6 de julho de 2011

DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ (3)

Caro Pedro,

Muito obrigado pela tua resposta e pelas estimulantes questões que levantas. A tua última carta tem o grande mérito de expressar de forma clara e sucinta alguns dos traços mais característicos da mentalidade contemporânea – a aceitação descontraída de uma contingência radical, a convicção de que os critérios de verdade, morais e estéticos são construções humanas ligadas a determinadas culturas e, ainda, uma extrema valorização da tolerância.




Temos agora bem delineados, parece-me, dois posicionamentos distintos no que diz respeito à problemática moral: existem ou não critérios de bem exteriores ao homem? Acho que não é possível argumentar de forma conclusiva. São duas narrativas possíveis e razoáveis acerca do existir humano. Podemos discutir, contudo, as consequências práticas de cada uma. O posicionamento segundo o qual a verdade e o bem são, afinal, uma construção tem, a meu ver, graves inconvenientes, aos quais não é alheia, parece-me, a autêntica crise civilizacional que o Ocidente atravessa. Poderia discutir, e talvez o possamos fazer mais tarde, as questões relacionadas com o relativismo, o perspectivismo e mesmo com o individualismo. Fico-me, contudo, pela questão da tolerância, uma vez que foi uma problemática que levantaste na tua última carta.
Alinhando com um traço característico da mentalidade hodierna, atribuis à tolerância, parece-me, um carácter (quase) absoluto. Tudo se pode fazer desde que a integridade e a liberdade do outro não sejam postas em causa. Ora, na minha opinião, uma tolerância construída sobre a contingência está à partida condenada ao fracasso. Viver pelos mínimos da tolerância conduz ao enfraquecimento de qualquer projecto comum – toleramo-nos, mas não procuramos caminhar juntos numa mesma direcção. E se não existem critérios absolutos, quem determina até onde podem ir as liberdades individuais? Não ficaremos, no fundo, entregues à lei do mais forte? Por detrás da obsessão contemporânea em relação à tolerância esconde-se, a meu ver, o que Nietzsche chamaria “vontade de poder”. Não se trata, sequer, de respeitar o outro, mas sobretudo de reivindicar a autonomia individual.
Parece-me, caro Pedro, que a demolição do absoluto e a deflação da verdade não é, por si só, garante da tolerância. Aliás, a convicção de que a verdade existe e a tentativa de a procurar não tem por que conduzir à intolerância. Este perigo existe, efectivamente, quando se elevam à categoria de absoluto realidades despersonalizadas que acabam por esmagar a pessoa humana – aconteceu assim com as ditaduras de esquerda e de direita do século passado e acontece, ainda hoje, quando por exemplo um neoliberalismo desregulado acaba por tomar conta de todos os âmbitos da vida em sociedade – mas não é uma fatalidade, antes pelo contrário, para o cristianismo. De acordo com o credo cristão, os seres humanos mais do que tolerar-se são chamados à comunhão entre si e com Deus. É verdade que ao longo da história os cristãos nem sempre actuaram de acordo com esta verdade. Mas se isto aconteceu com uma instituição que tem no Amor a sua verdade absoluta, que poderá acontecer com uma sociedade que não consegue ir mais além da tolerância?
A defesa da inexistência de critérios absolutos é pois, a meu ver, insustentável e mina qualquer progresso tanto no plano do conhecimento como no plano da moral. Surgem, com efeito, diversas aporias difíceis de resolver e que são, no fundo, as mesmas que atormentam, inevitavelmente, o céptico. A este respeito deixo-te, pois, a seguinte questão: como pode uma moral que apenas é construção humana mostrar que a tolerância é melhor que a intolerância?

Como resolvo, voltas a perguntar, as contradições que existem entre os resultados da ciência e os conteúdos de determinado credo religioso? Fé e ciência, repito, não têm por que estar em contradição. Como tem defendido incansavelmente o Papa Bento XVI, o recto uso da razão não constitui em caso algum uma ameaça à fé religiosa. O Deus cristão é a origem da inteligência e da inteligibilidade e por isso o uso da inteligência não pode afastar d’Ele. O cerne desta questão está, parece-me, na delimitação cuidadosa (que já referi na primeira carta) dos âmbitos da ciência e da fé. No caso concreto, como aquele que referes, de um milagre de Jesus, julgo que não existe qualquer tipo de contradição. Perante um facto extraordinário como a cura de um cego (ou de uma doença rara, por exemplo), a única coisa que a ciência pode afirmar, se não quer ir mais além das suas competências próprias, é a impossibilidade (ou não) de encontrar uma explicação no contexto das teorias científicas vigentes. Tanto a convicção, legítima, de que existirá uma extensão da teoria científica que virá a explicar a cura, como a atribuição do facto a uma intervenção extraordinária de Deus configuram já uma opção de carácter metafísico que sai do âmbito estritamente científico
Já que levantaste a questão dos milagres de Jesus, não posso deixar de fazer um brevíssimo apontamento sobre esta temática. Em primeiro lugar, importa ter bem presente que a narração dos milagres de Jesus tem, num primeiro plano, um significado teológico que vai mais além de uma mera suspensão temporária das leis da Natureza. Não me parece lícita, contudo, uma completa espiritualização dos milagres de Jesus. É que a própria cura física tem um importante significado teológico – é sinal da presença antecipada dos “novos céus e na nova terra”. Com efeito, para os cristãos o Universo foi criado por Deus para a comunhão com Ele, e quando isto acontecer o sofrimento e a morte perderão o seu poder. Ora, por onde passava, Jesus como que antecipava esta transfiguração do Universo, deixando atrás de si um rasto de cura (e não apenas moral ou espiritual), consolação e esperança. E não se trata tanto, a meu ver, da mera suspensão das leis da natureza, mas da sua completude ou actualização da sua máxima potencialidade.

Termino com mais uma questão. Esboçaste, na tua última carta, uma perspectiva segundo a qual o ser humano é um artista capaz, até, de criar os padrões que orientam o seu agir. Mas quem criou o homem, então? Donde nasceu esta capacidade de inventar? Terá brotado de um substrato impessoal e desprovido de vontade.

Pedro G. Lind | Bruno Nobre
15.05.2011