30 de maio de 2010


-“Trindade?”
-“Sim, passa, fica connosco”.

Nem sempre é fácil falar em pouco espaço dos conteúdos da fé, se calhar porque são os mistérios da vida os que são atingidos pela confiança humana na revelação divina.
E é que nem sempre é fácil confiar, e menos ainda viver a partir da confiança…mas qualquer outro caminho termina por resultar vazio. Ninguém pode viver sem confiar em outro alguém, ou nas afirmações dos outros. Como seres humanos somos relacionais, e por tanto “confiantes profissionais”.
A confiança está vinculada à relação inter-pessoal, portanto. E resulta que há uma outra realidade que não é poupada a nenhum ser humano, e é a experiência da solidão. No ser humano há uma sede de comunhão que nada termina por colmatar. Dois corpos em luta por se absorverem reciprocamente… finalmente terminam por ter que se sepa-rar. Todos temos sentido alguma vez como o nosso coração ficava mais ferido e duro após nos termos despedido de pessoas queridas pela necessidade (nossa ou deles) de irmos embora, porque assim o exige a vida. Provavelmente já nos tem impressionado, sem encontrarmos resposta certa, estarmos perante o cadáver de alguém querido…ao qual nunca mais voltámos a ver nem ouvir falar connosco. Por último, com certeza que ainda nos podemos lembrar da última vez que, mesmo rodeados de pessoas (até pode ser que conhecidas), nos temos sentido sós.
Portanto, o homem é relacional, não pode viver sem relação e, o que é ainda mais assombroso, não pode viver sem amor, isto é, sem relações baseadas na confiança que gera a gratuidade. Ainda que só seja pela via negativa (pelo que notamos em falta), sabemos que isto é certo.
Há pouco contaram-me uma história engraçada. Estavam dois amigos a passear à beira dum rio, e um pergunta ao outro: “Como é que imaginas a / que te imaginas na vida eterna?” Ao qual o segundo responde: “Como o nosso reflexo na água deste rio. E tu?” Então, o primeiro simplesmente bateu nas costas ao seu amigo, e se fez o silêncio. Os dois amigos continuarão assim o seu passeio à beira do rio.
Termos como Trindade, Reino de Deus, Céu, etc. podem soar terrivelmente vazios na sensibilidade contemporânea…mas se pegamos na tradição bíblica, encontramos que a imagem do que está por vir e ao que se nos convida é um banquete. Isto nos evange-lhos é constante, quase a única imagem, uma e outra vez repetida, matizada segundo os textos e detalhada para sublinhar um ou outro aspecto. Ou seja, estamos convidados a uma mesa de relação íntima na qual há um lugar reservado para nós, de modo que a alegria não será plena se rejeitamos o convite. Só quem já experimentou a carência sabe apreciar e confiar na promessa que o cristianismo traz. O cristianismo é uma religião de adultos.
A tradição cristã afirma que Deus é Trindade, que Deus é relação de confiança baseada na gratuidade. Deus é Comunhão. Deus é Amor. Santo Agostinho terá a sabe-doria de expressá-lo de forma que a sua frase ficará como um dos clássicos da teologia: “Se vês a Caridade [isto é, o amor, ou seja, a relação inter-pessoal de confiança baseada na gratuidade, ou seja, a comunhão plena], vês a Trindade [intuis que estás convidado por Deus a participar da sua vida, da sua actividade, da sua mesa de profunda amiza-de]”. “Se vês a Caridade, vês a Trindade”.
Como sabemos, os monges ortodoxos pintam ícones, que são o fruto da sua oração e diálogo com Deus, numa relação pessoal de confiança baseada na gratuidade, aceitando o convite de Deus a ocupar o seu lugar à mesa. A famosa “Trindade” de Rublev mostra isso: a Trindade sentada à mesa e olhando ao crente que reza com o ícone, convidando-o a acompanhá-los…e é por isso que a mesa está aberta na parte que falta…na parte do que ainda não está sentado à conversa: tu.
Isto não é nada novo, o novo seria que nos atrevêssemos a acreditá-lo, a confiar. “Queres entrar a jantar connosco?” A resposta só pode ser pessoal. Bom apetite.
Leituras: Provérbios 8, 22-31; Salmo 8; Romanos 5, 1-5; Evangelho de João 1, 12-15
Nota: a referência da frase do Sto. Agostinho é: De Trinitate VIII, 8, 12.

23 de maio de 2010

Enviai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra.


Termina hoje, Domingo de Pentecostes, o Tempo Pascal. Mas a vida continua. E embora não saibamos como continuará - pelo menos não temos certezas, podemos talvez pensar sobre a forma como gostaríamos que continuasse.
Em tempo de “crises” certamente que gostaríamos que houvesse uma renovação da terra, ou seja, que tudo aquilo que vem trazendo tristeza, sofrimento, preocupações, ... fosse renovado, transformado, de forma a termos um mundo melhor, mais justo, mais alegre...

Podemos então aproveitar esta festa, em que se revive a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, para iniciarmos esse empreendimento. Sim, iniciarmos - no plural. Não nos podemos esquecer que, para termos um mundo melhor, TODOS temos de pôr as “mãos na massa”. E, se calhar, começar por nos renovarmos a nós mesmos.

Imaginemos como estariam os apóstolos após tudo o que se passou com Jesus: a sua Morte e Ressurreição. Talvez angustiados, tristes, sem perceber o que se tinha passado com o seu Mestre, sem saber o que seria das suas vidas. Estavam em “crise”. E tudo isso porque a Morte de Jesus tinha surgido de uma forma completamente inesperada e dura. Essa “crise” surgiu quando menos a esperavam. Tudo o que eles pudessem ter imaginado sobre Jesus, sobre as suas vidas com Jesus, ou sobre A VIDA, depois de O terem conhecido, tinha ido por água abaixo. Eis senão que, quando já não esperavam nada, quando estavam reunidos e fechados em casa com medo do que lhes podia acontecer, do que poderia ser o seu futuro, Jesus aparece no meio deles. E aqui, espanto dos espantos, as primeiras palavras de Jesus são: “A paz esteja convosco”. É isso que nos traz o Jesus ressuscitado. Uma paz que tira o medo, que pôs os discípulos a caminho, que nos põe a caminho. O Espírito Santo vence o medo.

De acordo com o Papa Bento XVI, a descrição deste episódio, feita nos Actos dos Apóstolos, tenciona acentuar a atitude interior dos discípulos: ”Todos, unidos pelo mesmo sentimento, se entregavam assiduamente à oração” (Act 1, 14). Por conseguinte, a concórdia dos discípulos é a condição para que venha o Espírito Santo; e a condição prévia da concórdia é a oração.” Procuremos essa vida de oração, pedindo ajuda a Nossa Senhora, Mãe de Jesus. Nossa Senhora é cheia de graça, cheia do Espírito Santo, porque vazia de si. É esta disposição de vazio, de abandono de si mesmo, que permite que o Espírito Santo habite em cada um de nós e actue no mundo através de cada um de nós.

“É melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-lo enviarei.” (Jo 16, 7) Jesus partiu para junto do Pai, mas não nos deixou sozinhos. Recebamos o Espírito Santo, para assim conseguirmos dizer “SIM” ao convite de Jesus para viver e anunciar a sua Ressurreição.

Termino com algumas palavras que Bento XVI proferiu na missa do Porto, aquando da sua recente viagem a Portugal: “Meus irmãos e irmãs, é necessário que vos torneis comigo testemunhas da ressurreição de Jesus. Na realidade, se não fordes vós as suas testemunhas no próprio ambiente, quem o será em vosso lugar? O cristão é, na Igreja e com a Igreja, um missionário de Cristo enviado ao mundo. Esta é a missão inadiável de cada comunidade eclesial: receber de Deus e oferecer ao mundo Cristo ressuscitado, para que todas as situações de definhamento e morte se transformem, pelo Espírito, em ocasiões de crescimento e vida. Para isso, em cada celebração eucarística, ouviremos mais atentamente a Palavra de Cristo e saborearemos assiduamente o Pão da sua presença. Isto fará de nós testemunhas e, mais ainda, portadores de Jesus ressuscitado no mundo, levando-O para os diversos sectores da sociedade e quantos neles vivem e trabalham, irradiando aquela «vida em abundância» (Jo, 10, 10) que Ele nos ganhou com a sua cruz e ressurreição e que sacia os mais legítimos anseios do coração humano.”

16 de maio de 2010

Ascensão do Senhor

E subiu aos Céus onde está sentado à direita do Pai. Assim professamos a nossa Fé cada Domingo, quando rezamos o Credo. Hoje celebramos a Ascensão de Jesus, a Sua exaltação. No dia de hoje fazemos memória de tudo aquilo que Jesus nos anunciou desde que Incarnou e Se fez homem como nós.
A bênção que dava aos Apóstolos enquanto subia aos Céus é a mesma que desce hoje sobre nós. A Igreja que Jesus instituiu é a mesma que somos hoje. A alegria dos Apóstolos naquele instante prolongou-se até aos nossos dias e é a mesma que nos deve caracterizar.
Ainda movidos pelo entusiasmo da presença do Santo Padre Bento XVI entre nós, são as Suas palavras que nos fazem compreender como o mandamento de Jesus continua vivo e actual; dizia-nos o Papa, no Terreiro do Paço:
Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição eclesial, Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro.
Ora, se Jesus está entre nós, não será o Céu já aqui?

No dia de hoje, recordemos o
sim da nossa Mãe Maria, Mãe de Jesus - verdadeiro Deus como o Pai e verdadeiro homem como nós -; recordemos como nasceu pobre e humilde; como cresceu em "sabedoria, estatura e graça" e explicou as Escrituras; como reuniu à Sua volta Amigos de verdade que, cheios do Seu Amor, se converteram e morreram para anunciar o Reino do Pai: a Alegria plena. Recordemos os homens que, cheios de incredulidade ou inveja, O perseguiram e condenaram. Recordemos a Sua Paixão e Crucifixão, a traição e o arrependimento dos Seus maiores amigos, frágeis como nós. E recordemos o sepulcro vazio, a Sua Ressurreição e o pedido que nos deixou, pelos discípulos: ide e anunciai, em Meu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos.
E olhemos para a nossa vida: as alegrias, as amizades, as cruzes e as dores; aqueles que nos perseguem e quem perseguimos; os momentos de traição e incredulidade e aqueles em que nos superamos a nós mesmos e ousamos dizer
sim.

É o tempo de convertermos tudo o que somos em Alegria, porque o Senhor Jesus está connosco e já nada nos separará do Seu Amor. Foi Ele próprio que no-lo garantiu, que nos havia de enviar o Espírito Santo prometido pelo Pai. Hoje, somos nós a continuação da linhagem dos Apóstolos nesta Igreja de Cristo:
una, porque não exclui ninguém; santa, pois anuncia a Felicidade plena e verdadeira e a deseja para cada um; católica, universal, ansiosa por chegar a cada coração; apostólica, porque somos enviados de Cristo ao mundo que ainda não O conhece.


Leituras: Act 1, 1-11; Salmo 46 (47), 2-3.6-7.8-9 (R.6); Ef 1, 17-23; Lc 24, 46-53

13 de maio de 2010

Bento XVI - O significado de Fátima

Padre Lombardi: Fátima, será, em certo ponto, o cume – também espiritual – desta viagem. Santidade, qual o significado que as aparições de Fátima têm para nós hoje? Quando o senhor apresentou o texto do terceiro segredo de Fátima na Sala de Imprensa Vaticana, em junho do ano 2000, estávamos muitos de nós e outros colegas de então, e foi-lhe perguntado se a mensagem podia estender-se, para além do atentado a João Paulo II, também para outros sofrimentos dos Papas. Segundo o senhor, é possível enquadrar igualmente naquela visão o sofrimento da Igreja de hoje, pelos pecados de abusos sexuais contra os menores?

Santo Padre: Antes de tudo, gostaria de expressar a minha alegria de ir a Fátima, de rezar diante de Nossa Senhora de Fátima, que para nós é um sinal da presença da fé; que justamente dos pequenos nasce uma nova força da fé, que não se reduz aos pequenos, mas que tem uma mensagem para todo o mundo e toca a história precisamente no seu presente e ilumina esta história. No ano 2000, na apresentação, disse que uma aparição, ou seja, um impulso sobrenatural, não vem somente da imaginação da pessoa, mas na realidade da Virgem Maria, do sobrenatural; que um impulso deste tipo entra num sujeito e se expressa segundo as possibilidades do sujeito. O sujeito é determinado pelas suas condições históricas, pessoais, temperamentais e, portanto, traduz o grande impulso sobrenatural segundo as suas possibilidades de ver, de imaginar, de expressar; mas nestas expressões, articuladas pelo sujeito, esconde-se um conteúdo que vai além, mais profundo, e somente no curso da história podemos ver toda a sua profundidade, que estava – digamos – “vestida” nesta visão possível à pessoa concreta. Deste modo, diria também aqui que, além desta grande visão do sofrimento do Papa, que podemos referir ao Papa João Paulo II em primeira instância, indicam-se realidades do futuro da Igreja que se desenvolvem e se mostram paulatinamente. Por isso, é verdade que além do momento indicado na visão, fala-se, vê-se, a necessidade de uma paixão da Igreja, que naturalmente se reflete na pessoa do Papa; mas o Papa está para a Igreja e, assim, são sofrimentos da Igreja que se anunciam. O Senhor nos disse que a Igreja seria sempre sofredora, de diversos modos, até o fim do mundo. O importante é que a mensagem, a resposta de Fátima, não vai substancialmente na direção de devoções particulares, mas precisamente na resposta fundamental, ou seja, a conversão permanente, a penitência, a oração, e as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Deste modo, vemos que a resposta verdadeira e fundamental que a Igreja deve dar, que nós, cada pessoa, devemos dar nesta situação. A novidade que podemos descobrir hoje, nesta mensagem, reside também no fato que os ataques ao Papa e à Igreja vêm não só de fora, mas que os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja. Também isso sempre foi sabido, mas hoje o vemos de um modo realmente terrificante: que a maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja, e que a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de re-aprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender por um lado o perdão, mas também a necessidade de justiça. O perdão não substitui a justiça. Em uma palavra, devemos re-aprender precisamente estas coisas essenciais: a conversão, a oração, a penitência e as virtudes teologais. Assim respondemos que somos realistas ao esperar que o mal ataca sempre; ataca do interior e do exterior, mas que também as forças do bem estão presentes e que, no final, o Senhor é mais forte do que o mal, e Nossa Senhora é para nós a garantia visível, materna, da bondade de Deus, que é sempre a última palavra na história.

12 de maio de 2010

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI Centro Cultural de Belém - Lisboa

Venerados Irmãos no Episcopado,
Distintas Autoridades,
Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte,
Queridos amigos,

Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifónica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afecto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade actual.

De facto, a cultura reflecte hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do «presente» como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma «sabedoria», isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um «ideal» a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida «sabedoria» que faz parte do seu património. Este «conflito» entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De facto, um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja «tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. […] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

«A Igreja – escrevia o Papa Paulo VI – deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.

Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíadas, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso no encontro com os Artistas, 21/XI/2009).

Foi para «pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho» (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização – a «civilização do amor» - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.

11 de maio de 2010

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI Aeroporto da Portela, Lisboa Terça-feira, 11 de Maio de 2010

Senhor Presidente da República,
Ilustres Autoridades da Nação,
Venerados Irmãos no Episcopado,
Senhoras e Senhores!

Só agora me foi possível aceder aos amáveis convites do Senhor Presidente e dos meus Irmãos Bispos para visitar esta amada e antiga Nação, que comemora no corrente ano um século da proclamação da República. Ao pisar o seu solo pela primeira vez desde que a Providência divina me chamou à Sé de Pedro, sinto-me honrado e agradecido pela presença deferente e acolhedora de todos vós. Agradeço-lhe, Senhor Presidente, as suas cordiais expressões de boas-vindas, dando voz aos sentimentos e esperanças do bom povo português. Para todos, independentemente da sua fé e religião, vai a minha saudação amiga, com um pensamento particular para quantos não podem vir ao meu encontro. Venho como peregrino de Nossa Senhora de Fátima, investido pelo Alto na missão de confirmar os meus irmãos que avançam na sua peregrinação a caminho do Céu.

Logo aos alvores da nacionalidade, o povo português voltou-se para o Sucessor de Pedro esperando na sua arbitragem para ver reconhecida a própria existência como Nação; mais tarde, um meu Predecessor havia de honrar Portugal, na pessoa do seu Rei, com o título de fidelíssimo (cf. Pio II, Bula Dum tuam, 25/I/1460), por altos e continuados serviços à causa do Evangelho. Que depois, há 93 anos, o Céu se abrisse precisamente sobre Portugal – como uma janela de esperança que Deus abre quando o homem lhe fecha a porta – para reatar, no seio da família humana, os laços da solidariedade fraterna assente no mútuo reconhecimento de um só e mesmo Pai, trata-se de um amoroso desígnio de Deus; não dependeu do Papa nem de qualquer outra autoridade eclesial: «Não foi a Igreja que impôs Fátima – diria o Cardeal Manuel Cerejeira, de veneranda memória –, mas Fátima que se impôs à Igreja».

Veio do Céu a Virgem Maria para nos recordar verdades do Evangelho que são para a humanidade, fria de amor e desesperada de salvação, fonte de esperança. Naturalmente esta esperança tem como dimensão primária e radical, não a relação horizontal, mas a vertical e transcendente. A relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva, tende ao bem na esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética. A consciência é cristã na medida em que se abre à plenitude da vida e da sabedoria, que temos em Jesus Cristo. A visita, que agora inicio sob o signo da esperança, pretende ser uma proposta de sabedoria e de missão.

De uma visão sábia sobre a vida e sobre o mundo deriva o ordenamento justo da sociedade. Situada na história, a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida. Não se trata de um confronto ético entre um sistema laico e um sistema religioso, mas de uma questão de sentido à qual se entrega a própria liberdade. O que divide é o valor dado à problemática do sentido e a sua implicação na vida pública. A viragem republicana, operada há cem anos em Portugal, abriu, na distinção entre Igreja e Estado, um espaço novo de liberdade para a Igreja, que as duas Concordatas de 1940 e 2004 formalizariam, em contextos culturais e perspectivas eclesiais bem demarcados por rápida mudança. Os sofrimentos causados pelas mutações foram enfrentados geralmente com coragem. Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio.

Queridos irmãos e amigos portugueses, agradeço-vos uma vez mais as calorosas boas-vindas. Deus abençoe a quantos aqui se encontram e todos os habitantes desta nobre e dilecta Nação, que confio a Nossa Senhora de Fátima, imagem sublime do amor de Deus que a todos abraça como filhos.

9 de maio de 2010

a morada de Deus e a vida autência


Ontem, enquanto passeava numa quinta muito bonita, em Soutelo, passei por duas vezes debaixo da mesma árvore. Verde, fresca, grande. Na primeira vez estava a pensar em assuntos pessoais. Tão encafuado estava em mim que só à segunda passagem, me apercebi da beleza da árvore por que passara.

Pareceu-me então que esta pode ser uma imagem simples e ajustada do que é o pecado. Não reconhecer o poder daquilo que cada momento nos oferece, porque estamos fechados a pensar sobre nós, sem sairmos daí. Esse dentro fechado dá-nos segurança, mas faz-nos deixar a vida passar ao lado.


«Se não receberdes a circuncisão, segundo a Lei de Moisés, não podereis salvar-vos» | Talvez esse problema, que nos é tão comum, também se pode encontrar nas leituras deste domingo. Nos actos dos apóstolos, “alguns homens que desceram da Judeia [e] ensinavam aos irmãos de Antioquia”, por se fecharem na segurança da lei de Moisés, não reparam na beleza que Cristo trouxe: uma lei nova que os libertava de todas as outras. Amar como Ele nos amou!

Para Paulo e Barnabé, olhar Cristo implicava sair para fora de si. Implicava que os judeus saíssem para fora de todas as prescrições. Este era o único meio de reconhecerem “a altura, a largura e a profundidade” do amor de Deus!


«Na cidade não vi nenhum templo, porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro. A cidade não precisa da luz do sol nem da lua, porque a glória de Deus a ilumina e a sua lâmpada é o Cordeiro.» | A beleza é a única que tem a capacidade nos surpreender profundamente, tirando-nos de nós. Porque nos mostra o que nunca soubemos existir ou ver. Na cidade de Deus, a beleza traduz-se em presença e luz. A presença de Deus não se confina a um templo. A luz não se confina a um corpo celeste. O próprio Deus mostra que o seu movimento é o de sair de si. Este é o movimento do amor: sair de si. Desta saída resultam a atenção e o serviço.

Deus oferece-nos algo de muito maior, se não nos prendermos em nós mesmos. Se repartires o teu pão com os esfo­meados, se dares abrigo aos infelizes sem casa, se atenderes e vestires os nus e não des­prezares o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se (Is 58).


«Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada.» | Um dos efeitos mais profundos da Palavra de Deus é o de nos fazer perceber que estamos abertos por todos os poros para o que está fora de nós: o bom, o justo, a amor. Tudo isto se encontra fora de nós, porque não se realiza sem um outro.

É desta comunhão profunda com Deus, pela palavra, que somos enviados para fora de nós. Quando estamos fora de nós, ou seja, mais preocupados com os outros que connosco próprios, mostramos o que nos habita, o que nos ocupa, o que nos motiva. Irradiamos para os outros a luz dessa morada que, inesperadamente Deus montou em nós. Somos autênticos. Só fora de nós há autenticidade.

Cristo, ao trazer a lei do amor, quer mostrar-nos a via da autenticidade: sair de nós. Ele fê-lo e dá-nos a força para o fazermos também, sem nos dispensar da tarefa de tornarmos sensata a nossa existência, de darmos sentido e carne ao que nos habita.


Onde habito eu? Dentro ou fora?

8 de maio de 2010

A viagem do Papa

Bento XVI vem a Portugal e bastou isto para provocar a fúria do laicismo indígena. Parece que o presidente da Câmara de Lisboa e, a seguir, o próprio Estado resolveram dar “tolerância de ponto” nos dias em que Ratzinger está em Lisboa e, calculo, no Porto e em Fátima, para os católicos o poderem ir ver. Em Lisboa, muitos prédios resolveram içar um enorme cartaz que anuncia estapafurdiamente a coisa. Por todo o lado se preparam cerimónias de vária espécie e se constituem grupos para celebrar e aclamar o Papa. E até, como de costume, especialistas da “ponte” já se preparam para um longo fim-de-semana (no Algarve, suponho). Vamos ter também uns dias de histerismo na televisão e nos jornais. Como ateu, devo confessar que esta agitação não me impressionou e nem sequer fixei bem o itinerário de Ratzinger e o calendário dos festejos. Mas não partilho a indignação da gente – sem dúvida, meritória e culta – que vê na solicitude do Estado com o Papa uma agressão ao laicismo constitucional. Não se trata de saber se é ou não é católica a maioria dos portugueses. Tanto mais que nos tempos que vão correndo não deve ser muito fácil, nem para a Igreja, determinar com certeza o que é um católico. Pelo que tenho lido, o laicismo critica principalmente a utilização do espaço público para os festejos da visita e o patrocínio oficial que o Estado lhe deu, na forma de segurança policial e militar e na forma da famigerada “tolerância de ponto”. Num país que admite e protege qualquer espécie de manifestação, não acho nem despropositado nem excessivo que se faça o mesmo com Bento XVI.


Claro que o Papa, por razões de fé ou de curiosidade, atrai um muito maior número de pessoas do que um sindicato, um partido, uma banda de rock ou, simplesmente, o congresso nacional das filarmónicas de província. Atrairá com certeza milhões. Não admira, por isso, que o Estado tome, como lhe compete, as suas medidas, nem que o Governo se queira associar à ocasião para beneficiar por reflexo da popularidade de Ratzinger. Sempre foi assim. O que há de novo é o azedume do laicismo moderno. Mais precisamente: do ateísmo moderno, que se julga científico e absoluto. A democracia tolera o mundo inteiro. Só não tolera a Igreja Católica e, em especial, Bento XVI, provavelmente porque nunca o leu. Ou talvez porque o leu.

Vasco Pulido Valente, in Público 08/05/2010

7 de maio de 2010

“Onde eu me encontro com Bento XVI”, José Manuel Fernandes, Público 7 de Maio 2010

Na altura em que Bento XVI foi eleito, em Abril de 2005, previ que "dificilmente" o seu papado seria o de um mero continuador de João Paulo II. Cinco anos depois, e quando se prepara para visitar pela primeira vez Portugal como chefe da Igreja de Roma, é claro para todos que o Papa alemão não procurou ser o que não era - um líder carismático, à imagem do seu antecessor -, antes não descurou a reorganização da Igreja, centrando-a nos combates mais importantes da actual pós-modernidade.

Horas antes de se iniciar o Conclave que o escolheria como sucessor de Pedro, o então cardeal Ratzinger proferiu, como decano do Colégio dos Cardeais, uma homília que se tem vindo a revelar todo um programa. "Possuir uma fé clara, seguir os ensinamentos da Igreja, é classificado com frequência como fundamentalismo", disse então, perante os 115 cardeais eleitores. "Em contrapartida, o relativismo, isto é, o deixar-se levar "para aqui ou para ali por qualquer vento ou doutrina" parece a única atitude aceitável nos tempos que correm. Toma corpo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa tudo ao critério do próprio ego e dos seus desejos".

Ao definir o relativismo moderno como o maior adversário contemporâneo do humanismo cristão, lembrou que "ser-se adulto" significa ter uma fé que não segue atrás das ondas das modas de hoje ou das últimas novidades". E por isso, apesar das mudanças que tem vindo a introduzir na Igreja - nomeadamente na dolorosa e delicada frente da denúncia e prevenção dos casos de pedofilia, onde tem sido de uma grande pro-actividade -, Bento XVI nunca se deixou levar pelo vento que, a espaços, foi soprando mais forte em diferentes direcções.

Ora o relativismo moderno não é apenas adversário do humanismo cristão - coloca também enormes desafios ao tipo de sociedades em que vivemos, livres e abertas porque baseadas num contrato de confiança entre todos os cidadãos que partilham um corpo de valores civilizacionais. Tal sucede porque o relativismo moderno dissolve esses valores sem deixar qualquer alternativa no seu lugar.

Quando Bento XVI critica, por exemplo, o niilismo ou o multiculturalismo, fá-lo a partir de um terreno que partilha com todos os que se preocupam com o deslaçamento e a inumanidade prevalecentes em muitos aspectos das sociedades contemporâneas.

O multiculturalismo não é uma forma de tornar as nossas sociedades mais plurais, pois não parte da necessária base comum a qualquer convivialidade, antes do esbatimento dos valores preexistentes. Por isso, ao criar um lugar vazio e sem referências, o multiculturalismo nunca poderá ser um ponto de encontro, antes de desencontros e mal-entendidos. E o niilismo anda naturalmente de braço dado com o multiculturalismo, sobretudo se pensarmos que este corresponde, de acordo com a definição de Leo Strauss, a não querer nada, não valorizar nada.

A crítica de Ratzinguer/Bento XVI tanto ao multiculturalismo como ao niilismo, onde as referências teológicas não impedem o recurso a grandes pensadores da liberdade e das sociedades abertas, como Karl Popper ou Isaiah Berlin, centra-se no que designa como a diminuição da "energia moral" nas nossas sociedades. "A segurança, de que necessitamos como pressuposto da nossa liberdade e da nossa dignidade, não pode vir, em última análise, de sistemas técnicos de controlo, mas apenas da força moral do homem: onde esta faltar, ou não for suficiente, o poder que o homem possui cada vez mais se transformará num poder de destruição", pode ler-se num dos seus textos.

Homem que conheceu, na sua Alemanha, o horror de um despotismo ateu - o nazismo - e que enfrentou, na universidade onde ensinou, os excessos do idealismo político dos anos 60 e 70 - que por vezes desembocaram no terrorismo -, Bento XVI defende que o moralismo político contemporâneo é "um moralismo de sentido errado, porque privado de uma serena racionalidade" e porque coloca com frequência "a utopia política acima da dignidade de cada homem".

Depois da derrota das ideologias que proclamavam a existência de um moralismo político absoluto e insusceptível de contestação, a nova fronteira do debate transferiu-se para estes terrenos que, se muitos proclamam vazios e sem referências, são na realidade um terreno propício às ambições políticas mais desenfreadas. Ambições que, como se viu com o nazismo, como se viu com o comunismo, lidam muito mal com uma qualquer autoridade exterior à área da política e do poder. Do "seu" poder.

Uma forma moderna dessa intolerância é o laicismo radical, "adversarial", isto é, aquela forma de olhar para a separação entre o Estado e a Igreja que não é neutra em relação aos diferentes credos, antes procura ocupar o seu espaço e, por isso, os combate. É um laicismo que, tal como sucedeu durante a I República com a Lei da Separação, não visa separar o que é de César do que é de deus, antes submeter o que é de deus aos desígnios de César.

Naturalmente que a originalidade radical do Cristianismo face a outras religiões monoteístas é incorporar essa separação desde a sua origem e, no caso do catolicismo, de manter um autoridade única, central e separada, capaz de ler os sinais dos tempos sem ser escrava das modas, o que é insuportável para os que cultivam o racionalismo sem concessões. No caso concreto de Bento XVI, as suas encíclicas e a notável lição preparada para ser lida na Universidade de Roma La Sapienza incomodam ainda mais por nelas se defender não só a pacífica coabitação entre fé e razão como - e cito Giorgio Israel, professor de História da Matemática - que "a fé não cresce a partir do ressentimento e da recusa da modernidade". Mais: por se defender que "o perigo do mundo ocidental é que o homem, obcecado pela grandeza do seu saber e do seu poder, esqueça o problema da verdade. E isto significa que a razão, no fim do dia, acabará por vergar-se às pressões dos interesses e do utilitarismo, perdendo a capacidade de reconhecer a verdade como critério único".

Por isso, como notou Ernesto Galli della Loggia no Corriere de la Sera, o gesto dos professores que impediram a ida de Bento XVI à La Sapienza, tal como o dos nossos furiosos "laicos", traduz sobretudo "uma laicidade oportunista, alimentada por um cientismo patético, arrogante na sua radicalidade cega".

O tímido Cardeal Ratzinger, que tímido não deixou de ser depois de ser eleito Papa, não se desviou da linha que, lida à distância, a sua homília pré-conclave traçava. Talvez também por isso, apesar de lidar melhor com as ideias diferentes do que o próprio João Paulo II, não tenha conseguido escapar ao estereótipo que, antes do mais, visa dar dele uma imagem caricatural e preconceituosa. Até porque o que Bento XVI diz incomoda mesmo os teólogos destas "novas" verdades reveladas, pois poucos, num lugar de poder como o dele, diriam humildemente que mesmo um Papa em Roma não existe para "impor a Fé de cima, pois esta é antes do mais um dom da liberdade".

E não há dúvida que é.

Talvez por isso mesmo eu, que não tenho fé, termine lembrando que, pouco tempo antes da morte de João Paulo II, numa conferência na Escola de Cultura Católica de Santa Croce, em Bassano, o ainda cardeal Ratzinger propôs a inversão do axioma dos iluministas de acordo com o qual era possível definir as normas morais essenciais etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse, para passar a propor que "mesmo aqueles que não conseguem encontrar o caminho da aceitação de Deus deveriam procurar viver e orientar a sua vida veluti si Deus daretus, como se Deus existisse". Lembrou então que esse fora o conselho de Pascal aos seus amigos não-crentes, considerando que, assim, "ninguém fica limitado na sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram o apoio e o critério de que têm urgente necessidade".

Como alguém que se reconhece nos valores de uma Europa que, como Bento XVI correctamente defende, não é apenas um lugar geográfico mas o produto de uma civilização, e que a matriz dessa civilização é o Cristianismo (sem o qual não teria sido sequer possível o Iluminismo), aceito este desafio. Mais: nesse desafio marco encontro com Bento XVI e com a sua luta civilizacional, que é também minha.

5 de maio de 2010

Michel Henry (1922-2002)

«O acto de se mostrar, considerado em si mesmo, é a essência da verdade. Porquanto esta consiste no puro acto de se mostrar, aparecer, manifestar, revelar, podemos chamar à verdade (...) "revelação"»
[In: Eu Sou a Verdade: por uma filosofia do cristianismo. Vega: Lisboa, 1998, p. 23]

2 de maio de 2010


"E os confiaram ao Senhor, em quem tinham acreditado"

Paulo e Bernabé (um dos seus discípulos e colaboradores mais próximos, de quem sabemos pouco) andam a viajar pela Ásia Menor toda visitando as primeiras comunida-des cristãs, que navegam entre a força dos começos e as dificuldades de toda grande obra que se inicia, para alem das perseguições das autoridades políticas e religiosas que os têm grandemente controlados.
Para isso, Paulo e Bernabé atravessam precipícios, mares, povoações de romanos, gregos e judeus que os põem em situações de autêntico perigo de morte. Os bandidos abundam nos caminhos…e ninguém sabe se a climatologia acompanhará…
Mas eles não se importam, e até encorajam aos cristãos das distintas cidades lhes avisando de que “é preciso passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus”. Bem o sabiam eles!!!
No texto que hoje a liturgia nos oferece temos expressões do género como a frase do título deste comentário. E também esta outra: “puseram-se a referir tudo o que Deus tinha feito com eles, e como havia aberto a porta da fé aos gentios”. É crucial reparar-mos em que não dizem puseram-se a referir tudo o que tinham feito e como haviam aberto a porta da fé aos gentios…embora são eles os que se jogam a vida e se cansam nas viagens. Nem também não pedem aos eleitos que confiem neles, em quem tinham acreditado…não, sempre fazem referência a Deus como autor e protagonista das coisas que vão acontecendo neste crescimento da comunidade dos seguidores de Cristo.

Um outro homem, João, foi discípulo de Jesus e visitou a Samaria junto com Pedro a anunciar que o seu mestre era “o Senhor vivo”, com tudo o que isso significa. Mas tra-go-o à palestra porque dele se conta que quando criava as suas comunidades de discípu-los, nos seus últimos anos de vida, cansado e gasto após tantas experiências e trabalhos, e alguém lhe perguntava o que era o mais importante que tinha aprendido com Jesus, ele apenas podia pronunciar, entre lágrimas de emoção (imaginemos a cena, um homem adulto e cheio de experiência, lembrando-se do seu amigo e mestre, do seu Senhor), “amai-vos como eu vos amei” e se escusava retirando-se da conversa. Quem me contava esta história, ao tempo duma sobremesa num jantar em casa duma família, tinha os olhos brilhantes e um sorriso tímido de repente, como de quem percebe que quase tem que se escusar também. Após quarenta anos numa cidade de Espanha, tinha regressado dum ano intenso no Brasil de formação e serviço a comunidades rurais, e se preparava a partir para um novo destino numa outra cidade espanhola…era um jesuíta amigo da minha família e o jantar estava a acontecer na casa dos meus pais.

O que são cristãos? Homens e mulheres aos quais a procura e a descoberta (nunca sabem muito bem o que é antes) do seu “Senhor vivo” lhes muda os critérios na vida…e lhes faz passar mares, suportar risos, ultrapassar situações de miséria e de rejeição, rela-tivizar o sofrimento e o trabalho que essa nova vida lhes traz…porque têm conhecido o amor das suas vidas, e têm acreditado nele. E isto lhes basta. Homens apaixonados, enamorados, de Jesus.

E tu, o conheces? Sim, estou a referir-me a ele… Já conheces Jesus?

Leituras: Actos 14, 20b-26.
Evangelho de João 13, 33-35