29 de maio de 2011



(das leituras do dia)

«Eu já não estou no mundo mas eles estão no mundo, enquanto Eu vou para Ti»

“Não voz deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis.”

“Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós”.





Hoje o tom é de despedida – quando partimos parece que arrancamos de nós próprios um pedaço do chão alheio. Mas temos que partir, pois não podemos criar camadas de gente que amamos, colando-as a nós para que não se apartem da nossa vista. Na verdade o medo de orfandade pede-nos que nos amarremos de unhas e dentes àqueles pelos quais se aperta o estômago quando os vemos de costas despedidas, já no fundo da rua, que parece querer traze-los de novo para os nossos braços ainda no ar.

No entanto temos esse medo.

Talvez o tenhamos, porque nos descobrimos tantas vezes, órfãos – como no supermercado a agarrava com a naturalidade de filho, uma mão de uma mãe desconhecida que pensava ser a minha – numa sensação de surpreendente solidão, de falta de tecto. Também nos sentimos órfãos, quando o silêncio supera largamente qualquer música, ou ainda, quando não descubro o meu lugar, por não receber o depoimento dos gestos, que nos gravam a paternidade nas mãos. Mas o Senhor dá-nos o Seu lugar quando parte, da mesma forma que o avô deixou o lugar da cabeceira vazio, para que agora o pai coma no dia da festa sem que ninguém lhe escape aos olhos.

No entanto, no lugar ocupado de quem partiu acumulou-se mais um, àquilo que inevitavelmente fica de quem já lá não está. Assim, para quem se sentou no colo do pai não existe orfandade e quem se viu entrelaçado nos seus braços nunca será órfão. Desta forma, o maior medo não pode ser de orfandade mas antes da amnésia, por isso a enorme necessidade de fazer memória, para que eu não passe de filho a órfão.

Quando um PAI parte não deixa órfãos mas filhos e, desfazendo-se o nó da falta que faz o corpo quente e a voz, ficamos sós, mas no seu lugar, logo mais nós mesmos.

É assim que o Senhor se despede e parte para o Pai para que fiquemos n’Ele, não órfãos, mas filhos que assumem as cabeceiras das mesas em paternidades fecundas.


O que hoje aprendi para dizer-me

talvez não caiba no jeito do verso

não cabe, por minha falta

mas eu aprendi.

Desde hoje serei mais eu

Estarei mais onde estiver

Almada Negreiros

3 comentários:

Anónimo disse...

E o mito de Aquiles continua.

«Mais vale morrer jovem e com glória do que uma vida longa sem glória.»

Mas por mais consistentes que pensam que são, ficam sempre com o calcanhar de Aquiles.

E Aquiles continua a viver entre nós.

Anónimo disse...

“Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós”

Ainda bem que não está no pontífice de Roma...

Anónimo disse...

«Mas temos que partir, pois não podemos criar camadas de gente que amamos, »

Porquê?

Olhe o Facebook, pode todas as pessoas que ama perto.

A igreja é mesmo extemporânea...