31 de agosto de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo



Equívoco fundamental

O maior drama do ateísmo radical não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir o seu objectivo: erradicar a religião, mesmo que essa erradicação se refira apenas à religião enquanto instituição. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.


Oitavo equívoco: a persistência do literalismo bíblico

1. Os ‘novos ateus’ têm uma atracção especial pela Bíblia, citando repetidamente as suas passagens mais chocantes, e recusando-se a afastar-se da interpretação literal sistemática e descontextualizada de tais passagens, à boa maneira do fundamentalismo criacionista e de uma tradição que, embora tenha persistido durante séculos nas Igrejas Cristãs, foi já definitivamente abandonada com base numa hermenêutica actualizada e fundamentada.

2. A interpretação literal bíblia serve perfeitamente a autores como Sam Harris, Vitor Stenger e Richard Dawkins, como aos demais ateus radicais, tanto para mostrar a imagem de um Deus insensível e cruel, como para lançar o descrédito sobre a verdade de narrações relativas a personagens, acontecimentos e afirmações sobre o universo. Vitor Stenger parte do equivocado pressuposto de que nem sequer vale a pena estudar com rigor hermenêuto o texto bíblico: “Todos fomos criticados por não prestarmos suficiente atenção à teologia moderna. Estamos mais interessados em observar o mundo e tirar as nossas ilações destas observações do que debater questões subtis das escrituras que provavelmente não passam de fábulas.” (Vitor Stenger, The New Atheism, p. 13)

3. Dawkins, por seu lado, juntando-se, paradoxalmente, aos fundamentalistas cristãos, não aceita, que se faça uma interpretação bíblica diferenciada, segundo o estilo literário das diversas passagens bíblicas e o contexto histórico e cultural dos textos bíblicos. Em vez disso, ele aceita apenas uma indiferenciada, acrítica e descontextualizada. Afirma com efeito: “É claro que os teólogos mais impacientados afirmarão que já não seguimos o livro do Génesis à letra. Mas é aí que eu quero chegar! Debicamos aqui e além quais as partes das Escrituras em que acreditamos, quais aquelas que pomos de lado como sendo alegorias. Essas escolhas são uma questão de decisão pessoal tanto – ou tão pouco – quanto a decisão do ateu em seguir este ou aquele preceito moral será uma decisão moral desprovida de um fundamento absoluto.” Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, pp. 286-287) Mais uma vez Dawkins revela um desconhecimento total das mais elementares normas da hermenêutica textual, seja ela bíblica ou outra. O autor deveria saber que a distinção entre os sentidos literal e metafórico das passagens bíblicas não é de modo nenhum uma questão meramente pessoal e subjectiva. Os numerosos estudos bíblicos mostram bem que há uma base objectiva na interpretação bíblica, e que há critérios objectivos para determinar quando uma passagem deve ser interpretada em sentido literal e quando essa interpretação não é possível, por exemplo, quando entra em contradição com dados provenientes da história, das ciências naturais, etc.

4. Já na Idade Média o cristianismo distinguia quatro sentidos hermenêuuticos na interpretação do texto bíblico: literal, metafórico, moral e escatológico. No início da Idade Moderna Galileu estabeleceu em diversos dos seus textos a diferença fundamental entre a interpretação literal e a metafórica, partindo, além disso, do pressuposto de que a Bíblia não tem como intenção o ensino de conhecimentos que pertence à investigação científica descobrir: “Eu acreditaria que a autoridade das Sagradas Letras tivesse tido em mira apenas persuadir os homens daqueles artigos e proposições que, sendo necessários para a salvação deles, e superando todo o discurso humano, não poderiam tornar-se credíveis nem por outra ciência, nem por outro meio, senão pela boca do próprio Espírito Santo. Mas que aquele mesmo Deus, que nos dotou de sentidos, de discurso e de intelecto tenha querido, preterindo o uso destes, nos dar por outro meio as informações que podemso conseguir por aqueles, não penso que seja necessário crê-lo.” (Galileu Galilei, “Carta a Dom Benedetto Castelli” em Carlos Nascimento (ed.), Ciência e Fé. Galileu Galilei, São Paulo: Unesp, 2008, pp. 20-21). Nesta mesm linha surge uma afirmação de um recente texto da Pontifícia Comissão Bíblica sobre as consequências indevidas de uma interpretação literal de passagnes bíblicas relativas a questões cosmológicas: “O fundamentalismo tem igualmente tendência a uma grande estreiteza de visão, pois ele considera conforme à realidade uma antiga cosmologia já ultrapassada, só porque se encontra expressa na Bíblia; isso impede o diálogo com uma concepção mais ampla das relações entre a cultura e a fé." (www.vatican.va)

5. É por esta razão que a interpretação da narração bíblica da criação do mundo e da vida contida nos três primeiros capítulos do Livro do Génesis não pode ser literal (Cf. Joseph Ratzinger, No Princípio criou Deus o Céu e a Terra, Principia, 2010), uma vez que entra em contradição com os dados da cosmologia contemporânea. No entanto, Dawkins não está interessado neste facto, preferindo colocar-se ao lado dos cristãos fundamentalistas. Esta estratégia é indispensável aos ateus radicais não apenas para criar uma pretensa oposição entre a Bíblia e a ciência, como também para se dedicarem à crítica das posições hermenêuticas fundamentalistas de personalidades públicas e das estatísticas que mostram a grande percentagem de cristãos literalistas, sobretudo nos Estados Unidos. Com esta estratégia argumentativa Dawkins e outros ateus radicais preferem evitar o confronto com posições da hermenêutica bíblica mais actualizadas e adequadas que as do literalismo fundamentalista. Com base na defesa do fundamentalismo bíblico, a obra de Dawkins A Desilusão de Deus está, como se viu, recheada de passagens bíblicas nas quais Deus surge como um tirano e o comportamento ético de muitas personagens de relevo é altamente reprovável e em nada digno de imitação.

6. O literalismo criacionista e fundamentalista que Harris, Dawkins e outros paradoxalmente defendem como correspondendo à atitude hermenêutica mais correcta, serve-lhes não apenas para atacar os que defendem uma hermenêutica não literalista como também para mostrarem a aparente inaceitabilidade do Deus cristão. A estratégia argumentativa consiste no recurso à falácia de tomar uma parte pelo todo. De facto,os autores escolhem apenas algumas passagens dos livros bíblicos, nas quais Deus se manifesta como um ser castigador, cruel, que apenas pode suscitar terror. Esta imagem é em seguida generalizada e apresentada como correspondendo ao ‘Deus bíblico’. Os autores ignoram que os diversos textos bíblicos foram redigidos em épocas, circunstâncias e culturas diferentes, e ignoram igualmente que a Bíblia é considerada pelos cristãos como palavra de Deus mas que é, naturalmente, expressa em linguagem humana. Como afirma um recente documento da Pontifícia Comissão Bíblica sobre a interpretação fundamentalista da Bíblia: “O fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus. Ele se recusa em admitir que a Palavra de Deus inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, ele tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado palavra por palavra pelo Espírito e não chega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada em uma linguagem e uma fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Ele não dá nenhuma atenção às formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e leva a marca de situações históricas muito diversas.” (www.vatican.va)

7. Tendo tudo isto em consideração, torna-se evidente que se deve distinguir no conteúdo bíblico o que é essencial do que é circunstancial, e que se deve ter em mente o sentido do conjunto dos textos bíblicos. É o sentido do conjunto, bem como a sua contextualização hostórica e cultural, que permite chegar ao sentido coerente de todas as afirmações bíblicas. Isto pressupõe que a descoberta de Deus pelo povo judeu se foi fazendo lenta e progressivamente, ao mesmo tempo que o mesmo Deus se ia revelando lenta e progressivamente. Por conseguinte, há que considerar que a imagem de Deus que se encontra na Bíblia é um ‘conjunto de imagens’ sucessivas cujo pleno significado se atinge somente em Jesus Cristo.

P. Alfredo Dinis,sj

5 de agosto de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo







Equívoco fundamental

O maior drama do ateísmo radical não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir o seu objectivo: erradicar a religião, mesmo que essa erradicação se refira apenas à religião enquanto instituição. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Sétimo equívoco: Os religiosos moderados são os verdadeiros responsáveis pelos fundamentalismos religiosos (Sam Harris e Richard Dawkins)

1. Sam Harris sustenta na sua obra O Fim da Fé uma surprendente tese contra o que chama ‘o mito da moderação religiosa’: que a tolerância religiosa é responsável pelo fundamentalismo religioso de extremistas como Osama Bin-Laden e os seus seguidores. Vejamos a forma surpreendente e contraditória como o autor aparentemente fundamente esta não menos surpreendente e contarditória tese.

2. A interpretação literal é para Harris, como para os fundamentalistas, a única interpretação correcta da Bíblia ou de qualquer livro sagrado. Por conseguinte, são os religiosos moderados que estão errados, ao distinguirem os diversos estilos literários de muitos textos religiosos, e não os fundamentalistas que apenas admitem uma interpretação literal: “É este o problema da ‘moderação’ religiosa: nada a justifica, a não ser a negligência despudorada da palavra divina.”(O Fim da Fé, Ed. Tinta da China, p. 21). Paradoxalmente, Harris o ateu militante, apresenta-se aqui, de mãos dadas com os fundamentalistas cristãos, incluindo os criacionistas, como um zeloso defensor da palavra divina. O autor ignora, porém, os mais elementares princípios da hermenêutica em geral, para já não falar da hermenêutica bíblica em particular. Ele estabeleceu como único princípio de hermenêutica bíblica que são os religiosos fundamentalistas os únicos a fazerem uma leitura correcta dos textos sagrados, sejam eles a Bíblia, o Corão ou quaisquer outros, e este princípio não admite qualquer crítica, embora acuse os crentes em geral de completa ausência de espírito crítico. Harris ignora por completo que o que o que afasta os religiosos moderados de uma interpretação sistematicamente literal dos textos sagrados é precisamente a atitude crítica e informada com que lêem esses textos.

3. O pensamento de Harris baseia-se numa ultrapassada concepção de inspiração divina das escrituras, particularmente no que se refere à Bíblia. Até ao Concílio Vaticano II, realizado há quase meio século, a concepção cristã sobre a inspiração divina da Bíblia era muito semelhante à que ainda vigora entre os muçulmanos: toda e qualquer palavra contida na Bíblia foi ditada directamente por Deus e tem um significado directo, literal, que não pode ser objecto de interpretação humana.

4. O autor confunde os princípios da fé religiosa tal como estão expressos nos livros sagrados das várias religiões com a sua concretização em comportamentos individuais e inicitivas colectivas. Esquece Harris que há hoje muitos muçulmanos moderados que desaprovam incondicionalmente todos os comportamentos fundamentalistas como os dos bombistas suicidas, e isto precisamente porque os princípios religiosos não são compatíveis com todo o género de interpretação e concretização. Por isso mesmo, em nenhuma religião os crentes moderados aprovam toda e qualquer concretização dos princípios religiosos, muito menos os comportamentos violentos. E isto em nome da razão.

5. Mas é precisamente este exercício da razão pelos crentes moderados que Harris não admite. Os moderados, longe de merecerem qualquer louvor, são objecto de crítica por não desejarem senão sobreviver numa cultura em contínua mudança. Referindo-se à interpretação não literalista dos textos sagrados pelos crentes moderados afirma o autor: “As pessoas razoáveis que existem em todas as confissões são obrigadas a fazer uma interpretação livre ou simplesmente ignorar muitos dos seus cânones para conseguirem viver melhor no mundo moderno… A primeira observação a fazer sobre a rejeição de uma leitura textual das escrituras por parte dos moderados é o facto de ela se inspirar não nas escrituras propriamente ditas, mas sim nos desenvolvimentos culturais que tornaram difíceis de aceitar muitas das afirmações de Deus tal como foram originalmente escritas.” (O Fim da Fé, pp. 19-20) Subitamente, porém, Harris faz uma afirmação sobre os moderados profundamente contraditória: “O problema que a moderação religiosa nos coloca a todos é que não admite qualquer crítica à literalidade religiosa.” Ora, é exactamente o contrário que acontece. Os moderados criticam o literalismo hemenêutico enquanto que Harris e os fundamentalistas o defendem acriticamente, Pretendendo exprimir o pensamento dos moderados, Harris continua: “Não podemos dizer que os fundamentalistas estão loucos, já que eles estão apenas a exercer a sua liberdade de culto; não podemos sequer dizer que eles estão enganados em matéria de religião, porque o seu conhecimento científico das escrituras é, regra geral, inigualável.” (O Fim da Fé, p. 23) Ora, esta afirmação, que pretende exprimir a posição dos religiosos moderados é incompreensível e está em contradição com tudo o que Harris afirmou anteriormente. O que os moderados afirmam é exactamente o contrário.

6. Este argumento de Harris é tão contraditório em todos os seus passos que é incompreensível que seja ainda hoje considerado um dos grandes textos do novo ateísmo. Compreende-se que Harris se sinta incomodado pelos chamados moderados religiosos, que com base no uso da razão e numa actualizada visão do mundo não aceitam os literalismos hermenêuticos que levam a todos os fundamentalismos. Mas não é possível levar a sério este como muitos outros dos seus argumentos. Em nome da razão.

7. A mesma tese sustenta Richard Dawkins: “a religião, mesmo quando esbatida e moderada, ajuda a proporcionar o clima de fé emque o extremismo, naturalmente, floresce.” (Richard Dawkins, A Desilusão de Deus, Casa das Letras, p. 361) E continua: “enquanto aceitarmos o princípio de que a fé religiosa deve ser respeitada pelo simples facto de ser fé religiosa, será difícil negar o respeito à fé de Osama bin Laden e dos bombistas suicidas. A alternativa, tão óbvia que não devia ser preciso insistirmos nela, é abandonar o princípio do respeito automático pela fé religiosa…. Embora em si mesmos não sejam extremistas, os ensinamentos da religião ‘moderada’ são um convite aberto ao extremismo.” (A Desilusão de Deus, p. 365)

8. A posição de Dawkins deverá aplicar-se a todos os domínios da vida social, económica e política nos quais sempre houve e sempre haverá moderados e extremistas. Dever-se-á então afirmar que são precisamente os moderados em política, os democratas que respeitam a existência de diversos partidos políticos, que são os responsáveis pelos ditatoriais? A moderação dos membros de partidos democráticos não implica que estes estejam disponíveis a respeitar, muito menos a encorajar, a constituição de partidos extremistas como são os partidos fascistas e racistas, muito menos a sua subida ao poder. E se algum partido subiu ao poder através de eleições, como, por exemplo, o partido nacional-socialista de Adolfo Hitler, não foi certamente com base no seu programa de extermínio dos judeus que se deu a sua vitória eleitoral. Se analisarmos os exemplos históricos da relação entre extremistas e moderados nos diversos domínuos da vida em sociedade, facilmente constataremos que a posição de Dawkins não tem qualquer fundamento e deve ser claramente recusada. Em nome da razão.