13 de abril de 2011

O dever cristão da política, por Hermínio Rico

Porquê um dever cristão? Será que o cristianismo impõe uma obrigação especial de atenção e empenho na função política? Em que se pode basear esse específico imperativo?


Parto de três fundamentos para a constituição de tal dever. Primeiro, a tradição bíblica em que o Cristianismo se insere. A Aliança que estrutura o Antigo Testamento é uma aliança entre Deus e um povo, uma sociedade que assume a obrigação de traduzir nas suas vivências comunitárias, na sua organização social, os valores que expressam o Deus a que estão ligados. É para servir este fim que recebe os mandamentos. É para lhes recordar este compromisso que falam os profetas. Israel tinha a vocação de ser sempre um povo diferente no meio dos outros povos, uma sociedade de contraste, que chamasse a atenção para Deus, autor dos preceitos que os guiavam.

Segundo, o ensinamento e a prática de Jesus. Ele veio anunciar o Reino de Deus, uma realidade com uma dimensão intrinsecamente comunitária e claras implicações sociais e políticas. O mandamento central que proclamou foi o amor ao próximo, a todo o próximo em necessidade, o que exige organização dessa caridade.

Terceiro, o paradigma da encarnação, central no mistério cristão. Este mundo e tudo o que é humano são valorizados, ganham uma dimensão de eternidade. Não se podem olhar apenas como instrumentais para alcançar um Céu puramente espiritual.
Assim, a centralidade da pessoa na visão cristã é a centralidade duma pessoa com uma dimensão social intrínseca, que não permite qualquer desvalorização das dimensões materiais da sua existência e que está sujeita a uma responsabilidade universal pelos seus irmãos e irmãs. Ao recusar, portanto, o individualismo e o espiritualismo, obriga a um exercício da caridade que tem que ser organizado e estruturado. É aí que nasce a política.


O dever cristão da política traduz-se na responsabilidade que cada cristão deve viver pela promoção do bem comum, aquele bem que beneficia todos e não se limita à soma extrínseca de bens individuais, precisa de um cuidado intencional específico. Nesta atenção ao bem comum, como imposição de justiça, deve estar sempre presente a preocupação de dar prioridade aos interesses dos mais desfavorecidos, aquilo que habitualmente se designa pela fórmula da opção preferencial pelos pobres.


Como se exerce esta responsabilidade? A política não é só ser militante de um partido, ou concorrer para cargos electivos nas estruturas do Estado. A participação política é, nas democracias, um direito, mas é também um dever, particularmente para os cristãos. No mínimo, esse dever implica não se alhear das questões políticas, votar em eleições, participar nos debates da sociedade onde se esclarecem as opções políticas que nos regem. Implica também considerar a possibilidade de pessoalmente se envolver nos mecanismos de representação democrática, aceitando ser candidato a cargos políticos, por espírito de serviço e promoção do bem comum. E exige respeito, apoio e valorização da actividade política como tal, não embarcando em populismos antipolítica, em juízos generalizados e superficiais, e muitas vezes muito injustos, sobre o carácter de todos os políticos. Isto, evidentemente, sem ter que impedir em nada o exercício do sentido crítico e a exigência de honestidade, competência e dedicação ao bem comum que deve ser exigida a todos os que exercem cargos públicos.


Concluindo, este dever cristão alerta-nos para o quanto a política é imprescindível como requisito da caridade cristão, confronta-nos com a nossa disponibilidade para servirmos o bem comum também através do empenhamento político e desafia-nos a sermos prudentes e honestos na nossa avaliação daqueles que se disponibilizam para o exercício político nas estruturas do Estado e que nós escolhemos através do voto eleitoral, recusando, assim, a fácil e condenável desvalorização da nobre vocação da política.

Para aprofundamento da visão da doutrina social da Igreja sobre a acção política, aconselha-se a leitura da Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa, “A Igreja na Sociedade Democrática”, de 15 de Maio de 2000.

Hermínio Rico sj

(In.: Secção Razões da Fé, da Webzine essejota.net)

2 comentários:

marco disse...

A vocação politica será nobre desde que haja, por parte do agente politico:
- seriedade
- honestidade
- empatia
- coerência
- valores éticos
- valores morais

Anónimo disse...

Parabéns...

Mas porque ficam os Ministérios da Política apenas para os leigos?

Porque não se candidatam, independentemente das posições clericais?