12 de maio de 2011

Teilhard de Chardin: um filho do Céu e da Terra

Jesuíta, teólogo e paleontólogo, o padre Teilhard de Chardin no livro a “A minha fé” dirá que «A originalidade da minha crença está em possuir as suas raízes em dois domínios de vida habitualmente considerados antagónicos. Por educação e formação intelectual, pertenço aos “filhos do Céu”. Mas, por temperamento e pelos estudos profissionais, sou um “filho da Terra”»

Marie-Joseph Pierre Teilhard de Chardin nasceu em Orcines no seio de uma família aristocrática no dia 1 de maio de 1881, sendo o quarto de onze irmãos. Passou os primeiros anos da sua infância com a família da qual recebeu a educação e a sua primeira formação. À influência da mãe, Berthe-Adéle de Dompierre d’Hornoy, deve como dirá o próprio ‘o melhor da sua alma’. Do pai, Alexandre-Victor-Emmanuel Teilhard de Chardin, recebeu as primeiras letras e alguns dos traços do seu caráter, bem como o interesse pelos mistérios da natureza, a paixão pela investigação dos minerais e dos insetos.

No ano de 1892, perto de fazer 11 anos, o menino Marie-Joseph entra no colégio dos jesuítas de Notre-Dame de Mongré onde concluirá com brilhantismo os seus estudos secundários em 1898. Após uma adolescência sem grandes turbulências, entrará no noviciado jesuíta em Aix-en-Provence que termina em outubro de 1900, iniciando nesse mesmo ano o ‘juniorado’ em Laval, onde professa os primeiros votos no dia 25 de março de 1901. Todavia, com a expulsão das ordens religiosas em França, no ano de 1902, os jesuítas partem para Inglaterra e Teilhard de Chardin fez em Jersey entre 1902 e 1905 os seus estudos filosóficos que parecem não ter sido brilhantes. Durante este tempo de formação Marie-Joseph pensa abandonar a geologia e o tempo que a ela dedicava com paixão, mas graças ao sábio conselho do padre Paul Troussard, mestre de noviços em Jersey, não o faz. Antes em 1904 se junta ao grupo do padre Félix Pelletier que era licenciado em Química e Mineralogia e com este publicará uma nota mineralógica no boletim anual da Sociedade Geológica de Jersey.

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Concluídos os estudos de Filosofia o jovem Teilhard de Chardin inicia, como era tradição nos jesuítas, um tempo de ensino que durará três anos num colégio da Companhia no Cairo(Egito) onde ensina bases de Química e Física entre os anos de 1905 e 1908. Por esta altura desenvolve muito trabalho de campo descobrindo e divulgando fósseis e séries geológicas que o tornam conhecido junto dos especialistas. Mas o seu tempo de ‘magistério’ termina e Teilhard regressa a Inglaterra para os estudos de Teologia em Hastings, no condado de Sussex, que durarão até 1912, com a sua ordenação sacerdotal um ano antes no dia 24 de agosto, na qual estão presentes os seus pais que vieram a Inglaterra para o efeito. Em Hastings continuam as suas aventuras científicas na companhia sempre amiga do padre Félix Pelletier e durante as quais recolhe exemplares fósseis e mineralógicos que oferece quer ao museu local quer ao British Museum.

Com estas demandas e descobertas o padre Teilhard começa a ser reconhecido e citado nas revistas da especialidade. Assim, no ano de 1912 o padre Teilhard de Chardin dirige-se a Paris onde entrevista Marcellin Boule e consegue um lugar ao seu lado. Graças a M. Boule conhecerá no Instituto de Paleontologia Humana o padre Henri Breuil com o qual manterá ligação e cooperação não só científica mas também espiritual.

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Chegado o ano de 1914, altura em que estala a I Guerra Mundial, o padre Teilhard de Chardin inicia a sua última ‘provação’ (a terceira), a qual não terminará uma vez que será destacado para o serviço militar. Assim, é mobilizado para a secção de enfermeiros, sendo posteriormente, em 1915, enviado para a frente de combate como maqueiro. No ano de 1918 o padre Teilhard de Chardin faz os votos solenes como jesuíta, sendo desmobilizado a 10 de março de 1919. Neste mesmo ano retoma os estudos e em 1922 o padre Teilhard de Chardin, passa na Sorbonne as três provas da licenciatura em Ciências Naturais, apresentando e defendendo com brilho uma tese de doutoramento que havia iniciado nas trincheiras de Reims. Todavia, é desde 1920 assistente de Geologia e Paleontologia no Instituto Católico de Paris, sendo promovido a professor adjunto após o doutoramento. Contudo, não ficará muito tempo, pois aceita o convite de um confrade, que tinha dado início a um museu de geologia, para ir investigar em campo para a China. Tal tempo de investigação será marcante para o desenvolvimento da sua carreira científica e do seu pensamento.

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No ano de 1922 escreveu, a pedido do padre Riedenger, uma nota sobre o problema do pecado original e do monogenismo, que teve como consequência a acusação de negar o pecado original sendo aconselhado a afirmar o dogma na sua ortodoxia e ao mesmo tempo a abandonar a Universidade. Aconselhado a não escrever sobre tema eclesiais e teológicos, o padre Teilhard de Chardin foi enviado novamente para China a fim de prosseguir os seus estudos científicos e onde permaneceu até ao fim da II Guerra Mundial. Durante este tempo parte para em inúmeras viagens e expedições científicas à Mongólia, Somália, Birmânia, Índia, Java e a Estados Unidos.

Entre o ano de 1926 e 1927 escreve “O Meio Divino”, tendo a obra sido considerada aceitável. Em 1929 participa na descoberta e estudo do ‘sinantropo’ (o Homem de Pequim) e entre 1938 e 1940 escreve a sua obra maior ‘O Fenómeno Humano’, que envia a Roma para observação e apesar das revisões vê recusado o “imprimatur”. No ano de 1946 regressa a Paris e é convidado a lecionar no Collége de France, mas sob conselho não o fará. Contudo, ministrará cursos na Sorbonne entre os anos de 1949 e 1950 que resultaram na obra “O grupo zoológico humano”, e nesse ano é eleito como membro da Academia de Ciência do Instituto de Paris, mas no ano seguinte (1951), o padre Teilhard de Chardin muda-se para Nova York onde viria a falecer dia 10 de abril, Domingo de Páscoa, de 1955.

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No dia 24 de julho de 2009 na sua homilia proferida na celebração litúrgica das Vésperas na Catedral de Aosta, o Papa Bento XVI evocava o padre Teilhard de Chardin, a propósito da função do sacerdócio ser a consagração do mundo, com as seguintes palavras: «A função do sacerdócio é consagrar o mundo a fim de que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia: que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que depois teve também Teilhard de Chardin: no final teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se torne hóstia viva.»

L. Oliveira Marques
© SNPC | 29.03.11

Teilhard de Chardin

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