26 de março de 2010

“Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade”


As leituras deste Domingo de Ramos, o último Domingo do tempo da Quaresma, poderão parecer-nos estranhas, difíceis de compreender, ao contrapor um momento de aclamação e glória a Jesus com a sua Paixão e Morte.
Porque é que Jesus, sabendo o que O espera, tem este desejo de entrar em Jerusalém? Como é possível aclamar alguém como salvador, quando Este vai a caminho da morte? Como é que alguém é visto como um salvador e depois morre? Como é que um salvador não consegue evitar, escapar, a todo o processo que o levará à Cruz?
Vemos aqui um Messias, que afinal não se enquadrou na ideia de Messias que tinham os Apóstolos e o povo que O aclamou – a de um Rei invencível. Se assim fosse, não teria morrido na Cruz. Provavelmente, pelo menos algumas vezes, Jesus também não vai de encontro às características daquele salvador que queremos que nos ajude. Ou melhor, precisamos mesmo que nos ajude. A grande diferença é que naquela altura as pessoas não conheciam Jesus como O Filho de Deus ressuscitado. Hoje vivemos com Jesus Cristo ressuscitado. Mas conhecemo-lO?
Jesus, ao entrar montado num jumentinho, cumpre aquilo que estava descrito no Antigo Testamento, no oráculo de Zacarias: “ Exulta de Alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso; vem humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta.” (Zc 9, 9-10). Isto é, surge como um Messias humilde. Mas talvez a maior humildade não seja a exterior, aquela que muitas vezes é a única que somos capazes de ver. A maior humildade de Jesus é passar no meio de todas aquelas pessoas permitindo-lhes festejar a salvação que Ele de facto veio trazer, mas para a qual é necessário que dê a sua própria vida. Jesus assumiu a condição de servo, fazendo-se semelhante aos homens, e obedeceu à vontade do Pai até à morte na Cruz. É essa entrega à morte pelos outros, por toda a humanidade, a grande humildade que chega “montada” num jumentinho. E, tal é a certeza dessa entrega por cada ser humano, por cada criatura de Deus, tal é o desejo de cumprir a Vontade do Pai que, mesmo quando alguns Lhe dizem: «Mestre, repreende os teus díscipulos.», Jesus responde: «Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras.» Com estas palavras Jesus parece querer dizer que, mesmo que ninguém Lhe ligue, Ele sabe que aquele é o único caminho que poderá trazer a salvação da humanidade, e por isso irá percorrê-lo mesmo que só as pedras O vejam. No Evangelho de Lucas, depois da descrição desta passagem, surge o seguinte relato: “Quando se aproximou, ao ver a cidade, Jesus chorou sobre ela e disse: «Se neste dia também tu tivesses conhecido o que te pode trazer a paz! Mas agora isto está oculto aos teus olhos….»” Jesus sabia que a multidão não se alegrava em vão, mas que de facto ainda não sabia o que iria acontecer.

Hoje, também ouviremos o relato da Paixão de Jesus. Poderemos pensar que não é novidade, que já o sabemos pois já o ouvimos muitas vezes. Mas talvez possamos perguntar se o vivemos, ou melhor, se está de facto “entranhado” na nossa vida. Conseguimos “entrar” nesta cena da vida de Jesus, sabendo que ela existiu por causa de cada um de nós? Conseguimos ver em Jesus crucificado, o Messias esperado?

Em espírito e em verdade
“Contemplemos nesta semana, de forma particular, a paixão de Cristo, antes de celebrarmos, no próximo Domingo, a sua ressurreição. Ela é consequência, inevitável e livremente assumida, da missão que o Pai Lhe confiara: a de salvar o mundo, não pelo sofrimento, mas pelo amor de Deus, levado até ao extremo. A paixão e morte de Jesus resultam de um conflito com esse mundo, que se recusa a acolher a verdade do amor, e revelam a intensidade e a qualidade do amor com que Deus o ama. Jesus anuncia o Reino, denuncia a falsidade das relações humanas, e pretende apenas restaurar o verdadeiro culto que se presta a Deus, em espírito e em verdade. Por isso o rejeitam e condenam à morte.”
Pe. Luís Rocha e Melo, S.J.
in Tu me seduziste eu deixei-me seduzir. Ed. Tenacitas. Coimbra, Maio 2007

Evangelho Lc 19, 28-40
Evangelho Lc 22, 14 – 23, 56

25 de março de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco fundamental:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião. Isto aplica-se de modo particular ao cristianismo.

Quinto equívoco: os não crentes crêem que ao apontar continuamente os episódios negativos da história passada e presente do cristianismo, em particular da história da Igreja Católica, estão a contribuir para que a religião se revele como algo que, segundo os neo-ateus, ‘só faz mal’ e, assim, desapareça da face da Terra. Também neste caso a linguagem dos ateus não constitui um bom argumento contra a religião. Muito menos o facto de uma tal linguagem ser em geral agressiva e grosseira.

1. Os não crentes têm um particular gosto em apontar episódios negativos da história da Igreja Católica, sobretudo os que se referem à Inquisição, ao caso Galileu, e a episódios de violência ligados a querelas sobre questões doutrinais sobretudo nos primeiros séculos do cristianismo. Têm igualmente um gosto particular em apontar episódios de índole (i)moral, sobretudo os que se referem às autoridades da Igreja Católica, no passado como no presente. O equívoco está em pretenderem transformar episódios lamentáveis em argumentos contra a existência de Deus.

2. Os cristãos são seres humanos que aderiram à proposta de vida de Jesus Cristo, tal como é apresentada no seu Evangelho. Esta proposta baseia-se em elevados valores éticos e religiosos com base nos quais os cristãos querem viver a sua vida. Tal como os demais seres humanos, os cristãos são chamados a procurar um equilíbrio entre duas das dimensões fundamentais do ser humano, a razão e a emoção ou, mais concretamente, entre as razões e as emoções. Todos os seres humanos fazem a experiência de como é difícil este equilíbrio, e fazem também a experiência do fracasso em viver estas duas dimensões de forma plenamente madura. Os valores éticos do cristianismo foram incorporados na cultura ocidental e, por conseguinte, todo o comportamento que vai contra tais valores é geralmente condenado, independentemente de quem está envolvido, cristãos ou ateus.

3. A condenação não deve ser porém um fim em si mesmo. As prisões deverão, sendo embora locais de cumprimento da pena, ser também oportunidades de cura de feridas interiores por parte dos condenados, e de um recomeço de vida. Esta é a perspectiva segundo a qual é actualmente considerada a função das prisões. Os não crentes têm apenas palavras de condenação, nunca de reabilitação. O sofrimento das vítimas dos criminosos representa uma ferida para essas mesmas vítimas e para toda a sociedade, incluindo os próprios criminosos, a não ser que estejam dominados por alguma doença mental grave. Todo o apoio e conforto que lhes for dado não será demais. Mas criminoso e vítima são seres humanos e devem ser tratados como tais.

4. Os não crentes preferem ignorar que o nível ético dos cristãos, como da sociedade em geral, tem progredido constantemente. Basta conhecer um pouco de história. Isto não significa que os mesmos cristãos, como os não crentes, não estejam sujeitos a fracassos, hoje e no futuro. Mas a prova de que o progresso moral dos cristãos é visível é a necessidade que os não crentes têm de, denunciando embora factos presentes, ir ao passado buscar exemplos de imoralidades, sem quererem reconhecer que houve um progresso moral significativo nos cristãos até hoje.

5. Os não crentes preferem ignorar o comportamento ético da maioria dos cristãos, muitos dos quais dão a sua vida pela paz e pela justiça, em cenários de guerra, de insegurança e de miséria. Não está aqui em causa o facto de os não crentes poderem ter um semelhante comportamento ético. O que está em causa é que o nível ético dos cristãos não pode objectivamente ser medido pelo comportamento condenável de uma minoria.


6. Esta forma de argumentação dos não crentes deveria também levá-los a denunciar com igual vigor os crimes de agentes políticos e a reclamar o fim de toda a teoria e prática política. Isso não acontece, porém, e todos compreendem a razão por que tal seria absurdo. O mesmo raciocínio se aplica à religião. Não se pode passar sem mais da axiologia à ontologia. Os não crentes preferem porém o equívoco à clareza.

24 de março de 2010

de Marco Aurélio, o imperador estóico:

"Corpo, alama, inteligência. Pertencem ao corpo as sensações; à alma os instintos; à inteligência os princípios. Receber impressões do que se pode ver, disso até as bestiagas são capazes. Ser zarandeado como marionetas pelos instintos, são disso muito capazes as bestas-feras, os andróginos, os Fálaris e os Neros. Tomar por guia a inteligência rumo ao que se apresenta como dever nosso também disso são capazes os que não respeitam os deuses, traem a pátria, cometem todas as tropezas à porta fechada. Se tudo o mais é comum aos seres de que falámos, privilégio do homem de bem é fazer acolhimento com alegria e amor ao que lhe sucede e vem entretecido na trama da sua vida; é de não deixar imiscuir-se nem perturbar no formigueiro das ideias o génio que estabeleceu morada no seu íntimo; velar porque ele se mantenha sem agravo, obedeça, como é bem, a Deus, sem soprar palavra contrária à verdade, nem perpetrar acção contra a justiça. Mesmo que os homens todos recusem acreditar que essa vida é recta, modesta e bem humorada, ele não está atrelado a ninguém e não se desvia uma polegada do caminho que leva ao termo da vida, termo a que nos cumpre chegar puros, calmos, livres de entraves e numa perfeita harmonia com o destino."

Marco Aurélio

21 de março de 2010

Unidos em Cristo

Aproxima-se a Páscoa do Senhor. Antes, ainda em tempo de Quaresma, viveremos a Sua Paixão e Morte. Só com esta experiência poderemos experimentar e viver na Sua Ressurreição. A certeza da vida eterna prometida pelo Senhor Jesus anima-nos a viver os nossos sacrifícios, as dificuldades do dia-a-dia; a desejar essa Alegria já e a fazer a nossa vida concorrer para ela.


Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não a vedes? O Deus de Israel anuncia ao Seu povo o regresso do exílio. É esta Esperança em Deus que permite aquele Povo viver o cativeiro, o exílio e regressar à terra prometida. É esta Esperança que o faz esquecer o passado tormentoso e, ao mesmo tempo, apoiar-se nele para se lembrar de todo o bem que o Senhor fez, como tinha prometido. Eles sabiam que havia de chegar o Messias e, com Ele, a salvação. Jesus, que não veio para revogar as leis dos Antigos, mas para lhes dar um novo sentido, Ele próprio, Palavra do Pai feita Carne, como nós…


Por Jesus Cristo, meu Senhor, renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar …e em Quem Paulo acreditou. É no Senhor Ressuscitado que Paulo põe a sua Fé. Nunca viveu com Jesus – como nós não vivemos – mas não pôde duvidar do testemunho que lhe chegou e o levou a converter-se de todo o coração. O mesmo testemunho nos chega hoje, pela Igreja, que correu os tempos para nos trazer a mesma Boa-Nova, o mesmo Evangelho, para que possamos também nós ter onde sustentar a nossa Fé. Paulo foi alcançado pelo Senhor Jesus e, por isso, não parou de correr, não se cansou de O anunciar.


Ficou só Jesus e a mulher Aquela mulher que nunca fora amada, experimenta o Amor na pessoa de Jesus, que não a condena (nem condena aqueles que a queriam apedrejar). O mesmo Amor que podemos experimentar se nos abrirmos a Ele de cada vez que falhamos, em vez de nos fecharmos em nós mesmos e na culpa que sentimos e nos pesa. Quando nos sentirmos sós – mesmo rodeados de gente – é que havemos de ficar a sós com Aquele que nos ama sem medida, como àquela mulher.


As três leituras lembram-nos que o caminho para o Senhor, mesmo obrigando a dificuldades e renúncias é em frente: Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados; Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente; Vai.

É por este mandamento de Jesus que esperou Israel. É este Vai que moveu Paulo, o mesmo Vai que fez aquela mulher mudar de vida. E a nós, onde nos manda Jesus? Deixou-nos Pedro e a Igreja, Homens e Mulheres que renunciaram a tudo por se identificarem com Jesus, seu único Senhor. e viverem assim a sua Alegria - verdadeira e completa. É um desafio a vivermos unidos, filhos do mesmo Pai e, por isso, todos irmãos.


Neste tempo que falta de Quaresma, não pensemos que “já está”. Não façamos desta Páscoa mais uma igual às outras. Sejamos cada um a penitência, o jejum e a esmola para que não seja só mais uma coisa na nossa lista de afazeres. Ou seja, sejamos nós testemunhos desta Passagem, onde quer que nos encontremos, com a certeza de que estamos muitos juntos e estamos todos unidos em Cristo.



Leituras: Is 43, 16-21; Salmo 125 (126), 1-6 (R. 3); Filip 3, 8-14; Jo 8, 1-11

18 de março de 2010

Valores

Paz, Justiça e Alegria. Desconfio que se apresentasse estes três valores como projecto de vida me poria de acordo com a vasta maioria da humanidade. São os valores, como a palavra indica, conceitos de finalidade que têm um valor capital nas nossas vidas e pelos quais nos procuramos reger ou pelo menos aceitamos que seria bom regermo-nos por eles, ainda que falhemos na sua prática.
Mas o valor concentra na palavra que o traduz uma carga absoluta. São palavras grávidas de uma outra coisa, ainda para além do que significam… são ideias que sempre imaginamos de modo mais perfeito do que alguma vez as possamos viver. São sonhos que suplicam uma transformação… pedem realidade!
Penso que temos valores porque nos sentimos frágeis de alguma maneira. E a palavra suporta-nos e conforta-nos…. Se temos valores, porque é que não mudamos? Porque é que eles não se tornam realidade? Porque não se cumprem com aquela urgência sonhada? “É urgente o Amor” canta o poeta.

Sim, as palavras confortam-nos, mas não se bastam. Creio que é na fragilidade, mais do que no significado, que o caminho do presente se abre à consumação da vida humana… é na minha fragilidade que eu descubro a porta da verdadeira alegria! Até à mais profunda comoção de mim mesmo, sinto-me humano, vivo, cheio de esperança, ou até de dor…
Somo frágeis!! Eis a grande descoberta humana… Somos frágeis e tudo devemos… A quem? Não sei. Tudo devemos…

Pergunto-me… que é isso a Paz? Que é isso a Justiça? Que é isso a Alegria?
Quem o saberá?

“É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.”

Poema de Eugénio de Andrade

15 de março de 2010

Friedrich Nietzsche ( 1844 — 1900)


"Quando se tem o «porquê» da vida, é fácil condescender com os «como?»"
In: Crepúsculo dos Ídolos

13 de março de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Equívoco fundamental:
O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Quarto equívoco: Só os ateus têm a possibilidade de pensar livremente sem constrangimentos de espécie alguma. Os crentes, ao contrário, têm que se submeter a autoridades, tradições e textos, e não têm liberdade de adoptar atitudes racionais perante as autoridades, os factos e os textos, uma vez que a religião se baseia no dogma e põe de lado a razão.

1. Este é certamente um dos maiores equívocos do ateísmo contemporâneo. Antes de mais, todo o pensamento é culturalmente situado. Os cidadãos de uma determinada época pensam e agem de acordo com os parâmetros culturais dessa época. Isto tem a ver com todas as áreas da vida humana, embora possa afectar mais umas que outras. Os regimes políticos, as concepções artísticas, as teorias científicas, as normas morais e até mesmo as ideias religiosas são sempre situadas. Isto não significa que de uma época para outra, de uma cultura para outra, tudo muda. Também não significa que as ideias e práticas de cada época e cultura não possam ser submetidas a crítica, seja na mesma época por outra cultura, seja em épocas diferentes pela mesma cultura ou por culturas diferentes. Quer os crentes quer os não crentes têm, por conseguinte, constrangimentos dos quais não podem libertar-se. Isto não quer dizer que não possa haver pensamento crítico dentro de uma mesma cultura que coloque em causa elementos dessa mesma cultura que podem ser considerados fundamentais pela maioria dos seus membros.

2. A história das religiões mostra tudo menos uma tradição rigidamente imutável. As cisões são frequentes, pelo menos nos primeiros séculos de uma nova religião. No caso dos cristãos, as grandes cisões deram-se nos séculos XI (ortodoxos) e XVI (protestantes). Os debates nos primeiros séculos do cristianismo tinham a ver com as naturezas humana e divina de Cristo, com a compreensão da unidade das três Pessoas Divinas, com o papel de Maria como Mãe de Jesus, etc. Mais recentemente, têm sido os estudos bíblicos que mais têm sido reformulados, sobretudo desde o século XIX. O diálogo ecuménico entre as várias religiões cristãs tem levado ao confronto construtivo de algumas concepções teológicas. Também o diálogo entre as diversas religiões tem sido possível e proveitoso, o que mostra claramente que as diversas religiões não se excluem mutuamente mas, pelo contrário, se reconhecem próximas umas das outras em muitos aspectos que têm a ver com a construção de um mundo melhor baseado na justiça e na verdade, categorias fundamentais em qualquer religião.


3. A compreensão da doutrina e dos dogmas do cristianismo tem sido reformulada de acordo com a evolução da língua e da cultura, bem como dos conhecimentos que se vão adquirindo através da ciência. A revolução heliocêntrica de Galileu levou a uma reformulação profunda do universo medieval, no qual a Terra estava no centro do universo e Deus, os anjos e os santos se encontravam no ‘empíreo’, o céu situado por detrás das estrelas visíveis a olho nú, que se pensava estarem fixas numa esfera rotativa. A revolução de Darwin levou a uma nova interpretação, não literal, do Génesis quanto ao aparecimento das espécies vivas, especialmente dos seres humanos. A teoria do big bang levou a uma nova reformulação da interpretação do Génesis quanto à criação do mundo por Deus em seis dias. Todas estas mudanças científicas têm sido extremamente benéficas para a religião, certamente para o cristianismo. O universo que, até Galileu, se reduzia a pouco mais que o sistema solar, estende-se agora por distâncias quase infinitas. A duração do acto criador de Deus, passou de seis dias para milhares de milhões de anos, levando à concepção de um acto criador que não terminou mas antes continua no espaço e no tempo. O aparecimento da vida na Terra, particularmente dos seres humanos é relativamente recente na história de todo o universo. O ponto mais importante a ter em conta é que todas estas mudanças nas concepções religiosas provocadas pelo progresso científico não pôs em causa qualquer dos elementos fundamentais da fé cristã. A Bíblia é ainda reveladora da existência de um Deus criador, mas nem todos os textos bíblicos podem ser interpretados de uma forma literal. Isto não corresponde de modo nenhum a uma estratégia de fuga dos cristãos às dificuldades levantadas pelo progresso cultural em geral e científico em particular, mas a uma atitude crítica que está de acordo com os progresso que têm sido feitos no campo da hermenêutica literária, não apenas no que se refere às Bíblia mas também a outros textos, de cariz religioso ou não. O desconhecimento deste facto levou a que recentemente o Prémio Nobel Saramago produzisse algumas declarações sobre a Bíblia que foram imediatamente criticadas não tanto pelos cristãos mas pelos literatos, independentemente da sua fé ou de não terem nenhuma. Muitos não crentes ainda hoje não compreenderam o grave equívoco de Saramago.

4. Por conseguinte, os não crentes ao considerarem-se livres pensadores têm em mente uma concepção de liberdade situada e condicionada que só muito equivocadamente poderão considerar radicalmente diferente da liberdade dos cristãos.

11 de março de 2010

A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo

mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma de 2010

O Papa Bento XVI escolheu como tema da sua mensagem para a Quaresma a justiça, partindo da afirmação de Paulo aos Romanos: "A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3, 21-22).
Não podia ser mais actual e, ao mesmo tempo, mais delicado. O nosso conceito de justiça é mais jurídico - dar ou restituir a cada um o que é seu -, encontraremos sempre à nossa volta razões para dizer "não é justo", "não merecia", "se Deus existisse...".
A novidade do cristianismo e que Bento XVI reitera na sua mensagem é simples e desconcertante: Deus existe, é Justo e pagou com a Encarnação e morte do Seu Filho Jesus todas as injustiças do homem.

Pela sua fragilidade, pela sua condição de pecador, o homem pode cometer actos injustos durante a sua vida terrena. ao mesmo tempo, sentir-se amado por Deus, o seu desejo de Bem e de ser bom, impelem o homem para o Outro igual a si.
como viver esta tensão entre o egoísmo próprio da natureza humana e o desejo de comunhão igualmente natural?

É preciso mudar os nossos esquemas de pensar a justiça, de nos relacionarmos. Tem de entrar em nós - para permanecer e assim vivermos - o Amor de Deus, temos de confiar n'Aquele que nos criou e nos chama a criar com Ele. Só um coração que se abre ao Amor está disponível para amar.
Assim, o homem viverá movido pelo seu coração aceso por esse Amor, assumindo a posição de servo junto do seu irmão, vivendo dando tudo o que é gratuitamente e agradecendo o que recebe generosamente. Este é o verdadeiro descentramento de si, a justiça divina tornada humana, o mistério da Fé: quando medimos com os limites da nossa fé desmedida em Jesus Cristo. E esta justiça é graça recebida, porque já deixámos que invadisse o nosso coração. Nada é meu e faço tudo ser para o Outro - aquele que está já aqui, no meu dia-a-dia. Jesus não condenou a samaritana, nem a mulher adúltera, nem Zaqueu, nem Mateus. Antes, deu-lhes o que nem eles ousaram pedir: a salvação. E foi a sua fé que os salvou, o sentirem-se amados, acolhidos e queridos.

Isto exige de nós uma conversão de coração, a que nos é pedida sempre e proposta especialmente nestes quarenta dias até à Páscoa, essa Passagem para a Vida plena. Só vivendo esta conversão, só vivendo com este coração novo podemos mudar o mundo e torná-lo justo. Se cada um se converter e mudar os pequenos mundos onde vive e se movimenta, se cada um encher esses mundos com a graça recebida da fé em Jesus Cristo, transformaremos o conceito de justiça, tirando-o dos manuais jurídicos para a prática da vida. A lei da justiça é o mandamento novo, a lei do Amor.

Deus, pelo Seu Filho, já nos mostrou que podemos ser capazes. Que falta fazermos para o sermos plenamente?

10 de março de 2010

Maurice Blondel (1861-1949)


"Não tenho nada que não tenha recebido, e, no entanto, é necessário ao mesmo tempo que tudo surja de mim, inclusivamente o ser que recebi e que me parece imposto; é necessário que, faça ou sofra o que seja, eu sancione este ser; que, por assim dizer, o engendre de novo mediante uma adesão pessoal, sem que jamais a minha sincera liberdade o desautorize. É esta vontade, a mais íntima e livre, a que importa reencontrar em todos os actos e levá-la finalmente até ao seu perfeito acabamento." (In: A Acção)

7 de março de 2010


Perante os esmagados pela queda da torre de Siloé.

No outro dia recebi um mail duma rapariga que é religiosa e estava no Haiti aquando do terramoto, onde continua agora ajudando a reconstruir o país. Antes da tragédia era professora num bairro social e conta como na manhã do sismo, ao sair de casa e caminhar pelas ruas…o fedor dos seus alunos saía de debaixo dos escombros…No meio do cansaço, da desesperação, da dúvida de fé…esta religiosa procurava ajuda afectiva e efectiva aos sobreviventes.
Um amigo meu, também jesuíta espanhol, estava no outro dia em Santiago do Chile quando o terramoto aconteceu. Comenta-me num mail que nunca se tinha sentido tão aterrorizado e impotente. Como sabemos, são mais de 720 mortos. Este jesuíta novo está agora como voluntário nas equipas de ajuda organizadas no país. Há que dizer, aliás, que está no Chile a trabalhar num bairro social ao norte do país.
Os cristãos dizemos que estamos em tempo de Quaresma, o que não é um número de semanas nas quais a liturgia e alguns hábitos alimentares e caritativos mudam e se fazem mais austeros e tristes. Não, é um estado existencial de procura do essencial para chegar-mos à celebração da morte de Jesus, e ouvirmos o anúncio (não evidente, mas audível ainda assim) da sua ressurreição.
Neste terceiro domingo deste estado existencial de autenticidade e procura do funda-mental, temos um Evangelho especialmente incómodo (como costuma ser sempre, por outra parte, quando o escutamos), sobretudo após as sucessivas catástrofes naturais desde o começo do ano, que têm atingido (que irónico!!!) aos “preferidos de Deus”, isto é, aos mais pobres da Terra.
Hoje escutamos coisas como estas: “Acreditais que os dezoito homens que a torre de Siloé matou em sua queda eram mais pecadores do que todos os habitantes de Jerusalém? Não, eu vos digo, mas se não vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante.” Este Jesus que temos dulcificado até dar-nos nojo, parece ter palavras duras para aqueles que o questionam e se perguntam que relação pode haver entre o pecado humano, a brutalidade da natureza e do planeta e a bondade de Deus, de modo que aqueles dezoito infelizes foram esmagados pelo edifício ao cair. Mais uma vez temos o eterno problema e obstáculo real para a fé no Deus de Jesus: “Como é que tu, se és tão bom como dizes, permites estas coisas e crias uma realidade tão cruel e absurda?”.
Ora, parece que Jesus no Evangelho não nega que, de facto o esmagamento desses homens seja uma desgraça (nem os mortos do Haiti, nem da Madeira, nem do Chile, nem de…), mas parece que não é a maior. Há uma desgraça ainda maior que viver na insegurança e morrer sob as forças incontroladas da natureza: a desgraça de não empregar bem a vida. Isto é, de não descobrir o importante da existência, e deste modo aprender a relativiza-la como caminho e não meta em si mesma.
Não podemos esquecer que a vida de Jesus, consequente até ao fim, termina duma forma irracional: é pregado a duas madeiras até morrer de asfixia e esvaído em sangue. O pregador do amor pregado por incompreensão e ódio. Quando não é a natureza a terminar connosco, nós mesmos fazemos o esforço.
Porquê estas duras palavras de Jesus? Porque não há tempo que perder, “se não vos converterdes”.
Numa aparente outra ordem de coisas, estamos a passar por uma crise mundial que já vem estruturalmente de longe, embora os efeitos práticos começaram há uns meses. E Jesus poderia dizer-nos exactamente a mesma coisa: “se não vos converterdes”.
Sim, o Evangelho é radical, e por isso é libertador. Olhamos à nossa volta, e vemos que nada é estável, que nada pode (embora nós tenhamos este desejo) dar-nos a segurança e plenitude que procuramos. Esta vida, tão limitada, não faz sentido.
A resposta de Jesus não concorda: esta vida frágil e caduca faz sentido…quando não é o nosso absoluto, quando a relativizamos (nos relativizamos) perante o Criador dela e o seu projecto, que a inclui mas a ultrapassa. Este mundo é bom, porque é projecto de plenitude, não porque seja pleno já. É bom não esquecer que o Cristianismo fala do Reino de Deus e do Céu como realidades que estão a caminho de serem, de modo que este mundo faz sentido como trampolim para o futuro, plenamente bom.
Sim, todos vamos morrer, voluntariamente ou não, mais cedo ou mais tarde, natural-mente ou pela força doutras pessoas ou por acidente. Ninguém vai ficar aqui, provavelmente a nossa espécie animal também não e até é provável que o nosso planeta corra a nossa mesma sorte. Mas isto não tem porque angustiar-nos, nem fazer-nos indiferentes à vida e ao mundo: apenas tem que pôr as coisas no seu lugar correspondente: Deus e a relação dele connosco e nós com Ele e com os outros são os absolutos, mais nada.
Claro, esta forma de ver a vida é radical, e muda perigosamente os nossos critérios vitais. Mas, pode ser libertadora? De facto precisamos de libertação. O Evangelho oferece uma alternativa ao nosso estilo de vida e às nossas prioridades existenciais. É um bom momento de escolha, é momento de conversão: estamos em Quaresma.

O nosso amado mundo é limitado e imperfeito…mas não é um fim em si mesmo, apenas a possibilidade para alguma coisa maior. Jesus oferece uma forma de vida e uma perspectiva não angustiante mas estimulante perante a existência. O amor, isto é a comunhão afectiva e efectiva entre nós e Deus, é a chave. Temos a oportunidade para repensar os nossos objectivos e prioridades nos anos que ainda temos para viver. Estamos em Quaresma, podemos vivê-la a sério. Não esqueçamos, a Quaresma também não é o fim definitivo…é apenas a possibilidade para a Páscoa, então sim, para a plenitude.

Os acontecimentos desde o começo do ano, que põem de manifesto a nossa limitação e a do planeta, as vítimas que não puderam reflectir sobre o que nós hoje aqui lemos, apressam-nos a não evitar as questões duras e irmos até ao fim nas nossas respostas. “Ensina-nos, Senhor, a calcular os nossos anos, para que adquiramos um coração sensato”, um coração quaresmal.

Leituras do dia:
Ex, 3, 1-8ª. 13-15
Salmo 102
1 Cor 10, 1-6. 10-12
Lc 13, 1-9

6 de março de 2010

A Consciência em Descartes...


Apesar de estarmos actualmente conscientes dos actos presentes da nossa mente, só estamos potencialmente conscientes das suas capacidades e faculdades. Descartes abre espaço para pensamentos potencialmente conscientes, expondo que as pessoas normalmente não conhecem totalmente o que crêem1, apesar de ele concordar que : “É evidente que não pode haver nada na mente, na medida em que é uma coisa que pensa, de que não se esteja consciente”2, ele imediatamente qualifica isto ao apontar que “ (…) nós não podemos ter nenhum pensamento do qual não estejamos conscientes no mesmo momento em que o estamos a ter (…)”3 isto porque muitos pensamentos não ficam retidos na memória, e por isso não julgamos estar conscientes deles. Por exemplo, nós podemos ter centenas de pensamentos a cada hora, pensamentos incontáveis que ocorrem quando dormimos, e de que não nos conseguimos lembrar. Descartes atribuiu um conceito muito interessante para a consciência, um conceito que tanto tem espaço para as percepções que passam despercebidas, porque não ficam na memoria, e para percepções que são tão pequenas e obscuras que mesmo que deixassem rasto e continuassem a afectar-nos por associação com outras percepções, não poderiam ser distintamente recordadas, diz Alanen:
“(…)the notion of thought is a simple notion that cannot be defined, it is clear on should avoid invoking consciousness as a definition of thought. I therefore take “thought” and “consciousness” to have different meanings for Descartes, and will treat “consciousness” or “immediate awareness” as a mark by which mental acts and states qualifying as thoughts are recognized and distinguished from other acts and states.”4

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1. “(…) poucos há que queiram dizer tudo o que crêem, mas também porque muitos o ignoram; pois, em virtude de a actividade do pensamento, pela qual se crê uma coisa, ser diferente daquela pela qual se conhece que se crê, muitas vezes uma não acompanha a outra.” DM 3ª 64.
2. “Quod autem nihil in mente , quatenus est res cogitans, esse possit, cujus non sit conscia(…)” Quartas Respostas. AT VII 246.
3. “(…) nec ulla potest in nobis esse cogitatio, cujus eodem illo momento, quo in nobis est, conscii non simus.”Quartas Respostas. AT VII 246.
4. ALANEN, L. - Descartes’s Concept of Mind. London: Harvard, 2003, p. 83.

2 de março de 2010