28 de fevereiro de 2010

Conhecer e ouvir o Verbo. Viver.


Segundo Domingo da Quaresma. Segundo Domingo deste tempo a que chamamos tempo de preparação. Mas preparação de quê? Da Páscoa. Sim, mas não só. É tempo de preparação da vida. E preparação para quê? Para a Páscoa. Sim, mas não só. É tempo de nos prepararmos para a vida. E preparar para a vida para quê? Para vivermos.

Ouvindo do Pai o verbo ouvir: “Este é o meu Filho predilecto. Escutai-O” (Lc. 9, 35), vejamos o que o próprio Verbo, Jesus, nos diz hoje, através do Evangelho de S. Lucas.
Apesar de nos poder parecer um pouco estranha esta passagem do Evangelho, a Transfiguração de Jesus, levando-nos, possivelmente, a pensar num Jesus mágico que de repente começa a brilhar, este é um acontecimento onde Jesus revela já a sua condição de verdadeiro Deus e de verdadeiro Homem.
Recuemos um pouco neste Evangelho de S. Lucas e lembremos Jesus a perguntar aos discípulos: “Quem dizem as multidões que Eu sou?” (Lc. 9, 18). Nessa altura, Pedro responde: “O Messias de Deus” (Lc. 9, 20). É de facto a confirmação desta afirmação que Pedro, Tiago e João, vão ter no monte.
E porquê no monte? Diz-nos o Papa Bento XVI: “Na busca de uma interpretação (desta subida ao monte), depara-se-nos em primeiro lugar o simbolismo geral do monte: o monte como lugar de subida, não apenas de subida exterior, mas também de ascese interior; o monte como um libertar-se do peso da vida diária, como um respirar no ar puro da criação; o monte que oferece o panorama da criação em toda a sua vastidão e beleza; o monte que me dá elevação interior e me permite intuir o Criador. (…) Moisés e Elias puderam receber a revelação de Deus no monte; eles aparecem agora, na transfiguração, a conversar com Aquele que é a revelação de Deus em pessoa” (in Jesus de Nazaré, Lisboa, A Esfera dos livros, 2007, pp383 e 384). O que nos poderá dizer esta conversa de Moisés e Elias com Jesus? O aparecimento de Moisés poderá significar que Jesus será quem nos levará agora pelo caminho da salvação. Jesus deve realizar o novo “Êxodo”, pela sua morte, ressurreição e ascensão. E o de Elias poderá querer relembrar que se esperava a sua volta para preparar a chegada do Messias (Ml. 3, 22-24). Por outro lado, mostra-nos que Jesus não aparece do nada, não está desligado do Deus do Antigo Testamento, do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob.
A Transfiguração é já um anúncio da glória pascal. Por isso, porque este Jesus que se revela aqui é o Jesus Cristo, que morrerá (como Cordeiro será sacrificado também num monte, no monte Calvário) e ressuscitará, os três conversavam “rodeados de glória”.
Mas se, para Pedro, Tiago e João, este anúncio não era ainda claro, o mesmo já não podemos nós dizer. Hoje vivemos com Jesus ressuscitado. Esta glória já se manifestou na totalidade, e continua a manifestar-se em cada dia das nossas vidas.
Um outro aspecto importante é que Jesus se transfigurou enquanto rezava: “Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante.” (Lc. 9, 29). Diz-nos o Papa Bento XVI: “A transfiguração é um acontecimento de oração; torna-se visível o que acontece no diálogo de Jesus com o Pai: a íntima compenetração do seu ser com Deus, que se torna pura Luz.” (in Jesus de Nazaré, Lisboa, A Esfera dos livros, 2007, pp384 e 385). Eis porque Jesus “brilha”. Será que a nossa oração também nos transfigura? Será que a nossa relação com Deus também nos faz estar perante os outros como sendo verdadeiros filhos de Deus?

Esta antecipação da paixão de Jesus ajuda-nos então a preparar para a Páscoa, a ter cada vez mais consciência de quem é este Jesus que morre e que ressuscita por cada um de nós. Mas as ligações feitas a vários aspectos da vida de Jesus podem ajudar-nos a ver que a sua Páscoa não está, nem podia estar, separada de toda a sua vida. De facto, não é esta a única vez em que a revelação de Jesus será feita tendo em conta o Antigo Testamento, recordemos a passagem dos discípulos de Emaús (Lc. 24, 13-35). Também não é a única vez que ouvimos o Pai a dizer “Este é o meu filho”, recordemos o baptismo de Jesus (Lc. 3, 22). E também não é a única vez que ouvimos pedir para fazermos o que Ele nos disser, recordemos o que nos diz Sua Mãe nas Bodas de Caná (Jo. 2, 5).
Por isso, também nós podemos viver esta Páscoa que se aproxima não só como mais um momento, mas como um momento em que recordaremos o que fomos, olharemos para o que somos e prepararemos o que seremos. Prepararemo-nos para a vida que nos é dada.
Jesus diz-nos que, mesmo quando O encontramos, quando nos maravilhamos com Ele, a nossa vida não acaba, não estagna. Antes pelo contrário, ganha uma nova força, um novo sentido, e o principal é talvez o levar essa vida nova aos outros. Temos de continuar a viver. Não caiamos na tentação de “fazer tendas” onde não entra a vida que nos rodeia, e de onde não sai a vida que vamos ganhando.
Então, fazendo o que o Pai nos diz, continuemos a escutar O Verbo encarnado. Que este caminho até à Páscoa seja um caminho de vida e para a vida. É Jesus Quem é “o Caminho, a Verdade e a Vida”.

20 de fevereiro de 2010

Provas & Tentações

Estamos no Primeiro Domingo da Quaresma, este tempo de preparação para a Páscoa do Senhor Jesus, o dia mais importante para os cristãos: dia da Passagem do Senhor para junto do Pai, a vida eterna, o dia da Ressurreição e da promessa de que iremos daqui a essa Plenitude.
A liturgia destes quarenta dias (que começaram na Quarta-feira de cinzas) ajudar-nos-á a preparar os nossos corações para essa grande festa. este tempo é de conversão, de exame de consciência, de cair na conta das dores de Jesus, da Sua morte e do seu sentido: não a salvação da humanidade, mas a salvação de cada um dos homens. jesus morreu por cada um, o Amor do Pai derrama-Se sobre cada Filho.

O Evangelho de hoje fala-nos das três tentações de Jesus, ao fim dos quarenta dias que esteve no deserto. Primeiro, o diabo tenta Jesus a usar o Seu poder enquanto Messias para transformar a pedra em pão e comer. mas Jesus não o faz, pois o alimento físico não é tudo: muito maior é o Amor do Pai. Depois, o diabo quer dar a Jesus poder sobre as coisas, mas Este recusa-o, já que o poder de Deus é muito maior que qualquer poder político. O Reino de Deus não se mede por este mundo. Por fim, o diabo diz a Jesus que se atire do pináculo e mais uma vez Jesus recusa fazer-lhe a vontade. Nunca tentaria o Senhor, pois sabe que o Pai Eterno Lhe dará tudo o que Ele precisa, sem necessidade de ser posto à prova.
Jesus vence o demónio, não Se deixando tentar por ele.

Na nossa vida, muitas vezes confundimos a prova e a tentação. Apesar de poderem ser experiências vividas do mesmo modo, têm origem e resultado diferentes.
A prova ajuda-nos a crescer na relação com Deus e com os outros. Diante das provas, Deus dá-nos a graça de as superar. Depois de superarmos uma prova, impressionamo-nos com os seus frutos, com a alegria que se instala em nós.
A tentação deve ser evitada, pois leva-nos à dor e ao sem sentido. Se cairmos em tentação, peçamos a graça ao Senhor de nos ajudar a sair dessa situação.
Só o coração atento distingue a prova da tentação. Só o puro sabe quando a força é de Deus ou as circunstâncias o tornam estóico. Como for, uma graça é precisa ao homem para que não morra: a humildade de aceitar a mão que o levante quando, ferido , mutilado, apodrecido, não lhe restarem mais forças a não ser o desejo de ser levantado.
Só o miserável, na sua miséria, pode experimentar e ter consciência da misericórdia do Senhor. Só aí pode saber-se perdoado e, sacudindo o pó e lambendo as feridas, entregar-se ao Amor que o salvou da morte eterna.
Serão as suas cicatrizes a lembrança desses tempos, o motor que o move a sair de si para onde que que haja miseráveis, mortos e tentados, para lhes lamber as feridas, sacudir o pó e anunciar o Salvador.

Se o Senhor não precisasse de nós, por que nos salvaria?

O diabo (= o que divide, separa) retirou-se de junto de Jesus, depois de esgotada toda a espécie de tentação.
Aproveitemos este tempo de Quaresma para nos retirarmos até ao nosso deserto, olharmos para a nossa história e vermos como anda a nossa relação com o Senhor. Tenho aproveitado as dificuldades que me aparecem na vida para pedir ajuda a Deus, ultrapassá-las e crescer? Tenho a consciência de que tudo é bom, porque tudo é criado por Deus (Cfr. Gn 1, 31) e que a tentação não está fora, mas dentro de mim? Ou seja, só me deixo tentar naquelas dimensões da minha vida onde ainda não deixo que o Amor de Deus habite plenamente?

E, seguindo a indicação de S. Inácio (EE [139]), pedir o conhecimento da vida verdadeira que me mostra o Senhor e graça para O imitar. Só assim não andarei dividido.


Leituras: Deut 26, 4-10
Salmo 90 (91), 1-2.10-15 (R. 15b)
Rom 10, 8-13
Lc 4, 1-13

16 de fevereiro de 2010

FALTA DE TEMPO PARA REZAR?



Os jesuítas acabam de lançar o www.passo-a-rezar.net, uma proposta de oração para quem não vive parado.
Cada dia, são 10 minutos de texto, pistas de oração e música, em formato mp3 para descarregar. Depois, é só levar e rezar no metro, no autocarro, a passear pela rua ou simplesmente sentado à secretária.
Vem descobrir este novo modo de se encontrar com Deus e viver espiritualmente o dia-a-dia!

14 de fevereiro de 2010

Bem aventurados vós, os que têm fome, porque sereis saciados.


Proponho que cada um se imagine a:

Sentir fome.

Depois, a sentir a necessidade de acabar com essa ansiedade.

E a seguir, a sentir saciar-se.


Poderei visualizar na minha vida, algo parecido a este sentimento, que está em dor pela fome que passa?

Este sentimento surge-nos em qualquer face da vida, no trabalho, na família, na alimentação, no desespero do sem sentido, na falta de amor, e em tantas outras coisas…

Mas o que é que nos sacia desta dor?


Não se vê, não se cheira, não se ouve, não se toca, não se sente….


Então como reconheço aquilo que me sacia desta fome?

É algo bastante profundo que cada um é convidado a procurar bem dentro.


Jesus garante esta mudança de sentimento em cada um.

Ele vive e conhece intimamente, gerando em nós, aquilo que nos falta...

10 de fevereiro de 2010

De Gijón à Asia


Falamos hoje de dois jesuítas actuais nascidos na mesma cidade (Gijón, nas Astúrias, Espanha) e que têm dedicado a sua vida aos mais necessitados na Ásia.

Enrique Figaredo, SJ, “Kike”, nasceu em Gijón no ano 1959. Após o ensino secundário e vários anos na Universidade, entrou na Companhia de Jesus com 20 anos. Foi enviado a Cambodja em 1985, e logo passou para Tailândia onde trabalhou com refugiados e criou projectos para atender às vítimas das minas anti pessoais semeadas pelo território cambojano. Tudo isto com a ajuda do Jesuit Refugee Service (JRS).

Anos depois, quando os refugiados voltaram para Cambodja, Kike instalou-se em Phnom Penh com o objectivo de ajudar a mais pessoas na reconstrução do país após a partida dos vietnamitas e do governo Khmer. Nos anos 90 fundou Banteay Prieb, uma escola de formação para deficientes físicos. Nessa mesma escola criou uma oficina de fabricação de cadeiras de rodas, actividade a que Kike se dedicou por completo. Visitava as pessoas, distribuía as cadeiras e acompanhava as famílias.

No ano 2000 foi nomeado Prefeito Apostólico de Battambang. Para além dos seus trabalhos pastorais, continua a expandir a obra de fabricação das cadeiras de rodas e a inserção social dos deficientes. Tem recebido vários prémios pela sua tarefa humanitária.

Luís Ruiz, SJ nasceu em Gijón em 1913, e aos 17 anos entrou na Companhia de Jesus. Na altura os jesuítas foram expulsos da Espanha, pelo que continuou a sua formação na Bélgica e em Cuba. Foi enviado à China para estudar Teologia e ordenou-se de padre no ano 1945.

Depois de trabalhar em diferentes partes do país, como Anking e Shanghai, no ano 1951 foi expulso por ordem do governo, como todos os estrangeiros. Chegou a Macau e conseguiu das autoridades licença para abrir uma igreja onde atender aos refugiados chineses. Dedica-se à atenção da população, extremamente pobre.

Em 1969 China declara Macau território chinês, pelo que os refugiados se tornaram automaticamente clandestinos. Todavia, ele continua ali. Abriu já vários lares de idosos e um centro para atender deficientes mentais. Como os que chegam então são refugiados vietnamitas, organiza uma rede de ajuda alimentar para eles.

Aos 25 anos de ser expulso da China, retorna para ajudar às vítimas dum terramoto, e começa a trabalhar com os leprosos da província de Guangdong. Desde o ano 1992 se dedica a construir e visitar leprosarias na China sur-oriental, Yunnan e Sicuani. Desde 2002 encontra-se reformado da direcção da Caritas e dedica-se exclusivamente à atenção dos leprosos chineses.

Facilitamos aqui alguns vídeos sobre eles. (Informamos que os vídeos estão em espanhol.)







9 de fevereiro de 2010

Resposta a Ludwig Krippahl

O Ludwig Krippahl comentou o meu texto sobre o equívoco fundamental do ateísmo e o terceiro grande equívoco do ateísmo contemporâneo. Publico a seguir a resposta que lhe deixei no seu blog (www.ktreta.blogspot.com).

1.Que o ateísmo em geral, e o ateísmo militante em particular como o de Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris, considera a religião só faz mal é uma afirmação objectiva como se depreende dos livros destes autores e de sites ateus como o Diário Ateísta e o Portal Ateu, para só dar alguns exemplos. Se não é o teu objectivo, isso não significa que não seja o de muitos outros que se assumem como ateus.

2.Nunca afirmei que o ateísmo é um polícia das crenças, mas é certamente um juízo das crenças. A afirmação de que todas as crenças religiosas se baseiam no obscurantismo e na irracionalidade não é nem mais nem menos do que um juízo de valor.

3.A liberdade democrática de que gozamos hoje em Portugal não é apenas fruto da luta de ateus. Muitos cristãos se opuseram ao Estado Novo e pagaram um preço elevado por isso.

4.Os ateus também crêem saber o que é bom para si e para os outros, e fazem pressão para que o ateísmo seja divulgado e supere a crença religiosa. Os cristãos são cidadãos como quaisquer outros e têm, como todos os demais cidadãos, concepções sobre a melhor forma de viver a vida. Propõem essas concepções à sociedade. Têm esse direito, como o têm igualmente os cidadãos que não têm crenças religiosas. A isto chama-se democracia. Muitas pessoas consideram que o facto de os cristãos tornarem públicas as suas propostas significa que estão a fazer uma pressão ilegítima sobre a sociedade. Não o considero, como não considero uma pressão ilegítima que os ateus tornem públicas as suas concepções de vida e as proponham à sociedade.

5.O sentido que dás à tua vida vem de ti, certamente, mas não apenas de ti. Nascemos numa dada cultura, temos uma dada educação, aprendemos muitas coisas com muitos outros, mantemos relações com pessoas e instituições, e tudo isso faz parte da nossa vida. É claro que cada um pode e deve ter um espírito crítico e analisar tudo o que lhe dizem, e cada um é responsável pelo sentido que dá à sua vida. Mas a vida de cada um vive-se num contexto, e não vale a pena reclamar uma independência de pensamento que dispense o resto do mundo.

6.Não pretendo dizer ao Ludwig qual é o sentido da sua vida. Se se sente feliz com o sentido que ela tem hoje e crê que nada lhe falta para que esse sentido seja pleno, nada tenho a dizer-lhe e pode crer que o deixo em paz. Mas há pessoas que nunca viram o mar e são muito felizes. Talvez se eu as convidar para ver o mar e lhes explicar o que é o mar me respondam que agradecem muito mas que já são muito felizes sem o mar. Eu não vou certamente perturbar-lhes a paz, mas não posso deixar de pensar que seriam mais felizes se tivessem a oportunidade de ver o mar.

7.A religião tem erros factuais, como a política, a ciência, a economia, etc. Todas as pessoas e todas as instituições cometem erros factuais ao longo da sua história. O problema dos ateus é que se fixam nos erros factuais da religião, ignorando que a religião não tem na sua história apenas erros factuais. Que seria de mim se as pessoas que conhecem os meus erros factuais não vissem em mim nada mais que esses erros?

8.O Ludwig reduz o conhecimento ao conhecimento científico ou a qualquer forma de conhecimento que seja cientificamente justificável. Mas a vida humana não se baseia apenas nessas formas de conhecimento. Considere-se, por exemplo, o seguinte poema:

“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

9.Se o Ludwig considera que este poema não exprime conhecimento, então é uma ilusão semelhante às afirmações religiosas. Mas eu considero que há muito conhecimento na poesia e na arte em geral, um conhecimento que a ciência não tem modo de submeter a prova.

10.A religião não inventa o que quiser. Há em todas as religiões muitos elementos que foram sendo abandonados por não ser possível continuar a mantê-los pelo menos por uma questão de coerência.

11.Os textos bíblicos são uma permanente fonte de equívocos. Os ateus pensam que por serem inspirados foram escritos por Deus caíram do céu quando, na verdade, foram escritos na Terra por seres humanos. Os crentes, pelo menos os cristãos, acreditam que os textos bíblicos foram escritos por seres humanos em linguagem humana exprimindo a compreensão que tinham da sua experiência pessoal e comunitária a partir do pressuposto da existência de Deus. Ao contrário do que afirmam repetidamente os ateus, como Saramago, o Deus da Bíblia não é um Deus carniceiro e vingativo. Não há algo como ‘o’ Deus do Antigo Testamento porque há nele várias imagens de Deus resultantes de diversas tradições culturais. Se é verdade que em algumas dessas tradições é a imagem de Deus juiz que prevalece, noutras é a imagem de um Deus ternurento e maternal. Os ateus cometem, mais uma vez, o erro hermenêutico de ignorarem uma parte da Bíblia, tomando uma sua parte pelo todo. Que a Bíblia é uma obra que é lida com interesse por crentes e não crentes é outra verdade factual que o Ludwig ignora. Tal como Saramago e muitos outros, determinou que a Bíblia é um conjunto de histórias sem sentido e indignas de uma Humanidade liberta, deixando assim por explicar o enigma do interesse de tantos ateus confessos pela leitura habitual da Bíblia.

12.Nunca afirmei que o ateísmo não dá valor à vida. Nunca afirmei que o ateísmo confunde ciência com religião. Uma vez que o ateísmo crê que a religião é uma ilusão, não faria sentido a afirmação de que confunde as duas coisas.

13.Nunca afirmei que o ateísmo é inútil. Afirmei, pelo contrário, que o ateísmo pode ser muito útil à religião quando lhe fizer críticas inteligentes.

14.Os crentes distinguem muito bem o conhecimento baseado no estudo científico da natureza do conhecimento que se exprime através da arte, por exemplo. A expressão artística exprime conhecimento mas não no sentido do conhecimento científico. O artista interroga-se e interroga-nos, levanta questões, põe em causa o que pensamos saber como definitivo e completo, exprime a sua insatisfação perante todo o conhecimento que nos é dado, procura compreender a existência humana por vias que não passam pela ciência. E isto não sucede apenas com os artistas. Sucede com qualquer pessoa, incluindo filósofos e cientistas. O Ludwig poderá continuar a repetir que todas estas pessoas estão equivocadas. Mas de que lado está o equívoco?

7 de fevereiro de 2010

Chamados, convocados, enviados.

“Porque mandas, lançarei as redes”

Temos motivos para ter esperança? E para acreditar em Deus? Parece que Simão tinha, já que de outro modo…não vejo como foi possível que um homem duro como ele era, acostumado às duras condições da vida de pescador, acreditasse na palavra dum homem vindo de Nazaré, onde não há mar.

Simão não só faz o que Jesus diz…mas, segundo o que podemos ler no texto, a sua confiança obtém recompensa: a pesca é muito grande.

“Pescador de homens”

Para a Bíblia, o mar é símbolo de conflitos e de perdição, onde habitam as forças opostas a Deus.
Por isso, tirar os homens do mar não pode senão significar que a missão recebida por Simão, pela autoridade de Jesus, é uma missão de libertação: tirar da perdição, do mal, todos os homens.
É fundamental neste texto que caíamos na conta de que é Jesus quem chama e dá poder e missão a Simão Pedro.
A vocação é uma experiência de relação com Deus, que nos leva a viver duma maneira deter-minada. E, é sempre Ele quem tem a iniciativa, que tem a autoridade. Nós não temos nenhum poder sobre Deus.

“Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador”

É experiência compartilhada por aqueles que alguma vez tiveram consciência de estarem na presença de Deus e sentiram a sua pequenez e pecado. Perante “o Santo”, como Deus é chama-do na Bíblia, isto é, o totalmente diferente, o homem cai na conta do seu limite…e torna-se humil-de. Às vezes, esta experiência é tão intensa que podemos sentir inquietação, e até medo.
As palavras de Jesus são as únicas que podem dar pleno sentido à nossa vivência: “Não tenhas medo, desde hoje serás pescador de homens”. Não tenhas medo: mesmo com distância e respeito a Deus que gera em nós pavor…só o próprio Senhor tem a autoridade, o poder, de nos devolver a paz. Só Cristo situa a relação com Deus com toda a exactidão. Ao olhar como Ele nos olha…reconhecemos quem somos, e quem somos para Deus. O temor servil dá lugar ao amor filial. Aquele é ainda auto-centramento (preocupamo-nos pela nossa segurança), este é já centra-mento em Cristo.

O encontro com Jesus Cristo muda a vida. Se calhar essa é a principal razão pela qual as pes-soas rejeitam as possibilidades de encontro com Ele, porque intuem que, de facto, é incompatível com a comodidade e a preguiça. O que acontece, então, connosco, Igreja europeia?

A humanidade encontra-se à beira de um abismo: basta muito pouco para nele precipitar-se, tal é o seu (nosso) egoísmo e o seu (nosso) gosto pelo poder e a comodidade. Hoje, ser pescador de homens significa participar em todos os empreendimentos que querem livrar o homem dessa per-dição, e que concorrem para arrancar a humanidade do perigo que a ameaça. Uma Igreja jamais poderá fazer crer na sua vocação de pescar homens se seus membros estiverem fora desses movimentos de salvação, ou se se contentarem por intervir ao amanhecer, sem se cansarem durante a noite com todos os homens. A Igreja só pode revelar o amor de Deus partilhando esse amor com os homens.
A Igreja, como comunidade dos chamados por Cristo a serem pescadores de homens, é res-ponsável pelo nosso mundo e pela sua salvação ou perdição. A quem muito foi dado, muito será exigido.
Os cardeais Martini e Tucci colocaram na Internet um site (http://www.vivailconcilio.it) com a intenção de reavivar o espírito e o impulso transformador que o Concílio Vaticano II tinha trazido à Igreja Católica. É significativo este acto, vindo de duas personalidades da máxima autoridade moral no seio da comunidade dos convocados pelo Senhor da História e Salvador da Humanidade e da Criação.
Uma das ideias principais do Concílio é a de que a Igreja é o Povo de Deus, onde os pastores servem, guiam e ajudam os cidadãos desse Povo, que anuncia e constrói o Reino. Desde então, os leigos e leigas são os protagonistas desta História de Libertação que é a vida das sociedades e dos indivíduos transformados pelo encontro com Cristo.
Os anunciadores de Deus, e o estilo de vida que Ele gosta, não são já, fundamentalmente, os padres nem as religiosas, mas os leigos e as leigas. Mas para anunciá-lO, é preciso tê-lO conhe-cido. Para conhecer a Deus é preciso que Ele se revele. E esta revelação é um acto soberana-mente livre, é iniciativa sua, totalmente gratuita. O homem não tem poder sobre Deus, e se o inventa à sua maneira e gosto, não adora o Deus vivo, mas a si mesmo…e perde a esperança.
O Cristianismo é o encontro com o Deus vivo, verdadeiro por que está vivo. Este é Cristo.
Revelação, vocação e missão estão intimamente unidas.
O nosso mundo precisa com urgência de esperança, assim como a Igreja europeia. O evange-lho é claro: só n’Ele devemos pôr à esperança. Só então, seguindo-O, pescaremos homens, res-gataremos vidas.

Leituras do dia.

1ª leitura: Isaías 6,1-2a.3-8
Salmo: nº 137
2ª leitura: I Coríntios 15,1-11
Evangelho: Lucas 4,21-30

1 de fevereiro de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco fundamental:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Equívoco 3:
Os contínuos progressos da ciência têm criado crescentes problemas às religiões e, de facto, tornado cada vez menos justificada a existência de qualquer deus. Por conseguinte, a religião está a desaparecer das sociedades cultural e cientificamente mais desenvolvidas.

1. Esta afirmação parte do errado pressuposto de que os crentes, tomemos o caso dos Cristãos, procuram obter na Bíblia ou em teorias teológicas o conhecimento do universo e a explicação dos fenómenos naturais. Até ao Renascimento, o ambiente cultural em geral, sobretudo na Europa, mas também em países asiáticos com algum desenvolvimento científico como a China, integrava as ciências da natureza, a filosofia e a religião num conjunto coerente de conhecimentos. A ideia de que o universo era um cosmos, um todo ordenado e, por isso mesmo, racionalmente explicável, levou Aristóteles a elaborar uma complexa mas coerente cosmologia. Segundo ela, os corpos celestes eram incorruptíveis, imutáveis e perfeitamente esféricos. Só no espaço entre a lua e terra havia mudança e corrupção. As estrelas estavam fixas numa esfera cristalina, por detrás da qual se situava o primeiro motor ou motor imóvel que explicava o movimento não só da esfera das estrelas fixas, mas também as esferas nas quais estava incrustados os planetas, o Sol e a Lua. Havia nesta concepção muita observação empírica conduzida por astrónomos capazes de calcular os equinócios e os solstícios, os eclipses do sol e da lua, etc. Havia também muita especulação filosófica. Os cristãos medievais adicionaram a esta cosmologia grega a teologia cristã, colocando o empíreo ou seja, a habitação dos anjos e dos santos por detrás da esfera aristotélica das estrelas fixas e imaginando que o inferno estava no interior da Terra. Uma tal cosmologia cristã parecia também estar em pleno acordo com a narração bíblica. Esta perspectiva integradora da filosofia, filosofia e conhecimento empírico era natural. Ela existia também em outras civilizações.

2. Com o Renascimento e o desenvolvimento rápido das ciências físicas e matemáticas, bem como dos instrumentos de observação, especialmente o telescópio, o conhecimento empírico ganhou crescente autonomia em relação à filosofia e à teologia. Galileu não teve apenas problemas com os teólogos mas também com os filósofos. Os problemas que a filosofia aristotélica enfrentava com a nova scientia estão bem ilustrados na obra de Galileu Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo. Dada a estreita relação que se tinha estabelecido entre a filosofia aristotélica e a visão cristã do mundo, era natural que os problemas da primeira arrastassem na sua queda a segunda. Foi a partir daqui que se estabeleceu o equívoco do recuo da religião com o avanço da ciência.

3. Ora, o que aconteceu desde o Renascimento não tem sido o recuo da religião provocado pelo avanço da ciência, mas sim um progressivo esclarecimento, que ainda hoje continua, da natureza da religião. Esta não tem que ser para os crentes a fonte do conhecimento dos fenómenos naturais, de como funcionam as leis da natureza. Tal tarefa pertence à ciência. Esta autonomia de cada uma das áreas do saber só pode ser benéfica tanto para a ciência como para a religião, no sentido de levar a que se esclareça cada vez mais a natureza de cada uma delas.

4. A religião tem sobretudo a ver com a questão do sentido do universo e da vida. Os não crentes afirmam que não há nenhum sentido para além do que nos é dado pelo conhecimento científico. Mas actividades e dimensões da vida humana como a poesia e arte, existem desde os primórdios do que possa conceber como sendo os primeiros seres humanos e continuam a ter um lugar fundamental na cultura contemporânea de todas as sociedades. Nada têm a ver com a ciência nem com o conhecimento científico, mas sim com a dimensão do sentido.

5. Muitos não crentes, sobretudo os que trabalham e pensam na área da ciência, estão convencidos de que a religião continuará a recuar à medida que a ciência avança. Um dia, tudo o que há a explicar estará explicado pela ciência, e a religião desaparecerá completamente. Apontam muitas vezes o exemplo dos países nórdicos, altamente desenvolvidos, e onde a religião parece estar em vias de extinção. Ora, o que os estudos científicos sobre a evolução dos Valores Europeus tem mostrado é que o declínio da religião se dá ao nível da frequência das Igrejas e das doutrinas religiosas tradicionais, mas não ao nível das preocupações individuais sobre o sentido da exist~encia. É que mesmo nos países nórdicos europeus, e em outros países desenvolvidos noutros continentes, as pessoas continuam a interrogar-se sobre o sentido da existência. É por isso que o pode afirmar com fundamento.

6. Para ultrapassar o debate que muitas vezes está dominado pela emoção, quando não mesmo pela ideologia, vale a pena transcrever aqui um extenso texto de Inglehart, principal coordenador do Inquérito aos Valores Europeus e do Inquérito aos Valores Mundiais, que é, a este respeito, muito esclarecedor e cientificamente fundamentado:

“Na sociedade do conhecimento a liberdade depende menos de elementos materiais e mais de ideias e imaginação. Isto dá origem a um clima de criatividade e estímulo intelectuais no qual as preocupações espirituais se tornam novamente mais centrais. Embora a autoridade das igrejas estabelecidas continue a declinar, nos últimos vinte anos os cidadãos das sociedades pós-industriais tornaram-se cada vez mais interessados em dedicar algum tempo a pensar acerca do significado e do objectivo da vida. A caracterização destas preocupações como religiosas ou não depende da definição de religião que se tem, mas é claro que o secularismo materialista da sociedade industrial está a desaparecer. Há uma mudança das formas institucionalmente fixas da religião dogmática para formas individualmente flexíveis de religião espiritual. Mesmo as ideias religiosas de cada pessoa se tornam numa questão de opção, criatividade e auto-expressão.
(…)
Embora as igrejas tradicionais (tal como outras organizações burocráticas, desde os sindicatos aos partidos políticos) continuem a perder membros nas sociedades pós-industriais, não encontramos qualquer evidência de que as preocupações espirituais, tomadas na sua generalidade, estejam a perder terreno. Pelo contrário. Comparando os valores do inquérito de 1981 com os resultados de 1989-91, 1995-97 e 1999-2001, vemos que os cidadãos das sociedades pós-industriais dedicam cada vez mais tempo a pensar no sentido e objectivo da vida do que anteriormente. A religião não desaparece. O que observamos é a transformação das funções da religião, de formas institucionalizadas de uma religiosidade dogmática que dá a cada um códigos de conduta absolutos num mundo inseguro, para preocupações espirituais individualizadas…(Inglehart, R. & Welzel, C., Modernization, Cultural Change and Democracy, Cambridge: Cambridge University Press, 2005, pp. 31-32).