4 de fevereiro de 2011

João de Brito: português, jesuíta, missionário na Índia, mártir.

Quando nasceu, a 1 de Março de 1647, Portugal tinha acabado de sair da “incubadora”, pelo que, de certa forma, cresceram juntos. Aos 11 anos, contudo, João caiu doente. A memória de um “português honorário”, Francisco Xavier, co-fundador da Companhia de Jesus e missionário na Ásia, cujas cartas encheram salões de cortes e de universidades por toda a Europa com as histórias do Oriente, revigorou-o. Curado, passou a andar trajado “à jesuíta”. Essa profecia veio a concretizar-se, ainda que a contragosto da mãe, que o via já acumulando glórias para os Brito.

Como jesuíta, e não obstante a desenvoltura nas questões académicas, mostrou-se desde cedo inclinado para “as Índias”. Isso, de resto, não era propriamente raro: os heróis de então eram aventureiros ultramarinos. Uma vez na Índia, João experimentou aquilo que já outros jesuítas haviam sentido: como é que o evangelho encaixa nesta cultura?

A resposta a esta pergunta era (e é) crucial. Mas não era fácil; e nem sempre foi feliz ao longo da história. Muitas vezes, confundia-se o modo europeu de viver o evangelho com o próprio evangelho. Esse eurocentrismo resultava numa enorme dificuldade de compreensão da cultura e tradições locais, vistas amiúde como ímpias. Para sermos francos, este não é um problema nem de ontem, nem da fé. Aceitar os diferentes implicará sempre uma viagem missionária rumo ao lado-de-lá das nossas mútuas fronteiras, até que deixemos de ser o centro.

João, no entanto, adoptou rapidamente a cultura do Maduré, e também ele foi adoptado pela população. O discernimento difícil a respeito da relação entre evangelho e culturas europeia e indiana (com as suas mútuas resistências) foi alimentando tensões e suspeitas. Finalmente, a 4 de Fevereiro de 1697, João de Brito acabou por ser martirizado, sob a acusação de querer eliminar as tradições locais em nome da religião.

A grande dificuldade do anúncio da fé está em conseguir transmitir que aquilo que nos chega de fora (as palavras e as fórmulas) é apenas sintoma do que trazemos por dentro (a própria vida de Deus). Precisamos de linguagens e de gestos: é por meio deles que comunicamos e que compreendemos – de uma determinada forma – o mundo. Assim é nas ciências (há que aprender cientês para ver o mundo como um cientista), nas artes, mas desde logo nos pequenos grupos (com os seus locais de culto próprios – “aquele café” – e os seus ritos – “vamos fumar um cigarro?”). Assim é também na fé. No entanto, enquanto essas linguagens forem apenas exteriores, nunca descobriremos o seu verdadeiro sentido. Enquanto não respirarmos ciência, uma experiência é apenas um protocolo; enquanto não vibrarmos com a arte, uma tela cor-de-laranja é apenas um capricho de um artista; enquanto não formos verdadeiramente íntimos daqueles de quem gostamos, cafés e cigarros são apenas entretenimento e poluição, e nunca relação. Por isso, precisamos das exterioridades para aprender a ver e a viver no mundo; mas tudo isso só terá sentido quando descobrirmos o mundo que trazemos por dentro.

O evangelho não muda uma cultura; cultiva-nos para que a saibamos viver bem.

6 comentários:

Anónimo disse...

"O evangelho não muda uma cultura; cultiva-nos para que a saibamos viver bem."

"O evangelho não muda uma cultura;" Afirmação falsa!

"cultiva-nos para que a saibamos viver bem." falta definir o que é viver bem.

É legítima a opção de cultura, de formatação. É legítima a indignação pela tentativa de formação não solicitada e a recusa. Se a tentativa de formação (formatação) continua então pode ser considerada tentativa de uma agressão e poderá ter uma resposta agressiva...

Mesmo que tenha a melhor das intenções...

E se não tentar mudar? Apenas tentar ajudar nas coisas simples e dar a optar possíveis soluções...

Rui Miguel Fernandes disse...

Caro anónimo,

Tem muita razão quando diz que o evangelho "muda" uma cultura, se o considerarmos no sentido que propõe. Contudo, a expressão pretendia acentuar outro aspecto: o evangelho parte de uma relação pessoal. E se é verdade que todas as relações nos transformam, essa transformação não nos rouba a identidade. Ficamos "diferentes", sim, mas não como quem "muda de corpo".

Diz-se em teologia que "a graça não anula a natureza". Quer dizer: Deus, quando Se aproxima de nós, não despreza o que somos. E se nos transforma, fá-lo para que sejamos "profundamente quem somos": Seus filhos.

Muitas vezes, na linguagem cristã, falamos de conversão. A imagem mais imediata que nos ocorre tem que ver com os hábitos: "deixar isto, deixar aquilo". Mas se a conversão, para ser total, não prescinde das "exterioridades" (esses "hábitos"), ela só é real se começar por dentro. E isso é outro campeonato... Podemos ser os "campeões" da boa educação sem que, no entanto, tenhamos chegado a conhecer a bondade... Por isso é que o cristianismo não se reduz a uma questão ética/disciplinar. O cristianismo vive da adesão profunda. E isso será o caminho da "vida boa", "bem vivida".

Claro: ninguém chega à profundidade sem antes ter estado à superfície. Por isso, a "cultura" (linguagens, hábitos,...) é como que uma introdução à vida. Lentamente, poderemos ir mergulhando até tocarmos no "leito do mar". O regresso à "tona das coisas" será, então, bem diferente. Saberemos valorizar o que é de valorizar; relativizar o que é passageiro; recusar o que for prejudicial.

Nos começos do cristianismo, vários cristãos perguntaram-se: "como podemos ser cristãos? Podemos estar onde todos os outros estão, fazer o que todos fazem?". A pergunta é muito importante. Dela dependeu ou um cristianismo de tipo "sectário" (o clube dos puros, com uma cultura marginal, separada)ou um cristianismo "universal". O cristianismo convive com qualquer cultura, com qualquer ambiente, com qualquer pessoa. Pela encarnação (ou seja, desde que Deus se fez homem, em Jesus) deixou de haver "locais interditos". A "cultura do evangelho" é a cultura da encarnação, ou seja, do mergulho [de Deus e, por isso, também nosso] na "terra". Trata-se, por isso, de outro tipo de "mudança". Não é "onde" estamos, mas "como" estamos.

Mas esse "como" não é já uma "nova cultura"? Sim; no futuro. No limite, em Deus. Por enquanto viveremos no regime do provisório. Os regimes passam, as línguas e as culturas, lentamente, também. A própria forma de viver a fé vai sendo adensada à medida que vai descobrindo novas dimensões. Isto transforma a evangelização num processo paciente. Nós mudamos lentamente, porque "mudar" é o nosso "modo de viver". E porque o evangelho "é para a vida toda", dura todo esse tempo. Estamos em processo; a conversão dura uma biografia inteira.

Rui Miguel Fernandes disse...

Por isso não é violenta; não pode ser. A menos que tomemos por violentos os abraços que recebemos da bondade de Deus e dos outros.
É evidente que, ao longo da históra, houve violência, possivelmente porque se confundiu o ritmo lento e paciente do "evangelho a cultivar-se em nós" com o desejo de uma mudança brusca na "cultura". Mas se a cultura não é uma "entidade abstracta", mas "pessoal", transformá-la não pode ser uma questão de "decreto disciplinar, estético ou religioso", mas humanizador.

Ora, não há humanidade sem contexto. Somos o que somos também por influência dos espaços que ocupamos e das pessoas com quem nos cruzamos. Deus, ao encarnar, não recusa essas influências. Pelo contrário: torna-Se de tal modo disponível que chega a ser vítima.
"Não é o que está fora que nos polui, mas o que sai de dentro", dizia Jesus. Ver o contexto "por dentro"; amar uma cultura por dentro. Só quem ama muito tem liberdade para dizer "não" como quem salva. Mas as mudanças não são apenas "nãos" (como se tudo, em nós ou nas culturas, fosse negativo). Podemos mudar positivamente, levando a sério as ferramentas que nos são dadas. A conversão de coração não está sobretudo em "rejeitar" este ou aquele gesto, mas em pôr empenho em muito do que já fazemos. A conversão, no fundo, está no amor.

Enquanto não aprendermos a acolher os "pontos negros" no nariz de quem amamos como parte integrante do seu rosto, então, verdadeiramente, não o amamos. Na encarnação, Deus mostrou que não temos "pontos negros" suficientes para que nos tenha nojo... Se amamos por inteiro podemos não só "dizer não", como ainda, e principalmente, podemos dar espaço para que o outro nos diga não. O amor não obriga: liberta.
Por conseguinte, o evangelho não transforma apenas dizendo "nãos" à cultura, mas também permitindo que ela o rejeite.
Mas isso representa um enorme desafio para nós, cristãos! Será que amo tanto os outros a ponto de lhes permitir que me rejeitem sem que isso diminua o quanto lhes quero bem?
Essa é a grande "mudança" cultural: a da liberdade no amor. A utopia cristã não está em ter "crucifixos" nas paredes (embora tal possa ser legítimo enquanto revelador da liberdade religiosa num Estado), mas em amar o próximo tal como somos amados por Deus. Porque é isso que revoluciona as nossas vidas. E nem por isso deixamos de ser "cidadãos do mundo". Simplesmente, "vivemos na terra, mas o nosso coração está nos céus" (cito de memória um passo de uma carta escrita por um cristão, no séc. II: carta "A Diogneto", sobre a identidade dos cristãos).

Muito obrigado pela sua paciência. Note, peço-lhe, que estamos simplesmente a acentuar "ritmos" e dimensões diferentes do processo de mudança.

Rui.

Diogo em Macau disse...

O mesmo problema se vive ainda hoje em dia na China. Como é que a Igreja se pode ambientar a uma cultura tão diferente? O modo tradicional dos Chineses viverem a sua religião é tão diferente da nossa...
É necessário "Confucionar" o Evangelho para que este possa ser transmitido numa cultura tão moldada por essa filosofia de vida. Depois de estudar Filosofia no Liceu por 3 anos, tenho pena que Confúcio não apareça sequer nos programas. E aí em Filosofia em Braga? Estudam Confúcio?

Anónimo disse...

mutatis mutandis

Rui Miguel Fernandes disse...

Olá!, Diogo!

Em Braga estudamos somente "filosofia ocidental"... "Em Roma, sê romano". Mas sim: é fundamental deixar que o evangelho "fale nas diversas línguas". A sensibilidade de um oriental trará à luz feições preciosas do evangelho. Cada pessoa experimenta de uma forma única o mundo, os outros e o próprio Deus. Essa diversidade não "ameaça" a comunhão; pelo contrário: dá-lhe densidade e consistência.
Os contextos, cronologicamente falando, estão muitas vezes "antes" do evangelho. Antes de conhecer a fé, conheci as paredes de um ventre, um colo, um berço, uma casa, um bairro, uma cidade, uma língua. Esses cenários não me são acessórios: de alguma maneira, eles fazem parte da minha biografia. A experiência de Deus inclui tudo isso.
Mas, claro: quando se fala de um "cultura cristã" está-se a falar não tanto de uma "sociedade marginal", com ritos e até modas próprios, mas sobretudo de uma "forma cristã" de viver "numa cultura".
Inclino-me a pensar, como já pude dizer, que esta mudança é sobretudo "de coração", mais que de conteúdos. A transformação do evangelho aponta para a "autenticidade" (com o que isso implica de empenho pessoal) que, no limite, corresponde à resposta à pergunta: que efeito têm em mim as melhores notícias (as mais arrebatadoras, as mais iluminadoras, as mais "exigentes", as mais apaixonantes, as mais entusiasmantes, as mais comprometedoras)? Em que é que o amor me muda?