22 de maio de 2011

Tal Pai, tal Filho

Pessoalmente, sempre me incomodaram, em criança, os comentários dos amigos dos meus pais que, à custa de quererem certificar o parentesco, me desmembravam a identidade com os típicos “tem o nariz do pai” ou “sorri como a mãe”. Obviamente, naquela fase em que pensava povoar o mundo com a minha originalidade, a filiação mais soava a fronteira que a passaporte. Com o tempo, porém, tenho-me vindo a aperceber do quanto, realmente, trago pai, mãe, irmãos, amigos, e talvez até um pouco de terra (de tanto a comer dos vasos, em criança), no corpo. Não me refiro somente à genética; os outros também me compõem os tecidos.
A relação é uma grande escultora: esgravata-nos tiques, molda-nos o timbre, descobre-nos reentrâncias críticas. Quanto mais profunda a relação com alguém, mais essa pessoa nos fica vincada. Claro: há sempre o risco de o vinco virar cicatriz. Basta, para tanto, que nos grudemos de tal modo no outro que a fricção nos deixe a pele em ferida. Mas não me referia a essas formas doentias, pouco arejadas, de relação.



Os amigos de Jesus perguntaram-Lhe algo perfeitamente natural. Jesus falava-lhes repetidas vezes de Deus – o seu “Pai” –; mas, quem era Ele? Como poderiam vê-l’O? “Quem me vê, vê o Pai”. Decerto, ninguém jamais poderia supor a quem sairiam os olhos, os cabelos, o nariz ou o queixo de Jesus. Mas, embora inconfundivelmente de Maria e de José – como eu sou inconfundivelmente de tantos que me fizeram –, Jesus era também de Deus. Os mesmos tiques de loucura, a mesma capacidade de criar vida onde a morte era tão numerosa, a mesma liberdade para acolher e para dar: a vida de Jesus foi o vestígio da sua intimidade com Deus. A pouco e pouco, os amigos puderam ver que Jesus se mexia à [maneira de] Deus. As repetidas vigílias, o fogo nas palavras – tão espontâneas quanto mastigadas –, a força dos gestos: tudo isso falava de uma intimidade descarada, porque transbordante. «A boca fala da abundância do coração». E se Deus está no coração…

Hoje, a pergunta dos discípulos mantém-se como convite: onde está Deus, hoje? Onde estão os apaixonados que O têm à flor da pele? De que corpo se dirá: “repara como se parece com Deus”? Assim como há casais que, de se abrirem ao outro, lhe ganham as feições (“a cara metade”), talvez também em nós a longa permanência em Deus nos assemelhe com Ele, a ponto de O termos na biografia como no rosto.


1 comentário:

Anónimo disse...

“Quem me vê, vê o Pai”

E o que dizia João Baptista?