8 de maio de 2011

Só a visão não chega.

O Evangelho de hoje relata-nos o episódio de uma das aparições de Jesus ressuscitado: a sua ida ao encontro com os dois discípulos de Emaús.

Centremo-nos na descrição que nos é feita a respeito da transformação que ocorre no olhar dos discípulos. No início não conseguiam reconhecer Jesus: “seus olhos, porém, estavam impedidos de reconhecê-lo.” (Lc 24, 16). Mas no final, foi pelo olhar que reconheceram Jesus: “seus olhos se abriram e o reconheceram…” (Lc 24, 31)

Mas que olhar é este? Esta mudança de olhar poderia ser apenas uma questão física, biológica, exterior. Como se inicialmente tivessem os olhos turvados, como acontece muitas vezes quando acordamos, e depois os limpassem. Mas de facto não é isso que nos é dito. Parece haver aqui referência a uma mudança num olhar que vem de dentro, do interior. Um olhar do coração. Um olhar que muda porque se converte.

De facto, porque é que estes discípulos não reconheceram Jesus quando o viram? Poderá ter sido pelo facto de terem esperado por um Jesus herói que afinal de contas tinha sido morto e tinha deixado inacabada a sua promessa de salvação. Esse herói, se tinha morrido, não poderia ser visto ali. Estes discípulos provavelmente não tinham percebido as palavras que Jesus tinha dito: “É necessário que o Filho do Homem sofra muito, seja rejeitado pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas, seja morto e ressuscite ao terceiro dia.” (Lc 9, 22).

Muitas vezes, é isto que nos acontece. Não encontramos Jesus, não o vemos, porque o Jesus que procuramos, que queremos encontrar não é o verdadeiro Jesus, aquele que quer vir ter connosco.

Esta mudança, esta conversão dos discípulos, dá-se para além da visão. É uma mudança gradual, que vai sendo aprendida pelo caminho, e é Jesus quem vai ajudando. Jesus ao recordar a sua vida, não só a vida que viveu de facto, mas aquilo que no Antigo Testamento já tinha sido dito sobre Ele, vai transformando o olhar interior destes homens. E de tal forma esta partilha lhes vai dando vida que, quando Jesus se afastou deles, eles não O quiseram deixar partir. Talvez possamos fazer aqui algum paralelismo com o que aconteceu no Monte Tabor, quando Jesus se transfigurou e Pedro não queria deixar aquele lugar (cf. Lc 9, 33). Depois, ao repetir o que tinha feito na última Ceia, Jesus recordou a sua entrega, e nessa altura os “seus olhos se abriram e o reconheceram” (Lc 24, 31).

Esta transformação nos discípulos é uma transformação que converte o coração ao ponto de “queimar” toda a tristeza e todo o desânimo que sentiam, “não ardia o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32), dando lugar a um coração novo, capaz não só de acreditar que Cristo ressuscitou, mas também de os fazer querer anunciar essa Boa Nova aos outros.

Como podemos nós fazer este caminho de encontro e de conversão? Como podemos também nós reconhecer Jesus nas nossas vidas? Se lermos novamente as palavras de Lucas poderemos talvez nela encontrar uma descrição da celebração da Eucaristia: “Entramos, em cada celebração, de coração contrito e rezamos o Kyrie Eleison. Escutamos a Palavra – leituras da Escritura e a homilia – professamos a nossa fé, oferecemos a Deus os frutos da terra e do trabalho do homem e recebemos de Deus o Corpo e o Sangue de Jesus; finalmente somos enviados ao mundo com a missão de renovarmos a face da terra.”*

Façamos da celebração da Eucaristia lugar de encontro com Jesus e lugar de conversão. O que celebramos na Eucaristia é aquilo que somos chamados a viver: uma conversão capaz de nos fazer passar do ressentimento à gratidão, e capaz de nos levar ao encontro dos outros, principalmente dos que mais sofrem.

Citações bíblicas retiradas da Bíblia de Jerusalém. Edição portuguesa da Editora Paulus, 2003

* Nouwen, Henri J. M., "Não nos ardia o coração?" - 2ª edição. Trad. Maria do Rosário Pernas. Lisboa: Paulinas, 2006, p. 10

LEITURAS de HOJE:

L 1 Act 2, 14. 22-33; Sal 15, 1-2a e 5. 7-8. 9-10. 11
L 2 1 Pedro 1, 17-21
Ev Lc 24, 13-35

1 comentário:

Liliana Sampaio disse...

Como escrevia Saint-Exupéry, "o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração"... O problema é que, muitas vezes, não é fácil abrirmos o coração para vermos o que é verdadeiramente fundamental. A sociedade em que vivemos desvaloriza os sentimentos e as emoções, o que nos cega frequentemente perante o que é realmente essencial e valioso, perante o que mais nos enriquece e engrandece como seres humanos. Às vezes, tenho a impressão de que desistimos de nos aperfeiçoar, que perdemos o Norte... E não é fácil, nos tempos que correm, voltar a encontrá-lo... Mas a esperança resiste! E ainda consigo acreditar que chegarão ventos de mudança! :)