8 de julho de 2011

DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ (6)

(por lapso, ao texto 4, segue-se o 6)

Caro Pedro,
Obrigado pela tua resposta clara e directa. Estou de acordo que a nossa conversa se vai tornando cada vez mais interessante.
Na tua última carta apontas a diversidade e carácter evolutivo dos padrões morais como uma evidência de que não existem critérios morais com carácter absoluto. Embora compreendendo o teu argumento não estou de acordo. A diversidade e o devir são inerentes não só a todas as dimensões da cultura humana, mas também aos próprios fenómenos naturais. Ora, um dos grandes desafios que se coloca ao desejo de compreensão do ser humano consiste em saber se, subjacentes à diversidade e ao devir existem, ou não, princípios explicativos estáveis e universais. Trata-se, no fundo, do problema do uno e do múltiplo, o qual atravessa toda a história do pensamento ocidental.
O facto de existirem, em cada sociedade e ao longo da história, diferentes padrões morais não implica necessariamente, parece-me, a inexistência de critérios morais com carácter universal, nem que o progresso ao nível da moralidade seja uma quimera. Diria, antes, que cada sistema moral é, de algum modo, o reflexo de princípios universais e absolutos que não foram ainda completamente desvelados. Neste sentido, não existem códigos morais completamente desadequados, mas todos eles expressariam a seu modo uma escala de bem que os transcende.
Tu próprio, aliás, admites que um mesmo princípio subjaz aos distintos sistemas morais que as diferentes sociedades foram elaborando. Alinhando com as abordagens naturalistas da moral, as quais têm nos modelos da sociobiologia a sua mais recente evolução, defendes que o aparecimento e sustentabilidade dos diferentes códigos morais têm a sua origem nas vantagens adaptativas que conferem às sociedades nas quais têm a sua origem. Trata-se, no fundo, de uma questão de sobrevivência. Os códigos morais que contribuem para a sobrevivência de uma sociedade acabam por subsistir.
Apesar de mais vulnerável do que parece (viria a propósito analisar com algum detalhe a chamada falácia naturalista), esta abordagem tem certamente algo de verdade – além disso, reconhecer que existe no universo um princípio de persistência na vida é, de algum modo, uma ponte para a perspectiva cristã. Trata-se, contudo, de uma visão a meu ver incompleta e por isso mesmo empobrecedora. Mais, a transposição de um princípio da biologia – como é o da selecção natural – para o plano da cultura humana não tem, na minha opinião, suficiente sustentação científica, aproximando-se mais de uma opção de carácter ideológico.
É aqui, aliás, que radica a nossa divergência de fundo. Para o cristianismo (como para a tradição judaico-cristã em geral) o princípio que subjaz à moral não é a mera sobrevivência, mas sim a aquisição de uma vida abundante e plena (que poderíamos de algum modo identificar com a eudaimonia de Aristóteles), da qual é mais alta expressão o amor verdadeiro entre os seres humanos. Neste sentido, uma acção é moralmente boa quando aumenta no seu agente esta vida plena.
Outra diferença importante em relação à posição que defendeste na tua última carta prende-se com as origens do ser humano. Para o cristianismo o homem tem a sua origem na Vida (ou seja, Deus) e é na Vida, e não no nada, que está o seu fim. A ideia de que o homem surgiu mediante a selecção natural e um dia desaparecerá tem a virtude de sublinhar a incontornável contingência do ser humano – o homem não pode por si só manter-se na vida – , mas mostra-se incapaz de reconhecer a Vida que lhe deu origem, que permanentemente o sustenta e que constitui o seu fim.
Estamos, pois, diante de duas concepções consideravelmente distintas do ser humano. Segundo a posição que defendes, o ser humano, que surgiu fortuitamente a partir do mecanismo de selecção natural, não ocupa nenhum lugar privilegiado no cosmos e está condenado à extinção. Para a tradição cristã, pelo contrário, o ser humano tem a sua origem na Vida que Deus é e o seu fim é a comunhão plena com esta Vida. Não é um mero acidente, mas o cume da ordem criada. Como afirma Teilhard de Chardin, o homem não é o centro do Universo, mas o vector do Universo. A tomada de posição em favor de uma destas narrativas acerca do ser humano não se pode fazer de forma estritamente racional. Trata-se, no fundo de uma opção teológica. Poderíamos tentar perceber, no entanto, as consequências de cada uma delas, consideração que me conduz à tua questão.
Perguntas-me se a concepção do ser humano que apresentaste me parece pessimista. A meu ver sim. Aliás, se levada às suas últimas consequências parece-me até absurda. Qual é, afinal, o sentido de todo o esforço humano se, à partida, ele está condenado ao fracasso? A vida na contingência total é sufocante. Na verdade, mesmo quando dizemos que não existem absolutos acabamos por viver como se eles existissem, e para os encontrar bastaria perguntarmo-nos por aquilo que é capaz de nos mobilizar no mais profundo de nós mesmos.
Por outro lado, a naturalização do ser humano conduz inevitavelmente à deflação da sua dignidade. O que somos é determinado pela nossa origem e pelo nosso fim. Se somos o produto de leis naturais cegas e estamos condenados ao fracasso (ou a uma sobrevivência quando muito casual) então todas as dimensões especificamente humanas mais não são do que epifenómenos. E a moral mais não é do que um manual de sobrevivência que trazemos incorporado. Realmente, se Deus deixa de ser a origem e o fim do ser humano, a sua dignidade perde o seu mais firme suporte, e a mais dramática consequência acaba por ser a eliminação daqueles que são mais frágeis. Como afirma o jesuíta francês Henri de Lubac, “a morte de Deus é a morte do homem”.
Ao terminar queria devolver-te a questão que colocaste. Não te parece que a visão do Universo que defendes é pessimista, além de por em causa a dignidade do ser humano? Não te parece que a visão cristã confere maior inteligibilidade ao universo e à vida que a visão ateía?


Pedro G. Lind | Bruno Nobre
15.06.2011