30 de abril de 2010

Breve sopro de Filosofia da Informação


As mudanças de comportamentos, de valores, de estruturas, de estratégias e de poderes provocadas, desencadeadas ou relacionadas com a disseminação das TIC ( Tecnologias da Informação e de Comunicação) pelo planeta estão a colocar novos desafios e novos problemas à humanidade. Ao abrirem novas possibilidades de actuação, e por isso novas oportunidades, as TIC estão também a possibilitar o surgir de novas ameaças e a progressão de comportamentos e de práticas fortemente questionáveis em termos éticos e morais. Trata-se de questões que se relacionam com a dignidade da pessoa humana, com o respeito dos direitos das pessoas, com o respeito pela privacidade da vida pessoal, com a responsabilidade social, com a solidariedade, com a partilha de valores das comunidades, entre outros aspectos. Estas questões surgem muitas vezes a par de processos de mudança, tanto organizacionais como nacionais ou internacionais, aos quais, as pessoas tendem a reagir com receio. Os avanços da ciência e da tecnologia, nomeadamente os desenvolvimentos na genética e na biotecnologia, têm de igual modo colocado desafios éticos e morais profundos. A filosofia da informação deve também reflectir e analisar este tipo de questões, buscando na ética fundamental e na ontologia respostas capazes de enquadrar ética e moralmente os novos desafios.
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Fernando Ilharvo, In: Filosofia da Informação, Problemas Fundadores.
Também baseado no Trabalho de Luciano Floridi.

26 de abril de 2010

Acabei por ver...


Série Human Motions de Peter Jansen : toda a impressionante sequência do movimento é reproduzida num único momento de uma escultura parada… simultâneamente o movimento parece não ter fim e a escultura mexe-se.


Comecei por ver um vídeo no youtube: as recentes imagens do Sol que a NASA forneceu. Depois, displicentemente, fui vendo outros vídeos, clicando naqueles que iam aparecendo, sugeridos pelo próprio youtube. Passado mais de uma hora eu ainda ali estava a ver vídeos. Ia vendo, reflectindo, admirando… a certo momento, um click! Stop, tenho que me levantar daqui e ir deitar-me. Mas antes decidi carregar no canto superior esquerdo, no botão “retroceder uma página”. E assim fui retrocedendo, primeiro uma página, depois outra e, por aí fora todo o caminho que distraidamente fui fazendo… (ou em vez de “por aí fora” deveria dizer “por aí dentro”?). Revi todos os passos e todos os lugares desta hora… Mas o que eu vi foi admirável, o que eu vi foi que rever era ver. Vi que o que eu tinha estado a fazer não foi mera distracção. Distracção teria sido não rever, não reviver, não renovar… teria sido distracção e falta de esperança. Porque, afinal, esperar é não deitar fora o tempo. E não deitar fora o tempo, é vivê-lo… vivê-lo a sério. Como quem recebe o outro, no espaço que lhe dá. Mas onde?

Como dizia um célebre slogan: “recordar é viver”! Como jesuíta percebi uma coisa, a vida de Cristo em nós torna-se clara nesta esperança que é trazer à memória, levar ao coração (recordar) … isto é o exame de consciência! Não para me condenar a mim mesmo, mas para continuar, num tempo sem descontinuidades absolutas. Assim, dia a dia, noite a noite, se derrama a eternidade no “hoje”. E isto, para mim e por incrível que pareça, é que é viver na graça e no perdão (nesse “dom” que nos quer “acompanhar”).

Bom, são já muitas palavras para descrever esta coisa só, que é no acolher o dia que ele se torna claro.
Mas então vou continuar a perder tempo no youtube? Bem, como já disse não perdi tempo, não foi mera distracção. Mas então isso significa que não tenho que mudar nada? Sim e não.
Como será, então, amanhã? Não tenho uma ideia clara sobre isso, mas sei com quem estive e que, amanhã, nada será igual.

25 de abril de 2010

DAR A VIDA | DAR VIDA

Continuamos no tempo pascal, tempo em que a Igreja, nós, vive de forma especial esta alegria que é A VIDA com Jesus Cristo Ressuscitado. Este IV Domingo do tempo de Páscoa é também conhecido como o Domingo do Bom Pastor.

Ao ouvirmos a palavra “pastor”, de entre várias que poderemos ter na memória, uma das imagens que possivelmente surge mais rapidamente é a do pastor de um rebanho de ovelhas. De alguém que dedica a sua vida a ajudar, proteger, reunir, cuidar, alimentar, …, todo o rebanho, preocupando-se com cada uma das ovelhas e com o rebanho como um todo. Não parece ser muito difícil imaginar uma pessoa assim. Ou porque já nos cruzámos com alguma, ou porque alguém nos contou ter-se cruzado com alguma, ou porque vimos nalgum filme, documentário, vídeo do youtube, lemos nalgum livro, etc. Mais, pelas características do serviço que um pastor dedica a um rebanho, não parece ser difícil imaginarmos, se é que não o vimos ao vivo, um pastor bom, um pastor dedicado, um pastor preocupado, um pastor cuidadoso, um pastor incansável, … E, sendo assim, a nós, humanos, parece-nos de facto difícil poder existir alguma ovelha que não siga o seu pastor. Nele, com ele, tem possibilidade de encontrar tudo o que precisa.

É isto mesmo que Jesus, o Bom Pastor, nos diz através do Evangelho de São João que hoje se lê em todo o mundo.

Mas, neste Evangelho, Jesus diz mais, diz que, como Bom Pastor, dá a vida eterna às suas ovelhas. Este “dar a vida eterna” traduziu-se com o dar a própria vida por cada um de nós: “É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ninguém Ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente.” (Jo 10, 17-18). E também, como diz o próprio Jesus, com essa vida que Ele nos dá, nunca havemos de perecer (Jo 10, 28). DAR A VIDA é sinónimo de DAR VIDA.

Mas, que significa isto tudo para o homem? Se calhar, voltando à imagem do pastor e do rebanho das ovelhas, poderá ser fácil imaginar como vivem as ovelhas. Saber como é que o pastor, entregando a sua vida por elas, lhes dá vida. Mas e quanto ao homem? O homem de que vive? Quem entrega a vida por ele?

O Papa Bento XVI, sucessor de Pedro, a quem Jesus pediu para apascentar as Suas ovelhas, é o actual Pastor Universal da Igreja Católica. Diz-nos ele:” O homem vive da verdade e do ser amado, do ser amado pela Verdade. Tem necessidade de Deus, do Deus que vem ter com ele e lhe explica o significado da vida, indicando-lhe assim o caminho da vida. Certamente, o homem precisa de pão, precisa do alimento do corpo, mas no mais íntimo de si mesmo precisa sobretudo da Palavra, do Amor, do próprio Deus. Quem lhe der isto, dá-lhe «vida em abundância». E deste modo liberta também as forças pelas quais ele pode sensatamente modelar a terra, pode encontrar para si e para os outros os bens, que podemos possuir apenas mutuamente.” (in Jesus de Nazaré, Lisboa, A Esfera dos livros, 2007, p. 349)

Perante isto, aquele que, pela fé, aceita a palavra de Jesus e adere à Sua Pessoa, fica estreitamente unido a Ele. Ele é que dá a Vida. Jesus diz: “As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço-as e elas seguem-me.” (Jo 10, 27) Jesus estabelece com cada um dos que O seguem uma relação única, de profunda intimidade, caracterizada por um conhecimento mútuo e uma amizade recíproca, que levam a uma comunhão de vida: Jesus comunica àquele que acredita n’Ele a Sua vida, a vida mesma de Deus, a vida que não morre.

É o próprio Pai que nos dá a Vida pois “o conhecimento que liga Jesus com os seus situa-se no âmbito da sua união com o Pai.” (Ratzinger, Joseph. Jesus de Nazaré. Lisboa, A Esfera dos livros, 2007, p. 353)

Quem não conhece homens e mulheres que deram, dão, a vida pelos outros? Que, tendo RECEBIDO A VIDA, DÃO VIDA aos outros?

Que faço eu?



18 de abril de 2010

Pedro, Sumo Pontífice

III Domingo da Páscoa


No Evangelho de hoje, Pedro tem um papel fundamental, com um duplo ensinamento: a universalidade da Igreja e o Amor.


A universalidade da Igreja. O Ressuscitado já apareceu aos Apóstolos: já O viram a comer consigo, a andar com eles no caminho, Tomé já pôs os dedos nas feridas. Os Apóstolos estavam juntos, de volta ao seu ofício de pescadores. Eis que Simão Pedro diz que vai pescar e todo o grupo o segue. Também nos nossos grupos há alguém que, naturalmente, lidera, outros que seguem, cada um com os seus talentos naturais.

Passaram a noite sem nada apanhar. Cansados, desmotivados, com fome; nada tinham para comer nem para dar de comer a quem lhes pedia.

Tendo um deles reconhecido o Senhor, é Pedro quem se atira ao mar e faz a ponte entre o barco e o Senhor. Na Igreja, há uma Cabeça – o Santo Padre – instituída desde Pedro para fazer a ponte entre os que apanham as redes e o Senhor. E a rede, mesmo cheia e pesada, não rebentou: sinal de que na Igreja há espaço para cada um, que não há gente a mais, todos somos convidados a entrar nela, todos somos puxados para o barco e dali levados a terra, onde o Senhor nos espera com o verdadeiro alimento: é Ele o Pão da Vida.


O Amor. Depois da refeição, Jesus pergunta três vezes a Pedro se ele O ama. A língua original do Evangelho (o grego) distingue entre estes verbos: na primeira e segunda perguntas – Tu amas-me? – Jesus interroga Pedro com um verbo de amor mais divino, profundo, intelectual (agapâs me = amas-me?) e Pedro responde com um verbo de amizade (filô se = gosto de ti). À terceira vez, Jesus já não pergunta agapâs me, mas usa o verbo da resposta de Pedro. O amor que Jesus pedia a Pedro era a mais perfeita forma de amar, que este – limitado pela sua condição humana – não podia dar como resposta ao pedido de Jesus.

Mesmo assim, Jesus pede a Pedro que apascente os seus cordeiros e ovelhas, que seja nosso Pastor, aquele que nos guia.


O Pontífice e Pastor, a nossa Cabeça, mantém a unidade dos católicos entre si e com Deus; não como quem manda, mas como quem serve. É o Papa, homem como nós e escolhido de entre nós suscitado pelo Espírito Santo, que nos guia e orienta. Actualmente, o Papa Bento XVI. Nas palavras de S. Inácio de Loiola: “devemos ter o espírito preparado e pronto para obedecer em tudo à verdadeira Esposa de Cristo nosso Senhor, que é a nossa santa Mãe e Igreja hierárquica, porque creio que entre Cristo nosso Senhor, esposo, e a Igreja, sua esposa, não há senão um mesmo Espírito que nos governa e dirige para a salvação das nossas almas (Exercícios Espirituais).


Já temos o mandamento de Jesus, o do Amor. Sabemos que na Igreja há lugar para todos, sem classes, apenas trabalhando cada um naquilo que o Senhor lhe pede, concorrendo todos para o mesmo Bem. E sabemos que o Senhor nos pede que amemos da forma mais perfeita, superando as nossas limitações humanas.

Esta semana, peçamos a graça de amar com este amor divino – agapê –: Deus, a Igreja e o Papa, os nossos Irmãos e a nós prórpios.


Leituras: Actos 5, 27b-32.40b-41; Salmo 29 (30), 2.4-6.11-12a.13b (R. 2a ou Aleluia); Ap 5, 11-14; Jo 21, 1-19



14 de abril de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo

Algumas pessoas que se consideram ateias comunicaram-me que não se identificam com o que eu designo por equívoco fundamental, uma vez que não assumem o seu radicalismo. Reconhecendo a verdade deste facto, modifiquei o enunciado do ‘equívoco fundamental’ para o adaptar apenas aos ateus radicais.

Equívoco fundamental: O maior drama do ateísmo radical não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião. Este equívoco aplica-se sobretudo ao cristianismo.

Sexto equívoco: Os ateus nada têm a opor a que cada um acredite subjectivamente em deus e pratique em privado a sua religião. Opõem-se, porém, a todas as manifestações públicas da religião e à sua interferência na vida social, económica e política.

Este equívoco baseia-se numa equivocada concepção de religião e numa equivocada ideia acerca de quem sabe dizer ao certo o que é a religião. Muitos ateus crêem que são eles que devem dizer como devem ou como não devem viver a sua religião: ela deve ser profundamente individual, privada, subjectiva. E as razões que fundamentam este equívoco são claras. A religião baseia-se no obscurantismo, no irracionalismo, na falta de inteligência, na incapacidade de distinguir Jesus Cristo do Pai Natal, na incapacidade infantil de assumir responsavelmente a vida, no medo da morte, na incapacidade de pensar criticamente, etc. Não é possível tolerar que tudo isto tenha uma expressão pública, uma vez que iria provocar o atraso cultural e civilizacional dos povos. Iria fazer pressão sobre os governantes. Iria impedir o progresso científico, ético e social.

O problema principal deste equívoco é que se baseia numa ideia equivocada de ser humano que concebe como indivíduo fechado em si mesmo, dono das suas ideias e dos seus medos tanto como da sua conta bancária e do seu boletim de voto em eleições. Uma tal concepção de ser humano é bem triste, e conduz ao anonimato e à tristeza sobretudo nas cidades.

Se partirmos do pressuposto de que o ser humano é estruturalmente aberto à relação, não a uma simples relação instrumentalizadora e superficial, mas a uma relação de auto-doação recíproca, já vemos que a experiência interior, seja ela religiosa, ética ou estética entra necessariamente nessa relação de recíproca auto-doação. A experiência religiosa vive-se em comunidade, uma comunidade aberta ao mundo, incluindo os que não têm a fé professada por ela. Além disso, convém notar que a experiência religiosa não se limita às expressões litúrgicas, como a Missa, as procissões, etc. A verdadeira experiência religiosa faz da vida de cada dia, em todos os seus aspectos, uma contínua liturgia, na qual têm lugar actos de amor, de compaixão, de louvor, de sacrifício pela justiça e pela verdade. Pretender ignorar tudo isto e afirmar que a religião só é aceitável quando cada um guarda para si essas idiotas crenças num deus e em espíritos que não existem é, pois, cair num grande equívoco.

11 de abril de 2010

No centro da Noite

E desta fonte nasce uma corrente. E bem sei eu que é forte e omnipotente, Embora seja noite.” Estas palavras de S. João da Cruz podem servir de mote para a leitura do evangelho deste domingo. Muitas vezes somos levados a separar radicalmente os momentos difíceis dos momentos em que a vida se nos apresenta unificada e íntegra. Ora, nestes versos, S. João da Cruz afirma ser possível a nossa vida decorrer unificada de uma fonte misteriosa, da qual se pode beber, mesmo nos momentos mais secos e desencantadores. Mas, como será isto?



Todos nós temos um centro. Um lugar para onde se dirige a nossa atenção e motivação. Neste sentido, os discípulos tinham também um centro que se torna muito claro no evangelho: “fechadas as portas do lugar […] com medo das autoridades judaicas”. O centro eram eles próprios. Daí o medo de que as autoridades, depois de terem morto o seu líder, também os pudessem matar a eles. Talvez o contrário mais abissal do medo seja a paz de coração.


Curiosamente, muitas vezes não damos muita atenção a palavras sobre a paz, porque vamos percebendo que não é por falarmos muito dela, por palavras, que vai despontar em nós. A paz não se conquista, surge inesperadamente quando deitamos tudo a perder por algo autêntico que nos fez sair de nós. Esse algo autêntico é lugar de presença onde Deus se revela e, tal como Jesus, nos tira o medo, pondo o nosso centro fora de nós.


Nas duas vezes em que Jesus aparece aos discípulos, Ele mesmo se põe no centro. Só fora de nós podemos encontrar a paz que, muitas vezes desiludidos, não conseguimos achar em nós. Deus quer-nos com o centro fora de nós, pois este é o movimento do amor, o movimento do próprio Deus que, em Jesus, deixa o Seu próprio centro para amar o que lhe é distinto. E amar é sempre acolher o que nos é distinto. É por isto que a paz cristã exige a luta de quem se quer auto descentrar, e ser como uma torrente que se confia no curso que lhe imprime a fonte que a precede. Mas afinal que significa no concreto esse curso que a fonte nos imprime?


Quando lemos uma palavra do Evangelho, é o Ressuscitado que encontramos. Na Eucaristia, é o dom da sua vida que recebemos. Quando nos reunimos em seu nome, ele está no meio de nós. E há esse caminho surpreendente onde ele vem ao nosso encontro: ele também está presente naqueles que nos são confiados, sobretudo naqueles que são mais pobres do que nós.” (Ir. Alois – prior de Taizé) É no contacto com a Sua Vida, pela palavra e pelos sacramentos, que conheceremos o estilo com o qual Ele próprio continua a tocar e retocar a fragilidade da nossa existência. Creio porém que, tal como Tomé, esta resposta nunca parece bastar para justificar uma vida cristã, onde a mudança se exige constante. Mas onde apoiar a nossa fé de que o Ressuscitado Se revela a nós na palavra e no sacramentos?


O cristianismo não é uma teoria que, consequentemente, apoia os mistérios em provas empíricas. Os mistérios cristãos são também mistérios nossos que Deus vem assumir, mostrando-nos que eles estão grávidos de Vida. Assim sendo, em vez da prova empírica é-nos apresentado o testemunho que solicita a confiança diante do nosso mistério, que se apresenta entrelaçado com a promessa de Deus.


O testemunho de Jesus, o que se põe ao centro como condição de paz verdadeira, consiste em mostrar as chagas. A chaga não é uma prova empírica de que Ele era fora crucificado (isso eles já sabiam). A chaga era o testemunho de que, sendo Ele o mesmo Jesus, o Amor assume e transcende todas as chagas, mortes e denuiões. A morte é sempre penúltima. O testemunho apela a uma confiança, que só se recebe na paz de quem tem o centro fora de si, ao estilo de Deus.


Desta forma, as nossas noites e chagas deixarão de nos surgir como fatalidades da vida que é miserável, mas despontarão como promessa de um face a face com Deus que se vai fazendo cada vez mais pleno diante de cada pessoa e realidade. Promessa de um dom que começa já na consciência e confiança simples nesta mesma maravilha. Até que ponto estamos dispostos a pôr o centro fora de nós, para que tudo isto ocorra?


8 de abril de 2010

Consciência dos Mundos


Tendo por base a proposta epistemológica de Nelson Goodman, podemos entender que para o autor uma concepção anti-intelectualista, que opõe a arte à ciência, se torna insuportável. Então as velhas dicotomias são vencidas e mescladas. Já não encontramos a beleza, a intuição e a emoção, separadas da verdade, racionalidade e do saber. Porque nenhuma destas propriedades é privilégio nem da arte, nem da ciência.
Para Goodman a tarefa comum a ambas é a construção de mundos através de sistemas de símbolos e o valor de qualquer delas depende da correcção das construções realizadas. “Ambas podem ser correctas e incorrectas de diferentes maneiras; ambas podem ser correctas e incorrectas de diferentes maneiras; ambas podem ter um domínio de aplicação universal: para ambas existem critérios de aceitabilidade, e testes e experiências a que podem ser submetidas; em nenhum caso há garantias definitivas.”
Ora isto não significa que a arte e a ciência sejam idênticas. Unicamente, que as diferenças tradicionalmente apontadas devem ser subjugadas. Isto tornou-se sobretudo evidente com a tentativa de compreender a arte contemporânea mais recente.
“Apesar de tudo, os impressionistas, expressionistas e cubistas, e mesmo a abstracção geométrica, podiam ainda ser olhados À luz dos critérios da tradição. Mas outro tanto não acontece com os ready-made, os happenings ou a arte conceptual que se não conformam com qualquer reajustamento desses critérios.”
Assim como acontece com a física quântica, estes tipos de arte exigem categorias novas para a sua intelecção. E a diferença relevante entre a arte e a ciência deve ser encontrada nos processos simbólicos utilizados.


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GOODMAN, Nelson - Modos de Fazer Mundos. Porto: Edições ASA, 1995.

Por Um Novo Estilo De Relações | parte três

Em que nos sacia este perdão vivificante? No inferno, lugar de mortos em espera, as pessoas esperam sozinhas, divididas, com relações cortadas. No ícone Jesus surge como elo de união e reconciliação. Motivo de relações justas e plenas.

Sem esquecer a importância de Jesus inaugurar uma passagem nova, da morte para a Vida, como podemos ver pelas portas do inferno, que se encontram partidas, aos pés de Jesus, quero destacar mais este ponto das relações justas que Cristo vem estabelecer.

Adão veste-se de castanho, pois é feito da terra. Eva de vermelho, porque é a mulher que gera a vida. Mas, ao contrário do comum dos ícones, em que Jesus aparece vestido de branco, aqui Ele aparece de vermelho, na medida em que a ressurreição é vida e que n’Ele está presente o fogo do espírito. Curiosamente, Jesus é o único que expressa movimento. Todos os demais estão parados. Se repararmos bem, sobre o ombro esquerdo vemos que se move o tecido da roupa de Cristo. Isto evoca, por um lado: o seu movimento de descida e subida, mas por outro: o movimento relembra que a iniciativa Lhe pertence exclusivamente. (tudo isto pode ser visto na imagem do post anterior, à qual o texto se refere)

Daqui percebemos que Adão e Eva, e neles todos nós, não conseguimos sair por nós próprios da morte que são as vidas solitárias e afastadas umas das outras. Se o egoísmo se vencesse sozinho, não deixaria de ser egoísmo. Somos necessitados. E neste mesmo sentido, vemos que Cristo pega em Adão e Eva pelo punho, isto é: pega-os como quem liberta da escravatura.

O dom que aqui nos é oferecido é uma conversão profunda do nosso querer e sentir. Rejeitar qualquer vontade de poder, qualquer uso do outro para satisfazer um recalcamento, qualquer subjugação do outro para que eu me mantenha na minha acomodação. Todas estas cadeias injustas são assumidas e quebradas por Cristo. Amar o outro por ele mesmo.


No dizer de Zorba, o Grego: life is a trouble. Mesmo depois da ressurreição, a vida não deixa de ser um problema, e a existência continua a não deixar de ser marcada pelos cumes mais altos e pelos abismos mais escuros. Esse Deus que Se continua a comunicar na fragilidade de cada biografia, mostra não querer surgir como um sentido ou uma vontade que nos caberia, com muitíssimo esforço, descobrir.

Apresenta-se como desconhecido de Emaús que, no oculto diz a palavra certa que torna os caminhantes desiludidos em homens encontrados e apostólicos. Novas relações que partem de um estilo completamente novo de viver. Até que ponto estamos dispostos a acolher este estilo?


(inspirado numa conferência dos irmãos de Taizé sobre o ícone da descida aos infernos)

7 de abril de 2010

Descida Aos Infernos | parte dois


No topo está escrito em eslavo: Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus, no centro, segura Adão com a Sua direita e, com a esquerda, segura Eva. Ajuda-os a sair do túmulo. Atrás deles estão os reis David e Salomão, e o profeta João Baptista, escondido atrás de Jesus. Atrás de Eva, vestido de pele de animal, encontra-se Abel. Mais atrás, Moisés com as tábuas da lei. Os outros são patriarcas e profetas que viveram antes de Jesus. Jesus está no centro, Ele é o centro do mistério pascal.


Creio que esta imagem da descida de Cristo aos infernos pode responder-nos à pergunta: o que nos garante que a ressurreição vem saciar esta sede? As imagens da descida aos infernos inspiram-se na Carta de S. Pedro, nos Actos dos Apóstolos e nas Odes de Salomão, um dos primeiros cristãos.


Ora, para os primeiros cristãos o sofrimento do Filho de Deus era um escândalo. Assim, uma das primeiras tentações na história da Igreja foi acreditar num Cristo que, sendo mais Deus do que homem, não tinha sofrido assim tanto quanto se podia imaginar. Mas onde ficava a solidariedade de Deus para com todos aqueles que sofrem, a quem Ele dá ânimo pela comunhão nos mesmos sofrimentos?


A ideia da descida de Cristo aos infernos foi para enfatizar a humanidade deste Cristo que se aproxima da nossa condição. Vivendo o humano na Sua carne: Jesus assume-o, contesta-o, absolve-o e eleva-o.


Naquela altura o inferno não era tomado como o lugar dos maus. Era um lugar físico onde todos aqueles que haviam morrido, esperavam a Vi(n)da de Deus. Neste sentido, Cristo desceu para dizer, àqueles que já haviam perdido a fé e a esperança, que a vida plena era uma dádiva, nEle realizada.


As principais figuras do ícone são Cristo, Adão e Eva. Segurando-os, Deus assegura-lhes um perdão que vivifica, chamando o homem àquele novo Adão a que S. Paulo se refere.


Mas em que nos sacia este perdão vivificante?

6 de abril de 2010

Uma Sede de Vida Plena | parte um

Quando, no Youtube ou no cinema, vemos filmes sobre a imortalidade ou sobre a ressurreição, reparámos que há sempre alguma coisa que falta. Uma falta de realismo ou excessivo antropomorfismo, que permanece sempre aquém de saciar uma ânsia de plenitude que marque e dê chão ao nosso desejo. O que é que aconteceu naquela noite que transformou o Sábado da espera em Domingo da Páscoa?


A ressurreição permanece um mistério, pois não se confunde com uma reanimação biológica do corpo de Jesus. No salmo 16, o salmista diz a Deus: “não me deixarás conhecer a sepultura”. É neste sentido que a ressurreição deve ser entendida, enquanto acto de intimidade entre o Pai e o Filho que, em Jesus, responde a um querer profundo e quotidiano do humano: não deixar de ser.


Diz Miguel Sousa Tavares: comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre. Junto-lhe a frase de Gabriel Marcel: Amar é poder dizer: “Tu não morrerás nunca!”. Muito embora, diante da morte, as perspectivas destes dois autores seja diferente, ambos falam da relação como caminho de saciação desse desejo profundo de plenitude. Este, por estar tão enraizado no ser humano, faz com que o conhecimento da ressurreição do Senhor não seja uma aspiração a novos conhecimentos, mas antes de mais um desejo de intimidade.



Contudo, mesmo sabendo que há uma sede de vida plena em cada ser humano, o que nos garante que a ressurreição vem saciar esta sede?



Páscoa em Soutelo 2010!


Ele está vivo!!!
Embora nesta foto não pareça. :)

Mas sim... está Vivo!!. Ressuscitou. Aleluia!

4 de abril de 2010

“O amor é mais forte, até, que a morte.”

Esta é a afirmação que todo homem desejaria poder dizer como verdadeira.
Se Cristo não tivesse morrido, a sua autenticidade ficaria questionada.
Se Cristo não tivesse ressuscitado, a esperança que trouxe seria vã.


Hoje, em todo o planeta, as comunidades da Igreja cantam com assombro a grande notícia, após uma Quaresma na qual (com ajuda das agências internacionais de notícias…) tomou clara consciência do seu pecado e do pecado da Humanidade toda.
Sim, precisamos de ser resgatados do mal e da morte que nos cercam. Mas a grande notícia é que, assombrosamente e discretamente (parece ser o estilo divino), o somos.

Surrexit Christus. Aleluia, Aleluia
Cantate Dominum, Alelulia, Aleluia.

Cristo ressuscitou, Aleluia, Aleluia.
Cantai ao Senhor, Aleluia, Aleluia
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3 de abril de 2010

O esvaziamento de Deus


Ao longo dos últimos três dias fomos convidados pela Igreja a contemplar a profunda humildade de Deus que, para nos manifestar a profundeza insondável do seu amor por nós, se esvaziou da sua grandeza. Quinta-feira Santa pudemos contemplar Jesus Cristo, “mestre e Senhor”, ajoelhado diante dos seus discípulos para lhes lavar os pés e os convidar a uma vida de serviço e entrega pelos outros. Sexta-feira Santa acompanhámos o Senhor no seu caminho para o calvário e assistimos à Sua crucifixão e morte. Jesus Cristo, o Filho de Deus, morre como um escravo, abandonado pelos seus amigos e por aqueles que o tinham aclamado.

E no entanto, talvez o esvaziamento de Jesus Cristo não tenha chegado ainda o seu extremo. Cristo, morto e suspenso da cruz, podia ainda ser observado, talvez de longe, por todos aqueles que o tinham abandonado ou que tinham contribuído para a Sua morte. O seu cadáver, ainda que mudo, denunciava a injustiça e suscitava a compaixão. Depois, de sepultado, contudo, o silêncio e a ausência são totais. Cristo já não pode ser visto, nem ouvido, nem tocado. O esvaziamento é total: Aquele que disse ser a vida foi despojado do seu viver e encerrado no túmulo do passado.

Em Jesus Cristo Deus humilha-se, esvazia-se, despoja-se de si mesmo. Ao encarnar esvazia-se da Sua condição de Deus; ao lavar os pés aos seus discípulos esvazia-se da Sua condição de mestre e Senhor; ao morrer na cruz é despojado da sua vida; depois de sepultado é submerso no passado e privado da condição de existente.

Mas que significa, afinal, este abaixamento de Deus? Hino à morte, ao sofrimento, à humilhação, ao fracasso? Não é o que a Igreja ensina. Se quisermos compreender o esvaziamento de Jesus Cristo na sua paixão e morte precisamos voltar a contemplar o mistério da Encarnação. Diz Santo Ireneu que “Deus se fez homem que o homem se faça Deus”. Ou seja, para conduzir o homem à comunhão consigo, Deus colocou-se ao seu nível, fazendo-se homem entre os homens. A paixão e a morte completam este movimento. Para cuidar daqueles que sofrem e são maltratados, Deus sofreu e foi maltratado como eles. Para chamar à vida os que morreram, Deus, em Jesus Cristo, fez-se morto entre os mortos. O homem, apenas pelas suas forças, não pode chegar até Deus, tal como os mortos não ressuscitam a não ser pelo poder de Deus. A lógica da cruz é, afinal, a lógica da Encarnação. Deus faz-se homem de dores e sofrimentos para os que sofrem possam participar da Sua vida abundante.

No Sábado Santo, ao permanecer sepultado nas malhas da memória que se desvanece, Jesus Cristo toca a história, no que ela tem de mais ancestral e mais profundo, para conduzir a humanidade, e todo o Universo, poderíamos mesmo dizer, à comunhão consigo. É o que nos diz a antiga homilia de Sábado Santo que a Igreja hoje propõe no Ofício de Leitura: “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus dormiu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos, Deus morreu segundo a carne e acordou a região dos mortos. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte, Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu Filho”.

No Verbo Encarnado, Deus fez-se homem, sofreu e morreu. É por isso que amanhã, quando recebermos a notícia da Sua ressurreição, saberemos que a nossa humanidade foi elevada para junto da Sua Divindade, e que aqueles que morreram foram por Ele conduzidos para junto do pai.

Uma santa Páscoa para todos.



Sábado Santo - espera(nça?)


[...] durante o sábado, observaram o descanso, conforme o preceito. (Lc 23, 56)

1 de abril de 2010

Sexta-feira Santa - Paixão e morte do Senhor

Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. “Então ele está perdido?” Perguntou um deles. “Perdeu-se como uma criança?” Disse um outro. “Escondeu-se? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou?” – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco lançou-se para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes digo! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? […]”
F. Nietzsche, A Gaia Ciência (§125)


Atrevo-me a sugerir hoje para reflexão, meditação (oração?) este texto provocador de F. Nietzsche, um marco do pensamento filosófico contemporâneo que dificilmente deixa indiferente. Não pretendo de forma alguma comentá-lo (muitos já o fizeram, melhor, ou pior) mas simplesmente, com ele, ajudar a cair na conta da grandeza daquilo que a Igreja hoje celebra.

Os cristãos acreditam (e alicerçam a sua fé sobre esse “facto”) que em Jesus de Nazaré o Deus Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, assumiu a nossa vida, até às últimas consequências: a morte. De tal modo quis partilhar a nossa existência que se sujeitou a ser rejeitado, maltratado, supliciado. Através da sua morte Jesus não veio fazer a apologia do sofrimento, nem sequer em nome de uma recompensa numa vida futura, mas sim a apologia da humildade e da coerência de quem vive para os outros. A sua missão, revelar o Pai, conduziu-o à Cruz porque na nossa pequenez a verdade causa ferida e o orgulho muitas vezes leva a melhor.

É por fazermos todos a experiência de rejeitar uma verdade (acerca de nós mesmos, do mundo, da nossa vida) difícil de acolher, que todos participamos do gesto daqueles que mataram Deus. Mas, porque ele assume toda a nossa humanidade, com ele podemos esperar que tudo não termine no sepulcro…

mexer nos pés doutra pessoa é nojento...



Uhhh, mexer nos pés doutra pessoa é nojento!!!







Há alguns dias ouvi a Ana dizer isto. Depois ainda acrescentou:
Os pés são aquela parte do corpo que anda lá em baixo, mesmo perto do chão… alguns cheiram a chulé, outros têm calosidades, outros têm cenas nas unhas, … Uhhh, que nojo!!! Pior: quando alguém anda de Havainas - ficam mesmo pretos! Cheiro, cor, forma, unhas, ... tudo nos pés é nojento!



Mas, hoje, nas igrejas de todo o mundo os padres vão lavar os pés às pessoas que se sentarem nas primeiras filas (por isso, Ana e todas miúdas com nojo dos pés: sentem-se nas filas de trás...)
É que os católicos acham que ter um gesto de serviço pode ser um gesto de amor; mesmo que esse gesto seja uma cena nojenta como lavar os pés alguém.




Quando penso em gestos embaraçosos por amor, lembro-me logo daqueles gajos que se humilham à porta do aeroporto a acenar por alguém que chega, só porque querem que ele saiba que é importante para eles; e que eles até são capazes de fazer aquela figura de parvos só para que esse tal tipo que está a chegar, saiba mesmo que eles o querem bem e que o vieram esperar, gastando do tempo deles, mas com imensa alegria...


Quando disse isto à Ana, ela respondeu-me:«Eu percebo, mas acho que não era preciso descer tão baixo, bastava dizer ao outro: Tu és importante para mim
O problema da resposta da Ana é que se vivêssemos apenas a dizer, sem fazer gestos que dêem corpo ao que dizemos, também ninguém levaria a namorada a jantar fora, ou lhe daria um beijo! Porquê fazer isso em vez de dizer-lhe que ela é importante para nós? - Todos sabemos bem o porquê...

Como seres humanos, que somos, nós precisamos de gestos. Nós não vivemos só de dizer. Até porque há demasiada diferença entre: 1) comer um bom almoço; e 2) dizer "bom almoço"...
Além do gozo que nos dão, os nossos gestos também servem para tomarmos consciência do que dizemos.
Qualquer miúda distingue facilmente o dizer «Eu gosto do Tó Zé» e o «dar um beijo ao Tó Zé». São coisas muitos diferentes! Um gesto compromete muito mais as duas pessoas que se encontram nesse beijo, ou nesse lava pés, do que uma boca para o ar, mesmo que seja uma boca sincera.



Encarnar, dar corpo ao que sentimos, dar gestos ao que queremos dizer, é algo central nas nossas relações.
Os católicos vivem tentando servir cada pessoa com quem se vão cruzando. O lava pés é um gesto para encarnar esse dizer num gesto muito concreto, que nos compromete a continuar a tentar pôr os outros em primeiro.