31 de julho de 2011

Inácio

Inácio de Loiola – O contexto familiar e pessoal

Quando em 1491, no País Basco, nasce o décimo terceiro e último filho dos Senhores de Loiola, Iñigo, nada fazia prever que iria ser santo e que, apesar da sua pequena estatura física, viria a ser uma das maiores figuras da história da Igreja e até da humanidade…

Inácio – assim se passou, mais tarde, a chamar a si próprio, por devoção ao grande Inácio de Antioquia e por ser um «nome» mais universal – enraizado no seu tempo e no seu meio, brota de uma família nobre, valente e por vezes violenta, localmente poderosa mas com ligações importantes de parentesco e amizade com os grandes do mundo do seu tempo. Experiência de contacto e de relação que mais tarde, embora não já com objectivos de carreira e de «poder», virá também a ser preciosa…
Dizia alguém, a propósito dos nobres do «século do oiro» espanhol: «homens com uma fé de apóstolos e os sete pecados capitais»… Era o caso de Inácio de Loiola, já então com uma fé inabalável, como mostram as circunstâncias do cerco de Pamplona, perigo de morte e convalescença na casa paterna, mas orientado pelos interesses e valores de um nobre cavaleiro do final da Idade Média, que ressoam fortemente na parábola do Rei Temporal dos Exercícios Espirituais: lealdade, fidelidade, honra, grandes ideais, coragem até ao fim…
O resto, como ele próprio dita ao seu secretário P. L. Gonçalves da Câmara, «até aos 26 anos de idade, foi homem dado às vaidades do mundo e principalmente deleitava-se no exercício de armas com um grande e vão desejo de ganhar honra».
Tudo isto, primeiro em Loiola e arredores, mas sobretudo em Arévalo, ao serviço de Juan Velásquez de Cuéllar, Contador-mor (Ministro das Finanças) de Castela e membro do Conselho Real de Fernando, o Católico. Mais tarde, serve o seu parente António Manrique de Lara, duque de Nájera e Vice-Rei de Navarra.
Foram pelo menos 11-13 anos de educação informal, de contactos, de aventuras, conflitos e mulheres, de corte... Como dizia o P. Polanco, seu confidente, «embora fosse aficionado à fé, não vivia nada conforme a ela, nem se guardava de pecados, antes era especialmente travesso em jogos e em coisas de mulheres e em revoltas e coisas de armas».
Era este o nosso homem, baixo, corajoso, bom negociador, activo e simultaneamente reflexivo, cheio de pecados, desejos e sonhos que vai «aterrar» no cerco de Pamplona.
Em 1521, dá-se o «feliz desastre» de Pamplona: a sua coragem e determinação, a sua capacidade de liderança não são suficientes para salvar a praça de Pamplona, sitiada pelos atacantes, entre os quais estavam presentes os irmãos de Francisco de Xavier…
Derrota, graves ferimentos físicos, uma das pernas coxa para sempre, perigo de morte. É levado aos ombros, em liteira, até Loiola, a casa paterna, pelos inimigos… Belos tempos!…
Em Loiola, perigo de vida, perna estendida, imobilidade forçada, convalescença longa.
Sonhos, recordações, tédio, o tempo que custa a passar, a impressão de inutilidade… E então, para passar o tempo, porque não havia nada de melhor, a leitura difícil, depois ávida e empenhada dos dois livros que constituíam a biblioteca daquela casa, nobre e rica: «a Vida de Cristo» e a «Vida dos Santos». É a silenciosa revolução interior, o combate dos espíritos, as angústias e hesitações, o «casulo», onde o verme vai ganhar asas...

De Loiola a Jerusalém – de cavaleiro a peregrino

Finalmente, a água do baptismo começa a florir, um novo horizonte se rasga, uma nova paixão e um novo ideal surgem: Jesus Cristo.
Jesus Cristo é agora o seu novo Senhor, o seu amor, sem hesitações, sem medos, sem «meias-tintas», radicalmente. Conhecê-Lo, amá-Lo, segui-Lo, é o novo sentido da sua vida. Neste momento de viragem, a que se segue a velada de armas em Montserrat, o envergar o traje de mendigo, Inácio de Loiola é apenas o peregrino, só e a pé, em direcção a Jerusalém, porque em Jerusalém viveu, morreu e ressuscitou Jesus Cristo.
Nada mais o ocupa ou preocupa: oração, penitência, austeridade, seguimento de Jesus, um simples «eremita itinerante»… Religioso convencional? Padre? Fundador de uma ordem religiosa? Se o interrogássemos ao sair de Loiola ou mesmo depois de Manresa – os nove meses que constituíram o seu Pentecostes – provavelmente rir-se-ia de nós ou mal compreenderia a pergunta…
Esse Deus que entra abruptamente na vida de Inácio, que Se lhe revela como o único Absoluto feito homem e carne, com um rosto e um nome, Jesus Cristo, uma vez descoberto e encontrado, marca-o para sempre. Concretizemos.

Quem é nesta altura Inácio de Loiola?

Depois da conversão de Loiola, da confissão geral, velada de armas e mudança de traje em Montserrat e depois das profundas e dramáticas experiências interiores em Manresa, incluindo a chamada «exímia ilustração», junto ao rio Cardoner, Inácio de Loiola é já um outro homem.
Com jejuns e penitências corporais contínuas, sete horas de oração, confissão e comunhão frequentes, pedindo esmola para comer, tomando notas, num pequeno livro, das suas luzes e experiências, ocupando-se ainda em «ajudar algumas almas que ali o vinham procurar» (RP n. 26 ), Inácio de Loiola é já um homem novo, pobre, apaixonado por Cristo e desejoso de peregrinar a Jerusalém, muito longe ainda de saber qual será o destino da peregrinação da sua vida…..
Estes inesperados meses na cova de Manresa, quase um ano, com os seus três períodos, de paz e alegria, de lutas interiores e escrúpulos e, finalmente, de extraordinárias iluminações e ilustrações, são o grande momento interior da sua vida, contendo seminalmente quer os futuros Exercícios Espirituais, quer a própria Companhia de Jesus…
Como ele próprio afirma, «neste tempo Deus tratava-o da mesma maneira que um mestre-escola trata um menino, ensinando-o» (RP. 28).
O cavaleiro que serve o Rei terreno, torna-se assim o peregrino que busca o Rei eterno…

De Jerusalém a Paris – de peregrino a estudante

Não cabe, nesta conferência, refazer em pormenor todo este período de estudos e amadurecimento espiritual de Inácio de Loiola. Relembremos apenas os tópicos essenciais:
Em 1523, chega a Jerusalém; em 1525, está de regresso a Barcelona estudando «Gramática»; em 1526, parte para Alcalá, estudar «Artes», donde sai para Salamanca, em princípio de Julho; em meados de Setembro de 1527, sai de Salamanca e, passando por Barcelona, dirige-se a Paris, onde entra em Fevereiro de 1528, para estudar latim, no Colégio de Montaigu.
Em Paris, em Setembro de 1529, muda-se para o Colégio de Santa Bárbara, onde conhece e se torna amigo de Pedro Fabro e Francisco de Javier.
Ao nível de estudos, em Paris, consegue o grau de bacharel em Artes, em 1532, a licenciatura em 1533, é mestre em Artes, em 1534.
No dia 15 de Agosto do mesmo ano de 1534, já com os primeiros companheiros, faz os chamados «Votos de Montmartre».
Mais do que este percurso exterior e académico, importa-nos acompanhar o percurso interior. Que se passou, que se foi passando, na mente e no coração de Inácio de Loiola?
Profundamente tocado pela graça e transformado pelo Espírito, impedido de permanecer na Terra Santa, o novo Inácio, de costas voltadas para o passado, tem que viver e que deitar contas à vida. Que vou fazer? Ou melhor, que quer Deus que eu faça?
Confiante, disponível, aberto, querendo seguir e servir o Senhor Jesus Cristo, Inácio não sabe ainda o que Deus quer de si no futuro, mas já vai sabendo o que Deus quer dele no presente: o seguimento de Jesus e o «ajudar as almas», partilhando com os outros a profunda e riquíssima experiência de Deus que o próprio Deus lhe fez viver e que facilmente Inácio intui que não era só para si…
Este longo período que vai desde Jerusalém, 1523, até aos votos de Montmartre em 1534, 11 anos, é pois um período tacteante, de maturação, polarizado no seguimento de Jesus, em Igreja, e na ajuda ao próximo.
Os próprios estudos, empreendidos já com tanta idade, dolorosamente, não são para Inácio uma «carreira docente»; são apenas e só um «instrumento», a conceptualização da sua própria experiência de encontro com Deus e a condição imposta pela Igreja, para «poder ajudar as almas».
Neste longo tempo de estudo e de peregrinação, além dos locais acima citados, esteve ainda na Flandres, na Inglaterra, em Loiola, sua terra natal, não contando com as suas travessias da Itália, na ida e vinda de Jerusalém – peregrinações estas sempre «só e a pé» e sem dinheiro – neste longo tempo, dizia, Inácio foi amadurecendo e Deus foi-o amadurecendo…
Importante também neste período e amadurecimento, foram as suspeitas, calúnias e perseguições que quase sempre o acompanhavam. Calúnias e suspeitas das pessoas que saíam prejudicadas pelas profundas mudanças que através de Inácio se operavam; e, talvez mais graves e sérias, as desconfianças e acusações surgidas no seio de uma Igreja desconfiada e receosa, que tinha a Inquisição a funcionar e que naqueles que eram piedosos e menos ortodoxos no seu viver, buscava a nova «seita» dos «alumbrados», os iluminados…
Na autobiografia e no seu estilo seco e despojado, Santo Inácio conta-nos este lastro de difamações e perseguições, prisões e julgamentos que o vai acompanhando e o vai fazendo mudar de cidade – Alcalá – Salamanca – até aportar em Paris.
Experiência dolorosa mas purificadora, que o vai consolidando na confiança em Deus e libertando de vanglória e de preocupações do sucesso, experiência assumida e integrada que irá ser um veio permanente na dinâmica dos Exercícios Espirituais.
Mas a sua vida não era só oração, estudo e peregrinações; progressivamente, a outra vertente, a ajuda aos outros, apesar da teologia não estar ainda terminada, vai-se consolidando e aperfeiçoando. Na verdade, esta ajuda ao próximo, para lá do testemunho pessoal que atraía e impressionava, vai-se concretizando em três linhas principais, diferentes mas complementares: a conversa ou trato pessoal com os outros, a prática de dar Exercícios Espirituais (EE), ainda rudimentares e em forma incipiente, e, finalmente, a procura de amigos e companheiros que o quisessem seguir no seguimento de Jesus.
Deixando de lado a conversa ou «trato de gentes» (em que Inácio se vai tornando exímio, ele que nunca será grande pregador…) os EE e a procura de companheiros merecem uma especial referência.
Dizem os principais biógrafos que Inácio começou a elaborar e a escrever o futuro livro dos EE durante ou depois da experiência de Manresa. Tem toda a lógica: é a grande experiência espiritual da sua vida, ele tem o hábito de reflectir e de escrever e as luzes que recebe, que vão da Trindade à Eucaristia, passando pela Incarnação, não se podem perder… Por outro lado, quer a sua experiência passada de vida mundana e de pecado, quer as suas novas experiências depois da conversão, de despojamento, oração, peregrinação, humilhações, confiança, etc., vão podendo ser sistematizadas e integradas nessa proposta completa e integral de peregrinação cristã que constitui os EE e que a partir dessa objectivação pode ser oferecida, proposta aos outros… O livro dos EE não foi nem podia ser um livro que ele tivesse escrito num momento feliz de inspiração… Foi antes um livro que ele foi escrevendo ao longo da sua vida, ensaiando, experimentando, completando, desde o «esboço» inicial de Manresa, até à aprovação final e papal, como documento oficialmente aprovado pela Igreja, em 1547, já depois de aprovada a Companhia e na ponta final da sua vida…
Este livrinho que se vai completando e estruturando, sem pressas, torna-se o privilegiado instrumento para levar os outros até Deus e simultaneamente para fazer companheiros, para construir uma comunidade cristã, embora ainda informe, sem estrutura.
Falhadas, por vários motivos, as suas tentativas de constituir uma pequena comunidade cristã, coesa, homogénea, estável, em Alcalá e em Salamanca, é finalmente em Paris, com estudantes universitários de várias nações e origens, que o milagre acontece...
Primeiro Fabro, depois Javier, em breve mais 4, entre os quais o nosso Simão Rodrigues, o núcleo original dos 7 fundadores da Companhia, a que não tardam a juntar-se vários outros...

Por esta altura, em Paris, ainda não há Companhia de Jesus… Mas está a nascer… Do grupo inicial, só Pedro Fabro era sacerdote. Todos estão a acabar os seus estudos. Quando terminarem, o que irão fazer? Dispersar-se? Regressar cada um à sua terra ou encetar novo caminho? Manter-se unidos?
O grupo já estava coeso e unido, a amizade em torno de Inácio tinha-os tornado «amigos no Senhor». A decisão surge clara para cada um: «ir a Veneza e a Jerusalém e ali gastar a sua vida em proveito das almas; e se não conseguissem autorização para permanecer em Jerusalém, voltariam para Roma e apresentar-se-iam ao Vigário de Cristo para que os empregasse onde considerasse que seria maior glória de Deus e proveito das almas. Determinaram também que esperariam um ano a embarcação em Veneza e que se naquele ano não saíssem naves para levante, ficariam livres do voto de Jerusalém e se apresentariam ao Papa» (R.P. 85). São as próprias palavras de Inácio, na Autobiografia.
Tendo feito também, cada um, o voto de castidade e de pobreza, fizeram este voto de irem para Jerusalém e, caso não fosse possível, em alternativa, de se oferecerem ao Papa, como Vigário de Cristo – é o chamado «Voto de Montmartre», feito com grande consolação diante de Cristo sacramentado na missa celebrada por Pedro Fabro, na Festa da Assunção de Nossa Senhora, a 15 de Agosto de 1534, na capela da Igreja de Montmartre.
Este grupo internacional de cristãos universitários, estudantes de teologia e preparando-se para o sacerdócio, ainda não é uma ordem religiosa: não está estruturado, nem tem regra, não tem líder institucional, nem está reconhecido pela Igreja. No entanto, o voto de Montmartre é um momento chave na génese da Companhia, esta nova ordem que está a nascer.

De Paris a Roma – de estudante a homem da Igreja

Jerusalém mostra-se inviável devido à ruptura entre Veneza e os Turcos que impossibilita as viagens. Encontram-se em Veneza, onde Inácio, vindo da terra natal, já os espera. São ordenados sacerdotes e antes de seguir para Roma, a alternativa prevista em Montmartre, rezam e deliberam, durante 40 dias; dividem-se depois por grupos, começam a pregar e decidem tomar o nome de Companhia de Jesus, «visto que não tinham cabeça nenhuma entre si, nem outro prepósito a não ser Jesus Cristo, a quem unicamente desejavam servir, parecendo-lhes que deveriam tomar o nome daquele que tinham por cabeça» (FN I, 204).
Com esta decisão de permanecerem juntos, de tomarem nome, de começarem a pregar, a fazer apostolado, e de se irem oferecer ao Papa, nasceu, de facto, embora ainda não juridicamente, a Companhia de Jesus.
Finalmente, em finais de Outubro de 1537, a caminho de Roma. E neste caminho, a cerca de 16 km de Roma, sentiu Inácio «uma grande mudança na sua alma e viu claramente que Deus Pai o punha com o seu Filho, parecendo-lhe ver Cristo carregando com a cruz e junto a Ele o Pai eterno que Lhe dizia: quero que tomes a este por teu servidor. E Jesus mesmo o tomava e lhe dizia: quero que tu Nos sirvas» (RP, 96). E ainda: «Em Roma vos serei propício» (FN II, 133). É a famosa «visão de la Storta», o grande «selo místico» confirmativo, recebido por Inácio e transmitido aos companheiros.
Em Roma onde, como em Veneza, são de novo caluniados e absolvidos, os companheiros saltam de casa em casa, até se instalarem, finalmente, em 1541, numa casa perto de Santa Maria da Estrada, continuando sempre a assistência a pobres a doentes e a catequese e pregação pelas ruas e igrejas da cidade.

No período de Março a meados de Junho de 1539 deliberam e expressamente decidem a formação de uma nova ordem religiosa, ideia que encontra oposição de alguns responsáveis eclesiais. Mas em Setembro, Paulo III aprova oralmente a fórmula do Instituto que o Cardeal Contarini lhe lê, mandando-o expedir o breve correspondente e finalmente a 27 de Setembro de 1540, já com Rodrigues e Javier enviados a caminho de Lisboa e da Índia, é aprovada a Companhia de Jesus, pela Bula «Regimini militantis Ecclesia», ainda com a limitação a 60 do número de professos. Em 1550, Júlio III, o novo Papa, volta a confirmar a Companhia.
Em 1541, começam os companheiros as reuniões para discutir e redactar, conforme a Bula, as Constituições da Companhia de Jesus. Em 19 de Abril do mesmo ano, Santo Inácio aceita, finalmente, o cargo de Prepósito Geral, para o qual tinha sido eleito, por unanimidade. A 22 de Abril, os companheiros presentes em Roma fazem a sua profissão solene, na Basílica de S. Paulo extra-muros.
Está finalmente fundada, no espírito e no corpo, a Companhia de Jesus.
Com frequentes períodos de doença e de fortes dores, Inácio governa a Companhia, como Geral, troca uma massa imensa de correspondência com pessoas de dentro e fora da Companhia, e vai trabalhando, especialmente com a ajuda do seu secretário Juan de Polanco, nas várias versões das Constituições, que só depois da sua morte, na 1ª e 5ª Congregações Gerais, são finalmente fechadas e aprovadas pela própria Companhia e sancionadas pelo Papa.
Tendo tido a alegria de ver o livro dos EE oficialmente aprovado e louvado pela Igreja, em 1547, a 31 de Julho de 1556,

Inácio de Loyola morre discretamente em Roma. Nessa data, já havia mais de mil «companheiros de Jesus».



























































Fragmento da Conferencia de Pe. António Vaz Pinto- INÁCIO DE LOIOLA E A COMPANHIA DE JESUS: A COMPANHIA DE JESUS EM TEMPO DE MUDANÇA. In.: VII Semana de Estudos de Espiritualidade Inaciana

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