4 de julho de 2011

Diálogos: dois físicos conversam sobre a fé

Quando o Bruno me telefonou há dias para saber se eu estaria interessado em entrar com ele numa conversa "online" sobre a Fé, não entendi imediatamente se era mesmo comigo que ele queria falar. No que se refere à formação académica temos percursos muito semelhantes. Somos ambos graduados e doutorados em Física. Mas no que se refere à fé temos posições muitíssimo distintas. Sendo ele um cristão católico e membro da Companhia de Jesus, eu costumo assumir-me, sem mais explicações por agora, como um convicto ateu. E, devido a esta disparidade, pensei à partida que eu não poderia ser uma boa escolha para estes "Diálogos sobre a Fé".

Todavia, depois de o questionar um pouco mais sobre o seu pedido, lembrei-me dos nossos longos e saborosos serões em Braga, quando o visitei por algumas vezes, a ele, ao Andreas, ao Martins e a todos os irmãos que então moravam na Comunidade Arrupe. Foram serões preenchidos por conversas muitas vezes relacionadas com a Fé. E mesmo quando no final não convergíamos numa opinião comum, saímos sempre um pouco mais enriquecidos. Tanto um, como o outro. De certa forma os "Diálogos sobre a Fé" entre nós dois iniciaram-se durante esses serões, e o pedido do Bruno visava agora transportá-los para uma audiência mais abrangente. Pedido este que aceitei com muito prazer, esperando estar à altura do que me é pedido.


DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ:


Caro Bruno,


Como (re)começar estes diálogos contigo? Mesmo sem saber exactamente que tópicos iremos abordar, início com uma pergunta porventura colocada por muitos dos possíveis leitores dos parágrafos acima: tu és Físico, formado em Engenharia Física no IST, e em simultâneo assumes-te como crente e estás em formação para o sacerdócio na Companhia de Jesus. É muito comum, e provavelmente será o caso de vários leitores, olhar a Ciência como uma actividade em oposição à Religião (ou vice-versa). Vários episódios da História da humanidade podem ilustrar esta perspectiva e nos nossos dias vemos mesmo campanhas que confrontam abertamente uma perspectiva científica - e.g. Teoria da Evolução de Darwin - com a perspectiva religiosa - e.g. Teoria Criacionista. Pode, apesar disso, ser possível uma co-existência não contraditória entre Ciência e Religião?

Um abraço,

Pedro Lind

Caro Pedro,

Também eu recordo como muito saborosos os nossos serões de Braga. É sempre um privilégio poder conversar de forma tão serena e construtiva com alguém que, em matéria de fé religiosa, assume posições realmente distantes da minha. A nossa experiência poderia ser, aliás, uma primeira resposta à tua questão: a meu ver o diálogo entre fé e ciência é possível, e até mutuamente enriquecedor, se existir, à partida, uma verdadeira disposição de escuta e disponibilidade para me deixar interpelar pelo que o outro diz. Pelo contrário, se mesmo antes de escutar já decidi que a sua posição é desrazoável, então o diálogo torna-se impossível e os interlocutores ficam cada vez mais encerrados nas suas teimosas posições.

Dado o meu percurso de vida, consigo colocar-me facilmente no lugar dos muitos cientistas que actualmente, e ao longo da história, afirmam a incompatibilidade entre a prática da ciência e a adesão a um credo religioso. Eu próprio, durante os primeiros anos de encontro com as ciências naturais, experimentei esta tensão, a ponto de concluir que tinha de abandonar a fé católica em que tinha sido educado por uma questão de coerência.

Mas deixa-me tentar, então, uma resposta à tua interessante questão. A grande queixa de muitos cientistas ateus em relação à fé religiosa prende-se, parece-me, com o facto de esta não respeitar os critérios e os métodos da ciência. Dado não existirem provas cientificamente válidas capazes de sustentar os conteúdos centrais dos diversos credos religiosos, estes são considerados irracionais, devendo, por conseguinte, ser rejeitados por quem tenha uma formação cientificamente mínima. Ora, esta postura tem, a meu ver, o grave inconveniente de menosprezar, como racionalmente inferiores, vastos âmbitos da experiência humana.

Limitar a nossa relação com a realidade a este tipo de abordagem, a meu ver reducionista, é uma atitude empobrecedora sobretudo por dois motivos. Em primeiro lugar, a ciência é útil justamente porque opera sobre simplificações e idealizações da realidade. Não admira, por isso, que as malhas da sua rede sejam sempre demasiado estreitas para captar o real em toda a sua subtileza. É por esta razão que um modelo científico, inevitavelmente construído a partir de leis que desprezam as notas de individualidade, resulta sempre frio, mecânico, numa palavra, pouco real. Ora, o espírito religioso, tal como o do artista, por exemplo, maravilha-se com o facto de existirem leis, as quais reflectem a ordem e organização do mundo em que vivemos, mas não dispensa o particular, ou seja, debruça-se sobre o real e não sobre uma mera teorização. E é por entre as dobras do real que podemos encontra Deus, nunca em abstracções que sempre desvitalizam a realidade.

Em segundo lugar, a ciência tende a ignorar (em grande medida porque não é da sua competência) as questões que saem do âmbito da causalidade eficiente. Só por si, a ciência não tem a capacidade de atribuir significação aos fenómenos, tal como não é capaz de descortinar uma finalidade ou de fazer uma valoração moral ou estética. Como afirmou o físico austríaco Schrödinger, “a imagem científica do mundo é muito deficiente. Proporciona uma grande quantidade de informação sobre factos, reduz toda a experiência a uma ordem maravilhosamente consistente, mas guarda um silêncio sepulcral sobre tudo o que realmente nos importa. Não é capaz de dizer-nos uma palavra sobre o que significa o vermelho ou o azul (…), não sabe nada do belo e do feio, do bom e do mau, de Deus e da eternidade.” A ciência oferece-nos, pois, um precioso mapa da realidade, mas não é o único. E se insistirmos em nos guiarmos apenas por ele, acabamos por ignorar outras dimensões que este é incapaz de captar.

Claro que o facto de se admitir (é este o teu caso, parece-me) que existem, para além da ciência, outras formas legítimas de abordar a realidade, não é suficiente para tirar conclusões acerca da validade da abordagem religiosa. Parece-me, contudo, que é um bom ponto de partida. Tudo o que até agora escrevi seria apenas uma espécie de propedêutica para o debate. Precisaria, agora, de iniciar um longo percurso com vista a deixar patente a razoabilidade da fé cristã. Sim, porque o cristianismo não é irracional, nem fere a razão. Além disso, a nossa vida, e mesmo a prática da ciência, não dispensa, a meu ver, algum tipo de fé. E a fé cristã parece-me, apesar de tudo, aquela que oferece ao homem os horizontes mais vastos.


Antes de terminar tenho que te deixar uma pergunta. Aqui fica. Acabei de dizer que, na minha opinião, mesmo as pessoas que não são crentes fazem assentar a sua vida num certo tipo de crenças mais ou menos tácitas. Pergunto-te, pois, quais são, para ti, ateu assumido, os inegociáveis da vida, as crenças que se revestem de um carácter absoluto e que servem de instâncias dadoras de sentido, os fundamentos do agir moral.


Um abraço,

Bruno



Pedro G. Lind | Bruno Nobre
15.04.2011



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