10 de fevereiro de 2011

Economia de Comunhão - Parte II

Quando em 1991, na cidade de São Paulo, Brasil, Chiara Lubich (fundadora do movimento dos focolares) se confrontou com as desigualdades sociais que deixavam milhões de pessoas na pobreza, sentiu uma grande urgência em propor um novo paradigma económico para uma nova cultura: uma economia de comunhão assente numa cultura que substituísse a cultura dominante do ter para uma cultura do dar e da reciprocidade.

A economia de comunhão caracteriza-se por conjugar a eficiência necessária à economia com a fraternidade própria da condição humana. Este novo paradigma económico acredita que os comportamentos económicos podem ter por detrás uma outra visão do homem: o homo donator, isto é, aquele que é capaz de dar porque se preocupa mais com o bem-estar de uma comunidade do que com o seu “auto-interesse”. O homo donator caracteriza-se por colocar o “outro” no centro das suas preocupações, interessa-se mais em dar do que em acumular, procura uma sociedade que substitua o verbo ter, pelo dar. É um homem aberto à comunhão, que percebe que o bem do próximo também lhe afecta.

A economia de comunhão tem atraído o interesse de pensadores de referência em diversas áreas do saber como economia, filosofia ou antropologia. Nas áreas económicas porque é um “abalo” aos alicerces da ciência económica; na filosofia porque coloca questões sobre a finalidade do homem, sobre a busca de felicidade, e sobre a gratuidade nas relações; e interessa às áreas antropológicas porque representa uma visão particular do ser humano.


A proposta de economia de comunhão procura humanizar a economia, comprometendo as empresas, em todos os aspectos das
suas actividades, centralizando a atenção nas exigências e nas aspirações de cada pessoa, bem como nas instâncias do bem comum.

A visão antropocêntrica da actividade económica não quer fazer com que as empresas se descomprometam do objectivo de gerar lucro e muito menos que se afastem da lógica da economia de mercado. Esta visão não nega o mercad
o, antes pelo contrário: aceita-o e assume-se como “jogador” de pleno direito. A distinção que as empresas aderentes à economia de comunhão pretendem está na forma como olham e se posicionam no mercado, e não na negação do próprio. Sociedades anti-mercado não são sociedades aceitáveis, mas também não são aceitáveis sociedades que só se relacionem segundo uma lógica de mercado. No fundo, diria que nem só mercado, nem sem mercado.

Esta corrente pode ser interpretada de forma erró
nea se for entendida como uma tentativa de abordagem caritativa aos problemas sociais, que a economia também tem gerado e aos quais não tem conseguido responder. Embora ganhe maior importância nestes tempos, a economia de comunhão é uma nova abordagem social e económica que ajuda à erradicação da pobreza e promoção da justiça, mas não apenas para hoje: para o futuro, também. Ou seja, é provável que esta doutrina evolua tanto mais quanto mais for difundida, quer ao nível empresarial, quer ao nível académico. Mas esta evolução que se prevê, nunca abandonará a sua intuição inicial: a divulgação de uma cultura do dar.



5 comentários:

Anónimo disse...

"Sociedades anti-mercado não são sociedades aceitáveis"

Porquê?

Se uma sociedade construi uma estrutura produtiva, porque não pode o seu produto ser tendencialmente gratuito e propduzido conforme necessidade da sociedade?

Porque não se pode concentrar a sociedade no conhecimento e na excelência?

Porque deve a sociedade ficar escravizada a "mais valias" que nada são para além de valorização especulativa?

Se o custo de produção é de x já contempladando as remenurações dignas porque se vende a preços de 100x? Só porque o mercado o permite? E depois de barriga cheia dos 100x se pode dar a esmola x... e dar isso aos outros já é muito...

"Sociedades anti-mercado não são sociedades aceitáveis"

Porquê?

Anónimo disse...

Um problema da economia de mercado:
Orienta objectivos errados para a sociedade.

Ex: Um produtor de carne. Em economia de mercado tem por objectivo produzir mais reduzindo custos mantem a qualidade em níveis aceitáveis pelo mercado. Para produzir mais é induzido a comprar "produtos" que não são detectados, que desconhece exactamente a sua composição mas que "magicamente" aumenta o peso e volume de carne... a qualidade é aceitável para o mercado... até aparecer doenças "novas" como a das "vacas loucas"...

Um produtor responsável sem objectivos de mercado coloca outras perguntas. O que pode melhorar a qualidade da carne? Ausência de luz? Alimentação apenas de leite? Existem plantas com crescimento naturalmente mais rápido e que alimentam os animais? Existem plantas que alimentam os animais e controlam infecções e parasitas?

A sociedade pode perguntar... necessitamos de carne? necessitamos de sacrificar animais? Como omnívoros o nosso instinto indica que sim ao ponto de não considerar coelhos como carne para se poder comer coelho na quaresma...

E os animais que alimentação preferem? Cânhamo? alfafa? Que conhecimento existe? É essa a preocupação de um produtor de mercado? Níveis de excelência?

Anónimo disse...

http://www.ted.com/talks/nigel_marsh_how_to_make_work_life_balance_work.html

Esta economia de mercado é incompatível com a vida, ie, com a noção de família...

Anónimo disse...

De facto as sociedades ocidentais desenvolvidas nesta economia de mercado têm a pirâmide etária invertida... e o resultado está à vista...

Anónimo disse...

Porquê falar de pobresa?

O objectivo é gerir os pobres?

Deveriam falar de abundância sendo o objectivo a felicidade e excelência...

http://www.ted.com/talks/michael_pawlyn_using_nature_s_genius_in_architecture.html