7 de julho de 2011

DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ (4)

Caro Bruno,

Estamos a entrar em campos cada vez mais interessantes! Gostei muito da tua última carta.

anish kapoor, Ascension-(Red)Indo directamente aos dois tópicos que parece estarem a surgir em paralelo, começo pelo que referes no final da tua última carta: os milagres. Parece-me que colocas a possibilidade de uma intervenção metafísica capaz de alterar o comportamento físico do universo ou de parte dele, e.g. o cego no exemplo que te coloquei. Este é o ponto que me parece estar em contradição com a posição científica, precisamente porque coloca dois princípios em confronto. Por um lado, a possibilidade de um milagre, i.e. a possibilidade de - por intervenção divina - alterarem-se temporariamente as leis da natureza, e por outro o princípio de que a realidade física é composta por uma sucessão de fenómenos governados por leis imutáveis, ou, se mutáveis, então mutáveis não arbitrariamente.

Uma vez que ambas as justificações e dúvidas a este respeito estão já suficientemente expostas, deixo ao leitor a sua conclusão sobre este assunto e proponho debruçar-me no segundo tópico que me parece mais interessante: existem ou não critérios de bem absolutos, exteriores ao homem?

A minha resposta é negativa. Não existem critérios absolutos de qualquer natureza. E em relação aos critérios de bem propriamente ditos deixo os inúmeros exemplos de como eles mudaram ao longo dos tempos e através das culturas e das necessidades contextuais da sociedade. Um exemplo é focado implicitamente pelas tuas linhas: a “extrema valorização da tolerância” e das liberdades individuais são de facto pilares dos actuais critérios de bem. Não era assim no passado, e provavelmente deixará de novo de ser assim algures no futuro. Aqui, emerge a questão sobre a causa destes actuais critérios de bem e não de outros. Uma questão talvez para outra carta.

Sendo negativa a resposta à primeira pergunta põe-se então a outra pergunta da tua última carta: Como pode a tolerância ser dada como melhor que o seu oposto, sem recurso ao absoluto?

Andy Warhol, 1962Em primeiro lugar, acho importante salientar, que tendo por certo que não existem critérios de bem absolutos isso não significa que abdique de critérios de bem próprios. Tenho os meus critérios de bem, aliás próximos de todos aqueles que se incluam no mesmo contexto socio-cultural, como é por exemplo o teu caso. Numa primeira leitura da tua pergunta nota-se a colocação implícita de um juízo de valor onde a tolerância é dada como melhor que a intolerância. E isto de uma forma abstracta. Existe uma carga conotativa positiva no nosso conceito de tolerância. A cultura ocidental atribui essa carga positiva. Mas, em absoluto, essa carga não existe.

Não atribuo portanto, ao contrário do que afirmas, um carácter absoluto à tolerância. A pergunta da minha carta (3) pretendia confrontar o objectivo de defender a tolerância por parte de uma posição religiosa com a perspectiva da existência do absoluto; confrontando estas duas realidades da posição da Igreja, torna-se possível originar desentendimento com aqueles que têm uma perspectiva diferente.

Mas entremos na última etapa desta carta: tendo eu a perspectiva de que a tolerância é melhor que o seu oposto, como pode isto ser justificável sem recurso ao absoluto. A resposta para um ateu terá de residir na assumpção de um mecanismo que torne a tolerância um comportamento emergentre face a outro tipo de comportamentos. Um pouco na linha da selecção natural.

Não existe uma única forma de bem agir. E mesmo que sejamos tolerantes não há uma única forma de sermos tolerantes. Há somente o contrário: formas de mal agir e formas de não sermos tolerantes ou de não sermos qualquer outra característica passível do comportamento humano. Dentro da possibilidade do bem agir, está um rol – diversificado – de comportamentos possíveis. E uma comunidade onde os indivíduos têm esses comportamentos é uma comunidade sustentável, enquanto que uma comunidade permissiva em matar o próximo – i.e. alguém dentro da comunidade - é uma comunidade condenada à extinção.

Penso que desta forma te justifico a possibilidade de, sem critérios absolutos, existirem conjuntos de comportamentos mais universalmente aceites como bons comportamentos do que outros. Esta realidade levada ao contexto e caso particular de uma comunidade ou sociedade ocidental numa determinada época histórica está na origem dos princípios éticos e dos princípios morais vigentes.

Esta perspectiva penso que também vai ao encontro da resposta às últimas questões da tua carta anterior: quem criou o homem, então? Ninguém. O Homem surgiu e desenvolveu-se no encadear de um processo regido pelos mesmos princípios de selecção que aqueles descritos acima. Para responder à questão sobre a nossa “capacidade de inventar”: sendo inventivos estamos mais bem preparados para as alterações no nosso ambiente exterior. O processo de evolução que atravessámos tornou-nos a nós e às espécies vivas hoje, mais inventivos que os nossos antepassados. Isso não significa obviamente que sejamos um fim na história da evolução. Não somos. Caso contrário, seriamos um fim absoluto. A nossa espécie extinguir-se-á um dia, e daremos lugar a novas espécies, mais bem adaptadas na sua forma – e atitudes! - aos novos ambientes e contextos que terão lugar. Neste contexto lanço-te a minha pergunta: achas esta uma perspectiva pessimista?

Um abraço,

Pedro


Pedro G. Lind | Bruno Nobre
01.06.2011

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