23 de maio de 2011

Beato João Baptista Machado

João Baptista Machado nasceu nos Açores, na Ilha Terceira, em 1582, e foi admitido no colégio da Companhia de Jesus de Coimbra, no ano de 1597, com apenas 17 anos de idade. Depois de ter estudado em Coimbra, partiu para a Índia em 1601, com outros 15 companheiros jesuítas. Após os estudos de filosofia e teologia, foi enviado como missionário para o Japão em 1609.

Depois de estudar a língua japonesa iniciou as suas tarefas de missionação, acabando por se fixar na cidade de Goto, no sul do arquipélago japonês. Em 1614, após ter recebido ordem imperial para abandonar as ilhas, permaneceu no Japão, passando, então, a missionar na clandestinidade, trabalhando, disfarçado, para acudir às necessidades espirituais das comunidades cristãs japonesas existentes no sul do arquipélago. Em Abril de 1617 foi descoberto e preso quando confessava um grupo de cristãos. Foi levado para a cidade de Omura, tendo sido executado a 22 de Maio de 1617, no monte Obituri, juntamente com cerca de 100 cristãos de várias congregações. Tinha então 37 anos de idade, estando há 20 anos na Companhia de Jesus. Foi beatificado a 7 de Maio de 1867, pelo Papa Pio IX, juntamente com 205 mártires executados no Japão.

Soa estranho ouvir falar em morrer por Alguém em quem se acredita. Ficamos perplexos, não aceitamos, achamos exagerado. A morte do açoriano João Baptista Machado, em 1617, no Japão, poderá ser uma das que nos escandaliza. Afinal, o próprio facto de Jesus, o Filho de Deus, ter morrido numa cruz é um escândalo para muitos (já S. Paulo o afirmava)… No entanto, quando a morte de alguém significa dar (a) vida, parece-me haver nisso muito sentido. Tanto a morte de Jesus, como a morte deste jesuíta, abrem a mais vida. Sinal disso é o facto de elas não terem causado destruição, nem divisão, nem discórdia. São mortes que dão Vida a outros, a culturas, a projectos... São mortes que abrem caminho a uma proposta de amor e de dignificação do ser humano.

Este açoriano, por acreditar nessa proposta, e em fidelidade àqueles a que foi enviado a servir, não teve medo de entregar a vida até às últimas consequências.

12 comentários:

Anónimo disse...

Parece que não são apenas os extremistas Islâmicos que treinam o seus jovens para se sacrificar e se considerarem mártires e heróis...

O que será que os Jovens Islâmicos pensam quando aceitam ser mártires?

"Eu aceito ir em guerra, para destruir uma cultura e impor as nossas convicções"

Não é o valor da vida um valor a considerar?

Anónimo disse...

Contactar:

Coordenação Nacional para a Saúde Mental

cnsm@cnsm.min-saude.pt

Telf: 21 330 50 50

Fax: 21 330 50 20

Av. António Augusto Aguiar, 32 – 2º

1050-016 Lisboa

Guilherme disse...

O pobre anônimo não percebe a diferença entre ser assassinado por sua fé(Cristo) e assassinar por sua fé(Mohammed).

Realmente ele precisa de ajuda do CNSM.

Anónimo disse...

Caro Guilherme,

Poderá contactar a APAV para ter uma opinião independente.

O treino de um inocente para ele considerar que a sua morte como mártir o torna um herói é uma violência e pode ser considerado como uma vítima.

Coloca em em perigo a sua própria vida ou a dos outros. Como tal a sociedade deve proteger os mais fracos e inocentes. Aqueles que ,cegos pela ilusão da protecção de um deus, acabam usados por uma instituição.

O pobre anónimo

Anónimo disse...

Caro Guilherme,

Claro que a "lavagem cerebral" é diferente da dos Islâmicos extremistas.

Mas o treino para a predisposição da aceitar a morte com juras de eternidade e heroismo está presente nos dois casos referidos.

O pobre anónimo

Rui Miguel Fernandes disse...

Caros Anónimos,

Penso que estaremos de acordo se se disser que o sentido das palavras varia conforme o contexto.
Dificilmente tomaríamos uma reportagem sobre o Holocausto, num canal público de TV, como um exercício de propaganda anti-semita de um grupo de extrema direita (porque, se fosse, o provedor do espectador, com toda a razão, não teria mãos a medir!).
A interpretação inteligente de um "texto" (em sentido lato: pode ser uma página de jornal, uma conferência, uma conversa) requer, da parte do receptor, uma disposição tal que lhe permita: (1) considerar o género "literário" (para não ler um poema do mesmo modo que lê um artigo científico); (2) considerar o modo próprio como o interlocutor usa os termos; (3) entrar no "ambiente de sentido" que o "texto" sugere (por exemplo, entrar em "Narnia", ou no "núcleo do átomo")para conhecer o território do texto. Se nos precipitarmos a entrar num texto com vontade honesta de o perceber, mas com pressa, corremos o risco de o violentarmos com a nossa ânsia, e ficaremos, ofegantes e insatisfeitos, estendidos às margens do texto.
Realmente, o facto de este blog ser assumidamente católico pode fazer levantar suspeitas quanto à intenção "propagandística" dos textos. As palavras rapidamente podem ser tomadas como "lanças em África", como "pregões" de uma qualquer "doutrina". A palavra "martírio", claramente, está na linha da frente desse repertório perigoso, nebuloso. Um leitor atento por-se-à de atalaia, a ver "quando se soltam os estilhaços do texto". Mas, se não correr o risco de levantar os olhos das ameias, jamais se poderá certificar do que está por baixo da outra bandeira... Todos temos "pré-conceitos", mas é bom que lhes não dêmos rédea solta, para que não nos retenham intramuros. E isto, repito, é uma tarefa sempre inacabada para qualquer pessoa: os de cá e os de lá do ecrã.
É normal que, interpretando como interpreta o termo "martírio" (e "fé", em geral), reaja com preocupação pela "saúde pública". Isso, devo dizer-lhe, abona bastante em seu favor. Se a visão que temos desses termos fosse remotamente semelhante à que evoca, seria melhor que nos submetessem a uma avaliação psiquiátrica profunda, acompanhada de enorme compreensão mas igual determinação (para bem nosso e da comunidade). No entanto, se considerasse não só o tom desses textos como do blog, em geral (mesmo nas suas páginas menos simpáticas, como sempre os livros - e vidas - volumosos têm), poderia, se não deduzir, "suspeitar", que esse não é, de todo, o sentido que atribuímos ao martírio, como à fé.

Rui Miguel Fernandes disse...

O certo é que as palavras atraem palavras. E como chocam, às vezes...
A palavra "martírio" atraiu uma floresta de outras. E, como todas as florestas, tem clareiras e tem silvados. Os silvados, de doerem, estão mais identificados: na vida espiritual, as "silvas do martírio" prendem-se com um imaginário heróico-estóico, que identificou a "vida santa" como a vida "áspera", "férrea". O mártir, neste cenário, é a pessoa que "dobrou a sua liberdade" e corta a direito pelo meio das silvas, sem franzir, sequer, o sobrolho. É muito comum, em ambientes religiosos, esta visão "dos santos". Em contexto político, o mártir é hoje visto, como bem apontaram, como o fanático - mais ou menos sofisticadamente camuflado -, alguém que não olha a meios para "propagar a sua doutrina", que considera os outros - os "diferentes" - como alvos a abater. Por isso, o mártir é alguém que está sempre à beira de um ataque de nervos, alguém dinamitado.
Mas, como disse, também há clareiras, nesta floresta martirizada. O aspecto luminoso - aquele sobre o qual vale a pena, ainda hoje, tecer glosas, erguer estátuas, editar cadernetas de cromos - do martírio, porém, está bastante longe dessa flora.
"Martírio" é "testemunho", mas testemunho simples, humano, "vulgar", com sabor a café e torradas, com chuteiras, com gozo de apaixonados, com alegria, com capacidade de diálogo. Há mais "martírio" nos apaixonados que saem do emprego a correr para reservar lugar num restaurante para um jantar romântico surpresa num dia perfeitamente normal, como quem não deixou de se surpreender com a apaixonada, do que em muitíssimos gestos religiosos. Porque o martírio é próprio de quem ama. E um amor que se impõe, de forma intolerante e cega, aos demais, não é amor: é violência.
Sim: gostava imenso de ser mártir, de viver a 100% de acordo com as minhas convicções mais profundas. Mas as vezes em que sou violento, impaciente e preconceituoso mostram-me que ainda me falta muito para chegar a esse martírio simples que é "ser humano". Bombistas, infelizmente, religiosos ou ateus, há muitos. Mártires - destes mártires -, não.

Por isso, para que as nossas palavras não nos façam rebentar, façamos um exercício de martírio e respeitemo-nos mutuamente, sem partir do pressuposto imediato que o outro, por pensar "como pensa", é destituído seja do que for. E se nos faltar amor para tanto, façamos pelo menos o esforço de não nos impormos aos textos, com "abordagens" generosas mas menos acertadas.
Há uma "ecologia" nos textos: limpar a floresta das palavras requer prudência para não abatermos espécies protegidas.

Muito obrigado pela paciência.
Espero que isto vos tranquilize. Saibam que também nós nos esforçamos por erradicar essas formas de "martírio".

Anónimo disse...

Caro Rui Miguel Fernandes,

Parabéns pelo seu texto.

Afirma:
«Sim: gostava imenso de ser mártir, de viver a 100% de acordo com as minhas convicções mais profundas.»

O único milagre que existe é a vida.
E parece disposto a perder a vida, por convicções.

Que convicções?

Assumo que sejam as convicções da Igreja Católica Apostólica Romana.
Mas o que é que se sabe dessa instituição? Que é a hedeira do império romano e que mantém todos os defeitos e virtudes do mesmo. Que segredos guardam os Cardeais? Niceia é Jesus?

Acha que colocar um jugo a um casal de um pobre homem com a sua mulher para manter a força trabalhadora da plebe, merece erradicar a diversidade cultural que existiu, por exemplo no Japão?

Espero que um dia se aperceba das atrocidades defendidas pelas insituições e reparar que alguns Cardeais vivem sedados para não ceder à desilusão de ter caminhado com a ideia de deus e encontrar os que mataram Jesus.

Bem haja,

Rui Miguel Fernandes disse...

Caro Anónimo,

Penso que compreendo o seu mal-estar. Realmente, a Igreja tem uma história longa, cheia de matizes, alguns - muitos - muito pouco "católicos". Também ela é "uma floresta" à espera de cuidados ecológicos.
Simplesmente, a metodologia dessa "reforma" é, antes de mais, personalista. Porque a Igreja, antes de ser uma coisa institucional, é uma coisa pessoal (como as relações de intimidade que, antes de se tornarem públicas - "institucionais" -, começam pequenas, íntimas, "tu a tu"), a sua reforma começa em mim.

Este processo de reforma conhece dois horizontes extremos, ambos a evitar. (1) Pessimismo: podemos, se formos exigentes, ganhar uma natural e saudável "aversão" à mediocridade. No entanto, é fácil que esse mal-estar face ao que temos de "menor", se não for temperado, provoque uma enorme angústia e depressão, de tal forma que aquilo que não passava de "uma região localizada" se agiganta a ponto de ocupar todo o espaço psicológico, afectivo e "político". "Tudo está mal".
(2) Indiferença: no lado de lá está a indiferença (poderíamos encontrar outros nomes). "Está tudo bem", "vale tudo". Aqui há como que uma visão totalmente desprovida de sentido crítico, mas também de um são desejo de "progresso", de crescimento e de "mais".
Um processo de "reforma", para ser exequível e saudável, tem que partir, tanto quanto nos for possível, de uma visão realista, abrangente e "justa" da realidade. Obviamente, a nossa sensibilidade - intelectual, política, ... - influirá nessa avaliação, de tal forma que duas pessoas "sérias e críticas" poderão chegar a avaliações diferentes. Não obstante, se esses quadros forem ou demasiado "negros" ou demasiado "claros", poderemos desconfiar... Porquê? Simplesmente porque não há histórias humanas - tanto as negras como as claras - que não conheçam matizes.

Rui Miguel Fernandes disse...

Talvez não estejamos a falar exactamente do mesmo quando dizemos "dar a vida por uma convicção". Quando digo isto, penso, por exemplo, como seria bom termos políticos que "se comprometessem com uma visão do mundo" (não obstante a ideologia); penso em tantos profissionais, e de como seria bom termos pessoas competentes, "convictas"; penso em muitos casais, e de como seria fantástico vê-los ocupados na construção de relações luminosas; penso em muitos crentes e não crentes, e de como é necessário que as suas visões positivas e construtivas do mundo sejam assumidas (porque todos, a seu modo, esperam construir um futuro mais humano). Porque "esta forma de convicção" não se "afirma" impondo os seus "vocabulários", as suas "cores", os seus "ideários", mas afirma-se enquanto serve à cooperação. Claro: talvez esta seja uma visão demasiado sorridente, "positiva", "ingénua".

Mas é precisamente quando, seja na fé ou em qualquer área da experiência humana, nos esquecemos desse propósito de fundo que é o da capacidade de "vivermos juntos", de nos amarmos, recebendo mutuamente os mosaicos que são as nossas memórias de vida, é que nos tornamos "parciais", "redutores" e "fundamentalistas".
Na fé, todos são importantes: bispos, casais, políticos, pedintes, papas, descrentes. A raiz da hierarquia, na fé, é o "deleite": os outros são uma dádiva! Isto nada tem de "subserviente". Sou tão responsável pelo futuro da Igreja como o Santo Padre. Porquê? Porque a Igreja, como o mundo, não é uma realidade "aérea", mas tem que ver com o dia-a-dia das pessoas. De contrário, não seria nem humana nem... divina.
Por isso, se a notícia de incoerências dadas a 10 ou 1000 km de distância me fere, fere-me também o milímetro a que estou das minhas próprias incoerências, ou das suas. Mas, porque não quero ser nem pessimista nem indiferente, assumo com realismo crítico que a vida, todas as vidas, tem limites que me embaraçam muito, mas não tanto que me impeçam de, terminado este comentário, sorrir com a possibilidade de, com imensa coincidência de ideias, ou nenhuma, termos sidos capazes de ser humanos durante 5 minutos, deixando essa marca pequena, discreta, mas real, na história do mundo. E da Igreja.

Anónimo disse...

Caro Rui Miguel Fernandes,

«Sou tão responsável pelo futuro da Igreja como o Santo Padre.»

Por um lado, gostava que esta fase de felicidade que está a viver, se estenda por muito tempo.

Por outro lado, considero que devo chamar à atenção que está um pouco eufórico e como tal fora da realidade.

Por exemplo: Pode autorizar o uso do preservativo?

«Porque a Igreja, antes de ser uma coisa institucional, é uma coisa pessoal (como as relações de intimidade que, antes de se tornarem públicas - "institucionais" -, começam pequenas, íntimas, "tu a tu"), a sua reforma começa em mim.»

É uma frase interessante. Mas a insituição assegura que o tu que pretende reformar outro, segue o que os cardeais decidiram. O tu que aceita orientação, com base na confiança, tem um certo grau de liberdade enquanto expressões dentro da intimidade. Outra atitude se espera quando são expressões públicas.

Assim como é uma violência treinar uma pessoa para aceitar a morte em nome de algo que não conhece, (só se tiver o conhecimento de um cardeal), também é uam violência limitar a visão a um único "tu".
Porquê essa restrição de opinião?
Com o tempo passado "tu a tu" o mestre passa ao aprendiz as coisas boas mas também os erros. Essa tradição é extemporânea. A cópia de Gutenberg alterou essa forma de aprendizagem, massificou e democratizou o conhecimento. E hoje a cópia digital da informação está a gerar uma nova revolução na aprendizagem e disponibilidade de informação. Como tal o "tu a tu" é extemporâneo e uma limitação.

Espero que um dia perceba o mundo em que está inserido.

Bem haja,

Anónimo disse...

Sei que as mudanças são lentas.
Mais de 300 anos para converter um império militar num império clerical.

Mesmo a aceitação de novas imagens gera resistência. O mumentum da "tradição" assim o explica.

Escreve: Pharmacia ou Farmácia?
Escreve: Actor ou Ator?

Treinar uma alma para morrer com um sorriso é uma arte antiga e o cerne aprendiz / mestre, com base numa dinâmica intimista faz parte dessa arte. Geram-se códigos que só são válidos entre a dupla, coisas que não foram validadas pela sociedade em geral...

Espero que um dia percebam o mundo em que estam inseridos.

Bem hajam,