2 de abril de 2011

uma presença no meio do mundo

O Evangelho deste domingo fala-nos de um cego de nascença que é curado por Jesus. Questionado pelos seus amigos e pelos fariseus, este miraculado diz-lhes que Aquele que o curou deve ser alguém muito especial, o que deixa os fariseus irritados com ele, levando-os a pô-lo de lado. De novo com Jesus, o miraculado vem a reconhecê-lO como Messias, vendo-O para lá da fisionimia. Para lá da luz natural, revela-se uma nova luz cujo poder é reconhecido apenas por quem se dispõe a aprender a ver. Ora, as perguntas que os amigos do miraculado e os fariseus fazem são perguntas que ainda hoje são feitas àqueles que acreditam e confessam que Jesus Cristo é a sua luz. 1) Onde está Ele?; 2) Tu, que dizes dAquele que te abriu os olhos?; 3) Tu nascente coberto de pecados e queres ensinar-nos?


Onde está Ele? A nossa maneira de compreender o mundo, com raizes na modernidade e no positivismo, leva-nos a pôr na margem toda a afirmação que não é acompanhada de provas empíricas. Não obstante o facto de o desejo de provas empíricas não ser empiricamente verificável, a pergunta que devemos colocar é: será que a fé em Deus se justifica empiricamente? Se o único mandamento deixado por Jesus é amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, a Palavra de Deus surge como prova empírica que, lida em comunhão, em Igreja, ajuda-nos a ler o mundo. Diante disto regressemos à pergunta: Onde está Ele? Tendo Cristo por medida, Deus está e revela-se na relação que temos uns com os outros, no amor que não tem por referência absoluta a simpatia e estima pessoais, mas o amor do Pai que faz chover sobre justos e injustos. Neste sentido, a prova empírica de Deus não é um dado, mas o testemunho pessoal do seguidor de Jesus. Até que ponto me relaciono com o mundo como alguém que se deixa atingir por ele à luz da Palavra?

Tu, que dizes dAquele que te abriu os olhos? A Palavra de Deus, à luz da qual lemos os movimentos de um mundo, chama-nos a sair do nosso mundo pessoal e a abrirmo-nos ao mundo todo, deixando-nos atingir por ele num acto de amor. A Palavra chama-nos assim a uma errância que testemunha a existência de uma geografia interior que é habitada por vozes e desejos distintos. Assim, a Palavra abre-nos os olhos para o mundo de fora e para o de dentro, sendo o amor, personificado em Cristo, vínculo entre ambos os mundos. Mais do que por palavras, é nesta peregrinação, que começa dentro de nós, que devemos testemunhar a força da Palavra e a maneira como em Jesus redescobrimos a possibilidade de cantarmos um cântico novo no meio das dificuldades de nos atravessam. Até que ponto as minhas acções dependem de uma atitude interior na qual tomo consciência do toque de Deus?

Tu nasceste coberto de pecados e queres ensinar-nos? Muitas vezes, inclusive os nossos amigos, perguntam-nos sobre que autoridade tem a Igreja para dizer o que quer que seja quando ela própria está cheia de pecados. Na verdade, desde o seu início a Igreja foi e é atravessada por pecados, e grandes pecados. Talvez a nossa concepção de heróis como o super-homem, que apenas mostravam o seu valor eliminando os maus, não nos permita compreender totalmente a riqueza de Cristo. Ele que eliminou o mal sentando-se à mesa com os ditos maus. O pecado da Igreja deve sempre ser condenado e corrigido, com acrescida exigência. Mas a presença do pecado numa Igreja habitada por Cristo deve-nos dar a alegria de continuarmos a ver nela um sacramento incrível da contínua presença de Deus na história. Sem desvalorizar o apelo à conversão, o pecado da Igreja continua a ser testemunho da comensalidade de Cristo que partilha, absolve, contesta e eleva o mundo em todas as suas dores, sofrimentos e alegrias. Até que ponto é que o pecado da Igreja, para além de me causar dor, me chama a reconhecer a presença continua de Jesus como luz entre nós?


11 comentários:

Anónimo disse...

Até que ponto me relaciono com o mundo como alguém que se deixa atingir por ele à luz da Palavra?

Coríntios e etc? Está completamente fora de tempo. Claro que a Lei dita canónica altera a minha forma de relacionamento...

Até que ponto a minha atitude interior depende do toque de "Deus"?

A minha atitude interior pode ser de paz e tranquilidade sem ter de referir a uma entidande que não se manifesta e como tal não se expressa...

Até que ponto é que necessito de "Jesus" para ter uma luz entre nós?

Felizmente há luz. Sem Yeshua... o "botinhas" foi dizer que "deus é salvação" e acabou por criar o mito de Yeshua... "bendito o nome de Jesus"...

Missé, sj disse...

Caro anónimo,

efectivamente nada daquilo que eu disse fica absolutamente claro quando é simplesmente exposto por meio de raciocínios. Na verdade, para o cristianismo o distintivo de qualidade de toda a doutrina é sempre a existência; uma Vida vivida a partir do evangelho que testemunha algo de diferente para dentro e para fora da Igreja.

Agora, para lá das importantes perguntas e críticas que levantou [sobre: actualidade das escrituras; ser ético sem precisar de Deus; a possibilidade de Jesus ser uma absoluta construção humana], faço-lhe uma pergunta. Se diz que "a lei canónica altera a minha forma de relacionamento", que dizer que já terá experimentado viver de acordo com ela, pois não me acredito que dissesse esta frase sem conhecimento de causa. Ora, se já viveu assim que alteração lhe trouxe essa vivência? Pois tal como só percebemos as disfunções de um horário quando o pomos em prática, talvez a sua procura de prática cristã: ou lhe fez perceber os malefícios do evangelho [e terá de mos ensinar para que eu me livre deles]; ou lhe fez perceber mal o evangelho.

Espero atenciosamente a sua resposta.

Anónimo disse...

Caro Missé,

A Lei canónica altera toda uma sociedade, basta comparar com países Islâmicos ou com países Budistas como o Butão. A própria noção de família e dos papeis aceites é alterada. E um simples humano no meio da sociedade sofre essas pressões implicitas, tácitas e por vezes já sem a razão incial para a sua existência... tornadas apenas em tradições ilógicas, excessivas e penalizadoras.

Relativamente aos malefícios do evangelho...

continuamente tenta mostrar que não somos capazes... que devemos algo... que temos culpa...

Lamento mas sei que se tentar sou capaz, que não devo nada tacitamente e que não tenho culpa.

A construção de um mundo livre e feliz também passa por se sentir sem o jugo (dito suave da igreja mas presente).

Outro ponto dos evangelhos são as contradições... liberdade e segundo Mateus o próprio Cristo tenta os leigos com um jugo...

Agradeço o seu tempo e espero que sejam pontos suficientes de meditação.

Cordiais saudações,

Missé, sj disse...

Caro anónimo,

Obrigado pela resposta que me pareceu muito sincera.

Quanto à lei canónica, tem muita razão no que diz. Toda a lei não é apenas informativa, mas também performativa de uma vida social. E, por outro lado, também me parece que não pode haver sociedade sem lei canónica, na medida em que até o anarquista quer um cânone que proteja a sua vida e interesses anárquicos.

Quanto aos malefícios do evangelho, um dia ensinaram-me uma coisa que sempre me é muito útil ao ler a Bíblia. Ela não pretende ensinar-nos como é que se vai para o céu (se não falaria indistintamente dos crimes e adultérios do Rei David a par das suas grandes acções). Ela pretende ensinar-nos como é que o céu vem até nós, ou seja porque é que quando buscamos a paz entre nós algo de surpreendentemente NOVO acontece, como que se o próprio Deus se fizesse Evento, quando nos dispomos a busca-lo. Neste sentido, parece-lhe que reconhecer que somos pequenos, devedores em relação uns aos outros, pessoas que por vezes falham no alvo é uma ameaça? Não será antes uma possibilidade de saber que sem criatividade, sem confiança, sem sairmos de nós mesmo nunca vamos fazer nada de novo? Podemos recordar aqui a situação económica do nosso país.

Quanto às contradições que aponta no Evangelho, acho muito importante a reflexão a que me convidou, porque já muitas vezes me deparei eu mesmo com essa pergunta. Lembro-me que, num dia em que andava com essa pergunta na cabeça, esta a trabalhar temporariamente num centro de doentes motores em Lagos. E percebi aí que, quanto mais me desgastava nos trabalhos que fazia, ficava com mais ânimo para o trabalho. Por isso a pergunta que lhe faço é a seguinte: Será o Evangelho que tem contradições, ou não será a razão que é incapaz de acolher totalmente aquilo que, sendo aparentemente contraditório, faz parte da nossa vida quotidiana? Quem tem mais fragilidades: a incerteza da vida ou a segurança do princípio de não contradição?

(desculpe o tamanho do texto, mas foi o que me sugeriu a sua reflexão)

Com os melhores cumprimentos, Miguel sj

Anónimo disse...

Caro Miguel,

"Neste sentido, parece-lhe que reconhecer que somos pequenos, devedores em relação uns aos outros, pessoas que por vezes falham no alvo é uma ameaça? Não será antes uma possibilidade de saber que sem criatividade, sem confiança, sem sairmos de nós mesmo nunca vamos fazer nada de novo?"

Esse é o problema de base. Na defesa do Status Quo da Igreja, o pisar os calos e tentar mentalizar que são pequenos e devedores é uma forma de escravização...

Há outras formas de estimular as pessoas de forma positiva. "Sim, nós somos capazes!"

"Quem tem mais fragilidades: a incerteza da vida ou a segurança do princípio de não contradição?"

Afinal a instituição que anuncia que YESHUA "Deus é salvação" também anda perdida na incerteza da vida e nas contradições...

Será muita a diferença entre: o alquimista que acredita que a sua água é fonte de juventude e o religioso que diz que deus é salvação?

Cordiais saudações,

Missé, sj disse...

Caro anónimo,

acho que tocou em dois pontos muito certeiros e que, a meu ver me parecem muito ligados. Creio que a pessoa que afirma que não somos capazes e a que afirma que somos capazes estão em desacordo porque partem de algo comum: a certeza de que para a vida não vale qualquer resposta. Isto parece-me ser um sinal de fragilidade e, simultaneamente, de possibilidade. Honra e ónus, juntos e inseparáveis. O engenho e a arte de um homem como Goebbels mostra como as potencialidades do ser humano são frágeis. Dependem para onde as orientarmos. Neste sentido, na Bíblia, o reconhecimento da fragilidade vem sempre aliado a uma frase típica de Deus: "Não temas", "Vai", "farei de ti luz das nações" (Génesis, Salmos, Isaías, Jeremias, Novo testamento, etc).
Neste sentido a Igreja está no meio da incerteza porque não é um sistema de verdades fundacionalistas, mas um grupo de homens e mulheres que, sendo frágeis, encontram no mundo um lugar frágil, passageiro e, por isso mesmo, ocasião de grandes oportunidades, ocasião de se acreditar que: "Sim, somos capazes". O problema criticado pela Igreja, e não só, é que o grande pecado consiste em acreditar que "Sim, eu posso", quando isso leva a um egoísmo manipulador. Porque se cada um diz "sim, eu posso", ganha o mais forte. E na Bíblia essa não é a última palavra, basta querermos querer e, portanto, crermos.
Assim, entre o alquimista e o cristão a semelhança é forte, no sentido em que ambos acreditam que tem de haver uma fonte inesgotável desta capacidade de acreditar que "Sim, nós podemos". Divergimos ao nível das respostas... é verdade. Mas também a ciência moderna, ao querer dar todas as respostas, quis encontrar um ponto arquimediano dentro do mundo. Todos partimos do mesmo e temos respostas diferentes. Será porque umas são absolutamente erradas e outras absolutamente certas?
A sua pergunta já foi feita muitas vezes ao longo da história (Nietzsche, Feuerbach). Contudo a ciência e a religião já mudaram muito sem terem caído por terra naquilo que lhes é essencial diante das suas críticas. Será isto a prova de que o ser humano é cego e teimoso nas suas crenças ou que as suas perguntas e críticas são uma ajuda impressionante para que a religião, reconhecendo as suas fragilidades, continue a acreditar com maior profundidade nesse reverso da fragilidade que é o: "sim, nós podemos"?

Com os melhores cumprimentos, Miguel sj

Anónimo disse...

Caro Miguel,

Sinceramente espero que seja um contributo para um mundo melhor, mais equitativo, mais livre, mais reponsável. Que seja capaz de reconhecer que somos ricos, capazes e não necessitamos de subjugar os nossos semelhantes para gáudio pessoal.
A questão não será de todo pessoal, mas institucional, social e cultural.

Cordiais saudações,

Anónimo disse...

Caro Miguel,

Reconhecer que não há grande diferença entre o alquimista e o religioso é um grande passo.
Os alquimistas foram muitas vezes apontados como fraudes, burlões...
vigaristas.

Cumprimentos,

Caim Capelo Cano disse...

Mas nem todos os alquimistas foram acusados de ser religiosos!

Anónimo disse...

Ninguém esta a acusar ninguém de ser religioso...
O único que está em questão é a veracidade da representação de uma entidade que não se manifesta...

Cordiais saudações,

Anónimo disse...

Também é verdade que houve alquimistas, sem serem religiosos, que eram burlões...