9 de março de 2011

Memento aos vivos


«Lembra-te, homem, que és pó e em pó te hás-de tornar»


Pe. António Vieira, em Sermão de Quarta-feira de Cinzas, sobre a vaidade do pó levantado:

«(…) em que nos distinguimos os vivos dos mortos? (…) Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são o pó que anda, os mortos são o pó que jaz: Hic jacet [1]. Estão essas praças de Verão cobertas de pó: dá um pé-de-vento, levanta-se o pó no ar, e que faz? O que fazem os vivos, e muitos vivos. Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por essa rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra; em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento: cai o pó, e onde o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. Não é assim? Assim é. E que pó, e que vento é este? O pó somos nós: Quia pulvis es [2]: o vento é a nossa vida: Quia ventus est vita mea [3]. Deu o vento, levantou-se o pó: parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o pó levantado; estes são os vivos. Parou o vento, eis o pó caído; estes são os mortos. Os vivos pó, os mortos pó; os vivos pó levantado, os mortos pó caído; os vivos pó com vento, e por isso vãos; os mortos pó sem vento, e por isso sem vaidade. Esta é a distinção, e não há outra.

(…)

À vista desta distinção tão verdadeira, e deste desengano tão certo, que posso eu dizer ao nosso pó, senão o que lhe diz a Igreja: Memento homo? Dois Mementos hei-de fazer hoje ao pó: um Memento ao pó levantado, outro Memento ao pó caído: um Memento ao pó que somos, outro Memento ao pó que havemos de ser: um Memento ao pó que me ouve, outro Memento ao pó que não pode ouvir. O primeiro será o Memento dos vivos, o segundo o dos mortos.

Aos vivos, que direi eu? Digo que se lembre o pó levantado que há de ser pó caído. Levante-se o pó com o vento da vida, e muito mais com o vento da fortuna [4]; mas lembre-se o pó, que o vento da fortuna não pode durar mais que o vento da vida, e que pode durar muito menos, porque é mais inconstante. O vento da vida por mais que cresça, nunca pode chegar a ser bonança; o vento da fortuna, se cresce, pode chegar a ser tempestade, e tão grande tempestade que se afogue nela o mesmo vento da vida. Pó levantado, lembra-te outra vez, que hás-de ser pó caído, e que tudo há-de cair e ser pó contigo. Estátua de Nabuco: ouro, prata, bronze, ferro, lustre, riqueza, fama, poder; lembra-te que tudo há-de cair de um golpe, e que então se verá o que agora não queremos ver: que tudo é pó, e pó de terra. Eu não me admiro, senhores, que aquela estátua em um momento se convertesse toda em pó; era imagem de homem, isso bastava. O que me admira, e admirou sempre, é que se convertesse, como diz o Texto, em pó de terra: In favillam aestivae areae [5]. A cabeça da estátua não era de ouro? Pois por que se não converte o ouro em pó de ouro? O peito e os braços não eram de prata? Por que se não converte a prata em pó de prata? O ventre não era de bronze, e o demais de ferro? Por que se não converte o bronze em pó de bronze e o ferro em pó de ferro? Mas o ouro, a prata, o bronze, o ferro, tudo em pó de terra? Sim. Tudo em pó de terra. Cuida o ilustre desvanecido que é de ouro, e todo esse resplendor em caindo, há de ser pó, e pó de terra. Cuida o rico inchado que é de prata, e toda essa riqueza em caindo há de ser pó, e pó de terra. Cuida o robusto que é de bronze, cuida o valente que é de ferro, um confiado, outro arrogante; e toda essa fortaleza, e toda essa valentia em caindo, há de ser pó, e pó de terra: In favillam aestivae areae.

(…) O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó: e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade e a fortuna os que fez iguais a razão. Ouvi a S. Agostinho: Respice sepulchra et vide quis dominus, quis servus, quis pauper, quis dives? Discerne, si potes, regem a vincto, fortem a debili, pulchrum a deformi: Abri aquelas sepulturas, diz Agostinho, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros? Distingui-los? Conhecei-los? Não, por certo. O grande e o pequeno, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o senhor e o escravo, o príncipe e o cavador, o alemão e o etíope, todos ali são da mesma cor.»


A única distinção entre vivos e mortos é serem uns pó levantado e outros pó caído, que jaz. E não só não atentam os primeiros à sua finitude, como se nunca houvessem de cair, não só é tão ténue esta distinção que pertence ao vento, também se distinguem entre si, dando-se cores, considerando-se de dignidades diferentes, sem que a natureza o permita, pois uma vez caídos todos revelam a mesma cor. O dedo de Vieira está apontado à vaidade, no seu sentido etimológico daquilo que é vão. Vão é viver sem um olhar sobre a morte, sobre essa verdade que há-de trazer realismo a tantas ilusões e responsabilidade a tantos sonhos. Vão é viver como se algo nos distinguisse em diferentes dignidades e não ver como nos irmana a mesma condição humana, simultaneamente frágil e virtuosa.

A proposta deste dia, primeiro da Quaresma, novo tempo do dinamismo litúrgico anual da Igreja, é a de não viver uma vida vã. A Igreja tem, ao longo e no fim deste percurso quaresmal, uma Boa Nova para aqueles que, na verdade da sua humanidade, a quiserem escutar: O pó levantado e caído é pó amado; e o pó amado é pó erguido para a vida eterna.

Hoje, "lembra-te, homem, que és pó".


1 – "Aqui jaz"; 2 – "que és pó"; 3 – "vento é a minha vida"; 4 – sorte, ventura; 5 – "na cinza das praças de Verão".

2 comentários:

Anónimo disse...

"em que nos distinguimos os vivos dos mortos?

Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído;

Esta é a distinção, e não há outra."

ERRADO? Mais incompleto...
Nota: 11

É verdade que:

«Lembra-te, homem, que és pó e em pó te hás-de tornar»

Mas não somos só pó. Somos alma. Livre escolha e não uma Maria vai com as outras (pó vai com o vento). O EU, a moral, a opção, a escolha, a verificação, a acção é o que nos separa dos Vivos e dos mortos.

O que acham?

Anónimo disse...

Extracto bem escolhido de um dos mais extraordinários textos da nossa literatura barroca, senão mesmo o mais extraordinário de todos e um dos mais belos de sempre de toda a nossa literatura. Devia ser de leitura obrigatória nas escolas.