2 de janeiro de 2011

Um caminho novo.


“E […] regressaram à sua terra por outro caminho.”. Assim termina o Evangelho de hoje, dia em que a Igreja celebra a solenidade da Epifania do Senhor. A Epifania, tradicionalmente conhecida como o “Dia de Reis”, é a última grande festa do tempo do Natal.

Hoje em dia, o acontecimento que está mais ligado a esta celebração natalícia é a troca de presentes, que acontece em praticamente todos os países do Ocidente no dia de Natal ou no dia de Reis. O que se observa é que muitas vezes esse é o ponto central de todas as festas natalícias, ofuscando o festejo do nascimento de Jesus, e fomentando a importância do pai natal, aquele que traz os tão desejados presentes, mas que muitas vezes são apenas prendas. Sim, muitas vezes esquecemo-nos que estes presentes que os reis Magos transportam são para oferecer a Jesus, e são chamados presentes porque aquilo que simbolizam torna presente o próprio Jesus.

Mas se a solenidade da Epifania não se centra neste fenómeno da entrega, ou da troca, de presentes, então o que celebra? Epifania é uma palavra grega que significa “manifestação”, aparição. Por isso, celebramos hoje mais uma manifestação do Senhor. Hoje, o Menino Jesus é apresentado como Deus e Rei universal. Este Menino que agora nasceu é o Cristo Rei, que veio para salvar toda a humanidade, para salvar cada um dos seres humanos.

E porquê esta manifestação aos reis Magos? É interessante ver que no Evangelho não é feita nenhuma referência à realeza dos Magos, nem diz que são três. Talvez a tradição se tenha encarregue de os aclamar de reis tentando transmitir a ideia de que a realeza de Cristo acolhe toda e qualquer realeza humana, acolhe todo o ser humano como tal, e que a realeza humana pode reconhecer a divina realeza. Os Magos, representam aqueles que estão mais distantes, ou desconhecem a existência, de Deus, mas que Deus quer acolher. Tal como nos diz hoje São Paulo: “[...] os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa em Cristo Jesus, por meio do Evangelho.” (Ef 3, 6)

Sendo assim, se este é um convite universal, Deus também me convida a mim (que estou a ler) a estar presente nesta manifestação. A conhecer este Menino.

Como é que eu respondo a esse convite? Fecho os olhos e ignoro? Tenho medo? Quero responder mas não sei como? Preciso de ajuda para responder? Sinto revolta? Desejo aceitar? Aceito?...

Pensemos num qualquer convite que nos tenha sido feito recentemente: para um jantar; para ir ao cinema; para uma festa de passagem de ano; para uma conversa; para um café; para um emprego; para um namoro;... Como reagimos? Provavelmente aceitámos. Ou porque conhecíamos, mesmo que vagamente, quem nos convidou. Ou porque já vivemos experiências idênticas. Ou porque conhecemos alguém que já viveu experiências idênticas… Mesmo podendo não saber exactamente o que iríamos viver, aceitámos, porque algum “sinal” nos foi dado. No final, se o desejo inicial de viver esse momento era real, verdadeiro, livre, provavelmente acabámos por sentir uma grande alegria.

Foi isso que aconteceu com os Magos. Seguindo a estrela (o sinal) foram ao encontro do Menino Jesus. E nem as “distracções” que encontraram pelo caminho, nomeadamente as intenções menos claras de Herodes, conseguiram detê-los, e no verdadeiro encontro “sentiram grande alegria” (Mt 2, 10). Então puderam oferecer tudo o que tinham levado, aquilo que para eles representava o verdadeiro Messias: ouro - representando a Sua nobreza; incenso - representando a Sua divindade; e mirra - uma erva amarga que simbolizaria o Seu sofrimento na Terra, enquanto salvador da Humanidade, simbolizando Jesus enquanto homem.

E como nos sentimos depois desses acontecimentos, desses encontros que nos dão alegria? Que nos dão vida?

Os Magos viveram uma grande transformação, uma transformação interior que lhes permitiu perceber que o que Herodes lhes tinha pedido não contribuía para tornar possível o que lhes tinha sido manifestado: que todos os homens podem viver esta alegria que eles agora conheciam. Como não podiam ficar parados, não podiam guardar tanta alegria só para si, voltaram à sua terra. Mas como as suas vidas tinham agora um novo sentido, pois tinha-lhes sido manifestada a Glória de Deus, de Deus feito homem, que traz a paz aos homens, a todos os homens, já não podiam continuar a viver da mesma forma. Por isso, “[...] regressaram à sua terra por outro caminho.” Por um caminho novo.

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