25 de abril de 2011

Mensagem de Páscoa de Bento XVI

«In resurrectione tua, Christe, coeli et terra laetentur – Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra» (Liturgia das Horas).

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!

A manhã de Páscoa trouxe-nos este anúncio antigo e sempre novo: Cristo ressuscitou! O eco deste acontecimento, que partiu de Jerusalém há vinte séculos, continua a ressoar na Igreja, que traz viva no coração a fé vibrante de Maria, a Mãe de Jesus, a fé de Madalena e das primeiras mulheres que viram o sepulcro vazio, a fé de Pedro e dos outros Apóstolos.

Até hoje – mesmo na nossa era de comunicações supertecnológicas – a fé dos cristãos assenta naquele anúncio, no testemunho daquelas irmãs e daqueles irmãos que viram, primeiro, a pedra removida e o túmulo vazio e, depois, os misteriosos mensageiros que atestavam que Jesus, o Crucificado, ressuscitara; em seguida, o Mestre e Senhor em pessoa, vivo e palpável, apareceu a Maria de Magdala, aos dois discípulos de Emaús e, finalmente, aos onze, reunidos no Cenáculo (cf. Mc 16, 9-14).

A ressurreição de Cristo não é fruto de uma especulação, de uma experiência mística: é um acontecimento, que ultrapassa certamente a história, mas verifica-se num momento concreto da história e deixa nela uma marca indelével. A luz, que encandeou os guardas de sentinela ao sepulcro de Jesus, atravessou o tempo e o espaço. É uma luz diferente, divina, que fendeu as trevas da morte e trouxe ao mundo o esplendor de Deus, o esplendor da Verdade e do Bem.

Tal como os raios do sol, na primavera, fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projecto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade.

«Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra». A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os «céus» respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim sobre a terra! Aqui, neste nosso mundo, o aleluia pascal contrasta ainda com os lamentos e gritos que provêm de tantas situações dolorosas: miséria, fome, doenças, guerras, violências. E todavia foi por isto mesmo que Cristo morreu e ressuscitou! Ele morreu também por causa dos nossos pecados de hoje, e também para a redenção da nossa história de hoje Ele ressuscitou. Por isso, esta minha mensagem quer chegar a todos e, como anúncio profético, sobretudo aos povos e às comunidades que estão a sofrer uma hora de paixão, para que Cristo Ressuscitado lhes abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz.

Possa alegrar-se aquela Terra que, primeiro, foi inundada pela luz do Ressuscitado. O fulgor de Cristo chegue também aos povos do Médio Oriente para que a luz da paz e da dignidade humana vença as trevas da divisão, do ódio e das violências. Na Líbia, que as armas cedam o lugar à diplomacia e ao diálogo e se favoreça, na situação actual de conflito, o acesso das ajudas humanitárias a quantos sofrem as consequências da luta. Nos países da África do Norte e do Médio Oriente, que todos os cidadãos – e de modo particular os jovens – se esforcem por promover o bem comum e construir um sociedade, onde a pobreza seja vencida e cada decisão política seja inspirada pelo respeito da pessoa humana. A tantos prófugos e aos refugiados, que provêm de diversos países africanos e se vêem forçados a deixar os afectos dos seus entes mais queridos, chegue a solidariedade de todos; os homens de boa vontade sintam-se inspirados a abrir o coração ao acolhimento, para se torne possível, de maneira solidária e concorde, acudir às necessidades prementes de tantos irmãos; a quantos se prodigalizam com generosos esforços e dão exemplares testemunhos nesta linha chegue o nosso conforto e apreço.

Possa recompor-se a convivência civil entre as populações da Costa do Marfim, onde é urgente empreender um caminho de reconciliação e perdão, para curar as feridas profundas causadas pelas recentes violências. Possa encontrar consolação e esperança a terra do Japão, enquanto enfrenta as dramáticas consequências do recente terremoto, e demais países que, nos meses passados, foram provados por calamidades naturais que semearam sofrimento e angústia.

Alegrem-se os céus e a terra pelo testemunho de quantos sofrem contrariedades ou mesmo perseguições pela sua fé no Senhor Jesus. O anúncio da sua ressurreição vitoriosa neles infunda coragem e confiança.

Queridos irmãos e irmãs! Cristo ressuscitado caminha à nossa frente para os novos céus e a nova terra (cf. Ap 21, 1), onde finalmente viveremos todos como uma única família, filhos do mesmo Pai. Ele está connosco até ao fim dos tempos. Sigamos as suas pegadas, neste mundo ferido, cantando o aleluia. No nosso coração, há alegria e sofrimento; na nossa face, sorrisos e lágrimas. A nossa realidade terrena é assim. Mas Cristo ressuscitou, está vivo e caminha connosco. Por isso, cantamos e caminhamos, fiéis ao nosso compromisso neste mundo, com o olhar voltado para o Céu.

Boa Páscoa a todos!

[Tradução distribuída pela Santa Sé ©Libreria Editrice Vaticana]

39 comentários:

Anónimo disse...

"a fé dos cristãos assenta naquele anúncio"

Realmente só acredita quem quer acreditar...

O mito diz que ele deveria ter sido o Rei dos Judeus... é evidente que nunca foi... e é claro que não é...
O seu reino de paz... também não existe, exemplo: 2ª guerra mundial, líbia, Síria...

Como tal, só se pode concluir que se trata de uma falsa religião com base em falsos arguntos.
Sem saber a data da morte do actor do "anúncio" a Páscoa tenta mascarar outra festa anterior a esta estorinha...

Mas quem lembra a morte de alguém numa data móvel?

Realmente só acredita quem quer acreditar...

Anónimo disse...

Uma curiosidade histórica:

Os Incas também tinham o mesmo mito de que o seu Deus iria voltar e confundiram os Espanhois com o seu deus?

Como é que os Incas tinham o mesmo mito?

A sociedade humana já tinha sido globalizada antes das invasões Europeias?

manel disse...

sim, só acredita quem quer, ninguém é obrigado...


manel

joão de brito disse...

Anónimo,

Tendo em conta que o calendário de que nos servimos é também ele uma convenção social, não acha de algum modo irrelevante escolher entre uma data fixa e uma móvel? A medida de 1, 2, 10, ou mais anos de nascimento (p. ex.) é também ela convencional, uma vez que o que temos de mais cíclico até são as estações (ligadas a ciclos como o da lua, etc.), mas o tempo e a história em si não se repetem, como se num ciclo.

Datas são memórias e não vale a pena dar-lhes qualquer sentido mais positivo do que esse. Natal a 25 de Dezembro também é uma data de relativa arbitrariedade. Mas assim como na Páscoa (e em qualquer data aniversária) o que importa não é a precisão da memória, mas aquilo de que se faz memória. Assim sucede com as datas litúrgicas.

cumprimentos

joão de brito disse...

A propósito. Sim, só acredita quem quer acreditar. A isso se dá o nome de liberdade de crer. Dá-me licença que acredite e tenha razões para acreditar?

Não pretendo discuti-las, pois não me parece que haja espaço para isso. Quero apenas saber se me dá licença, ou liberdade, para acreditar?

cumprimentos

anonimo disse...

Caro João de Brito,

Penso que um calendário serve para ter consciência de periodos de tempo.

Há periodos de tempo independentes de convenções humanas.

O Solestícios e os Equinócios.

A lua cheia e a lua nova.

Pessoalmente considero que a tentativa de unir os vários ciclos é que gera problemas. Uma tentativa humana...

A festa depois do equinócio e depois da lua cheia poderá ter sentido para os agricultores de outros tempos... (sem a tecnologia actual)

Realmente é uma questão interessante...
Porque se lembra a morte de Cristo nessa data?

Ainda por cima, uma data com larga dose de sobreposição com festas anteriores religiosas como a Judaica.

Agora estranho lembrar a morte de alguém numa data móvel.
Não conheço mais exemplo algum.
Permite-me que considere estranho?

Pergunto porque gostava de perceber como é que alguém pode acreditar de forma consciente e sincera, sem ter por objectivo uma fatia do envelope de dinheiro que os leigos deixam na "Páscoa"...

Cordiais saudações,

anonimo disse...

Caro João de Brito,

"não acha de algum modo irrelevante escolher entre uma data fixa e uma móvel?"

Não, socialmente não é aceitável dar os Parabéns duas semanas antes ou depois...

Uma volta ao Sol é uma volta ao Sol e como definido 1 ANO.

Troquemos então o 25 de Dezembro pelo 15 de Dezembro...

Cordiais saudações,

joão de brito disse...

Anónimo,

As convenções seguem critérios. O ciclo solar é um entre outros. Não deixa de ser apenas o critério de uma convenção, por mais objectivo que seja. A nós parece-nos evidente porque aprendemos a valorizá-lo. E, sim, dá-nos consciência dos tempos e dos ciclos. Quanto a isso, serve sobretudo para a prática presente, como a agricultura, mas quanto à memória é um mero guia. O que importa é aquilo de que se faz memória. Se a nossa sociedade fosse ainda predominantemente agrícula, talvez não estranhássemos tanto uma festa móvel...

O que pretendo evidenciar é que a discussão sobre o modo de marcar a lembrança da Páscoa, por meio de uma data fixa ou móvel, é irrelevante para a discussão sobre a fé, ao contrário do que pretende mostrar com a sua afirmação de que "Mas quem lembra a morte de alguém numa data móvel? Realmente só acredita quem quer acreditar..." Permito-lhe que ache estranho. Tenho mais reservas em consentir que o afirme como um absurdo de fé.

Socialmente, considerou-se oportuno celebrá-la numa data móvel, como se considera inoportuno dar os Parabéns antes do aniversário. Se o segundo não é um problema, porque há-de ser o primeiro? Mas de matéria de fé há pouco aqui, numa questão de datas. O conteúdo é o significado (aquilo de que se faz memória) e não o significante (a data).
(e, já agora, muita gente não se importa que lhes dêem os parabéns antes do seu dia de anos)

Trocar o 25 de Dezembro pelo 15 de Dezembro? Porque é que seria melhor opção?

Em suma: Parece-me que estamos aqui a arranjar um espantalho...

E, a propósito, não respondeu ao meu segundo comentário.

cumprimentos

Alexandre disse...

Caro Anónimo,

Em conversa com quem me acompanha, a resposta à sua pergunta apareceu de forma muito simples:

João 13,1
Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a sua hora, a hora de passar deste mundo para o Pai.

É verdade que a Páscoa era uma festa Judaica e é móvel. Mas lembrar "que o teu rei vem, montado num jumentinho!" segundo as escrituras, a Páscoa é a data mais próxima e de 5.700.000 anos em 5.700.000 anos será a data certa...

cordiais saudações a todos os leitores.

anonimo disse...

Caro João de Brito,

Tem toda a razão em dizer que a sociedade são convenções aceites, tácita ou explicitamente.
Por exemplo poderiamos viver numa sociedade sem mães e sem pais... em que as crianças são criadas em infantários sem referências dos progenitores e como tal sem heranças. etc.

Que segundo comentário?

anonimo disse...

Caro Alexandre,

Muito obrigado pela resposta.
Fica a nota da falta de conhecimento.

Se não sabemos a data de nascimento e a data do falecimento porque achamos que conhecemos essa pessoa?

Cordiais saudações,

joão de brito disse...

Anónimo,

Segundo comentário:
«A propósito. Sim, só acredita quem quer acreditar. A isso se dá o nome de liberdade de crer. Dá-me licença que acredite e tenha razões para acreditar?

Não pretendo discuti-las, pois não me parece que haja espaço para isso. Quero apenas saber se me dá licença, ou liberdade, para acreditar?»

E quando diz: «Se não sabemos a data de nascimento e a data do falecimento porque achamos que conhecemos essa pessoa?», acha isso assim tão essencial para conhecer alguém?

anonimo disse...

Caro João de Brito,

Cada um acredita no que quer acreditar...
Uns acreditam no Pai Natal...
E também não sabem o dia de nascimento do Pai Natal...

Apenas considero estranho que se contem estórias do nascimento, em Bélem depois das paranoias de Herodes e das fantasias dos Levitas e não se saiba o ano...
No disse que disse, muita fantasia pode estar incluída...

quem conta um conto acrescenta um ponto e 350 anos são muitos anos para adicionar os pontos que interessam...

Contam estórias da morte, contam detalhes que mais parecem pontos dos contos do disse que disse... e o dia... ficou esquecido... que mais ficou esquecido?

É como nos tribunais... quando a estória cheira mal... por mais testemunhas que usem... não torna a estória verdadeira...

Aceita o que lhe dizem sem verificar se é verdade? Porquê?

anonimo disse...

Caro João de Brito,

Qual a importância de, eu, um simples leigo, dar ou não dar licença para acreditar?

Lamento a manipulação da ignorância dos leigos para o ganho de uma estrutura que de Deus pouco ou nada tem.

Cumprimentos,

joão de brito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joão de brito disse...

Compreendo a sua posição. Desde há tempos que a ciência, enquanto entendida como capacidade de verificação (e todos os seus derivados em “questões de facto”, como a exactidão possível das datas), é a testemunha privilegiada na nossa cultura. Na verdade, parece que a nossa confiança não vai além dela, do que é comprovável, ou verificável. Tudo o que não é objectivo, ou objectivamente afirmado, é medido com desconfiança até ser comprovado, se é que é possível a comprovação. (presumida a culpa até prova em contrário?) Para ser sincero, lamento um mundo que vive da desconfiança, que parte da desconfiança. Não que a confiança na ciência seja infundada, mas confiar apenas no verificável é pobre e redutor. Nem chega a ser confiar. Se alguém me faz uma promessa, eu confio independentemente de poder verificar. Temo que hoje, para quem partilha um pensamento positivista, isso seja difícil de acontecer – confiar. Tememos os pontos que se acrescentam aos contos, tememos o que ficou esquecido, toda a história menos científica e toda a notícia menos naturalista nos cheira mal, desconfiamos de toda a testemunha até prova em contrário, só descansamos quando aparece o cientista, o especialista de discurso objectivo…

Aceito o que me dizem sem verificar se é verdade? Confio. Sigo ainda aquela muito pouco científica confiança no homem e na mulher de boa-vontade. E depois confirmo-o na minha vida. Não digo que o verifico para evitar o termo mais científico. Confirmo, um pouco ao jeito do passageiro que confia que o avião não vai cair do céu. Porque não cai, o avião enobrece a ciência. Por mais que digam que a ciência é uma mera construção social, o que é certo é que arriscam entrar num avião. Onde está então a construção? Pelo contrário, é bastante palpável e verificável a ciência dos aviões. No entanto, feita também de convenções… Do mesmo modo, confirmo a minha fé no “laboratório” da vida de cada dia. Por isso aceito o que me dizem sem verificar se é verdade. Não verifico. Confio e confirmo. Essa é a ciência da minha fé.

De facto, não preciso da sua licença para acreditar. Mas ambos precisamos de nos respeitar mutuamente. Evitar uma argumentação arrogante e destrutiva, que rejeita qualquer razoabilidade na fé por motivos que acha apenas “estranhos”, é a parte do respeito que lhe peço.

Parece-me que a maioria dos seus argumentos não passam de espantalhos. E o maior de todos é o seu verificacionismo.

Até uma próxima oportunidade

Anónimo disse...

Caro João de Brito,

«presumida a culpa até prova em contrário?»

Não, presumida a ignorância até prova em contrário. " Só sei que nada sei"...

E ter uma postura de verificação está longe de ser positivista...pode olhar melhor para a ciência de hoje...

Pessoalmente não descanço quando aparece o cientista... descanço quando verifiquei e outros verificaram ser verdade... reproduzir e repetir... e reprodutibilidade não é o mesmo que repetibilidade... pode olhar melhor para a ciência de hoje...

Não tenho nada contra a fé... pelo contrário. Tenho muita fé na minha saúde, no meu sucesso e no meu trabalho. A capacidade de representação de deus é que é colocada em questão.

Relativamente às minhas dúvidas sobre a religião, quanto mais informação procuro... mais estranha é a instituição... menos divina e mais humana...

Tanto como a Igreja Anglicana, uma religião falsa criada por uma Rainha para evitar problemas com duas religiões...

Enquanto houver Judeus o Cristianismo está ferido de morte porque Cristo nunca foi o Rei dos Judeus e como tal toda a religião cai por terra... argumentos simples... uns verão espantalhos... outros verão a verdade das afirmações.

Cumprimentos,

Anónimo disse...

A solução:
A Igreja Portuguesa.
Independente do Vaticano.
Como a Igreja anglicana.
Aceitam o desafio?

joão de brito disse...

A Igreja pretende ser católica (universal) precisamente porque quer ser mais que uma referência nacional. Quer ser uma comunidade universal de seres humanos que se olham como irmãos para lá de uma nacionalidade.

«O meu Reino não é deste mundo».

A nível local sempre temos a conferência episcopal portuguesa.

Identifico-me mais com esta visão e não é pouco desafio. Mais belo até.


cumprimentos

Anónimo disse...

Parece, então, que a questão da Igreja ou Igrejas está resolvido...

Anónimo disse...

Católico:

kata do grego: κατά (para baixo)
# descer
# baixar
# derrubar
# abater

de cataclismo, catastrofismo, catabolismo, catatonia, catalepsis...

holos do grego: ὅλος, ὅλως (obíquo)
# inteiro
# completo
# integral

de holística.

Na sua raiz etimológica "Católico" é algo que reduz de forma completa, que abate de forma integral, que prende de forma universal.

Não seria melhor ter uma instituição,
ana do grego: ἀνά
holos do grego: ὅλος, ὅλως
Ex: Anólico.

Ou meta, do grego: μετὰ, μετά
Ex: Metólico.

"Será melhor manter o Status Quo mesmo que inferno de Roma queimada e destruída, do que perder..."

Quo vadis?

joão de brito disse...

Vado ad maiorem Dei gloriam.

Quo vadis tu?


Vale,

Anónimo disse...

"Vado Romam iterum iudicari"

joão de brito disse...

Caro anónimo,

Não será o que lhe possa dizer, nem o que me possa dizer, que irá mudar as nossas atitudes para com a Igreja. Nem acredito eu que uma caixa de comentários de um blogue seja espaço para isso. Pode algo tão vital, quer a adesão à Igreja para mim, quer a recusa para si, ser decidido aqui? A experiência e o conhecimento que temos dela é muito diferente. Valerá a pena esta troca de palavras? Não haverá um modo mais humano de as gastar, melhores frutos a tirar do nosso tempo? Defendo uma atitude de confiança, de optimismo, em relação à Igreja, mas isso não se contagia por palavras, só por gestos, na vida. O mesmo para quem defende a desconfiança e o pessimismo como a atitude a ter. É na vida que se constrói a nossa atitude face ao que seja. Tentemos usar o nosso tempo de outro modo, mais real, mais humano.

Cumprimentos,

Anónimo disse...

Valerá a pena esta troca de palavras?
Ver resposta em Fernando Pessoa.

Também temos opiniões diferentes no valor das palavras aqui deixadas...

Não tenho opinião fechada sobre a Igreja porque a Igreja parece mutar constantemente. Infelizmente há uma grande diferença entre o que é dito sobre Deus e em nome de Deus e o conhecimento concreto revelado nestas páginas.

No entanto, ao ter contacto com os modelos de representação que usam, permite ajustar o meu significado de interpretação com o que pretendem transmitir. Para tal tenho de perguntar sobre os possíveis significados diferentes.
Por vezes a leitura dessas perguntas é interpretada de forma errada e provoca reacções de indignação, repulsa ou até despreso.

Como tal muito obrigado pelo seu tempo e pelas suas respostas.

Infelizmente, temos posições diferentes e a construção hierárquica da própria Igreja, mostra uma posição política errada, preconceituosa e extemporânea.

O príncipe romano Hitler é um bom exemplo. "Só há uma religião verdadeira". "Só há uma raça pura".

As invasões da europa sobre as Américas são outro exemplo. A exterminação dos Incas, Aztecas foi uma grande perda para o conhecimento. E a simples alteração do calendário Juliano para o Calendário gregoriano e a abertura de centros de observação astronómica bem como os desenvolvimentos matemáticos são apenas exemplos dos benefícios do contacto com essas populações. Que mais poderíamos aprender?

Por isso o que se passa na Tunísia, Egípto, Síria, Líbia, levanta dúvidas sobre os reais objectivos...

Cordiais saudações,

Anónimo disse...

Olhando apenas para Portugal.

É lamentável que se oprima um povo.

É lamentável que se roube um povo com desculpas de que os juros são altos.

Católicos... cata...

Onde está a capacidade de organização e de motivação de um povo?

Apenas existe para manter as estruturas de "apoio" social?

Apenas existe para manter os dízimos de quem oprime?

Será esse o objectivo da Teologia?

O que é que a freguesia precisa?
Que freguesia podemos imaginar com o conhecimento de hoje?
O que falta para o paraíso na terra? Vontade?

Porque envia Portugal 1 dia de "esmolas" para o Vaticano?

Anónimo disse...

"Cristo ressuscitado caminha à nossa frente para os novos céus e a nova terra, onde finalmente viveremos todos como uma única família, filhos do mesmo Pai."

Basta olhar para a história do mundo nestes 2 mil anos e claro que é uma frase falsa!

"Cristo" separou os Judeus, não incluí os Islâmicos e ainda falam em "única família"?

Os Judeus não têm família? Tradição?
Os islâmicos não têm família? Recepção?

Será que pensam que por repetir mentiras elas passam a verdades?

Já ouviram falar do azeite e das mentiras?

joão de brito disse...

(1/2)


(O número de comentários e o anonimato não me permitem saber se estou a responder aos comentários de um ou mais anónimos...)

Caro anónimo,

O "currículo" da Igreja não é um currículo sem mancha. Considerando que: 1)a Igreja não pretende ser só a "hierarquia" (falha quando assim pretende); 2) mesmo que fosse apenas a "hierarquia", mas muito mais não sendo, as suas pessoas são as mesmas da sociedade e não "à parte". Considerando isto, carregam ambas, Igreja e sociedade, culpas a meias ao longo da História. Dentro do seu campo de influência e entre outros factores, a Igreja faz a sociedade. E esta faz também a Igreja, composta de homens e mulheres que vivem na sociedade. Nem sempre consideramos esta recíproca influência.

Não pretendo negar essa responsabilidade que a Igreja partilha. Sabendo que dificilmente poderemos apurar ao certo em que medida é responsável por este e aquele acontecimento e que tendenciosamente uns irão exagerar e outros relativizar demais ou mesmo desmentir.

A História da Igreja, como a de qualquer povo, como a de qualquer comunidade ou grupo humano, como a de qualquer pessoa, é feita de luzes e sombras, virtudes e culpas. O modo como olhamos para uma realidade, um povo, uma comunidade, um indivíduo, condiciona a nossa percepção. Ora podemos ser guiados pela credulidade, ora por um criticismo fechado radicado na desconfiança. No primeiro caso, veremos apenas as luzes, o que será uma alienação. No segundo, veremos apenas as sombras, o que não será alienação menor. Ora, adesão não é sinónimo de credulidade e, portanto, de alienação. Tantas coisas e pessoas merecem, apesar das suas luzes e sombras, a nossa adesão. Uma adesão pode e deverá ser um processo crítico. Mas capaz de contemplar o conjunto de luz e sombra.

joão de brito disse...

(2/2)


Para mim, é, claro, um desafio a adesão a uma realidade onde descubro tantas sombras, o limite apenas para além do qual está o desejado. Conviver com isso é conviver com a experiência da desilusão. Mas esse é o mesmo desafio que cada um encontra em si mesmo, que encontro em mim mesmo. Eu mesmo, a minha história, o meu presente desenha-se entre luz e sombra, coisas de que me posso alegrar e outras que são para mim desilusão de mim próprio. Mas, para mim, a desilusão sempre foi aquele passo essencial para uma visão mais real e mais amada de mim mesmo. Menos alienada.

Quanto à Igreja, também cada sombra é uma dor que carrego. E, contudo, não a amo nem pelas luzes, nem pelas sombras, mas pela carne de que é feita e pelo desejo que respira.

Porque hão-de as sombras ser obstáculo à adesão, se as luzes são motivo suficiente de esperança? Esperança não nas luzes, mas na carne que as gerou. O obstáculo será um olhar cego pela luz, ou turvado pelas sombras. Digo isto não com intenção proselitista, mas, no seu caso, apenas perguntando-me porque não pode haver uma convivência serena. Porque hão-de as sombras ser obstáculo?

cumprimentos,

Anónimo disse...

Porque o vale onde estamos é profundo e para vermos a luz é necessário gastar muita energia. Os que andam cegos, recusam a visão, os que sabem, recusam falar e os que podem, não fazem...

Porque a estrutura seria suficiente para manter tudo na mesma, mesmo mudando algo...

E porque sei, que sabem:
Omnia sponte fluant, absit violentia rebus.

A educação romana é demasiado violenta e aprisiona a alma.
Porque não podemos viver livres?

Absit violentia rebus omnia sponte fluant.

joão de brito disse...

O que é a liberdade? Fazer o que quero, ou fazermos o que queremos?

Anónimo disse...

Liberdade é fazer o que devemos.

Mesmo que tenham obrigado a prometer coisas enquanto ignorantes.
A isso se chama opressão e coação.

O que escreveria Philo em "Legatio ad Gaium" se visse o mundo de hoje com o conhecimento de hoje?

Anónimo disse...

Caro João de Brito,

Uma prova da necessidade de verificação:

O João escreveu:
«A Igreja pretende ser católica (universal)»

Mas católica quer dizer mais:
Cata+holos. (reduzir + completo).

Como se pode confiar em meias palavras?

É essa a imagem de "meias palavras" que a Igreja tem, que resulta em desconfiança, comunicação errada, ideias falsas, incapacidade de comungar.

E verificando o que a Igreja diz...

Anónimo disse...

Uma dúvida:

Quando é que uma vítima de opressão e coação psicológica se apercebe que é vítima?

joão de brito disse...

Não creio que liberdade seja fazer o que devemos. A não ser que isso seja o que eu desejo fazer. Posso ter a liberdade de querer o que devo fazer. Onde há querer, há espaço para a liberdade. Onde há dever, haverá liberdade se se quiser cumpri-lo. E cumpri-lo pode ser um exercício de liberdade. Mas onde só há dever, sem vontade, só há preceito. Assim me parece.

joão de brito disse...

Quando faço a distinção entre "fazer o que quero" e "fazermos o que queremos" pretendo evidenciar que posso exercer a minha liberdade ou num projecto meramente pessoal (em que os outros surgem frequentemente como obstáculo, ou peso), ou num projecto com outros (sem que por isso deixe de ser pessoal). Importa-me apenas o meu projecto pessoal, a minha liberdade pessoal, ou o projecto comum, a liberdade vivida com os outros?

Creio que se queremos construir algum projecto que valha a pena, há-de ser um projecto em comum, com outros. Não há projectos de solidão que sejam felizes. Se projecto a minha vida com outros, então chegamos a um conjunto de desejos partilhados e de meios de os alcançar. Esses meios fazem sentido no todo do projecto comum. Porque é movido pelo desejo, o cumprimento daquilo que para quem vê de fora não são senão normas é, na verdade, um autêntico exercício de liberdade. Essa adesão é um autêntico exercício de liberdade.

joão de brito disse...

«É essa a imagem de "meias palavras" que a Igreja tem, que resulta em desconfiança, comunicação errada, ideias falsas, incapacidade de comungar.

E verificando o que a Igreja diz...»

Compreendo que pense assim. Eu verifico também luz na Igreja. E "confirmo a minha fé no “laboratório” da vida de cada dia"(Cf. o meu 5º comentário neste post). Por isso, confio. Mesmo verificando sombras.

joão de brito disse...

«Quando é que uma vítima de opressão e coação psicológica se apercebe que é vítima?»

Sobretudo nos tempos de hoje, ninguém obriga alguém a ser cristão. A nossa cultura dá-nos até muito mais razões para não o ser.

O que para uns é coação e opressão, para outros é a responsabilidade de educar no modo mais humano que conhecem: ser cristão. Qualquer educação supõe uma proposta, uma formação. No futuro de cada baptizado, as promessas baptismais resumem-se a isso, uma proposta, não a um "compromisso de sangue" assinado por outrem. Quem assim quiser confirma-as. Quem não quiser, desvincula-se. Impor é claramente uma opressão, mas não inerente a ser-se educado cristamente, ou baptizado.

E claro, qualquer educação implica uma formação, uma enformação. Que essa enformação seja modo de alcançar liberdade, de bem escolher e escolher o bem!


cumprimentos,

joão de brito disse...

Termino aqui a minha participação nos comentários deste post.

Obrigado pela interessante discussão!

Cumprimentos