9 de janeiro de 2011

sobre um diálogo que nos habita

Neste domingo a liturgia propõe que nos sintonizemos com o Baptismo de Jesus. Esta festa é, por assim dizer, o culminar da epifania, ou seja da revelação do Deus que vem até nós gratuitamente, sem exigir nada, apenas para Se encontrar connosco. João Baptista não se sente digno de baptizar Jesus, mas Ele insistiu e João acedeu ao Seu pedido. Após mergulhar e sair das águas, “Jesus saiu da água e eis que os céus se lhe abriram e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: «Este é o meu filho muito amado, no Qual pus todo o meu agrado» [Mt 3, 16-17].



É muito bonita e profunda esta cena que quase podemos imaginar detalhadamente. Como a saída de Jesus das águas provoca um encontro, um diálogo que O confirma na Sua missão e nos confirma no nosso movimento de abertura Àquele que vem. Para além disso, esta cena revela a profunda intimidade que a Trindade tem entre si, todos se implicam na confirmação uns dos outros e, mais ainda, todos se jogam inteiramente na salvação do mundo. O espírito vem apresentar-se a todo o que deseja mais, e deste encontro baptismal surge uma voz que nos confirma a partir de dentro e nos consola.

Na verdade, Deus marcou um encontro com toda a humanidade dentro do nosso coração. Esta é a grande semente que Deus deposita em nós, pelo baptismo, e que nos cabe redescobrir constantemente. Talvez seja esta uma boa imagem para se exprimir o que é ser cristão. Pelo baptismo, Deus dá a possibilidade de um encontro profundo e carnal entre o Espírito e toda a humanidade. A missão do cristão, bem semelhante à de João Baptista, é a de proporcionar e se alegrar com o encontro entre o Esposo [Deus] e a Esposa [Humanidade]. Mais ainda, mostrando àqueles que nos circundam como os seus corações O anseiam e como as suas agenda tem espaços livres para esse encontro, devemos apagar-nos constantemente para que Ele cresça e toda a humanidade nEle.

Porque dizia o salmista: “Senhor, até de noite me inspiras”? Porque precisava de algum favor dEle? Porque tinha uma ideia muito certa acerca de um ser supremo e monárquico que ajudava a todos os que lhe fizessem os favores? Não. O salmista falou assim porque vivia a partir do que acreditava. O cristianismo não nasce de uma convicção política ou social, mas do conhecimento. Conhecimento de Deus, que depois tem consequência na nossa acção. Este conhecimento dá-se neste diálogo, que ocorre no nosso coração, e no qual Deus tem a iniciativa. Que devemos fazer para prosseguir com este movimento baptismal, que Jesus protagoniza de forma absolutamente nova, e que pode instaurar um diálogo entre Deus e a humanidade a partir do nosso coração? Que palavra pertinente ouve o nosso coração diante de uma humanidade desiludida e entristecida com a crise económica e com a crise que nos desilude connosco próprios e com os outros?

Há muitos anos atrás, numa situação de desilusão em Israel, Deus disse ao coração do profeta Ezequiel que Ele mesmo restauraria o Seu povo. Mas que para isso era preciso que o povo procurasse deixar de se lamentar, ficando agarrado aos problemas, e aprendesse a construir caminhos de confiança, em Deus, nos outros, em si mesmo e, por isso, no futuro. Aqui o diálogo foi instaurado, pela via da confiança. Na verdade, este diálogo já ocorreu imensas vezes na história da humanidade. Na Filocália – amor pela beleza – os padres da Igreja sugerem-nos que tomemos consciência deste diálogo que Deus quer instaurar com a humanidade, procurando encaminhar a nossa mente para o coração, o nosso íntimo. Pela repetição, ligada à respiração, do nome de Jesus a nossa mente começará a tomar consciência daquilo que Deus diz em nós. Assim O conheceremos, assim nos transformará a confiança; transmitindo o dom deste diálogo, cujo encontro com a porção de humanidade que recebe a nossa amizade e presença os preparará mais para O receberem sem mediações.

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