16 de janeiro de 2011

Omnipotente,Omnisciente,Omnipresente
sobre os atributos de Deus

Isto parece chinês. Sempre que nos deparamos com palavras ou imagens que não pertencem ao nosso universo de conhecimento, sentimo-nos como estrangeiros. Ou pior. Cada linguagem (científica, artística, cultural, religiosa) remete para um mundo próprio, cuja compreensão requer a invasão do território intrafronteiriço das gestas gloriosas dos heróis dos tempos augustos, dos vapores dos infortúnios; enfim, de tudo quanto povoou a terra e que mereceu ser repetido na memória. Esse é o lastro das línguas. Não bastam os dicionários para conhecermos um idioma: há que descer às ruas da cidade para que o aprendamos do chão, dos cheiros, dos transeuntes, da própria memória do tempo que ficou a poluir de ruínas a paisagem, para que a distracção não nos fizesse crer que antes de nós não havia vida. Camões ainda faz versos na lírica dos apaixonados. Enquanto não nos avizinharmos de uma cultura, não passaremos de uns turistas difíceis de suportar, que a cada esquina rosnam “se eles fossem como nós”.

A linguagem teológica parece-nos ser profundamente aérea (e não propriamente celeste). Os seus termos estão de tal forma alheados do nosso universo de interesses e de cultura corrente que se nos tornam perfeitamente absurdos, sem sentido. É natural que torçamos o sobrolho quando de um púlpito se soltam palavras como “Deus Omnipotente”. Ouvindo do lado de cá da fronteira teológica, essas palavras dificilmente jogam com uma questão flagrante: se Deus Pode, Sabe e Está em Tudo, porque permite a existência do Mal? Será assim tão mais sábio tirar o bem do mal do que simplesmente evitá-lo? Precisamos de “um Deus” para regular o cosmos, quando os parâmetros físicos parecem ser suficientes para isso?

Atravessando a fronteira

Dentro do planeta bíblico, a linguagem é eminentemente palpável e sintética, própria talvez de um temperamento nómada, habituado à secura quente do deserto, onde tudo, mesmo a saliva, deve ser poupado; de contrário, seca. No deserto as abstracções são miragens que convém evitar. Há nesta cultura um pragmatismo implacável de “assim dito, assim feito”. Por isso, a memória bíblica de Deus é sempre acompanhada de uma história. A salvação tem uma história; dá-se na História. Mas, pode alguma estória ser suficientemente grande para contar o que sejam omnipotência, omnisciência e omnipresença?

É verdade: a imaginação pode trair-nos. E a sua maior traição está no risco de nos ofuscar. Na sua raiz, aqueles piropos resultavam de uma experiência amorosa. Nenhuma pessoa é mais bela do que aquela que amamos. Mas a descoberta do seu verdadeiro Tamanho requer tempo. O longo processo de redacção do património bíblico corresponde à maturação da memória daqueles arroubos. Com o tempo a linguagem torna-se poética, mística, mítica. Com o tempo a linguagem torna-se súplica: “Volta!”. Avolumaram-se os textos, avolumaram-se as expectativas. Como é que Deus Se vai manifestar, Ele que é Grande, Forte e Poderoso nas Batalhas?

Dentro do território

Os contemporâneos de Jesus ficaram profundamente confundidos com o que viam n’Ele. Por um lado, Jesus era exactamente como esperavam que deveria ser: bondoso, sábio, capaz de sanar feridas profundas, credível. Mas, por outro, era totalmente diverso: mantinha uma relação de familiaridade com Deus, acolhia os pecadores públicos, punha em causa uma religiosidade calculista, distinguia as esferas de Deus e de César. O momento máximo dessa crise de expectativas deu-se naquele tríptico: morte, silêncio, ressurreição. Como conciliar, naquele quadro, omnipotência com fragilidade e servitude; omnisciência com dúvida; omnipresença com morte e ausência?

Nenhuma língua é suficientemente ampla para dizer tanto numa mesma palavra. Mas a Bíblia, a poesia, a arte, e as gramáticas interiores dos nossos próprios desejos apontam-nos a palavra amor... No amor, poder, saber e estar são feições do mesmo movimento de abertura, de gratuidade. Que poder têm sobre nós os que nos amam? E o que sabem de nós faz-nos menos livres? A sua presença rouba-nos espaço? Jesus pode representar, para muitos, um enfraquecimento da figura de Deus. No entanto, essa forma de ser fraco foi o maior testemunho do Tamanho de Deus.

Depois de Jesus, o que significa ser Omnipotente, Omnisciente, Omnipresente?

1 comentário:

Miguel Oliveira Panão disse...

Verdadeiramente inspirado :)