28 de janeiro de 2011


Frasco

A análise musical da palavra frasco

dá-me o lapidado de luxo

o cristal onde guardo

o álcool

e o perfume.

É uma palavra facetada

que escorre e entorna lume

que governa o gesto

ritual

delicado e casto.

Gosto de dizer frasco

gosto do prazer controlado

no usar do receptáculo

relicário do mistério.

Do frasco uma gota

um cálice um mundo

que se tapa e se destapa

no cuidadoso sentido do profundo.

Falo e digo frasco

sirvo-me e penso lume.


Em Frasco de Salette Tavares, parece que começamos pela música de uma palavra bissílaba, de som rebuscado. Pois o poema começa com uma análise que deixa prever sons variados, mas nem chega a começar, contudo o toque do frasco, ou de um frasco, expira a musicalidade da palavra e trata de cobrir os sentidos, de brilhos, luzes e todas as cores que um espectro ramifica. O cristal é agora o frasco e a palavra Frasco é lapidada com um detalhe de luxo, do exterior burilado ao enigma do lume interior. Temos simultaneamente duas acções ao longo do poema: uma que tacteia o frasco e outra que usa controlada, e delicadamente a palavra, baralhando o falar e ouvir, o servir e o pensar. Dando ao ouvido a palavra (frasco) e ao toque o lume.

imagem: Louise Bourgeois

1 comentário:

Carlos Ricardo Soares disse...

Poema invulgarmente criativo em que a forma e o conteúdo surpreendem em beleza e se potenciam um ao outro.