5 de abril de 2011

1/2 - Críticas Teístas ao Ateísmo de W. Craig


Este post será a primeira de duas partes de um resumo do artigo «Críticas Teístas ao Ateísmo» de W. Craig in: Um Mundo sem Deus. Ensaios sobre o Ateísmo, dir. Michael Martin, Edições 70.

1. Introdução

a. Após o colapso do verificacionismo assistiu-se ao ressurgimento da metafísica e posteriormente do Teísmo (Academia Anglo-Saxónica).
b. O autor vai apresentar duas teses:
i. Não há argumentos cogentes (Cuja veracidade satisfaz de maneira total e coerciva o entendimento ou o intelecto) a favor do ateísmo:
ii. Há argumentos cogentes a favor do teísmo.

2. Não há Argumentos cogentes a favor do Ateísmo

c. A presunção do ateísmo

i. Afirmação de que pela ausência de indícios a favor da existência de Deus, devemos presumir que este não existe.
1. Esta alegada presunção parece misturar o ateísmo com o agnosticismo.
ii. Contudo, a ausência de indícios não é indício de ausência.
1. o ponto (i) só se verifica quando a entidade que é postulada existir, seria de esperar mais evidencias da sua existência do que aquelas que já dispomos.
2. Por isso, cabe ao ateu provar que se Deus existisse forneceria mais indícios da sua existência do que aqueles que temos ao nosso dispor.
iii. Daqui segue-se um ónus da prova exigente para o ateu:
1. No cristianismo o modo primário pelo qual passamos a conhecer Deus não é por indícios mas por meio do trabalho interior do seu Espírito Santo, que põe eficazmente as pessoas numa relação com Deus.
2. No cristianismo Deus forneceu a criação do universo a partir do nada e a ressurreição de Jesus dos mortos, eventos a favor dos quais há bons indícios científicos e históricos, além dos argumentos da teologia natural.
3. \A presunção do ateísmo é efectivamente presunçosa.
iv. Contra-argumentação ateia
1. Se Deus existisse deixaria mais indícios da sua existência do que os que temos.
2. Se Deus existisse teria evitado a descrença no mundo.
3. ^ Estas afirmações têm pouca ou nenhuma comprovação, além de que se enquadram totalmente fora do quadro teísta.

d. A (in)coerência do teísmo

i. Incoerência da noção de Deus
1. Dela o ateísmo ajuda o teísmo a formular uma concepção mais adequada (Tese┌ Antítese º Síntese)
ii. Novas formulações
1. Omnipotência = S é omnipotente num momento t = S pode em t efectivar qualquer estado de coisas que não seja descrito por contrafactuais sobre os actos livres alheios e que seja logicamente possível, que alguém efective, dado o mesmo passado bruto em t e as mesmas contrafactuais verdadeiras sobre actos livres alheios.
2. Omnisciência = S é omnisciente = for metafisicamente impossível existir um ser com mais poder cognitivo do que S ^ se este poder for completamente exercido.

e. O problema do mal

i. Os ateus apresentam o mal como um problema interno do teísmo. Para isso afirmam uma disjunção falaciosa, porque nem A nem B são logicamente incompatíveis.
ii. Problema indiciário do mal. O chamado «mal gratuito», que é todo aquele sofrimento que não é necessário para alcançar um qualquer bem adequadamente compensador. Os ateus afirmam que este existe, sendo este, incompatível com a existência de Deus.
iii. O Teísmo rejeita a existência do «mal gratuito»:
1. Não estamos em boa posição para avaliar com confiança a probabilidade de que Deus não tem razões moralmente suficientes para permitir o sofrimento no mundo (Argumento do terraço de um prédio).
2. O Teísmo cristão implica doutrinas que aumentam a probabilidade da coexistência entre Deus e o mal.
a. O principal propósito da vida não é a felicidade, mas o conhecimento de Deus.
b. Foi atribuída à humanidade uma liberdade considerável para se rebelar contra Deus e o seu propósito.
c. O propósito de Deus afecta a vida eterna.
d. O conhecimento de Deus é um bem incomensurável.
3. A crença de que Deus existe está mais comprovada do que a de que o mal no mundo é realmente gratuito.

21 comentários:

Anónimo disse...

Caro Ricardo,

Não é por tentar dar uma formatação formal que torna o texto formal...

O ateu nada impõe, nada ganha, quem se arroga o poder de representação... é que deve ter o onús da prova... não acha? sinceramente... não acha?

Anónimo disse...

Por falar no mal...

Porque é que ninguém fala dos abusos sexuais a crianças que a ordem jesuíta fez a crianças alemãs e americanas?

E por cá em Portugal????

Naaaaaadaaa.... É gente excepcional....

Rui Miguel Fernandes disse...

De facto... É o problema do anonimato... Faz-se e diz-se o que se quer, impunemente... Realmente, há muitas formas de abuso...

Anónimo disse...

Impunemente...

Afinal quem persegue quem?

Cristo não daria a outra face?

Anónimo disse...

Faz-se e diz-se o que se quer, impunemente...

Eu te baptizo em nome de Deus.

Não separe o homem, o Deus uniu.

Realmente, há muitas formas de abuso...

Missé sj disse...

Caro anónimo,

estive na dúvida se a melhor atitude seria a de não tomar em atenção os seus comentários ou dar-lhe uma resposta. Decidi-me a dá-la, como pode ver.

Creio que os comentários num blog devem ser construtivos, ir ao encontro daquilo que os textos propõe e, portanto, não devem ser apenas comentários avulsos e exposição de críticas gerais e superficiais. Sobretudo em relação a uma realidade como a Igreja, que é muito mais abrangente que os casos que refere. Se pensa que a Igreja se resume a isso está enganado e não sabe ver.

Caso queira expor as suas opiniões sobre estes factos, que como lhe disse me parece uma leitura muito estreita, pode criar um outro blog. É livre para isso. Até podia chamar ao seu blog: ‘Comentários do anónimo’! Mas por favor: não acuse a religião daquilo que o senhor não percebeu.

Com toda a cordialidade que me é possível, Miguel sj

Ricardo disse...

Costuma-se dizer que o ónus da prova fica do lado daquele que afirma. Contudo, o debate que tem ocorrido entre ateísmo e teísmo tem sido um verdadeiro jogo de ping pong onde cada um dos lados constrói argumentos para colocar o ónus da prova no outro lado.
Quer-me parecer que esse diálogo sobre onde deve ficar o ónus da prova tem sido muito infrutífero. Porém, para ser honesto consigo, eu creio que o ónus da prova deve estar do lado do teísta e não do ateu. Ou seja, deve ser o teísta que deve dar provas de porque é que afirma a existência de Deus, e não o ateu a dar provas da não existência de Deus.

Cordialmente

Anónimo disse...

Caro Miguel,

As perguntas que tenho e que torno públicas, são concretas e nada superficiais...

Lamento é que as respostas indiquem a incapacidade de demonstrar a existência das bases das promessas.

Posso perguntar o que pensa que não entendi sobre a religião?
Estou disposto a aprender e a mudar de opinião se os seus argumentos forem lógicos, verdadeiros e verificáveis.

Cordiais saudações,

Anónimo disse...

Caro Ricardo,

Plenamente de acordo consigo.

Cordiais saudações,

Anónimo disse...

Caro Miguel,

No último comentário não lhe agracedi a sua resposta e o seu tempo.
O meu sincero agradecimento.

Cordiais saudações,

Rui Miguel Fernandes disse...

Caro anónimo,

Não há diálogos sem pressupostos. Os pressupostos são, simultaneamente, a sua possibilidade e a sua ameaça. Possibilidade, porque é a partir deles que qualquer um de nós constrói o mundo e, para além disso, porque são eles que, até certo ponto, de "comuns", permitem a comunicação. Por exemplo: ter o português como língua materna condicionou (a bem e a mal) a minha forma de "pensar e dizer" o mundo; por outro lado, ao escrever-lhe em português, pressuponho que ambos tenhamos dele um domínio mínimo que nos permita, se não concordar, ao menos perceber o que nos chega do lado de lá de nós.
Ameaça, porque sempre nos deparamos com a suspeita de que "o outro" tem pressupostos errados, porque diversos.
Ora, estou convencido que as discordâncias são mais que questões de lógica. Aliás, a crítica positivista à metafísica não reside no facto de a considerar "ilógica", sob o ponto de vista interno, mas simplesmente por considerar que ela não correspondia a nenhum estado de coisas do mundo. Daí a sua ausência de sentido. Portanto, se não é uma questão de lógica, então, o que será?
Wittgenstein colocou uma questão similar no seu "Da certeza", ao referir que não era por falta de inteligência, cultura ou espírito crítico que muitos criam (ou não).
O problema da discordância, ou de perspectivas diferentes, não se prende, portanto, com questões de inteligência.

Vários amigos descrentes me perguntam: mas tu não precisas de provas? Já viste Deus nalgum lado? E como podes conciliar a imagem de Deus com o mundo real?
É nessas alturas que falamos sobre a noção de "prova". Na visão tradicional de ciência, consideramos a "prova" como o "facto sem mais". Mas a isto que nos parece uma afirmação pacífica talvez falte considerar só há provas quando há "teorias" (ou seja, problemas inteligíveis aos quais procuramos oferecer respostas testáveis/comprováveis). E as teorias (assim o diremos com Popper) partem de uma comunidade de "sujeitos". Não são os factos que nos dizem "escolhe-me a mim"; somos nós que, criticamente, os interpretamos e testamos.
Não há provas sem a intervenção da "inteligência" que os interprete e arrisque respostas (naturalmente provisórias).
Ora, algo de semelhante se passa nas nossas relações.

Rui Miguel Fernandes disse...

Frequentemente procuramos "provas", indícios que nos confiram certeza, ou ao menos uma forte probabilidade que nos torne aquela pessoa ou aquele cenário confiável. Mas, curiosamente, nem todos assumimos os mesmos gestos como "provas" "dos mesmos factos". Se assim o fosse, haveria um modelo padrão de "pedidos de casamento" (por exemplo).
Ao contrário do que poderíamos pensar, a "subjectividade" não é inimiga da "objectividade". Os objectos "não falam" sem sujeitos. Mas, claro, essas interpretações subjectivas são serão pertinentes depois do teste. Não basta dizer "mas eu amo-te" se o outro não encontrar "correspondência existencial" entre as palavras e os gestos. Do mesmo modo, não foi o ter-se dito que a "terra era plana" (por mais palavrosa e lógica que fosse a argumentação) para que isso fosse real.
Se não considerarmos as proximidades e distâncias a respeito da noção de "prova", na ciência como na vida, teremos dificuldade em aceitar que, existencialmente, alguns possamos tomar como "prova" algo que só partindo da sua "teoria" tem significado.
Pela sua natureza, a ciência não pode conviver por muito tempo com "teorias" (e mundividências) em competição, o que implicará que, a dado momento, aquilo que, numa teoria, serviria de prova, noutra se torne profundamente "sem sentido". Mas se considerarmos que, antropologicamente, a diferença está longe de ser um obstáculo (mesmo biologicamente falando), mas uma condição de possibilidade da relação, então as "teorias humanas" (e as respectivas provas) deixarão de ser vistas necessariamente como "em competição" para serem vistas "em cooperação". Disto resultariam 2 perguntas fundamentais: mas isso não é profundamente relativista? E, que provas apresentaria?

Dentro da "teoria cristã" (para facilitar o discurso), as "provas" são bastante simples: onde há bondade, gratuidade, simplicidade, aí encontramos Deus espelhado. Isto, que poderia ser um desapontamento para um ateu ("eu também acho que isso é bom, e não preciso de Deus") é, ao mesmo tempo, a medida de um teste que "evita" os relativismos. Podemos ter teorias diferentes, mas se as provas forem desumanizadoras, então estamos diante de uma teoria sem sentido.
E neste aspecto, nem ciência nem religião estão isentas de episódios de "ausência de sentido", a avaliar pelas atrocidades que, em seu nome, ou por seu intermédio, foram feitas...

Nem a ciência é "só objectiva" (por procurar factos), nem a fé é "só subjectiva" (por ser interna). Só há objectividade (ou seja, imagens consistentes do mundo) porque há sujeitos que interpretam criticamente o mundo e testam as suas hipóteses. A subjectividade da fé só é comprovada na medida em que os gestos objectivos do sujeito a confirmarem.

Não se surpreenda se, para um crente, a sua humanidade lhe falar de Deus. Porque curiosamente, esse é a "prova limite" da fé: a vida.

Muito obrigado pela sua paciência. Isto seria muito mais interessante se conversássemos ao vivo, e se tentássemos juntos, uma vez que ambos pressupomos a boa intenção do outro, construir um mundo mais humano, onde as diferenças não servissem de contra-prova, mas de sinónimo de vitalidade. E essa é uma tarefa de cada um de nós...

Anónimo disse...

Caro Rui Miguel Fernandes,

Muito obrigado pela sua exposição.

Penso que compreendo a sua posição, e agradeço as suas palavras.

No entanto, gostava de deixar algumas reflexões.

Ter fé não implica necessariamente, Deus. Pode ter Fé no seu clube preferido. Concordo, plenamente que não necessito provas.

"onde há bondade, gratuidade, simplicidade, aí encontramos Deus espelhado." Concordo que, com esse modelo de comportamento, é apasiguador se numa recepção sincera e honesta.

Mas como bem disse, existe a «Ameaça, porque sempre nos deparamos com a suspeita de que "o outro" tem pressupostos errados, porque diversos.»

Assim sendo, Deus, deixa de ser uma entidade, única e com motivação própria, para ser um resultado colectivo, imprevisível e que resulta da própria vontade de cada «entidade individual» que faz parte do conjunto. O que entra em conflito com as apresentações de Deus na Bíblia, Alcorão, Tora...

Mas ambos concordamos, globalmente, com os objectivos. No entanto, proponho uma ligeira alteração: «E se tentássemos juntos, uma vez que ambos pressupomos a boa intenção do outro, construir um mundo mais humano»

No lugar de humano, que para mim significa: ummanus, "servidores dos Deuses", proponho, um mundo mais autónomo e sustentável.

Peço desculpa por preferir o texto escrito, mas a minha memória esquece facilmente as palavras que o vento leva... e assim sempre posso verificar se, o que disse, corresponde ao que penso que disse...

Cordiais saudações,

Anónimo disse...

Um deafio de interpretação.

É verdade que Calígula foi o Primeiro Imperador Romano que se considerou Deus em vida.

É verdade que Calígula gostava de passear pela Galileia.

É verdade que umannus, era uma classe social que servia os Deuses.

Com estas chaves o texto da bíblia passa a ter outra sentido muito simples...

E Deus se tornou humano (umannu).
Deus não é umannu. (por definição)

comentários?

Rui Miguel Fernandes disse...

Caros Amigos,

É óbvio que a fé inclui, também, conteúdos. Nada do que disse pretende fazer esquecer esse facto. E se reduzi as "provas" àquele tríptico foi para fazer notar a relação de dependência entre "facto" e "interpretação".

Quanto à etimologia, a palavra "humano" continua a ser um "terreno" de difícil consenso. Mas agradeço a vossa interpretação.

Rui Miguel Fernandes disse...

Só mais uma nota:

O sistema solar "não mudou" pelo facto de termos "mudado" a nossa forma de o concebermos. No entanto, porque não vivemos fora "de nós", como se fossemos observadores dotados de clarividência e um conhecimento acabado da realidade, a "verdade histórica" diz-nos que, "de facto", o "mundo mudou para nós". Isto, de resto, não é assustador. É exactamente por isso é que a ciência não se considera "uma obra fechada", mas em permanente trabalho de reconstrução, através da verificação das suas teorias, que nos vão dando "imagens (provisórias, mas críticas) do mundo". Ora, essa verificação é um processo "comunitário". Há uma comunidade que repete os procedimentos e confere os resultados à luz de uma determinada "matriz interpretativa". Esse aspecto intersubjectivo é crucial.

O tríptico que apresentei como critério de verificação assume esse carácter de confirmação intersubjectiva. Seria pobre, no entanto, não ver o quanto nele há não apenas de "prática", mas de "mundi" e "theo" vidência.

A crítica marxista das super-estruturas ideológicas, crucial para a "desilusão" a respeito do risco real de subjugação ao domínio dos "ideólogos", não deixa, contudo, de ter os seus limites, sobretudo se a quisermos impor (ideologicamente) a todas as realidades. Não é verdade que tudo nas instituições seja expressão de "vontade de poder" (na expressão de Nietzsche), por mais que o bom senso - e um pouco de história - nos recorde a vertigem que a sua sombra pode provocar.

Por isso, não foi ingenuamente que não sublinhei os aspectos teológicos que caracterizam a fé (distinguindo-a, assim, das demais feições de "religiosidade"). Simplesmente contive-me num aspecto que, tanto quanto vou vendo, me parece mal tratado, e que tem que ver com a relação entre subjectividade e objectividade. Como disse, a noção de "prova", referida como sinal de "consistência" dada a sua textura objectiva, não exclui a interferência intersubjectiva. A crítica que, aliás, me apontou acerca do "conteúdo de Deus construído por uma comunidade", foi, no seu terreno próprio, lançada a muitos teóricos da ciência quando apontaram precisamente o aspecto "convencional" da teoria científica. A "convencionalidade" não exprime, necessariamente, arbitrariedade. Convencionámos o código da estrada, e apresentámos um bom argumentário para tanto (por exemplo). A convenção traduz, isso sim, o processo crítico intersubjectivo que acompanha o processo científico.

O exemplo das imagens bíblicas de Deus, ao contrário do que possa parecer, ilustra bem este processo. Não há, no Antigo Testamento apenas "uma imagem" de Deus. Os textos, dada a sua história longa de redacção, preservam esse debate lento no seio das comunidades acerca de "do Deus de Israel". Mesmo os textos bíblicos revelam esse lento labor, e as suas próprias revoluções copernicanas (passe a expressão).

Isto não espanta: a "revelação" não é entendida como um processo de tipo "eureka": aí está Deus. O acesso ao Outro (Deus, mas também o outro que o mundo é) é demorado, e faz-se por etapas. Não é de estranhar que a teologia, como as ciências experimentais, tenha ensaiado diversas perspectivas. Mas o acento comunitário serve como "âncora" de "realismo existencial": se o Outro "é bondade", há que procurar ser "bom". E por aí fora.

Mas, sobre estas coisas, haveria muito que falar, e não vos quero maçar!

Muito obrigado!

Anónimo disse...

Caro Rui Miguel Fernandes,

Muito obrigado pela sua exposição.

Talvez tenhamos um ponto em desacordo.

«A "convencionalidade" não exprime, necessariamente, arbitrariedade.»

Penso que mais do arbitrariedade, reflete as nossas opções políticas, e de visão da realidade como bem indicou. Não é inocente dizer que o ser o humano é o centro do universo e que tudo roda em torno dele. Quando aceitamos que somos tão importantes como um polvo e que não somos o centro do universo, realmente o universo não se apresenta de forma diferente, o que se alterou foi a nossa forma de olhar para ele, e para o que nele está contido.

Se está a dizer que dentro de uma opção não há margem para diferentes interpretações... em ciência é essa abertura que permite avanços...

Em ciência também encontra opções de interpretação. Mas não se arrogam a representação da verdade da ciência, nem tão pouco de toda a ciência.

Relativamente à interpretação monoteísta da bíblia, «Não há, no Antigo Testamento apenas "uma imagem" de Deus.» talvez seja um bom argunto para a defesa da visão politeísta da bíblia... Realmente foram vários Faraós, vários "Reis", que se arrogavam o título de "Deus" em vida... e como tal parece ser mais simples interpretar que várias descrições de "Deus" descrevam pessoas diferentes, com personalidades diferentes, em tempos diferentes...

Cordiais saudações,

Rui Miguel Fernandes disse...

Caro anónimo,

Realmente, uma leitura crítica dos textos do Antigo Testamento, sobretudos daqueles que remontam a tradições mais remotas, pode deixar entrever o debate interno acerca de Deus. Apenas um?, ou um entre muitos? Só lentamente se foi estabelecendo a noção monoteísta.
O património bíblico oferece-nos, portanto, elementos para entrevermos o processo de "descoberta de Deus". Por isso é que é tão delicado citar textos bíblicos sem atender ao seu contexto, por um lado, e sem os conjugar com o "todo", por outro. A primeira abordagem lança-nos uma visão diacrónica (ou seja, um quadro sobre aquilo que hoje os estudos críticos nos permitem dizer sobre "a imagem de Deus num dado período"); a segunda, uma visão sincrónica (ou seja, o resultado orgânico desse lento processo de descoberta do Outro).

Quanto à convivência de interpretações diferentes: já terá notado que o Novo Testamento comporta 4 versões diferentes que são, bastante, 4 interpretações particulares (facto patente, desde logo, pelas incoerências internas entre as várias versões). Essas diferenças têm sido objecto de diversos e extensos estudos, marcados por metodologias diversas. O método histórico-crítico, por exemplo, tem-se ocupado do "inventário" do contexto da redacção como forma de, descobertas as diversas influências (culturais, religiosas, ...) latentes no texto, chegar a uma imagem o mais depurada possível. (Seria, poderíamos dizer, o método de "escrutínio dos factos). Outro método, narrativo, tem-se ocupado sobretudo da leitura do texto "como texto", assumindo desde logo que qualquer texto (como qualquer teoria) corresponde a uma dada "interpretação" da realidade, pelo que a sua "forma de dizer" condiciona "o que diz" (ou seja, o "modo como vemos o mundo" condiciona "o mundo que vemos"). Se, no primeiro modelo, as incoerências são vistas como potenciais focos de tensão (como se, ao jeito de inquérito judicial, nos deparássemos com testemunhos contraditórios), no segundo, porém, as diferenças correspondem a sintomas não apenas de vitalidade mas ainda a estratégias diversas de eficácia comunicativa (basta ver como a mesma história, contada por pessoas diferentes pode, num caso, prender a atenção e, noutro, tornar o mais estimulante tema num bocejo prolongado).
Mais do que isso, as diferentes interpretações, em teologia, denotam o quanto estamos, antes de tudo, num contexto relacional.
Se, em física, a "observabilidade" é suficiente e necessária como justificação do conhecimento, nas relações humanas não. O facto de o senhor "existir" não chega para dizer "conheço-o". E este "conhecer", uma vez mais, é perspectivado. Uma mesma pessoa é vista diferentemente por pessoas diferentes, sem que essa divergência corresponda necessariamente a esquizofrenia ou a falta de acuidade. Simplesmente, em contexto "relacional", as provas "físicas" comportam uma história.
Tudo vale, como interpretação? A interpretação está totalmente entregue ao gosto do interlocutor?
Não. Todas as interpretações têm um teste. Mas, na fé - como na vida - esse teste é existencial.

É precisamente à luz desse critério que a fé é, habitualmente, criticada. "Os crentes dizem x, mas fazem y", por exemplo.

Rui Miguel Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui Miguel Fernandes disse...

A bondade terá sempre contornos "biográficos" (o senhor será "bom" de uma forma única); e, no entanto, se for realmente "boa", os demais poderão identificá-la... (digo, naturalmente, de uma forma bastante simples, para não me estender mais).

Em suma: a revelação tem uma estrutura dialógica. Não basta dizer que "Deus se revela"; é preciso nunca esquecer que, do lado de cá, estará uma comunidade que conhece "humanamente". Afinal, nada conhecemos (seja na ciência, seja na teologia) que não tenha "forma humana". Somos nós, seres humanos, mediante as nossas potencialidades e meios técnicos que conhecemos o que está fora de nós. E todo o conhecimento tem um processo de "construção". Vamos tacteando a realidade, vamos conjecturando hipóteses, vamos testando respostas e vamos aplicando os resultados possíveis, depois de criticados e verificados comummente. Não obstante as diferenças óbvias entre as disciplinas (experimental e teológica), nenhuma "escapa" (não o digo apodicticamente; apenas pretendo enfatizar retoricamente esta ideia) a este esquema antropológico de acesso à realidade. O outro está aí, mas nós levamos tempo a chegar até ele. Por isso não nos deverá surpreender que, historicamente, tanto teologia como ciência experimental tenham formulado (naturalmente à custa de diversas condicionantes políticas, ideológicas, mas também movidas por um desejo sincero de conhecimento) diferentes "concepções do mundo" e de Deus.
A história tem diacronias (ou seja, momentos) e sincronias (visões de conjunto). Se esquecermos esses ritmos complementares, teremos visões (ainda mais) parciais da realidade, que ampliarão o risco de absolutizações de perspectivas.

Bom: espero não lhe "ter tirado a fé" (eheheh! - estou, naturalmente, a brincar!, eheheh!). Abraço, e até à próxima.

Rui.

Anónimo disse...

Caro Rui Miguel Fernandes,

Parabéns pela sua exposição.
Coerente na sua interpretação íntima do que é a religião (dentro da sua visão).
É com esse espírito (santo) que se baseam e fortificam impérios. Sem se escusar às evidência e da verdade, acolhe na estrutura existente as almas livres aproveitando a energia positiva que nelas existe. Consegue um equilibrio difícil entre segurar "o sabonete" e deixar escapar "o sabonete".

Bem haja,