24 de maio de 2011

África, acorda!

O teu avô deixou-me aqui.

Acho que se esqueceu de mim.

A sua intenção era que eu lhe desse abundantes frutos, mas sempre faltou a água. Nunca conseguiu regar-me, pois a fonte mais próxima só está na aldeia detrás daquela cadeia de montanhas. O céu também não é assim tão generoso em nuvens. Pouco chove neste canto da savana. Estava condenado a amadurecer estéril, mas nem por isso resolvi deixar de crescer. Começou tudo bastante direitinho, mas o vento é implacável. Sopra enérgico, e são poucos os que podem opor-lhe resistência. Eu esgotei logo, pois a sua aridez secava as minhas forças ingénuas. Sempre na mesma direcção, cada vez mais dobrada. A minha posição permite-me vigiar sobre os arbustos, mas perdi toda a estética possível. Além de inútil, feiosa.

Não será estranho que morra daqui a pouco. Não há ser vivo que ultrapasse a sua condição de mortal. O meu passado começou já a acabar-se, e o futuro é desaparecer dissolvida no mesmo chão para onde o teu avô me atirou naquela tarde de Outono.

Mas tu, tu vieste ter comigo.

Não te conformaste com ficar ao pé de mim, no entanto resolveste atingir esta cimeira vegetal. Pareces corajoso e são. Embora não logre adivinhar para onde estás a olhar, intuo que sabes observar e contemplar.

Os nossos olhos apontam para direcções opostas, e ainda bem! Eu desço para a terra, tu sobes cá para vê-la melhor.

Não podes imaginar como me fazes sentir feliz cada vez que para isto vens. Se eu fosse como aquelas outras árvores majestosas, dificilmente te terias elevado nas minhas costas.

Ó rapaz, ama esta terra!

Por vezes parecer-te-á não demasiado agradável, mas é a tua. Está cheia de possibilidades, e este encontro voltou a ser um exemplo. Visita-me quando quiseres, e convida o teu povo a acordar.

Quiçá apareça um dia a tua neta, simplesmente para ter uma conversa com a minha filha.

Ainda há muita vida escondida, e tu irás descobrindo-a. Aproveita o teu entusiasmo, que a mim há tempo que me falta.

Sopra o vento, mais uma vez.




3 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem! Obrigado!

Anónimo disse...

«Nunca conseguiu regar-me, pois a fonte mais próxima só está na aldeia detrás daquela cadeia de montanhas.»

E a água aqui tão perto, mesmo por baixo da minha sombra...

Se quiseres essa será a tua herança... uma nova fonte para a tua descendência...

Anónimo disse...

«Ó rapaz, ama esta terra!»

Ama? Ama, tem paixão?
Ama, acarinha?
ou Ama tem caridade?

Será?

Ó rapaz, acarinha esta terra.

E tem a certeza que com esse carinho a terra retribui com muitos frutos. Tantos, que não os poderás comer a todos e muitos irão apodrecer.
Mas se voltares a acarinhar a terra mesmo com os seus frutos podres, ela fica mais rica e agradece com mais vida e mais frutos.

Tristes aqueles que se envergonham dos frutos podres e os colocam numa lixeira, fétida, suja e estéril. Não reconhecem o tesouro que deitam fora e são pobres...