs-se como uma espécie de altar onde reconhecemos a nossa privação humana, a nossa compaixão e o nosso desejo de ajudar.


Este acontecimento vem em total sintonia com o Evangelho de hoje. O homem de mão ressequida, é chamado ao centro da sinagoga por Jesus. Em Israel os doentes eram tidos por amaldiçoados por Deus e portanto habitavam a periferia, a margem da sociedade. Jesus, porém, manifesta o seu pendão: o de recolocar o periférico no centro, pois é no desprezado que se derrama a ternura mais predilecta de Deus. Dizia Almada Negreiros que: “ser anónimo é condição para ver”. Do mesmo modo, olhar para aquilo que nos era periférico e hoje se impõe central, faz-nos ver e faz-nos perguntar os nossos hábitos…


O contexto é o nosso silêncio, a nossa condição é o anonimato e o sofrimento do Haiti impõe-se no centro. “Que fiz, que faço e que farei?” – perguntou-se Santo Inácio diante do Cristo que sofria por ele na cruz. E quanto a nós, que perguntas nos têm levantado estes dias?

19 de janeiro de 2010


«Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos» - Ludwig Wittgenstein

17 de janeiro de 2010

sobre a atenção

No evangelho deste domingo, encontramos um momento muito iluminador. Ao perceber que tinha acabado o vinho, “a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho».” Esta declaração de Maria parece dar a deixa ao sinal feito por Jesus. A partir de aqui levanta-se uma pergunta que me parece muito séria. Se Deus nos pode dar tudo e é nosso Pai, porque temos nós de Lhe pedir para que Ele nos dê?


Creio que, em Maria temos a resposta a esta pergunta. Diz o papa Bento XVI que Maria não exige uma determinada resposta a Jesus, “ela simplesmente diz: «Eles não têm vinho» (…) Ela não lhe disse o que Ele tem que fazer. “ (Homilia do Papa durante a Santa Missa na Praça do Santuário de Altotting ALTOTTING,) Daqui podemos tirar duas lições para a nossa oração:


1) Que pedir é dispor-me a receber | Já todos certamente estivemos na situação de querer ajudar alguém que se fecha em copas e não reconhece que precisa de ajuda. Pedir não é exigir isto ou aquilo. Pedir é dispor-me a receber, porque se peço é porque reconheço que preciso, e se preciso abro-me a quem me ajuda. Reconheço-me frágil e pecador sozinho ou diante de Jesus?

2) Que a atenção é prévia ao pedir | Quem não é generoso na atenção, não pode pedir. A atenção coloca-nos no preciso momento que estamos a viver. É “a forma mais pura de generosidade” (Simone Weil), porque nos faz viver o presente, sem nos prendermos às expectativas futuras, que castram o espontâneo, e às comparações sufocantes que o passado suscita. Quando não estamos atentos ao que acontece em nós e ao nosso lado, nunca conseguimos reconhecer a fragilidade e a pequenez que nos fazem pedir, porque tudo o que é importante passa-nos ao lado. Tenho estado atento às notícias sobre o Haiti?


Terminei este segundo ponto com a pergunta sobre o Haiti, porque o momento presente é o que nos é dado viver. Todos podemos pôr mais ou menos perguntas sobre o porquê destes acontecimentos trágicos. A atenção tem um papel de relevo, porque não nos leva a um porquê meramente académico. Leva-nos a um porquê que tem carne. Jesus, porque é atenção-de-Deus-a-nós, também pergunta na cruz, como muitos homens ao longo da história: “Porque me abandonas-Te?”. Ele mesmo, por ser atento, faz a pergunta a partir da carne e não do pensamento abstracto. A atenção é generosa, porque traz carne aos nossos porquês e faz-nos viver o mundo a partir de dentro.


A atenção de Maria, é de uma finura vital, porque traduz uma atitude comprometida. Comprometida com o mundo concreto. Pela atenção, Maria assume a necessidade dos outros e comunica-a ao seu Filho. A atenção é nuclear no cristianismo porque a justiça do nosso Deus não tem por fim último uma redistribuição proporcional dos bens, mas, não esquecendo estas coisas, funda-se no assumir todas as realidades que me tocam. A ponto de chamar ao planeta terra: casa, e a cada ser-humano: irmão.


Ser atento é tocar o mundo a partir de dentro e confia-lo a Outro que o toque e transforme. Toque e transforme a água das nossas leis e aspirações, num vinho de sabor inextinguível, união realizada por Deus entre os homens, e entre os homens e Deus. (Santo Efrém (c. 306-373), diácono na Síria, doutor da Igreja)


16 de janeiro de 2010



«a verdadeira pobreza do mundo é não sentir a ausência de Deus como ausência».
Martin Heidegger

15 de janeiro de 2010

Teilhard de Chardin (1871-1955) - visionário silencioso

1. Um homem surpreendente. Um dos aspectos que mais surpreendem em Teilhard de Chardin é o facto de ele não ser considerado, nem a si mesmo se considerar, filósofo ou sequer teólogo. Identificava-se mais como cientista. O facto é que hoje ele não é considerado um nome de referência nem em filosofia, nem em ciência, nem em teologia. E no entanto, os seus escritos continuam a atrair um enorme interesse, precisamente porque neles se encontram em diálogo estas três áreas do saber humano.

2. Um visionário. Teilhard, visionário silencioso, ousou fazer aquilo que está hoje ainda largamente por fazer: a integração das descobertas científicas contemporâneas nos discursos filosófico e teológico. A perspectiva evolutiva não apenas da vida mas de todo o universo abriu-se-lhe diante dos olhos como uma revelação, a revelação de um mundo que deixava de ser estático para se revelar num extraordinário dinamismo. Foi como se todo o universo que durante milénios foi representado como uma pintura definitiva, acabada e inerte, passasse a ser um filme cheio de acção e movimento.

3. Consequências. Para Teilhard, esta visão não podia deixar de ter consequências filosóficas e teológicas. As tradicionais categorias metafísicas estáticas nas quais se baseava uma teologia igualmente estática, pareceram-lhe como que retiradas do grande quadro final de uma aventura que durara apenas seis dias, os dias da criação, e que chegara ao fim no sexto dia. Tudo desde então permanecera substancialmente idêntico, imutável. Pelo contrário, a ciência revelou a Teilhard um mundo em evolução. Por outro lado, se Deus não se limita a olhar o mundo como um mero espectador, mas se envolve na história desse mundo, então já não podemos acreditar num Deus metafisicamente imutável. E o significado da incarnação de Cristo assume uma dimensão cósmica, não se limita ao planeta Terra – um grão de areia no universo. A história da criação do mundo tinha que ser contada desde o início em termos radicalmente novos. A criação de Adão e Eva e a narração do pecado original com base numa leitura literal do Génesis tornaram-se insustentáveis.

4. O que aconteceu a Teilhard? As suas propostas são de tal modo radicais que nunca pôde publicá-las em vida. Só a partir da sua morte os textos que deixou inéditos têm sido objecto de sucessivas edições em praticamente todas as línguas. E no entanto, esses textos estão oficialmente desaconselhados. Em 1962 e novamente em 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé confirmou o carácter pouco ortodoxo dos textos de Teilhard. É verdade que desde Paulo VI todos os Papas têm citado passagens das suas obras. Mas também é verdade que a teologia católica não está ainda preparada para incorporar os dados da ciência contemporânea no discurso teológico, nem a aceitar todas as consequências dessa incorporação, tal como procurou fazer Teilhard. Quando uma tal incorporação – necessária e urgente – se fizer, o cristianismo aparecerá aos olhos da humanidade como um visão do universo e da vida verdadeiramente fecunda amadurecida e credível.

Por Alfredo Dinis sj

12 de janeiro de 2010

Exposição

Made in Germany: Arquitectura e religião

A Ordem dos Arquitectos, em parceria com o Goethe-Institut Lisboa, apresenta entre 5 e 28 de Fevereiro a exposição “Made in Germany: Arquitectura + Religião”, a que estarão associados alguns eventos paralelos, propostos pelos arquitectos João Alves da Cunha e João Norton de Matos, sacerdote jesuíta, na qualidade de comissários desta iniciativa.

Esta exposição temática, que na sua estada em Lisboa será exposta na Sala do Veado dos Museus da Politécnica, tem como objectivo proporcionar uma visão sobre a nova arquitectura religiosa, através da apresentação de nove edifícios recentes de várias confissões na Alemanha.

Estes nove exemplos de arquitectura contemporânea alemã são apreciados pelas respectivas comunidades como locais de paz e meditação, mas assumem também uma relevância cultural inquestionável, enquanto espaços que testemunham as idiossincrasias do nosso tempo tão marcado pelo balançar entre ruptura e repetição.

A exposição, composta por dez torres (80x80x210cm) - uma de apresentação geral e uma por projecto com maqueta e painéis - tem cumprido um programa de itinerância que, desde 2005, vem percorrendo inúmeras cidades, como Brasília, Atenas, Nairobi, Toulouse, Kiev, Mumbai, Bruxelas, Caracas, Casablanca e Banguecoque.


Obras apresentadas: Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Munique (1996-2000) (Allmann, Sattler e Wappner); Igreja de São Teodoro, Colónia (1999-2001) (Paul Böhm); Pavilhão de Cristo, Volkenroda (2001) (Von Gerkan, Marg e associados); Igreja de Maria Madalena, Freiburg im Breisgau (2002-2004) (Kister Scheithauer Gross); Casa de Retiro, Meschede (1999-2001) (Peter Kulka e Konstantin Pichler); Capela da Consagração, Munique (1999-2000) (Prof. Andreas Meck e Stephan Köppel); Capela da Reconciliação, Berlim (1996-2000) (Reitermann e Sassenroth); Crematório Baumschulenweg, Berlim (1992-1998) (Axel Schultes e Charlotte Frank); Sinagoga, Dresden (1998-2001) (Wandel, Hoefer, Lorch + Hirsch).


Colóquio

Em complemento à exposição, realizar-se-á um colóquio e duas mesas redondas, no dia 20 de Fevereiro, com a participação de cinco convidados alemães – o teólogo Walter Zhaner e os arquitectos Paul Böhm, Amandus Sattler, e Ulrich e Ilse Königs – e quatro convidados portugueses – os padres Tolentino Mendonça e Bernardo Miranda e os arquitectos Diogo Lino Pimentel e José Manuel Fernandes.

Neste encontro, que decorrerá no Goethe-Institut (Campo dos Mártires da Pátria, Lisboa), será debatido o panorama e contexto histórico da arquitectura religiosa alemã do último século, ilustrado com maior detalhe por três obras recentes de particular interesse para a realidade portuguesa.

09h00
Recepção e entrega de documentação

09h30
Abertura
D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa
Joachim Bernauer (Director do Goethe-Institut Lisboa)
João Belo Rodeia (Presidente da Ordem dos Arquitectos)
João Alves da Cunha (arquitecto)

10h00
Conferência - Walter Zhaner (Comissão para a Arquitectura Eclesiástica da Conferência Episcopal Alemã)

10h45
Apresentação do projecto «Igreja de São Teodoro, Colónia (2001)» (Arq.º Paul Böhm)


11h45
Intervalo

12h00
Mesa Redonda «A liturgia como programa» (Walter Zhaner, Paul Böhm, Diogo Pimentel, Pe. Carlos Cabecinhas; moderador: P. João Norton de Matos, sj)

13h00
Almoço

15h00
Apresentação do projecto «Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Munique (2000)» (Arq.º Amandus Sattler)


15h45
Apresentação do projecto Igreja de S. Francisco, Regensburg (2004) (Arq.º Ulrich Königs)

16h45
Intervalo

17h00
Mesa Redonda «Arte na igreja e igreja na cidade» (Amandus Sattler, Ulrich Königs, José Manuel Fernandes, P. Tolentino Mendonça; moderador: João Alves da Cunha)

18h00
Encerramento (P. João Norton de Matos, sj)


Intercâmbio Portugal-Alemanha

Esta iniciativa, agendada para os dias 17, 18 e 19 de Fevereiro, pretende promover o encontro de culturas, pensamentos e ideias, enriquecido pela partilha, debate e vivência de participantes de Portugal e Alemanha. Viagem de estudo e aprendizagem, de troca de conhecimento, reflexões e pontos de vista, num percurso por Portugal, catalisador de novas abordagens, novas perspectivas e novos passos. Tempo para olhar o presente e pensar o futuro.


17 de Fevereiro
Manhã: Chegada e recepção dos participantes; Capela de São José, Vila Nova de Gaia - Visita guiada pelo Arq.º José F. Gonçalves
Tarde: Museu de Serralves; Igreja de Santa Maria, Marco de Canavezes
Noite: Casa da Música - Encontro com arquitectos

18 de Fevereiro
Manhã: Igreja de N. Sra. do Rosário, Fátima
Tarde: Santuário de Fátima, Fátima - Visita guiada pela Arq.ª. Joana Delgado; Igreja de Santo António, Portalegre - Visita guiada pelo Arq.º João Carrilho da Graça7
Noite: Concerto na Sé de Évora

19 de Fevereiro
Manhã: Museu de Arte Sacra, Évora - Visita guiada pelo Arq.º João Carrilho da Graça; Parque das Nações, Lisboa
Tarde: Igreja e Centro Cultural Dominicano, Lisboa - Visita guiada pelo Arq.º José F. Gonçalves; Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa
Noite: Centro Cultural de Belém, Lisboa - Encontro com arquitectos

in: http://www.snpcultura.org/tvb_made_in_germany_arquitectura_religiao.html

10 de janeiro de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco fundamental:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Equívoco 2:
Os crentes não pensam, porque não têm licença para isso, só os ateus têm liberdade de pensamento. Quem pensa é ateu. Só é crente quem não pensa.

1. A expressão “penso, logo sou ateu” parece aos ateus ser uma inquestionável evidência. Durante dois mil anos nenhum crente, nenhum cristão usou da sua razão para pensar livre e inteligentemente. Também na actualidade não há um crente, um cristão sequer, que ouse pensar com liberdade e inteligência. Será este um facto tão evidente que não seja necessário demonstrá-lo? Há cientistas, políticos, economistas, filósofos, artistas cristãos que têm iluminado a história humana ao longo dos séculos? Não, afirmam os ateus. O facto de serem cristãos, crentes num Deus cuja existência não sabem provar acima de toda a dúvida, envenena toda a sua actividade, o seu pensamento, a sua produção científica, literária, artística.

2. Recentemente, o cientista cristão mais duramente criticado tem sido Francis Collins, que liderou a equipa que trabalhou no projecto do genoma humano. Os ateus diminuem a inteligência de Collins afirmando que ele foi “apenas” o coordenador da equipa. Até mesmo Richard Dawkins não resistiu a fazer esta afirmação. Num comentário que deixei num blog, ironizei perguntando se a tarefa de Collins enquanto coordenador da equipa de investigadores terá consistido em providenciar para que esta equipa tivesse sandes de queijo e coca cola ou cerveja sempre que necessário, cuidar da temperatura e da limpeza dos laboratórios, ocupar-se da correspondência, atender o telefone… Se Collins é cristão, ele não pode ser inteligente. Se fosse ateu, seria considerado um génio. Sinceramente, não consigo entender como é possível considerar inteligente uma argumentação destas. O meu problema talvez seja mesmo este: dado que sou crente, não posso de modo algum ser inteligente.

3. Sempre me impressionou o facto de os não crentes aplaudirem repetidamente e com uma, para mim, incondicional veneração, aqueles que consideram serem os grandes pensadores da actualidade, entre os quais se destacam Daniel Dennett, Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens. A infalibilidade que retiram ao Papa concedem-na a estes autores que cada vez mais me aparecem como sumos sacerdotes de um culto da razão em cujo templo os crentes não têm entrada. As suas obras são objecto de um entusiasmo e de uma ‘rendição’ que faz lembrar a atitude de alguns crentes. E no entanto, se lermos com atenção essas obras não podemos deixar de notar que se resumem a alguns poucos argumentos, repetitivos, apresentados num estilo argumentativo falacioso que vai ao passado das religiões escolher os episódios mais negativos, ignorando o património das religiões no seu conjunto.

4. Já noutras ocasiões tenho afirmado que com este estilo de argumentação se poderá fundamentar qualquer tese, como a que vem expressa no título da obra mais conhecida de Hitchens: “Como a religião envenena tudo”. Os títulos dos dois últimos capítulos da obra são significativos: “18. Uma tradição melhor: a resistência do racional” e “19. Em conclusão: a necessidade de um novo iluminismo”. Hitchens, tal como Harris e muitos outros, é, porém, um dos melhores exemplos de como se pode envenenar toda a investigação séria. Se eu quisesse provar uma tese semelhante como, por exemplo, “Como a democracia envenena tudo”, não me faltariam exemplos, do passado como do presente, de personagens e regimes políticos que, em nome da liberdade, da democracia e do bem do povo, cometeram as maiores atrocidades. Silenciando tudo o que de positivo a democracia tem permitido quanto à libertação e ao progresso dos povos, eu iria atrair os aplausos de muitas pessoas que estão convencidas de que a liberdade permitida pela democracia é a raiz de todos os males das sociedades actuais – “envenena tudo”. Mas uma tal argumentação não me parece nem racional nem inteligente.


5. Anuncia-se a vinda a Portugal de Hitchens, saudada com o mesmo entusiasmo com que em tempos passados se saudava a União Soviética como sendo o sol da Humanidade. Pessoalmente, nada tenho contra Hitchens. O seu tão celebrado livro parece-me tão pobre do ponto de vista argumentativo que não consigo entender o entusiasmo que esta presença de Hitchens em Portugal está a gerar em meios ateus. Mas se sou crente, não sou inteligente, logo é natural que não entenda nem Hitchens nem o entusiasmo que está a gerar.


6. Este equívoco ignora completamente o facto de na história do cristianismo se verificar uma constante discussão sobre os conteúdos da fé. Os temas vão mudando, mas o debate nunca está encerrado. Nos primeiros séculos do cristianismo a natureza divina de Jesus e a fixação do texto bíblico eram apenas alguns dos temas mais debatidos. Nas universidades da Igreja Católica os debates sucediam-se, como se pode ver das extensas listas de questões controversas publicadas, por exemplo, no século XVI. Hoje, continuam a escrever-se textos sobre temas como o pecado original, o dualismo corpo alma, etc. Afirmar que não há pensamento crítico entre os crentes, incluindo os cristãos, constitui um notável desconhecimento da realidade.


7. Por muito que desagrade aos ateus, o facto mais evidente é este: nem os crentes nem os ateus têm o monopólio da inteligência e do pensamento racional. O que não pode ser aceite pelos não crentes, porque isso deixaria sem resposta uma questão incómoda:

Por que razão uma pessoa inteligente deveria acreditar em Deus?

O Baptismo do Senhor.

Deus recapitulou todas

as coisas em Cristo (cf. Ef 1,10)
















O Evangelho que a Igreja propõe para este domingo fecha o tempo de Natal, no qual temos rezado e reflectido profundamente sobre a alegria de termos a Deus entre nós, como nós. Porque este evangelho, o evangelho do Baptismo, para cumprir com esta tarefa?

Como todos nós sabemos, no Baptismo a solidariedade de Deus com os homens, pecadores, é evidente no momento em que Jesus se põe na fila dos que vão ser baptizados. Na altura, e ainda hoje, essa celebração religiosa tinha uma grande carga penitencial, de perdão dos pecados. Este texto é muito denso e este comentário não pode falar de tudo o que nele há…mas sim podemos aproximar-nos ao grande mistério cristão que aqui fica belamente condensado.

Há uma frase de são Paulo na Segunda carta aos Coríntios (2 Coríntios 5, 21) que diz assim: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. Jesus estava na fila como mais um pecador…sem sê-lo. Mas a situação é muito mais profunda: Jesus (Deus nele) estava a carregar sobre si…a assumir em si o nosso pecado…para nós sermos libertados e levados à plenitude, divinizados (nós, em Jesus, o Cristo).

Se ficássemos por aqui, já não estaria mal…mas a mensagem cristã continua a aprofundar ainda mais o mistério da Encarnação de Deus em Jesus de Nazaré. O texto de Lucas, diz que tendo sido baptizado Jesus, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal como de pomba. E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho bem-amado; eu, hoje, te gerei!”

Segundo as traduções, no texto do Génesis, nos primeiros versículos (Génesis 1, 1-2) lemos que Deus criou o céu e a terra, e que esta era como um mar profundo coberto de escuridão; e um vento fortíssimo soprava à superfície das águas. Evidentemente, o texto ao que me estou a referir é muito rico em simbologia, mas o que quero sublinhar aqui é que esse “um vento fortíssimo soprava à superfície das águas” também é possível traduzi-lo, como tradicionalmente se fazia, por “sobre as águas pairava o espírito de Deus”, como as aves nos campos. É importante reparar em que o texto do Génesis é para a tradição cristã a base para falarmos de Deus como Criador, mas também como Pai.

Ainda vou trazer outro texto aqui antes de continuar o meu comentário, desta vez dos Actos dos Apóstolos (que alguns autores gostam também de chamar “Actos do Espírito Santo”…). Aí lemos (Act. 2, 1-4) o acontecimento da festa do Pentecostes, onde diz que “De repente, veio do céu um barulho, como o de um vento forte, que ressoou por toda a casa onde se encontravam. Apareceu-lhes, então, uma espécie de línguas de fogo que se espalhavam e desciam sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo.”

Bom, então temos o texto do Génesis (relativo, simplificando, ao Pai), o texto do Evangelho (relativo ao Filho) e o texto dos Actos (relativo ao Espírito Santo). E nos três temos a mesma expressão: o “vento forte”, ou “a pomba”…isto é…o símbolo da presença actuante de Deus. Ao tempo, temos também que o Génesis fala da Criação, o Evangelho da Encarnação de Deus em Jesus Cristo, e os Actos dos do Espírito Santo na Igreja já nascente…

O que é que podemos tirar de tudo isto? A tradição cristã tem compreendido e acreditado desde antigamente no mistério da Trindade, como a comunhão harmónica e amorosa entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo…partilhando a mesma vida divina.

Ora, a revolução cristã consiste precisamente em que em Cristo, os homens e toda a Criação ficam incorporados nesse mistério de comunhão que é Deus.

Quando Jesus é baptizado, como mais um na fila dos homens pecadores…é Deus quem está a libertar a todo homem e mulher, e por tanto a toda a criação, do poder do mal, da morte, da imperfeição…do isolamento (da falta de comunhão).

Por isso é importante o Baptismo de Jesus Cristo, porque é expressão de toda a mensagem cristã: Criação e Criador não são realidades absolutamente distantes…porque em Cristo a comunhão é atingida. Toda a realidade existe e está chamada a aprofundar até à plenitude a participação na vida divina, na Trindade.

Não é estranho, então, que o Evangelho de Lucas descreva uma manifestação trinitária depois de que Jesus seja baptizado: este homem como os demais, é Deus a incorporar plenamente na sua vida toda a realidade.

Chegados a este ponto, surge uma questão: como é possível para um cristão, se tem aprofundado o mistério do Baptismo de Jesus, e desde então do seu próprio baptismo…não considerá-lo o acontecimento central da sua existência, como o momento essencial de aceitação do projecto de comunhão plena com Deus e toda a realidade?

Meditemos seriamente e humildemente o texto evangélico de hoje, já que estamos perante o núcleo central do anúncio cristão. A comunhão do divino e do criado, em Jesus Cristo.

Convido os leitores que estejam baptizados a aprofundar no sentido do Baptismo tal como a Igreja Católica o exprime no seu Catecismo…e descobrir cada vez mais a maravilhosa acção de Deus na qual estão inseridos.

Foto: Rio Jordão, onde hoje está construída uma piscina na margem para celebrar baptismos.

Leituras do dia:

1ª leitura: Is 42, 1-4. 6-7

Salmo: Salmo 28

2ª leitura: Act 10, 34-38

Evangelho: Lc 3, 15-16. 21-22

3 de janeiro de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco geral:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Equívoco 1:
“Se uma afirmação é digna de crédito, então ela pode ser formulada como uma hipótese empiricamente testável pela metodologia científica. A existência de Deus não é formulável como uma hipótese empiricamente testável pela metodologia científica. Logo, a afirmação da existência de Deus não é digna de crédito. ”

1. Qualquer pessoa que tenha conhecimentos mínimos de lógica reconhecerá aqui facilmente um argumento válido da forma modus tollens. Um argumento logicamente válido não é, porém, um argumento inatacável. Os melhores argumentos, como este, são dedutivos, o que significa que a conclusão sai necessariamente das premissas e, por isso mesmo, depende inteiramente delas. Isto significa que se alguma das premissas do argumento é discutível, também o será a sua conclusão. É o que se passa com este argumento. A sua primeira premissa encerra um equívoco: o de que os seres humanos baseiam a sua existência única e exclusivamente sobre afirmações não só empiricamente testáveis mas também empiricamente testadas segundo a metodologia científica. Segundo os não crentes, as crenças humanas têm que ser racionais e a racionalidade científica é a única de que faz sentido falar. Não se fundamentando na racionalidade científica, as crenças religiosas são irracionais e, por conseguinte, não são dignas de crédito.

2. Ora, não é verdade que a racionalidade humana se reduz à racionalidade científica nem, por conseguinte, que as crenças humanas dignas de crédito são as que se baseiam neste género de racionalidade. Muitas das crenças humanas nas quais se fundamenta a vida das pessoas comuns baseiam-se no testemunho e no crédito que elas se atribuem umas às outras. Não são o resultado positivo de qualquer teste científico a que essas crenças são submetidas.

3. Não tenho nenhuma prova científica de que a minha mãe me amou desde que fui concebido no seu seio. Não tenho nenhuma prova científica de que sou o fruto de uma relação de amor autêntico entre o meu pai e a minha mãe. Não tenho nenhuma prova filosófica ou científica de que Picasso foi um pintor excepcional, ou de que a música de Beethoven é superior à de Wagner, ou de que a poesia de Herberto Helder tem um valor excepcional. Não há nenhuma prova científica de que a vida humana começa no ‘momento’ da concepção, ou de que a eutanásia é a opção mais humana para quem quer terminar a sua vida em determinadas circunstâncias. Poderíamos continuar a enumerar as áreas da vida humana nas quais a racionalidade científica não tem nem a única nem a última palavra. Os críticos de arte não fazem qualquer apelo a testes empíricos realizados segundo a metodologia científica quando têm que atribuir um prémio ao melhor filme no festival de Veneza, ou ao melhor romance, ou livro de poemas num concurso literário.

4. A vida humana vive-se numa complexa rede de relações interpessoais no interior da qual se estabelecem relações de confiança pelas quais acreditamos em muitas coisas que não são demonstráveis nem filosófica nem cientificamente. O cristianismo surgiu precisamente de uma teia de relações que se estabeleceu entre os primeiros cristãos com base em experiências factuais dos contemporâneos de Jesus. Os cristãos não têm, pois, outro acesso a Deus a não ser a partir da experiência dos primeiros cristãos no seu contacto com Cristo que se apresentou como Deus em forma humana.

5. A história do cristianismo, tomada no seu conjunto de luzes e sombras, é fundamentalmente – e continua a ser hoje -, uma história de testemunho, um testemunho que se revelou credível ao longo de dois mil anos, e que tem sido transmitido de geração em geração. Em vez de tomarem a história do cristianismo no seu conjunto, os não crentes preferem fixar-se apenas nas suas sombras. Este constitui um outro equívoco, ao qual voltarei, e corresponde a uma metodologia que permite aparentemente justificar uma tese e a sua contrária, segundo se considera apenas um ou outro conjunto de elementos (luzes ou sombras).

6. Os não crentes continuarão a pedir aos crentes não apenas uma prova da existência de Deus mas uma prova que seja científica. Como se Deus fosse necessariamente semelhante a um campo gravitacional ou a uma galáxia. Continuarão a perguntar como sabemos cientificamente que os primeiros cristãos não se enganaram a respeito de Cristo. Como se eu devesse fornecer uma prova científica do amor que me têm os meus pais. O valor do testemunho não se mede pela racionalidade científica, a única que os não crentes em geral aceitam.

7. Há contudo algumas excepções. Desidério Murcho, um não crente, não reduz a racionalidade humana à sua vertente científica, como afirmou no Dererumnatura (20.12.07): “É um erro reduzir a racionalidade ao mero cálculo, à prova ou à experimentação. A racionalidade é mais vasta… Procurar justificar a crença na existência de Deus só não faz sentido se entendermos a justificação nessa acepção restrita e caricatural de justificação que tem o cientificista.”

8. Conclusão: o argumento acima citado e que nega fundamento à crença na existência de Deus, sendo embora válido, não é convincente, uma vez que a sua premissa maior carece ela mesma de fundamento.

Alfredo Dinis,sj

EPIFANIA – a glória de Deus brilha para o mundo no rosto de uma criança



Em Belém, a Senhora segura o Filho nos braços. É mais uma noite como as outras, fria, estrelada. Alguns pastores visitam de novo a gruta para poderem ver ainda uma vez mais o Menino. Mas nesta noite três figuras incomuns, de traços estrangeiros, roupagens e línguas de outros povos, aproximam-se da entrada da gruta, procurando um rei.

Uma estrela tinha surgido no seu horizonte, uma estrela invulgar, nova, de um brilho muito próprio. Brilhava nos céus uma profecia antiga.


“Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. Vê como a noite cobre a terra e a escuridão os povos. Mas, sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina.” Is 60, 1-2


Põem-se a caminho, seguem a estrela. Levam consigo tesouros para oferecer:

Ouro, para o Eterno Rei

Incenso, para o Filho de Deus

Mirra, para Aquele que dará a vida até à morte


Procuram um rei e dirigem-se a Jerusalém, mas o seu caminho, guiado pela estrela, desvia-se da grande cidade e dos grandes palácios para uma pequena cidade, Belém, até um estábulo onde repousa um divino Menino, entre animais e pastores. E nestas três figuras nos é dito que Aquele que a Senhora nos mostra em seus braços, fruto do seu ventre, é manifestação de Deus a todos os povos e culturas, aos simples e aos sábios – aos que acorrerem a Belém.


Se hoje formos à cidade de David, à procura do Senhor, que sinais seguimos? Por que caminho nos levam? Que levamos connosco para dar? O que esperamos encontrar?


Se hoje formos a Belém ver o Salvador nascido, quem encontraremos lá a adorá-Lo?


Seja qual for a resposta, não deixemos de ir a beijar o Menino. Quem diria que a epifania de Deus, a sua manifestação, seria a candura de uma criança?


3 de Janeiro de 2010 - Epifania do Senhor
LEITURA I Is 60, 1-6
SALMO RESPONSORIAL 71, 2.7-8.10-11.12-13
LEITURA II
Ef 2-3a.5-6
EVANGELHO
Mt 2, 1-12

2 de janeiro de 2010

Quando se vive em gratidão



Chesterton deixou-se encantar sempre, qual criança, pelo mistério da existência. A sua alegria e seu sentido de humor revelavam esse deslumbramento perante a vida, que o caracterizava. Por isso, considerava que não devemos dar por adquirido, nem aquilo que temos, nem quem nós somos.

No seu livro mais popular, Ortodoxia, diz-nos que «o teste de toda a felicidade é a gratidão. As crianças ficam gratas quando o Pai Natal põe brinquedos ou doces na sua meia de Natal. Não deveria eu ficar agradecido ao Pai Natal quando ele coloca o maravilhoso presente que é ter duas pernas? Agradecemos às pessoas as prendas de aniversário. Mas será que poderei expressar a minha gratidão por essa prenda de aniversário que é o nascimento?»

O argumento de Chesterton é simples. Em vez de se deter na explicação de que, de facto, a vida não nos pertence nem nos é devida; Chesterton limita-se a constatar o apaziguamento, a ausência de angústia e a alegria que a atitude de gratidão comporta.

1 de janeiro de 2010

"Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação"


A propósito da Mensagem do Papa Bento XVI para o XVIII Dia Mundial da Paz

O tema escolhido pelo Papa Bento XVI para sua mensagem a propósito da celebração do Dia Mundial da Paz não podia ser mais oportuno. É ainda bem recente o rotundo fracasso da Cimeira de Copenhaga no esforço de estabelecer metas comuns para travar a degradação ambiental do planeta, nomeadamente o aquecimento global. Não obstante os graves conflitos que fazem da paz uma longínqua miragem para milhões de seres humanos em várias regiões do mundo, novos perigos, inerentes ao desleixo, senão ao abuso, em relação à terra e aos bens naturais, ameaçam a harmonia e a paz da humanidade.

Ao longo do último século a solidariedade foi progressivamente alcançando uma escala global. Felizmente estamos mais despertos para acudir às necessidades dos nossos semelhantes mesmo quando a distância física que deles nos separa é à escala planetária. Precisamos cultivar, e com urgência, uma “leal solidariedade entre gerações”. Como afirma o Papa Bento XVI, “o uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem consequências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros; que a intervenção do homem não dificulte o destino universal dos bens; que a intervenção do homem não comprometa a fecundidade da terra para benefício do dia de hoje e do amanhã”. “A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projecte no espaço e no tempo”.

É certo que os graves problemas ecológicos que ameaçam comprometer o futuro da humanidade só podem ser enfrentados mediante o compromisso sério e responsável dos governos de todas as nações, a começar pelas mais ricas e industrializadas. Tal não significa, contudo, que o compromisso para com o ambiente não diga respeito a cada um dos cidadãos. Seria um erro grave admitir que os problemas podem ser resolvidos a um nível superior sem uma mudança de atitude de cada indivíduo. A preservação do ambiente a salvaguarda de recursos para as gerações vindouras “põe em questão, afirma o Papa, os comportamentos de cada um de nós, os estilos de vida e os modelos de consumo e de produção hoje dominantes, muitas vezes insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e até económico”. “Torna-se indispensável uma real mudança de mentalidade que induza a todos a adoptarem novos estilos de vida, «nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com todos os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento»”.

Poderia pensar-se, porventura, que o tema da ecologia, pela sua relativa novidade, poderia receber do cristianismo fraca contribuição, tanto mais quer não falta quem acuse a tradição judaico-cristã de estar na origem da mentalidade consumista e exploradora que acabou por conduzir à presente crise ecológica. Se quisermos ser justos, contudo, havemos de admitir que o respeito para com o ambiente não é de modo algum um tema lateral para o cristianismo. Para o cristão, a natureza não é fruto duma qualquer necessidade, dum destino cego ou do acaso, mas criação de Deus. Ocupando um lugar privilegiado no seio da natureza, o ser humano é convidado a construir a harmonia entre Deus e a criação. O mandato primordial de Deus ao homem, que podemos encontrar no Livro do Génesis, diz justamente respeito à criação e “não consistia numa simples concessão de autoridade, mas antes num apelo à responsabilidade”.

“A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade”, conclui o Santo Padre, “será, sem dúvida alguma, facilitado pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação Divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora Pai e redentora de Cristo, que pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus «todas as criaturas, na terra e nos céus» (Cl, 1, 20)”.