15 de maio de 2011

Uma nova autoridade



Os romanos faziam uma distinção muito importante entre potestas e auctoritas. A potestas, vinda de potis, significava ser senhor de, exercer poder sobre algo num sentido institucional. Por outro lado, a auctoritas, vinda de augere, significava fazer crescer, aumentar, qualificar. Reconhecer a autoridade de alguém consistia então em acreditar na sua palavra, na sua voz como algo que me faz crescer, me edifica, me qualifica e põe em movimento.


No Evangelho deste domingo, Jesus critica aqueles que fazem da religião uma forma institucional de exercerem o seu poder. Esses são aqueles que não entram pela porta e cuja voz não é reconhecida. Porque é reconhecida a voz de Jesus? Porque tem autoridade sobre as suas ovelhas, porque elas reconhecem-no como Aquele que lhes acrescenta novidade, humanidade, transformando tudo em espaços de pastagem, ou seja, mostrando como nenhum lugar humano é adverso à nossa realização mais profunda, ao encontro com Deus.



Mas como havemos hoje de reconhecer a Sua voz e autoridade? Na verdade, já não vemos Jesus fisicamente e a alegoria hoje proclamada, por mais bela que seja, pode tornar-se vazia se ninguém no-la explicar. Só explica o sentido das Escrituras quem tem autoridade sobre elas: o próprio Cristo, porque nos abriu com a Sua carne o sentido da palavra de Deus. Por isso será a Sua Vida que nos servirá de explicação desta alegoria. Reconhecer a Sua voz implica três movimentos: a memória que recorda a voz, o entendimento que percebe de quem é aquela voz e o que ela diz, e a vontade que segue a voz e o seu pedido.






Memória Lembram-se como sucedeu com os dois discípulos desiludidos que caminhavam para Emaús? O seu desejo era de voltar para casa, não por convicção, mas porque não tinham mais para onde ir depois do fracasso da morte de Jesus. Contudo o próprio Jesus juntou-se-lhes no caminho e, explicando-lhes o sentido das escrituras, fez com que ardessem os seus corações. Jesus não lhes disse que as suas desilusões eram vãs, mas que, no fundo das suas mágoas, havia uma esperança [de que fosse Jesus quem renovasse Israel] que já estava prevista pela Escritura. Por vezes também nos fixamos nos átomos dos acontecimentos e Jesus força-nos pela palavra a perceber como cada movimento interior que nos habita está enquadrado num movimento mais profundo e contíguo.


Entendimento Mas como pode Jesus ser Aquele que nos ensina a ler as Escrituras se dissemos que já não O vemos? No prólogo do Evangelho de S. João é-nos dito que por contemplarmos a palavra de Deus feita Carne, Jesus, também participamos dela, também a experimentamos. Hoje com tanta publicidade e discurso podemos já ter perdido a atenção para as palavras quotidianas. Contudo, há palavras que nos tocam profundamente, abrindo-nos horizonte ou ferindo-nos. É o caso de eu amo-te ou eu odeio-te. Neste sentido, toda a Escritura leva-nos a contemplar palavras que respondem aos nossos anseios mais profundos. Diante dos nossos medos seremos indiferentes ao Cristo que diz: “Não temas”? Diante dos nossos cansaços físicos ou desgastes relacionais seremos indiferentes ao Cristo que nos diz: “Vinde a Mim vós todos que andais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei”? Experimentamos Cristo presente, aqui e agora, a mostrar-nos as pastagens que as nossas feridas reclamam. Esta é a autoridade do serviço.



Vontade Mas, se podemos experimentar e conhecer a palavra, porque precisamos de uma Igreja, de uma comunidade onde aprendemos a discernir a presença de Jesus no nosso mundo? A autoridade da palavra que serve fica incompleta sem o gesto que nos assegura que aquilo que a palavra dá não é apenas um conforto psicológico. Neste sentido, apesar das incoerências entre a palavra e alguns actos da nossa Igreja, o que lhe dá autoridade é que ela mantém os gestos de Jesus. O gesto de Cristo, prefigurado na porta das ovelhas, consiste em deixar entrar no Pão e no Vinho, que Ele assumirá como Seu corpo e sangue, o trabalho de cada homem e mulher. Tanto o pecado como a caridade dos nossos actos são acolhidos, absolvidos e elevados no corpo e sangue dAquele que partilha ainda hoje a mesa com os pecadores; mostrando o poder que se esconde nas suas fragilidades, que Ele mesmo partilhou. Há assim qualquer coisa maior que as palavras proferidas, que resulta desta misteriosa ementa feita de gestos e palavras. Qualquer coisa que nos toca, plenifica e cuja autoridade questiona e orienta a nossa vontade.


1 comentário:

Anónimo disse...

«Qualquer coisa que nos toca, plenifica e cuja autoridade questiona e orienta a nossa vontade.»

Porquê este apelo ao irracional?
Não deve o homem modelar a sua natureza de forma a se tornar melhor?

A mesma afirmação pode ser feita relativamente à vontade de estar com uma prostituta:
«Há assim qualquer coisa maior que as palavras proferidas, que resulta desta misteriosa ementa feita de gestos e palavras. Qualquer coisa que nos toca, plenifica e cuja autoridade questiona e orienta a nossa vontade.»

Alguns confundem mesmo a paixão do momento com a amizade e caridade. Uns por ignorância outros... deliberadamente...

Pela mesmo lógica também necessitamos de prostitutas...