9 de julho de 2011

DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ (7)

Caro Bruno,

Obrigado pela resposta. Há medida que as nossas cartas se sucedem, avolumam-se as questões que gostava de tratar individualmente. Contudo, como temos de seguir uma linha, vou cingir-me às questões que levantas explicitamente, não sem antes abordar alguns dos teus parágrafos na última carta.


Começaste por abordar de novo a grande questão da existência de princípios universais. Apresentaste, e com razão, o argumento de que os vários, diferentes, sistemas morais, podem ser diferentes vertentes reflectindo os “mesmos princípios universais e absolutos que não foram ainda completamente desvelados”. O itálico da minha autoria, mostra que implicitamente assumes a existência de tais princípios universais, como já o afirmaste. Todavia, a existência de sistemas morais diversos é um facto. A existência de princípios absolutos subjacentes é uma assumpção. E se pretendermos provar essa assumpção verdadeira ou falsa, deveremos primeiro partir da existência dos vários sistemas morais espalhados pela história e pela geografia. Somente depois, e se se provar a existência de tais princípios absolutos, se poderá colocar a questão da inteligibilidade de tais princípios, onde o teu “ainda” fará sentido. Antes disso, deveremos deixar a questão da existência do absoluto, pelo menos, em aberto.


Abordas depois que “reconhecer que existe no universo um princípio de persistência na vida é, de algum modo, uma ponte para a perspectiva cristã”. Entendo onde queres chegar, mas somente se implicitamente assumires algo – fora do que expus – de que a existência de um princípio, como este de “persistência”, tem subjacente uma razão funcional. De novo, assumes o absoluto aqui. Na minha perspectiva, nada à partida na Vida precisa de uma razão funcional para a vida existir e desenvolver-se tal como acontece.



Nota que se estou a usar o conceito científico de selecção natural como ilustração para explicitar como pode um sistema moral emergir sem princípios morais universais, isto não significa que necessite de uma “sustentação científica” como afirmas na tua última carta. Estamos a tratar de temas fora do âmbito científico. Penso que nisto estamos de acordo. A argumentação e contra-argumentação da existência de absoluto, no contexto presente pelo menos, não carece de sustentação científica. Concordo contigo que a minha visão ou perspectiva é “incompleta”, tal como o é a perspectiva religiosa. Não acho contudo que “por isso mesmo” seja “empobrecedora”. A visão científica do Mundo é incompleta. A visão religiosa também. Nem uma, nem outra são contudo pobres, parece-me.


Na tua carta ainda mencionas que “o princípio que subjaz à moral não é a mera sobrevivência, mas sim a aquisição de uma vida abundante e plena”. Penso que não te referes tanto a princípio mas sim à finalidade ou função da moral. Aqui reside o problema que in praxis ocorre frequentemente: sendo “uma vida plena” algo difícil de ser definido unanimamente por toda a humanidade – ao contrário da “mera sobrevivência” – torna-se necessário pré-definir quem ou o quê determinará quando é a vida de um indivíduo plena e quando não é. Deverá ser o próprio individuo a determinar da plenitude da sua vida? Se não for, quem será? Se diferentes grupos atribuírem autoridade a diferentes perspectivas, não estará isto na origem dos conflitos que já referi entre as várias perspectivas religiosas na procura de imporem a sua “definição” de absoluto, no caso concreto a sua definição de vida plena?


A tua resposta à minha pergunta é afirmativa: achas pessimista a concepção do ser humano ocupar um lugar não privilegiado e de não ser o fim último da história do Universo. E talvez a razão de achares tal concepção pessimista reside substancialmente na questão que levantas a seguir: “qual é, afinal, o sentido de todo o esforço humano se, à partida, ele está condenado ao fracasso?”


O início da minha resposta começa com questões: porque usas o termo “fracasso”? Porque impões à partida que a extinção eventual da nossa espécie implica uma existência fracassada? Sabendo eu, com certeza, que um dia morrerei, implica isto que tudo na minha existência pessoal será em vão e que terá sido uma existência fracassada? Precisarei de uma garantia de eternidade, enquanto individuo, para que a minha vida aqui e agora faça sentido? Penso que não.


E com isto inicio o término desta carta respondendo à tua questão: “Não te parece que a visão do Universo que defendes é pessimista, além de pôr em causa a dignidade do ser humano?” De forma nenhuma. O facto de não assumir o sentido da minha vida como reflexo de um sentido absoluto da existência não significa que o sentido que a minha vida e a dos outros tem para mim diminua a minha dignidade perante mim, perante os outros e perante o Universo. Nem sequer diminui a minha capacidade de contemplação do mundo à minha volta. Capacidade que vejo como resultado dos milhões de anos de evolução daqueles que me antecederam e que a mim, e a nós todos deram lugar. Lugar que nós daremos aos próximos que por aqui passarão. Cada teve, tem e terá as suas próprias razões de aplicar o princípio da persistência na Vida (ou não!). Se não o aplicar não haverá a sua continuidade. Se o aplicar, provavelmente algo ou alguém lhes sucederá.


Continuar não tem em si uma razão absoluta ou universal. Mas tem muitas razões, uma para cada um daqueles que já existem. Isto porque, independentemente da existência ou não de absoluto, tudo o que eu sou e faço intersecta e implica o acto de existir ou fazer existir. Tenho por isso somente razões para que, mesmo sendo ateu e sem assumir o absoluto, conferir também “inteligibilidade ao universo e à vida”, tal como fazem aqueles que perspectivam o universo e a vida assumindo a existência do absoluto em todas as suas dimensões.


Penso até, que a minha perspectiva se torna mais globalizante que a tua, uma vez que não se incompatibiliza com a tua. Em vez disso incorpora-a, tomando-a como um resultado da tua forma de estruturares a realidade na qual te situas. De outra forma: apesar de termos perspectivas muito diferentes, temos perspectivas compatíveis. Caso contrário não estariamos a dialogar sobre a fé desta forma. Concordas?

Um abraço,


Pedro