28 de junho de 2011

A VOCAÇÂO, por Filipe Martins sj

A pergunta sobre a vocação costuma assustar e até incomodar não poucas pessoas. No uso corrente da palavra é normal pensar-se que só uns poucos “têm vocação”, poucos são os “eleitos” por Deus para uma vida consagrada a Ele de uma forma radical. E forma de vida não só radical como habitualmente vista como uma limitação, ao ler-se a consagração religiosa pela negativa: a pessoa não se pode casar (o voto de castidade), nem desfrutar dos bens (o voto de pobreza), nem “fazer o que quer” (a obediência).

No entanto, convém começar por clarificar que todos temos “vocação”! Pois vocação vem do latim vocare (chamar), e cada um de nós é “chamado” por Deus a ter uma vida realizada, “em abundância”. Alguns como consagrados, é certo. Mas muitos outros como solteiros ou casados, como pais e avós, como profissionais empenhados naquilo em que trabalham, como membros de uma família, de um grupo concreto, ou de uma comunidade social e eclesial. É neste sentido que todos temos vocação, já que todos somos convidados a viver uma vida plena, onde quer que ela se realize.

Falar de “vocação”

Falar de “vocação” significa assim falar de busca e de procura, de tentar seguir e encontrar-se nos caminhos que levam a uma vida maior. No ser humano, a “vida plena” coincide, por paradoxal que pareça, com a “vida plena” das outras pessoas à sua volta: “o segredo da tua felicidade”, já apontava a fada num famoso conto infantil, “está em fazeres felizes as pessoas à tua volta!”. Esta é no fundo a experiência que todos temos, do “quanto mais (te) dás, mais rico ficas” (Madre Teresa de Calcutá), constatando aquilo que Jesus já dizia há 2 mil anos: “Que o maior de entre vós seja aquele que serve. E felizes sereis se o puserdes em prática!” Todos andamos a tentá-lo por muitas vias, quando a “fórmula da felicidade” acaba por ser bastante simples!

A vocação não é assim um privilégio ou uma característica só de alguns, mas uma interrogação de vida a ser respondida por todos. Interrogação que passa pela questão “Senhor, onde queres que eu Te sirva?”, que é outra forma de perguntar “Onde queres, Senhor, que eu ponha em acção a minha capacidade de amar, de forma a dar mais fruto, a transformar mais o mundo?”. Interrogação que envolve um discernimento às vezes prolongado, já que poucas vezes a resposta é logo evidente.

Uma entre várias possibilidades

O discernimento da vocação passa, em primeiro lugar, por um processo de “escuta” do que Deus vai propondo a cada um. Não há receitas à priori, nem fórmulas infalíveis para chegar à resposta. Não há uma “lista de requisitos” a cumprir, como se Deus só contasse com os super-dotados (dizia um jesuíta que “Deus não chama só os melhores; mas a todos os que respondem à chamada, torna-os melhores!”). A vocação não passa também pelo “sacrifício”, como se Deus só se alegrasse com o mais custoso. Nem pode ser fuga ou solução alternativa para algum tipo de frustração.

Discernir a vocação coloca-se, assim, sempre entre duas (ou mais) possibilidades, que em si mesmas são boas. Ser padre ou consagrado não é melhor do que ser casado ou solteiro. Como ser médico não é melhor do que ser engenheiro ou artista. E que a pessoa escolha uma destas possibilidades, não significa que viesse a ser infeliz na outra. A vocação é, escreve outro jesuíta, um “encontro de duas liberdades”: é convite de Deus a viver a vida como missão, numa forma concreta que é a que dá mais “frutos de Reino”; e é reconhecimento e aceitação por parte da pessoa, que assim se encontra e se realiza nesse projecto concreto de “bem maior”.

Confiar em Deus

Se o processo de discernimento é “escuta”, então torna-se essencial a confiança n’Aquele a quem escutamos, Deus e a sua vontade. Falar na “vontade de Deus” traz sempre o perigo de vê-la como predestinação ou imposição, um caminho a ser aceite com resignação ou por medo. Mas isso significaria imaginar Deus como um “tirano”, imagem afinal muito distante da do “Pai próximo” a que Jesus se referia constantemente: um Deus-Pai que nos quer dar “a vida em abundância”, com ânimo e alegria interior (por isso a palavra “entusiasmo” significa, na sua origem etimológica, “estar habitado por Deus”).

Também a fé, no sentido mais original hebraico, não é um conjunto de crenças ou de conhecimentos, mas é confiança, confiança na promessa de Deus. Deus não promete que a vida será sempre fácil, promete sim que sempre nos acompanha e anima, nas alegrias e nas dificuldades, sejam elas quais forem. Visto desta forma, o que se opõe à fé não é o ateísmo, mas o medo, o receio do que nos possa acontecer se Deus nos deixar sós. Mas “Deus é mais íntimo do que o nosso próprio íntimo” (Santo Agostinho), e foi essa confiança que permitiu a São Paulo escrever, a partir da sua experiência, que “nada nos separará do Amor de Deus”.

Crescer em liberdade

Tendo por base a confiança em Deus, o discernimento deve fazer-se com “liberdade interior”, pois só assim se pode estar realmente aberto às várias opções. O medo, como vimos, pode ser causa de falta de liberdade. Ou causa de falta de confiança em nós próprios (ou melhor, no facto de não acreditarmos que “se Deus chama, então Deus dá a graça para o que chama”). Ou mesmo causa de receio, no caso da consagração, de uma vida que se “perde” inutilmente, na qual se renuncia a coisas que em si mesmo são boas (uma família, uma carreira, um certo nível de conforto material). Mas, como é evidente, qualquer opção deve ser sempre tomada pela positiva e não centrada no que se fica a perder (p.e. quando alguém casa, não fica a pensar em todas as outras pessoas com quem deixa de poder casar).

Por outro lado, no caso do discernimento para a vida consagrada, acontece por vezes haver pessoas que estão tão “encantadas” com a possibilidade da entrega radical a Deus que, nesse caso, o “crescer em liberdade” pede que se encare com seriedade também a hipótese de vida laical. Inácio de Loyola ilustrava esta “condição inicial de liberdade” com a metáfora do fiel da balança, que deve estar exactamente a meio das duas opções.

Reconhecer os sinais

O processo de discernimento passa assim por aprender a reconhecer a “voz de Deus” dentro de nós. Tal não significa “escutar vozes” (como alguém brincava uma vez, se tal acontece então provavelmente essa pessoa não deve falar com um padre mas com um psiquiatra!), mas sim crescer no conhecimento dos “sinais de Deus” dentro de si. A estes sinais chamam-se “consolação” e “desolação”: a consolação traduz-se habitualmente por alegria e paz interiores (mesmo se implica consequências difíceis), e aponta o caminho a seguir, o caminho que deixa a pessoa “encontrada” e pacificada. A desolação, pelo contrário, costuma manifestar-se como inquietação e falta de paz consigo mesmo, e é sinal de que essa opção não é a melhor.

Foi através da sua própria experiência que Inácio chegou a reconhecer estes sinais de Deus em si: convalescente em Loyola e pensando nas duas possibilidades de futuro (entregar-se a Deus ou à vida de nobreza), Inácio acabava por se sentir pacificado e alegre com a primeira, e vazio e inquieto com a segunda. A partir desta experiência escreveria umas pequenas regras para “discernimento dos espíritos” (interiores), que são parte integrante dos Exercícios Espirituais.

Confrontar com alguém

Tal como explicado até aqui, o processo de discernimento não se aplica só às grandes opções de vida, mas faz sentido mesmo nas pequenas decisões e momentos da vida. Viver em “atitude de discernimento” é assim uma “arte” na qual todo o cristão pode e deve crescer, pois é ela que vai permitindo estar atento aos constantes desafios e “toques” de Deus através da realidade.

No entanto, é verdade que é especialmente nos momentos e períodos de decisão que esta “arte” deve ser exercida e exercitada. A isso ajuda o “exame de consciência” diário, a oração frequente, a prática dos Exercícios Espirituais. De grande ajuda costuma ser também o “acompanhamento espiritual”, possibilidade de ir contrastando, com alguém mais “experiente nas coisas de Deus”, os movimentos e inquietações interiores. O acompanhante não é alguém que toma as decisões “em vez de”, nem um simples “amigo próximo”, mas alguém que ajuda não só a libertar dos medos e preconceitos infundados, como a (re)conhecer e aprofundar a passagem da “presença de Deus” na vida da pessoa.

A “fidelidade no tempo”

É isto, em síntese, a vocação: caminho de bem entre outras possibilidades de bem, construído em diálogo com Deus e na confiança de que Ele está sempre presente e quer sempre o nosso bem. Confiança de que o que Deus nos pede é sempre caminho de paz, de alegria e de crescimento - para a própria pessoa, para os outros e em direcção a um mundo melhor.

“O amor”, dizia Bento XVI na sua recente passagem por Portugal, “é a fidelidade no tempo”. E há medida que na vida fazemos a experiência de outras “fidelidades” e outros sentidos (alicerçando a vida nos bens materiais, nas capacidades e êxitos próprios, ou até no reconhecimento dos outros), muitas vezes acabamos por perceber que algo falta, algo que intuímos que só Deus pode preencher. Nas palavras de Jesus, “o meu alimento é fazer a vontade do meu Pai”, a vontade expressa pelo “amai-vos como eu vos amei”. E é a fidelidade a essa vontade, ao final de cada dia, de cada mês e de uma vida inteira, que a vai enchendo de sentido.


sugestões da aprofundamento:

MONIQUE LORRAIN, Discernir - O que é que se Passa em Nós. A.O., 2008

VASCO PINTO DE MAGALHÃES SJ, Vocação e Vocações. A.O., 2005 (2ªEdição)

CARLOS VALLÉS, Saber escolher. Loyola, 1986

P. Filipe Martins sj
in.: essejota.net

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