31 de dezembro de 2010

O novo fardo do homem, e cristão


É um sinal dos tempos a indiferença perante o regresso das perseguições religiosas um pouco por todo o mundo.

Bernard-Henri Lévy defendeu esta semana, no El País, que "os cristãos formam hoje, à escala planetária, a comunidade perseguida de forma mais violenta e na maior impunidade". Mais: "enquanto o anti-semitismo é considerado um crime e os preconceitos anti-árabes ou anticiganos são estigmatizados, a violenta fobia anticristã que percorre o mundo não parece ter qualquer resposta".
Curiosas palavras vindas de um não-cristão, interessantes considerações proferidas por quem, em tempos, ajudou a fundar o SOS-Racismo. E singularmente coincidentes com as de Bento XVI, que, na sua mensagem a propósito do próximo Dia Mundial da Paz, também notou que "os cristãos são, actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé".
São raras as notícias sobre estas perseguições, mas isso não significa que elas não existam - apenas que não lhes é dada a importância que merecem. Parece mesmo existir uma espécie de sentimento de culpa que leva a que, ao mesmo tempo que se destacam os ataques aos crentes de outras religiões, se subvalorizam aqueles de que são vítimas os cristãos - católicos, ortodoxos, evangélicos, baptistas e por aí adiante.
Vejamos alguns exemplos recentes. Na Nigéria, o Natal foi marcado por uma série de atentados, de que resultaram 86 mortos, todos reivindicados por uma organização islamista. Em Hanói, as autoridades proibiram uma celebração protestante e a polícia carregou sobre os crentes que rezavam na rua. No Azerbaijão, foi aprovada legislação que aumenta as multas aplicáveis a todos os grupos que tenham actividade religiosa sem antes se terem registado oficialmente. No Paquistão, uma mulher cristã, Asia Bibi, foi condenada à morte por blasfémia. No Irão, foram muitos os cristãos que passaram o Natal na cadeia, alguns deles acusados de apostasia (terem trocado a fé muçulmana por outra). Pouco antes do Natal, um grupo de cristãos coptas foi morto no Egipto perto da sua igreja. Nas Filipinas, uma bomba feriu 11 pessoas durante uma missa no dia de Natal. Na cidade chinesa de Chendgu, a polícia invadiu uma igreja na véspera de Natal e levou presos 17 crentes, incluindo uma mulher grávida. Na Índia, ocorreram ataques contra comunidades cristãs conduzidos por fundamentalistas hindus. E, no Iraque, onde a intensidade do ataque às comunidades cristãs tem levado a um êxodo em massa, várias cerimónias natalícias foram canceladas após terem sido recebidas ameaças de grupos ligados à Al-Qaeda.
Bernard-Henry Levy acrescenta a estes muitos outros exemplos, incluindo a prisão de uma jovem internauta na Palestina de Mahmud Abbas, a tentativa de assassinato do arcebispo de Kartum, Gabriel Zubeir Wako, a perseguição aos cristãos evangélicos da Eritreia, ou a morte a tiro do padre Christian Bakulene na República Democrática do Congo. O terrível destino da comunidade de monges franceses que vivia num mosteiro católico na Argélia e foi assassinada por um grupo de fundamentalistas islâmicos, e que Xavier Beauvois nos conta no belíssimo filme Dos Homens e dos Deuses (ainda em exibição), está longe de ser um exemplo isolado de violência sectária.
Não faltará quem, como alerta o filósofo francês, esteja pronto a fechar os olhos perante estes crimes lembrando o antigo estatuto de religião dominante do Cristianismo. É um disparate imenso, sob todos os pontos de vista. Primeiro, porque todas as vidas humanas têm o mesmo valor, e nada nos permite diminuir a integralidade de qualquer ser humano, seja ele hindu, muçulmano, ateu ou cristão. Depois, porque se é verdade que os cristãos, como tantos outros, promoveram "guerras santas", não se pode ignorar que a emergência dos valores modernos da liberdade, da igualdade e da dignidade humana medrou em sociedades cristãs, nelas tendo ganho corpo e foros de cidadania muito antes de tal ocorrer noutras civilizações. É bom recordar, por exemplo, que na primeira república democrática moderna, os Estados Unidos, a liberdade religiosa antecedeu a liberdade política e, como justamente notou Tocqueville, a forte presença da religião na sociedade não impediu a criação de um Estado forte e separado das igrejas.
Bento XVI, que dedica precisamente a sua mensagem de 1 de Janeiro de 2011 à liberdade religiosa, nota que esta se radica "na própria dignidade da pessoa humana" e está "na origem da liberdade moral", pois se estabelece que "cada homem e cada grupo social estão moralmente obrigados, no exercício dos próprios direitos, a ter em conta os direitos alheios e os seus próprios deveres para com os outros e o bem comum", como proclamou o Concílio Vaticano II. Invocando a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o Papa defende que excluir a religião da vida pública torna mais difícil "orientar as sociedades para princípios éticos universais" ou "estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados".
Na mira do chefe da Igreja Católica está um laicismo radical que se traduz na "hostilidade contra a religião" e numa limitação ao "papel público dos crentes na vida civil e política". É neste quadro que Bento XVI não se limita a desejar que terminem as perseguições sectárias aos cristãos na Ásia, em África ou no Médio Oriente, mas também faz votos para que "cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo facto de estes pretenderem orientar a própria vida de modo coerente" com os seus valores.
Em causa não está a laicidade das instituições ou o direito de crítica, que no Ocidente é exercida com veemência sem que suscite apelos à censura por parte das igrejas cristãs (ao contrário do que sucede com os muçulmanos). Em causa está, isso sim, saber se é legítimo despedir uma enfermeira em Inglaterra porque esta insistiu em usar um crucifixo. Ou se, também em Inglaterra, é legítimo levantar um processo contra um psicólogo que distribuiu aos seus colegas de serviço um desdobrável sobre os efeitos negativos do aborto com base no argumento de que isso é "perturbador".
Entretanto, chega-nos de Espanha outro tipo de notícias perturbantes. Em Lérida, um imã radical criou uma milícia privada que anda pelas ruas a perseguir os muçulmanos que têm comportamentos não ortodoxos (na forma de vestir, por exemplo), perante a indiferença das autoridades. Enquanto isso, na província de Cádiz, um jovem muçulmano fez queixa na polícia do seu professor de Geografia por este ter falado, nas aulas, das condições em que fabricava presunto (o Ministério Público espanhol teve, neste caso, o bom senso de arquivar a queixa).
O contraste entre estas situações faz-nos regressar à ideia de que tendemos a olhar para a violência anticristã com critérios mais condescendentes ou mesmo com um espírito compreensivo. É como se entendêssemos que todos os cristãos devem carregar um novo "fardo do homem branco", sendo obrigados a penar, pelos cinco continentes, os pecados da colonização e, por isso, sendo sempre culpados de todos os males, mesmo quando estão inocentes...

José Manuel Fernandes
Jornalista, www.twitter.com/jmf1957

Publicado no Jornal Público, no dia 31 de Dezembro de 2010
Imagem: Goya - homem carregando fardo

30 de dezembro de 2010

No Natal penso no mundo (e não só).

As relações comerciais injustas a nível internacional constituem uma das causas principais da pobreza e a desigualdade entre o Norte e o Sul. O Norte fixa as regras baseadas na competitividade e o máximo beneficio a qualquer preço. Estas regras empobrecem o Sul, que é a principal fonte de matérias-primas e mão de obra barata, e limitam o seu desenvolvimento.
Detrás de muitos dos artículos que compramos no nosso pais escondem-se as seguintes realidades: exploração do trabalho, exploração infantil, discriminação da mulher, salários de miséria, condições de trabalho insalubres e inumanas e destruição do entorno meio ambiental.

O Comércio Justo é um sistema comercial baseado no diálogo, a transparência e o respeito, que procura uma maior equidade no comércio internacional, prestando especial atenção a critérios sociais e meio ambientais. Contribui ao desenvolvimento sustentável ao oferecer umas condições comerciais favoráveis e segurar os direitos de produtores e trabalhadores, especialmente em comunidades empobrecidas do Sul. Por isso é que se considera uma potente ferramenta de cooperação ao desenvolvimento.

Os principais critérios que promovem o Comércio Justo são:

- Salários e condições de trabalho dignos para os produtores do Sul.
- Protecção dos direitos fundamentais das pessoas.
- Igualdade entre homens e mulheres.
- Não exploração infantil.
- Elaboração de artigos de qualidade com práticas favoráveis ao meio ambiente.

O Comércio Justo, também chamado comércio alternativo, é ainda por cima um movimento internacional formado por organizações do Sul e do Norte, com o duplo objectivo de melhorar o acesso ao mercado dos produtores mais desfavorecidos e mudar as injustas regras do comércio internacional.


Nos paises do Sul, as comunidades mais pobres organizam-se para atingir uma vida digna. O resultado do seu trabalho são os productos de alimentação, textís e artigos de artesania. Todos eles tem atingido umas condições de vida melhor graças ao Comércio Justo que, de outra maneira, teria sido impossível para eles.
Nos países do Norte, as organizações de Comércio Justo trabalham com estes grupos, com o objectivo de abrir mercado aos seus produtos. Assim, as importadoras e as lojas de Comércio Justo fazem possível que os seus artigos cheguem até nós.

Em Europa há já 3000 lojas de Comércio Justo. Em Braga, por exemplo, está na rua D. Diogo de Sousa 119, ao lado da livraria Bertrand e papeleria Fernandes, 253278351, (http://alternativa.comercio-justo.org/)

E é o consumidor o elo final que faz possível este tipo de comércio. Os cidadãos dispõem assim de uma ferramenta de mudança social, o consumo. Como consumidores e poupadores que somos temos a oportunidade de utilizar o nosso critério de decisão em concordância com as nossas convicções e promover, através do nosso estilo de compra, a construção de um desenvolvimento sustentável. Devemos responsabilizarmo-nos nas nossas compras de bens e serviços e respeitar nas nossas escolhas os aspectos relacionados com a protecção do meio ambiente e os direitos humanos das pessoas.

Aliás, ...

... como entendes tu que o Comércio seja Justo?

... que classe de consumidor achas que és?

... isto da ecologia e do comércio justo, é que tem algo a ver com a tua fé?
... se Jesus vivesse hoje, é que seria ecologista?,

é que fomentaria o Comércio Justo?

... achas que, como cristão, tens alguma responsabilidade respeito a este assunto?

... como agir?


29 de dezembro de 2010

Dar a volta ao mundo

Ainda há “atracção universal”. Uma boa notícia da passagem de ano é a de que, felizmente, no cosmos sobra o romantismo. Talvez seja da sabedoria astronómica de saber fazer o jogo da distância certa e da dança dos vazios e dos rebentamentos de proximidade, não sei. Claro: também há excessos. Possivelmente, não há obsessão como a de um buraco-negro. Mas também isso tem o seu lugar no ordenamento espacial. A perfeição não está tanto na ausência de explosões, mas no silêncio capaz de as receber com espanto. As nebulosas: doces vestígios de destroços.

É verdade: o planeta vai dar mais uma volta. Mas, e o mundo?

O mundo está cheio de histórias de cataclismos, de abalos, de tremores, de terrores; alguns, de fortes, chegaram a entortá-lo, a ponto de o fazer sair do eixo. O mundo dá voltas; dá-nos voltas. As suas azias são também as nossas. O que poderemos fazer diante deste gigante? Falta-nos um Júlio Verne que nos devolva o desejo de repetir as façanhas do nosso velho Magalhães: contornar os “cantos” do mundo. Mas falta-nos um cargueiro Greenpeace a recordar-nos o vinco da nossa pegada ecológica… Nós podemos dar a volta ao mundo. Resta saber como.

No próximo dia 31 de Dezembro, até 2 de Janeiro, no Centro de Espiritualidade da Casa da Torre, em Soutelo, vários líricos – quem sabe se o nosso estimado leitor? – estarão a lançar champanhe não só pelas voltas que o mundo já deu, mas sobretudo a celebrar o futuro: o futuro das voltas que faremos o mundo dar… se nos comprometermos com ele. Quem sabe: talvez sobre romantismo nos nossos sonhos…

«Quando Eu for levantado da terra, atrairei tudo a Mim» – por falar em atracção universal.

TSF _ Pessoal... e Transmissível, com Juan Masiá sj

Pessoal... e Transmissível - TSF

Vive em busca do silêncio entre Tóquio e Madrid, as duas cidades que considera as mais ruidosas do mundo. O padre jesuíta e professor de filosofia Juan Masiá é o convidado esta quinta-feira, ao fim da tarde, para a conversa com Carlos Vaz Marques.


26 de dezembro de 2010

... e paz na terra aos homens

Há cerca de 2010 anos, Deus fez-se menino e nasceu de uma mulher que estava noiva de um homem chamado José. Ao menino – o filho de Deus – deram o nome de Jesus.
Deus faz-se homem; nasceu, cresceu e foi educado por humanos. Aceitou ser ensinado pela obra da sua própria criação, no seio de uma família. De facto, Jesus não nasceu ensinado, não era uma espécie de geniozinho que, deitado no presépio, já sabia tudo o que lhe haveria de suceder durante a sua vida terrena.


Este nascimento foi anunciado como uma grande paz. Mas, já antes do seu nascimento, a família de Jesus parece não viver em paz. Têm que se pôr constantemente a caminho, ora para o recenseamento, ora para fugir de Herodes, ora para voltar a Nazaré…
Então, onde está essa paz anunciada por Deus? Nem a própria família de Jesus tem sossego?!
A Sagrada Família é um bom testemunho da paz do Deus revelado em Jesus: uma paz que move, que desinstala para por a caminho. À primeira vista pode parecer estranho. Talvez precisemos de rever o nosso conceito de paz, porque muitas vezes associámo-lo apenas a nada fazer, a evitar fontes de inquietação, a ficar tranquilamente no que nos é mais seguro… Mas a paz que Deus traz ao encarnar é precisamente aquela que nos arranca do sofá, nos faz sair de casa, pôr a caminho, arriscar, ir ao encontro… Para isso, e para não errar o caminho, só precisamos estar atentos, para escutar o Deus que fala nos nossos sonhos...
Mt. 2, 13-15.19-23

25 de dezembro de 2010

Deus de Deus. Luz da Luz.

Joseph M. W. Turner; S. Giorgio Maggiore: Early Morning
1819; aquarela, 22.4 x 28.7 cm; Tate Gallery, Londres

O nosso Deus é genitivo. É de alguém… (não de ninguém) Ele pertence.

O nosso Deus é natural. É nato (não inato, e não nasce selvagem)

O nosso Deus é.

Hoje celebramos o dia em que nasceu.

E quando me perguntam “onde está o teu Deus?” eu não aponto tão facilmente para mim, mas para ti. E não aponto para um “ti” qualquer, mas, eu, aponto para Cristo.

Onde? Onde está? Onde vires luz da sua luz e onde ouvires falar d’Ele. (“de” Ele).

Feliz Natal.


24 de dezembro de 2010

A PRIMEIRA CONTEMPLAÇÃO É DA ENCARNAÇÃO.

102 – Primeiro preâmbulo é recordar a história do assunto que tenho de contemplar, que é
aqui como as três pessoas divinas observavam toda a planície ou redondeza de todo o mundo,
cheia de homens, e como, vendo que todos desciam ao inferno, se determina, na sua
eternidade, que a segunda pessoa se faça homem, para salvar o género humano. E, assim,
chegada a plenitude dos tempos, é enviado o anjo S. Gabriel a nossa Senhora.

103 – Segundo [preâmbulo]. Composição, vendo o lugar. Aqui será ver a grande extensão e
redondeza do mundo, no qual estão tantas e tão diversas gentes. Assim mesmo, depois,
particularmente, a casa e aposentos de nossa Senhora, na cidade de Nazaré, na província de
Galileia.

104 – Terceiro [preâmbulo]. Pedir o que quero; será aqui pedir conhecimento interno do
Senhor que, por mim, se fez homem, para que mais o ame e o siga.




106 – Primeiro ponto é ver as pessoas, umas e outras. E, primeiro, as da face da terra, em
tanta diversidade, assim em trajes como em gestos: uns brancos e outros negros, uns em paz e
outros em guerra, uns chorando e outros rindo, uns sãos e outros enfermos, uns nascendo e
outros morrendo, etc; segundo, ver e considerar as três pessoas divinas, como [que] no seu
assento real ou trono da sua divina majestade, como observam toda a face e redondeza da
terra, e todas as gentes em tanta cegueira, e como morrem e descem ao inferno; terceiro, ver
nossa Senhora e o anjo que a saúda. E reflectir para tirar proveito de tal vista.

107 – Segundo [ponto]: ouvir o que dizem as pessoas sobre a face da terra, a saber, como
falam umas com as outras, como juram e blasfemam, etc.Assim mesmo, o que dizem as
pessoas divinas, a saber: «Façamos a redenção do género humano, etc.» E, depois, as palavras
do anjo e de nossa Senhora. E reflectir, depois, para tirar proveito de suas palavras.

108 – Terceiro [ponto]: depois, observar o que fazem as pessoas sobre a face da terra, como
ferir, matar, ir para o inferno, etc. Assim mesmo, o que fazem as pessoas divinas, a saber,
realizar a santíssima Encarnação, etc. E, assim mesmo, o que fazem o anjo e nossa Senhora, a
saber, o anjo cumprindo o seu ofício de legado, e nossa Senhora humilhando-se e dando
graças à divina Majestade. E, reflectir, depois, para tirar algum proveito de cada uma destas
coisas.

109 – Ao fim, se há-de fazer um colóquio, pensando o que devo dizer às três Pessoas divinas
ou ao Verbo eterno encarnado, ou à Mãe e Senhora nossa, pedindo, conforme em si sentir,
para mais seguir e imitar a nosso Senhor, assim recém-encarnado, dizendo um Pai nosso.

[Texto dos Exercícios Espirituais de St. Inácio de Loyola]

23 de dezembro de 2010

canções de natal

Vinte e poucos anos não foram suficientes para silenciar uma canção de embalar que se escapava, de noite, do quarto da minha irmã mais nova para o meu, quando a nossa mãe assumia a tarefa de, depois de lhe ter dado corpo, lhe oferecer bons sonhos. Assim como, os mesmos vinte e poucos anos não conseguiram apagar o som do embate da minha bicicleta num caixote do lixo quando, para perseguir o meu irmão mais velho, aprendi a acelerar, mas não a travar. As datas têm sabor: o Natal não chegou, ainda, mas já me sinto hipercalórico, a pingar de filhós. Os acontecimentos meteóricos da nossa vida deixam enormes crateras na memória, a ponto de, como na História, reconfigurarem a [nossa] paisagem. Se sondássemos todos os tresloucados que assentiram um “sim”, depressa descobriríamos um padrão assustador: em todos há uma banda-sonora – “a nossa música” –, uma roupa – “uma camisola verde” –, um gesto –“sorriu” ou “gritou” ou “beijou-me”.

Em todos ficou essa pegada densa de cores, cheiros, sons – a “tua voz” –, que nenhum registo poderia descrever suficientemente. Ora, que memória gritante estará por dentro de tantos zumbidos vermelhos, azuis, verdes, amarelos? Que colisão foi essa que transformou a culinária no mês de Dezembro e que celebrizou as barbas brancas como adereço irresistível? Ou que “sim” foi dito que mereceu tantas versões pan-pipe que povoam qualquer centro comercial?

Um escritor cristão – de nome Lucas –, ao meditar sobre aquela noite, deixou para a História um texto precioso onde, em poucas linhas, o mundo é despido para ficar todo descrito. Uma noite. Homens estendidos sob um céu cru. Um sonho. Uma luz e o medo que temos de não a ver bem. A notícia. Chega uma multidão – a orquestra. Os homens vêem-se de novo sozinhos, mas já não têm medo. Têm a luz nos olhos. Vêem-n’O.

Encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes, e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: «Nada temam, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor.» De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado.» Quando os anjos se afastaram deles em direcção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: «Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.» (cf. Lc 2, 8-15)

Os ecos que deixo espetados neste muro brilhante e frio – como as calçadas em tempo de Inverno – têm-me servido para entrar no estoiro de há dois mil e fracções de anos. Poder-se-ia pensar que a alegria só pode ser cantada em sons maiores. Estas peças, porém, recordam-nos os soluços que os sorrisos por vezes nos trazem. Algo me diz que dificilmente entraremos naquela noite sem fazer o exercício de desligar as decorações interiores para ficar, como os pastores, a pernoitar no silêncio de uma gravidez que nos deixa sem posição na cama, com dores nas costas e com uma pergunta tremenda ao colo. Quem é Este que vem? E trazê-l’O derramado em mim: para onde me leva?

Os pastores adoram o Menino, que é o Bom Pastor, de Francisco Tavares, é uma meditação sobre aquela mesma noite. O som deita-nos no escuro, e uma cortina de vozes chove sobre nós um refrão. A glória parece ser suave, senão mesmo frágil. A multidão celeste parece comovida; ouve-se um choro alegre. Três solistas soltam-se desse manto, como porta-vozes das nossas próprias perguntas a Deus, aos anjos, e aos nossos próprios sonhos.


Ó meu Menino, de Eurico Carrapatoso, recupera uma letra tradicional alentejana (Pias) num ambiente sem tempo – incrustado na talha dourada. A melodia sugere um movimento pendular, como uma pulsação, como uma canção de embalar. Mas nesta música, Mãe e Filho estão ao colo um do outro, porque ao embalá-l’O a Mãe segreda-Lhe que nos guarde…


21 de dezembro de 2010

uma palavra e uma música

«naqueles dias, MARIA pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para a montanha» MARIA corre apressadamente para a montanha... porque vai apressadamente? porque corre? como são belos os pés da mensageira que anuncia e, mais ainda, leva em si mesma a PAZ.

MARIA vai ter com Isabel, mas é DEUS que vem ter connosco! Um texto e uma música traduzem a fisionomia do sonho que guiou MARIA no caminho... transportando a verdade feita vida


Eis a voz do meu amado!
Ele aí vem, transpondo os montes, saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a uma gazela
ou ao filhinho da corça.
Ei-lo detrás do nosso muro,
a olhar pela janela, a espreitar através das grades.
O meu amado ergue a voz e diz-me:
«Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem.
Já passou o inverno,
já se foram e cessaram as chuvas.
Desabrocharam as flores sobre a terra;
chegou o tempo das canções
e já se ouve nos nossos campos a voz da rola.
Na figueira começam a brotar os primeiros figos
e a vinha em flor exala o seu perfume.
Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem.
Minha pomba, escondida nas fendas dos rochedos,
ao abrigo das encostas escarpadas,
mostra-me o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz.
A tua voz é suave e o teu rosto é encantador».

Cant 2, 8-14



20 de dezembro de 2010

Vem aí o Natal - IV

Deixei para esta última semana alguns elementos que compõe o ícone e nos descobrem outros aspectos importantes e reveladores que estão presentes no Nascimento de Jesus Cristo.

Do lado direito da Mãe de Deus, Maria, estão dois pastores com as suas ovelhas que, ao mesmo tempo, que são avisados por um dos três anjos que «Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.» olham para Maria e para o Menino e confirmam a realidade que lhes é comunicada. Os pastores são escolhidos para serem os primeiros a ter conhecimento da grande notícia porque só os de coração simples têm acesso aos mistérios do Reino: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. (Mt 18, 3). Os pastores, marginalizados na altura pelas suas funções, deixam-se maravilhar e acreditam e, por isso, pertencem aos pequeninos do Reino, os preferidos de Jesus.

Os outros anjos, de ambos os lados da gruta, pertencem à multidão do exército celeste que louvam a Deus dizendo: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado. (Lc 2, 14) Os anjos do lado esquerdo pela sua posição reverencial e de mãos cobertas adoram a humanidade de Jesus.

Na escuridão da gruta sobressaem dois animais mesmo junto da manjedoura/túmulo onde o Menino está deitado. Qual é o significado desta presença? O boi representa o povo judeu sujeito ao jugo da Lei e o burro, os pagãos vítimas da ignorância e da idolatria de que Cristo os vem libertar.

Os Magos ao alto, à esquerda, cavalgam ao encontro do novo Astro que os atrai pela sua luz. Por um lado, são símbolo das pessoas cultas que tiveram de percorrer um longo caminho para chegarem à Verdade; e, por outro, representam a manifestação de Jesus Cristo a todos os povos para além das fronteiras do judaísmo, a chamada Pequena Teofania.

No ícone, apesar de todos estes elementos e através deles, somos convidados a olharmos para o Menino que está no centro e para sua Mãe. Todo o quadro converge para o Nascimento de Jesus, pelo que, nos atrevemos a proclamar o Hino do Natal: E nós que te podemos oferecer, Jesus Cristo? Toda a criatura que vive te agradece: os anjos oferecem-te o canto; os céus, as estrelas; a terra, a gruta; o deserto, uma manjedoura. Nós, uma Virgem Mãe!

19 de dezembro de 2010

Natal. Numa palavra. Mt1,18-24.


Aproxima-se Natal.

Cada vez está mais perto.
Mas, antes de passar mais à frente...

O que é Natal?



Natal é a dedicação de cada chefe de turma que escolhe o restaurante onde os seus colegas todos celebrarão o fim das aulas, convocar centenares de pessoas para disolver-se no realismo dum presépio em que as ovelhas balam, um bacalhau que a avó cozinha e o peru que ela enche, a luz e o calor despedido pela fogueira acendida na porta da igreja da freguesia durante estes dias todos, esses senhores vermelhos com espessa barba branca que costumam escalar as fachadas dos prédios, os vídeos e fotografias que registam a actuação dos filhos durante o festival da sua creche ou escola, as saudades de quem não pode regressar à sua terra nestas datas e deve conformar-se com imaginá-las desde o estrangeiro, a gratuidade que emerge do fundo do coração e leva a colaborar com algum dos muitos projectos solidários apresentados, a surpresa ao abrir um power-point natalício ainda mais original do que o anterior, o entusiasmo calado do quem lê um livro no assento de algum aeroporto à espera do avião que o aproximará à família, a música nostálgica que sai dos alto-falantes pendurados em cada canto dos paços e avenidas, o desejo de não ser o meu o pedaço de bolo rei que contenha a faba, a variedade dos tamanhos das árvores de Natal que aparecem nas nossas cidades, contar o número de sobres e carimbos a comprar para acrescentar um tom tradicional às felicitações dos conhecidos, o prazer duma guerra de bolas de neve no alto de alguma serra elevada do nosso país, sair da loja convicto de ter acertado com a prenda ideal para a pessoa em que tanto penso, comprovar a enorme criatividade nos anúncios de televisão ao ficar perante o ecrã por volta de apenas um quarto de hora, o sentido dum abraço qualquer à beira da estação de comboios após messes sem ver esse amigo, preparar minuciosamente a festa de passagem de ano de forma que ninguém esqueça aquelas horas de champanha e fogos, confiar em que esta vez será quando finalmente coincida o prêmio da lotaria com o número escrito no meu cartão, o peso dum cabaz repleto de productos que demonstram que as empresas curam os estômagos dos seus empregados, as luvas e o cachecol com os que passeio para tratar de combater este frio que aloja-se nos ossos sem dai sair...



Este é o Natal dos homens. Assim o inventam cada ano.



Porém, Deus foi (mais) uma vez mais original.

Para Ele, Natal é, “simplesmente”, um nascimento.

Aliás, “quanto a Jesus Cristo, a sua origem foi assim...” Mt1,18(-24)

16 de dezembro de 2010

Announcing the 2011 TED Prize winner: JR

TED é uma organização sem fins lucrativos que reúne alguns criativos dos mundo do Entretenimento, do Design e da Tecnologia.

Desde que começou, em 1984, foi multiplicando as actividades.Hoje, além das famosas TED Conference, tem multiplas actividades e projectos. Um deles é o "TED Prize" atribuido a "alguém excepcional".


Este ano o prémio foi atribuído ao fotógrafo parisiense JR. Ele fotografa bairros sociais, slums, de vários cantos do mundo. Depois coloca as suas fotografias em enormes telas e espalha-as ou no próprio bairro fotografado ou noutro bairro, relacionado com o primeiro pela violência e a inimizade.
O impacto da sua obra é tal, que o The New York Times lhe chama "heroi tipo Robin dos Bosques".


Mais do que falar muito sobre ele, é mais interessante ver uma pequena retrospectiva da sua obra ao som duma entrevista ao próprio:



Concordo com o TED, acho que a proposta de humanizar os nossos conflitos dando-lhes rostos concretos pode ser uma oportunidade real de construir a paz.

14 de dezembro de 2010

Missa Rorate


Esta 4a feira, dia 14, às 19.15h, terá lugar no CAB (Centro Académico de Braga) uma Missa especial de acolhimento do Natal. 

É uma missa inspirada numa tradição antiga de Advento, que se chama Missa Rorate. O nome vem de uma antífona em latim do Advento, retirada do livro de Isaías (Is 45, 8): "Rorate caeli desuper, et nubes pluant iustum", que significa: "Derramai ó céus, o orvalho lá do alto e as nuvens chovam o Justo". Portanto, o tema principal desta celebração é entrar dentro do grande mistério da Encarnação, em que, da eternidade de Deus, Jesus assume a natureza humana. A Igreja faz esta belíssima oração de pedir que o céu se abra e chova sobre nós e sobre o mundo a graça da pessoa de Jesus, Deus feito homem.

A Missa Rorate tem a sua origem no século XV, sobretudo nos países alpinos, onde ainda hoje se mantém esta tradição. Inicialmente, era uma missa votiva em honra de Nossa Senhora, e era celebrada nos sábados do Advento. Com a reforma do Concilio Vaticano II, aconselha-se a que não se celebrem missas votivas durante o tempo do Advento, especialmente depois do dia 16 de Dezembro, altura em que a proximidade do Natal exige uma maior concentração, mesmo a nível litúrgico, nos mistérios que se estão para celebrar. Contudo, por razões pastorais e para ajudar as pessoas a viver o Advento com outra intensidade, esta Missa pode ser celebrada com muito proveito.

A principal característica da Missa, para além deste tema fundamental da oração pela vinda de Jesus, é também que esta é celebrada de manhã, ainda de noite, e à luz das velas, como sinal da Igreja e da humanidade que espera a vinda de Jesus, sol nascente. Nos países da Europa central, onde ainda hoje se celebra, as pessoas fazem em casa pequenas candeias que trazem para a missa e, no fim da missa, todos se juntam para um pequeno almoço feito de pão especial e doces próprios desta ocasião.

No CAB não se vai realizar esta tradição, mas adapta-se para uma Missa vespertina, em que o elemento da luz estará muito presente. Será uma liturgia mais cuidada, quer ao nível dos símbolos, quer sobretudo a nível de cânticos, onde um coro e uma pequena orquestra de sopros e cordas ajudarão a entrar melhor neste espírito de Advento.

De facto, uma Missa deste género tem como intenção fazer também perceber que a oração da Igreja precisa de símbolos e ritos que despertem os sentidos do corpo. A luz, as músicas, os cheiros, tudo ajuda a que a oração seja mais do que exprimir palavras ou sentimentos, faz com que rezar em comunidade seja também uma experiência corporal e sensível. Assim, aqui fica o convite, para que esta ocasião seja uma oportunidade de, em comunidade, celebrar a maravilha de Deus que vem até nós e perceber como a nossa vida é totalmente iluminada e preenchida com a sua presença. Que o nosso coração receba esta chuva de graça, que é a própria vida de Deus, é a grande intenção do Advento.


13 de dezembro de 2010

Vem aí o Natal - III


Como temos vindo a explicar, nas 2ªs feiras anteriores, este ícone do Nascimento de Jesus Cristo abarca realidades e dimensões que têm a ver com toda a história do Amor de Deus para connosco. História, que em cada um de nós, por nossa limitação, está ainda inacabada. Na Igreja Ortodoxa o ícone, como a Sagrada Escritura, não se esgota nos seus significados e está aberto à descoberta que cada um vai fazendo. Por isso, se diz que o ícone é uma janela aberta ao transcendente. A própria composição em que o ponto de fuga da perspectiva não está por traz do quadro, mas nos olhos de quem o contempla, tem como efeito que a pessoa se sente atraída e introduzida no ícone.

Em baixo à direita, o Verbo Incarnado sujeita-se ao banho do nascimento. É lavado numa pia que pela forma recorda as pias baptismais, a significar o baptismo em que todos participaremos da sua vida. Segundo a tradição bizantina quem deita a água para o banho do recém-nascido é Eva; Salomé, com a mão seca e paralisada por ter querido verificar a virgindade de Maria, é miraculosamente curada. Ambas, ultrapassando o tempo e o espaço, pelo facto de lavarem o Menino Jesus, manifestam-nos a sua humanidade em tudo igual a nós excepto no pecado. No ícone nada é colocado por acaso, pois tudo obedece aos cânones e está carregado de significados.

Do outro lado, à esquerda, está José sentado numa atitude de reflexão. O epicentro do conflito entre as trevas e a luz, que cada pessoa vive no seu coração, encontra eco na figura de José. Na sua frente está um personagem de perfil, vestido com pele de ovelha, é o demónio tentador disfarçado de pastor. Ele foi divinamente esclarecido, mas nem por isso deixa de se interrogar sobre todo o imenso mistério de que é verdadeiro testemunha.

O céu e a terra são doravante reunidos pelo nascimento de Jesus Cristo. Nesse dia, Deus veio à terra e o homem subiu aos céus. O mundo material é de novo ligado aos seres imateriais e a criação reencontra a misericórdia do Pai.

11 de dezembro de 2010

Alguém de pernas para o ar.

Sobre Is, 35 1-6.10 /Mt 11,2-11

De uma prisão sai um gemido desconfiado: será mesmo que és tu o que devo esperar, ou devo esperar outro, outra coisa, um fim diferente daquele que se impõe – mais glorioso talvez? Errei acerca de quem és, ou é este o preço de quem diminui para que só restes Tu? João gastou toda a voz no vento do deserto, e ainda envia perguntas sobre o cordeiro, que baptizara.

Nós, no deserto, ou na estepe de cada história, também nos perguntamos: será que já desvendámos os narcisos que o profeta prometia florir na chegada Daquele que fora anunciado? Será a sede dos que buscam de línguas ressequidas, na terra árida, de facto saciada? Ou até mesmo onde reina o prazer e o contentamento? E quando é que acabarão os gemidos de dor, mesmo os mais abafados ou maquilhados por gargalhadas? Quem baptizava, está preso.

Mas de quem esperavas? Que libertação? Os narcisos têm a sua cor e o seu cheiro. Por isso, a resposta é que se acabaram as promessas, e o vento dos profetas já passou. Acabou-se o tempo das metáforas, e o presenteO Corpo encarnado – é Deus na cidade dos homens. Não virá: Ele “está no meio de nós”, agora nos nossos “hoje”de todos os dias. Não estamos à espera de ver Alguém de pernas para o ar. O que viste no deserto - ou o que esperavas ver? –: um homem vestido de roupas luxuosas?

– Não, no natal o que se vê é um pobre. Essa é a gloriosa vinda, a chegada de um pobre. Só um pobre espera por outro pobre. Para esperar “hoje” este nascimento, faço-me pobre e bastará o orvalho e a chuva para achar O que espero.

9 de dezembro de 2010

Voz



Barnett Newman foi um dos melhores representantes do expressionismo abstracto. A Voz, de 1950, é uma pintura a partir do paradoxo. O título contradiz o silêncio que ocupa todo o espaço da tela. A mão do artista parece não ter pintado este trabalho; não há um vestígio manual, apenas uma grande extensão de cor aplicada de forma uniforme onde a única textura vem do tecido da tela em si. Esta é a voz, a marca subtil desta pintura que parte mais da boca do que das mãos, que se apresenta mais no título do que na tela. E todo este som tem a função de instalar no espectador uma espécie de vazio necessário à elaboração de um novo olhar. É o desconhecido que o sujeito tem de conhecer a partir dos cinco sentidos. Assim, a nossa imaginação consiste em apercebê-lo cinco vezes seguidas por cada um dos cinco sentidos; ver o espaço cândido que nos ocupa o olhar, ouvir o vazio da cor, cheirar a tinta dispersa e perdida no espaço da tela, saborear a distância e tocar no silêncio. Num certo sentido, trata-se aqui da tentativa de abolir a barreira entre pintura e vida no extremo exercício da pintura. Sob uma pintura vazia e sobre um corpo terrestre, somos forçados ao silêncio. Mas depois dele, há certamente ainda a Voz.

[imagem: Barnett Newman - The Voice, 1950]

6 de dezembro de 2010

Vem aí o Natal - II

VEM AÍ O NATAL – II


As fontes em que se baseia este ícone do Nascimento de Jesus Cristo, para além dos Evangelhos de S. Lucas e de S. Mateus, são o Proto-Evangelho de Tiago, as homilias de Gregório Nazianzeno, os hinos de Natal de Romano, o Melode, e de Efrém, o Sírio, e na homilia de Tiago de Saroug.

Em muitos dos ícones da vida de Jesus é-nos apresentada uma gruta. Neste ícone esta gruta não é apenas a gruta de Belém é também o símbolo dos infernos de que Jesus sairá vencedor na Ressurreição que, na terminologia Ortodoxa, se designa por Descida aos Infernos. Jesus Cristo, Deus/Homem, envolto em panos, no nascimento e na morte, é colocado na manjedoura em forma de túmulo à boca da gruta que simboliza os infernos de que nos vem libertar. Esta é a maravilhosa realidade da Encarnação do Amor de Deus que não cabe nos limitados raciocínios humanos, e que nem por isso deixa de ser menos real, mas mais conforme ao imenso e absoluto Amor gratuito que em tudo nos transcende. O mistério não é o incompreensível, mas o que nos ultrapassa.

Mas esta história de Amor não começa aqui. Ao longo da Sagrada Escritura é patente, no diálogo de Deus com homens santos e mulheres santas, a ternura com que o Senhor do Universo se dedica pedagogicamente a criar as condições para manifestar o Amor que nos tem. E, chegada a plenitude dos tempos, o Anjo Gabriel é enviado a uma virgem de nome Maria para a convidar a aceitar ser mãe: O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Ao que Maria responde: Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra. (Lc 1, 35 e 38) Este momento crucial está representado na parte de cima do ícone. Dado o seu estado de conservação, mal se vêem os três semi-círculos, símbolo da Trindade, do qual desce um raio de luz onde se inscreve uma pomba que representa o Espírito Santo, que se divide em três, significando a presença trinitária. É o cúmulo deste diálogo de Amor: a Palavra, O Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. (Jo 1, 14)


5 de dezembro de 2010

Arrependimento

Por razões suficientemente documentadas, o uso de certos termos da órbita cristã, de suspeito, parece fazer gelar as entranhas de qualquer ouvinte. Com efeito, “arrependei-vos” só por ironia – porque o linguajar religioso também se presta à comédia – serviria de anúncio publicitário. De facto, a expressão mais depressa evoca dores de dentes que água na boca. No entanto, é possível que somente um entusiasta salivante de gozo e apetite possa adivinhar o gosto escondido por dentro do arrependimento. Porquê?

O trecho do evangelho de Mateus coloca-nos diante duma figura invulgar: João, profeta. O grito do Profeta é o grito da memória: “Lembra-te de quem és”. Para o povo de Israel, o futuro – de que os profetas falam – é Deus. Por isso, avançar é entrar no tesouro de Deus, esse tesouro posto em Tábuas e forrado de Templo e Ritos. Os pés deslizam sobre o chão, mas os “olhos estão postos” no clarão de Deus. Contudo, e se os olhos se desviarem e ficarem enxutos de brilho?


O deserto, para Israel, é como um retábulo da memória familiar: foi ali que o povo se fez. O ventre de Israel é feito de areia. Areia e libertação. Para João, pisar aquele chão é já o primeiro passo do regresso a Casa. Há que manter fresca a memória de quem somos. Estranhamente, o deserto pode ser o começo de uma fonte, ou de um baptismo. Arrepender-se: ser radical: regressar à raiz de si: Deus.

O arrependimento – este arrependimento – é uma coisa de apaixonados, de sequiosos, de nómadas. Porque voltaria a casa se dela não tivesse memória e sede? O que nos deveria apressar, no arrependimento, não seria apenas o “de quê” (o pecado), mas sobretudo o “para quê” (encontro com Deus). Se eu conhecesse Aquele que me coseu com grãos de areia e O trouxesse estampado no desejo, então correria para Ele. Isso seria arrepender-me; isso seria próprio de um entusiasta. Se O receasse, não seria meu Pai. E a fé é coisa de filhos.

3 de dezembro de 2010

S. Francisco Xavier


Sempre que penso na vida de S. Francisco Xavier sinto o desejo de viver o mesmo!... Ir pelos mares fora anunciar, no meio de perigos e aventuras, Aquele por quem quero dar tudo!...Lançar-me para o desconhecido porque uma paixão infinita me habita e me impele e me consome!... Saber que faço tudo por Aquele que me amou primeiro e que a minha forma de responder a este amor é dar a volta ao mundo a dar a vida pelos outros!...

Caio, por vezes, na estupidez de pensar “assim é fácil ser santo”, como se as coisas se pudessem medir desta forma ou como se a santidade se pudesse medir pelo tamanho das obras que fazemos ou até como se só uma vida cheia de aventura e risco pudesse contar como uma vida santa!...

S. Francisco teve, realmente, uma vida fascinante, cheia de aventuras e riscos, mas o que o fez santo foi aquilo que viveu por dentro, aquilo que animou os seus gestos, sem o qual nunca teria feito o que fez – uma relação profunda com Jesus, um desejo imenso de O imitar e uma paixão que o levava a querer dar a vida ao serviço dos outros.

Sendo realista, quem é que hoje pode largar tudo e ir para o outro lado do mundo da mesma forma que S. Francisco o fez? Dificilmente encontramos alguém que o possa fazer e, provavelmente, nem é suposto que encontremos, com facilidade, alguém que o pudesse pôr em prática. Porque o desafio não é fazer, em primeiro lugar, coisas brilhantes e espectaculares. O desafio é trazer para a minha vida, para as relações, para o trabalho, para o estudo, para a simplicidade, para as dificuldades, para as alegrias e para as tristezas, a mesma paixão que moveu S. Francisco. A questão está em viver o que vivo de uma forma apaixonada e agradecida sem achar que o que faço não chega, porque a nossa tendência é pensar que devíamos sempre fazer mais mas nem sempre precisamos de fazer mais, muitas vezes precisamos é de viver melhor aquilo que já vivemos.

Se o que me move por dentro é o mesmo que moveu S. Francisco haverá assim tanta diferença em fazer o que ele fez ou fazer bem o meu curso porque sei que isso me permitirá no futuro servir melhor? Será estúpido pensar que com a mesma paixão com que S. Francisco se meteu num barco e foi para a Índia, eu não poderei passar uma tarde sentado a estudar? E será que “vale” mais uma coisa que outra?

No fundo, a santidade não é alguma coisa estranha, longínqua, não é preciso ir para a Índia ou para a China para se ser santo. Se a santidade é não algo que se joga também no que vivo e na forma como vivo o que vivo mas apenas um sonho distante, utópico ou impossível, que sentido tem falar de vida cristã? É que a santidade não é mais do que imitar Jesus na minha vida concreta, encher a minha vida desta paixão e viver e transformar as coisas a partir dela, porque sei que o primeiro a ser amado fui eu e ao descobrir este amor não posso viver as coisas da mesma forma.