27 de fevereiro de 2011

Esta vez em Madrid. (Agosto, 2011. MAGIS).


Não faz mal valorizar as lembranças que a memória nos traz.

Houve um dia em que regressei do ‘magis 2005. Da Alemanha.

Foi isto que escrevi.

[[ Vem de acabar este ´magis 2005. Uma experiência espectacular. Só agora reparo que nós, os rapazes e as raparigas que tivemos a imensa sorte de partilhar o roteiro durante estes dias todos, acertámos no momento de escolher espontaneamente o adjectivo “inesquecível” como o mais apropriado para definirmos a experiência que acabávamos de viver. Grande privilégio, nada desaproveitado, no qual, apenas me lembro, tomei parte.

Mas, se calhar, sim. Sim, lembro-me.

Recordo que foram três os principais motivos que me impulsionaram rumo a Köln, cidade de encontro das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ).

A necessidade de preencher com ócio um verão merecidamente vazio quanto à aprendizagem académica foi o mais trivial deles. Mais sentida era a curiosidade por me ver rodeado por tantos jovens de tantos países diferentes, sendo isto tudo no contexto duma nação que naquela altura ainda não conhecia. Mas todo o voo precisa duma força definitiva que o descole do chão. Para mim, esse esvoaçar foi a ideia de que era Deus o laço de união e único sentido da viagem daqueles jovens, cujas vidas correriam paralelas durante alguns dias. Embora se tratasse dum passeio com grande atractivo turístico, este atractivo não parecia ser tanto a preocupação dos participantes no ´magis e nas JMJ quanto a concentração juvenil convocada por Bento XVI, à qual se chegaria após uma peregrinação física. Mas não só. Também espiritual. Aquilo cheirava a religioso. E era-o. É por isso que os meus colegas, sem eu ainda ter saído da minha cidade, me repetiam que ia aborrecer-me nuns dias "fixes" rodeado de padrecas e freirinhas, gente esquisita que muito possivelmente não teria nada melhor que deixar-se levar pelo programa estival proposto nos seus seminários, liceus ou residências universitárias. Instituições religiosas todas elas, com certeza.

Quero reconhecer que eu caí igualmente neste pensamento, sem reparar que estava a ser, nesse mesmo momento, mais um padreca aos olhos de para aí mais de um milhão de jovens.

Mas, como é atrevida a ignorância!

Foram tantos os “cristãos diferentes” que encontrei e conheci logo desde o primeiro dia que aquela teoria dos padrecas não demorou assim muito tempo a desaparecer radicalmente da minha mente. É até inacreditável como é algo tão grande e inexplicável essa fé capaz de atrair milhares e milhares de jovens de todo o mundo que recusam deixar-se amedrontar pelas modas, opiniões políticas, situações económicas, procedências culturais… Ultrapassa realidades para as conectar. Desta forma, a viagem acabou por ser um inesperado desfile. De rastas, de melenas multicolores ou de cabelos em gel, ataviado cada um com as suas respectivas roupas. Existia acolhimento para todos, desde os mais formais até os mais hippies. Ninguém se interessou em perguntar, mas não havia dúvida de que ali conviveram pessoas politicamente de direita e de esquerda, com os seus extremos representados. É possível, mas era a beleza de sabermos que era outra coisa presente no ambiente o que ali nos conectava, que nos invadia, algo imensamente mais importante. Quem apanha uma mochila no ombro, repleta com o imprescindível, e se atreve a mergulhar no desconhecido, não entende de riqueza, mas de caminhada, de procura, de cooperação com os seus semelhantes: o peregrino que o acompanha.

A procedência dos companheiros que lá encontrámos não importava mais do que uma mera localização no globo terráqueo. Assim surgiram, como simples exemplos, o minhoto, o de Seixo de Mira, o polaco de Varsóvia, a de Taipei, o grupinho de porto-riquenhos.

Não era assim tão transcendente donde partimos como o que estávamos a procurar.

Isto tudo tem a ver inexoravelmente com o mundo do terreno e, como tal, nunca mais deve ser confundido com o espiritual. Portanto, sempre que julgarmos através de preconceitos semelhantes aos mostrados, estaremos a valorizar em excesso o terreno, ou até a desprestigiar o espiritual. Erros.

Grandes erros os dois, pois são os gestos, as palavras, as atitudes e as disponibilidades para com os outros o que, em verdade, fará com que sejamos identificados como cristãos, sem por isso existir a necessidade de sermos nós próprios a apregoar a nossa fé.

Assim consigo compreender com muita mais lucidez todos aqueles jovens cristãos que, assim como se ouviu no Evangelho de Marienfield, “regressam aos seus lugares de origem por caminhos distintos, mas com uma mesma mensagem…” ]]

Vêm à minha memória estas piscadelas do passado quando faltam pouco mais de cinco meses para nos encontrarmos mais uma vez.

Desta vez, em Madrid.

2 comentários:

Ana Paula disse...

Não faz mal, faz muito bem, esse valorizar as lembranças que a memória nos deixa, quando elas são de luz, de crescimento, e de entrega. E quando, como agora, a sua partilha deixa aos outros também luz, crescimento e entrega...

Anónimo disse...

acheter cialis , cialis generique, cialis acquistare, cialis.