5 de julho de 2011

DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ (2)


Caro Bruno,

Penso que, na nossa primeira ronda de cartas, tocámos já nas duas grandes questões de fundo entre um crente e um ateu hodiernos. Ao crente questiona-se a co-existência da explicação racionalista e/ou científica de fenómenos com o conjunto de crenças que, precisamente por serem crenças, são tomadas como impassíveis à abordagem racionalista. Ao ateu geralmente questionamos a possibilidade de aplicar uma abordagem racionalista a toda a realidade circundante. Penso que a tua pergunta procura ir nesta direcção: será possível aos ateus viverem completamente desprovidos de crenças? A minha resposta curta é “não!”.

A resposta longa divido-a em duas partes.

Na primeira parte, teço alguns comentários à tua última carta. Concordo contigo: a ciência não pode – nem pretende! - explicar toda a realidade, focando-se principalmente nos fenómenos associados a causas eficientes. De outra forma, a ciência ocupa-se do “Como?”, mas não do “Porquê?” e muito menos do “O quê?” ou do “Para quê?”. Deixo aos leitores das nossas cartas a tarefa de estabelecer correspondência entre cada uma das perguntas acima e as várias actividades humanas. Consequentemente, a ciência não consegue abordar situações que se prendem com juízos de valor, critérios ético-morais, ou estéticas.

Todavia, no seu campo de acção, a ciência tem uma característica muito particular: torna-se – pelo menos em grande medida – independente do sujeito. À partida, eu posso explicar as leis de Newton a qualquer ser humano, não precisando em momento algum que ele acredite em algo que não no seu entendimento lógico e no seu próprio discernimento. O encadear de experiências e situações que lhe apresento são suficientes para que ele, somente ouvindo a minha explicação, conclua que as leis de Newton explicam os fenómenos mecânicos do nosso dia-a-dia. Neste sentido, penso que a pergunta que te lancei não ficou completamente respondida.

Se aceitares um conjunto de crenças e perspectivas estruturantes da forma como avalias e te posicionas no Mundo, como resolves as contradições que surgem em histórias, paralelamente associadas ao conjunto das crenças que assumes? Em concreto, acreditas por exemplo que Jesus Cristo curou um cego, fazendo com que a partir do momento da sua acção, o cego visse como qualquer pessoa sã? Ou és da opinião, mais próxima da minha, que algo menos sobrenatural deverá ter acontecido nesse dia entre Jesus, o cego e todas as pessoas que testemunharam aquele momento?

Com esta minha primeira pergunta retorno à tua pergunta inicial: Quais são as minhas as crenças, concepções e perspectivas da realidade com carácter absoluto? E aqui entramos na segunda parte da minha resposta que se prende com a questão do absoluto.

Sendo a religião um motor importante no alicerçar e na estruturação dos critérios ético-morais de uma sociedade e de um indivíduo, o ateu precisa justificar a forma alternativa de alcançar tais critérios. Para o ateu uma perspectiva absoluta não existe. Tu assumes a existência de uma entidade absoluta à qual atribuis o fundamento das tuas acções e decisões. Eu assumo que tal entidade não existe. Estarei, então, impossibilitado de dar sentido às minhas acções e de seguir um critério ético-moral? Creio que não.

É um facto incontornável que todos os Homens agem segundo critérios ético-morais. Aqueles que são crentes e, por isso, assumem a existência de uma entidade absoluta, perspectivam e reflectem sobre a realidade, impondo-se descobrir quais os critérios e juízos que fundamentam as suas acções. Eles assumem que estes critérios e juízos já existem, independentemente deles próprios.

Os ateus assumem não existir qualquer entidade absoluta. Consequentemente assumem que não existem critérios absolutos. Não havendo critérios por descobrir e precisando deles, o ateu inventa-os, constrói-os. Obviamente que não o faz isoladamente do meio que o engloba. Os critérios ético-morais de cada indivíduo precisam ser coerentemente alicerçados na realidade social e histórica em que vive e se situa.

Os meus critérios, por exemplo, são em grande medida semelhantes aos teus - a importância da vida, a importância do indivíduo, a impossibilidade de permissão de matar o meu semelhante - porque vivemos no mesmo contexto social, cultural e histórico. Mas nota que nenhuma destas coisas é absoluta e que o seu fundamento não está obrigatoriamente em Deus. Não são “inegociáveis” transversais a todas as culturas, nem a todos os períodos da História, nem em todos os contextos sociais.

Não posso despedir-me sem antes lançar-te uma nova questão. Sendo o crente aquele que assume a existência de um absoluto, e existindo vários conjuntos de crenças, não será a perspectiva do absoluto promotora de um maior confronto e intolerância entre as várias possíveis perspectivas do Mundo e entre os Homens? Não será a crença no absoluto um obstáculo para o acolhimento saudável e humano do próximo? Impondo a existência do absoluto, não existirá o perigo da religião em geral e da Igreja Católica em particular, promover – mesmo que não intencionalmente - a intolerância na criterização da Verdade, como tantas vezes aconteceu ao longo da história entre duas religiões cujas tensões desembocaram em guerras sangrentas?

Um abraço,

Pedro


Pedro G. Lind | Bruno Nobre
01.05.2011