10 de julho de 2011

sexo e religião


No passado dia 8 tive o prazer de participar juntamente com o Prof. Júlio Machado Vaz num debate sobre 'sexo e religião', a convite da Delegação de Braga da Ordem dos Médicos. Publico os tópicos que utilizei nesse debate, e nos quais me refiro sobretudo às posições da Igreja Católica.




1- Quando se fala de sexo e religião vêm-nos talvez à mente algumas ideias comuns: a religião tem um problema com o sexo, com o prazer em geral e com o prazer sexual em particular, a religião católica, em particular, é contra as mulheres, o casamento dos padres, e contra a própria natureza humana. Para algumas pessoas estas posições estão fundamentalmente erradas, e para elas parece fácil compreender porquê.

2- Pessoalmente tenho sempre alguma dificuldade em aceitar respostas fáceis e rápidas para questões complexas e que exigem, por isso mesmo, ponderação e discernimento. Tais são, entre outras, as questões éticas, particularmente as que se referem à sexualidade.

3- Em questões relativas à sexualidade, como as que se referem a muitas outras questões, os seres humanos em geral e a Igreja Católica em particular encontram-se com frequência numa tensão, que deve ser criativa, entre princípios gerais e casos particulares. Por exemplo, o princípio ‘não matar’ é universal mas há casos concretos em que é lícito matar, como o caso de legítima defesa.

4- Para algumas pessoas, o princípio geral supremo é o da liberdade pessoal – supostamente oposto ao da obediência a mandamentos divinos ou outros. Com alguma frequência oiço algumas pessoas enunciarem o seguinte princípio: “cada um deve ser livre de fazer o que bem entender, desde que isso não prejudique ninguém”. A partir daqui, parece fácil decidir o que se pode e não pode fazer. Por exemplo, se eu pagar a uma prostituta que livremente me acompanha a casa e livremente passa um fim-de-semana comigo, e que se despede feliz da vida, qual é o problema?

5- O problema é que ao ‘alugar’ uma prostituta, eu estou objectivamente a banalizar um género de relação interpessoal que é dos mais profundos e, ao mesmo tempo, a pressupor que essa banalização não me afecta a mim nem à prostituta como pessoas. Objectivamente o pressuposto aqui implícito é o de que cada ser humano é uma ilha. Quando lia nas manifestações a favor do aborto, em Itália como em Portugal expressões como “il corpo è mio e lo gestisco io” ou “eu mando na minha barriga”, mais do que o termo ‘sexo’, o que me vinha à mente era o termo ‘ilha’.

6- A Igreja Católica baseia-se no princípio da totalidade ou do bem total do ser humano para discernir o valor humanizador das relações interpessoais concretas. Este princípio aplica-se a todos os aspectos da vida humana,e pretende superar análises puramente parcelares ou casuísticas. O modo como gasto o meu dinheiro deve ter em conta este princípio. Não parece adequado gastar demasiado dinheiro a jogar no casino, por exemplo, se depois me falta dinheiro para a habitação, o vestuário, a alimentação. Da mesma forma, a gestão dos nossos afectos, instintos, decisões, deverá ter em conta o princípio de totalidade ou do bem total. Não basta procurar o prazer, sexual ou outro, apenas pelo prazer, porque ele me satisfaz, aqui e agora. Há que viver a experiência do prazer no contexto total da minha existência, do meu projecto de vida, e não apenas em relação a um qualquer momento ou a uma qualquer situação desligados desse contexto.

7- A Igreja Católica parte de uma concepção de ser humano como um ser-de-relação. É a qualidade das relações interpessoais que torna as pessoas cada vez mais pessoas. Por conseguinte, tudo o que leve à banalização das relações diminui as pessoas. As relações sexuais são um género muito especial de relações porque inclui um nível de complexidade e de intimidade que não se encontra noutras relações. Para a Igreja Católica, se é verdade que é através das relações interpessoais que os seres humanos se exprimem, então as relações sexuais permitem aos mesmos seres humanos um nível de expressão muito mais profundo e complexo que outros tipos de relação. As relações sexuais são expressão de um amor amadurecido entre dois seres humanos, um homem e uma mulher,. Por conseguinte, se não se pode brincar ao amor, também deve ser verdade que não se pode brincar às relações sexuais. Creio que estes princípios permitem compreender a posição da Igreja Católica em muitas questões concretas.

8- A Igreja Católica tem uma concepção da relação sexual entre dois seres humanos que supõe que o sentido dessa relação é o de realizar uma união de complementaridade total entre eles, uma complementaridade que é física, afectiva e mental. É a partir desta concepção que o amor homossexual é visto como uma forma de relação que não está ao nível da relação heterossexual. A Igreja Católica parte ainda do pressuposto que esta complementaridade total leva à união profunda dos esposos e à procriação como fruto dessa união, um fruto que só se torna possível quando os esposos não se fecham na sua relação amorosa mas se abrem à possibilidade de transcenderem, de olharem para além de si mesmos. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, a Igreja Católica não afirma que a relação sexual no casamento tem apenas como objectivo a geração de filhos.

9- A argumentação da Igreja Católica em matéria de moral em geral e de moral sexual em particular recorre ao conceito de lei natural, um conceito nem sempre bem compreendido, talvez mesmo no interior da própria Igreja Católica. Num documento da Comissão Teológica Internacional, afirma-se o seguinte:

Chamamos lei natural ao fundamento de uma ética universal que procuramos elaborar a partir da observação e da reflexão sobre a nossa natureza humana comum. É uma lei moral inscrita no coração dos seres humanos e da qual a Humanidade adquire uma consciência crescente à medida que avança na História. Esta lei natural não tem nada de estático na sua expressão; não consiste numa lista de preceitos definitivos e imutáveis. É uma fonte de inspiração que se manifesta sempre na procura de um fundamento objectivo para uma ética universal” (Comissão Teológica Internacional, “À procura de uma ética universal: um novo olhar sobre a lei natural”, nº 113)

O mesmo documento afirma também que “a moral não pode limitar-se a produzir normas” (nº 56), e que “em moral, a pura dedução silogística não é adequada” (nº 54)

10- Como conclusão, creio ser fácil compreender do acima exposto por que razão a Igreja Católica considera que uma educação sexual que se centre em tornar acessível aos jovens os anticonceptivos e as técnicas do seu uso não passa de uma caricatura da educação sexual e, em última instância, do amor.

P. Alfredo Dinis,sj

7 comentários:

J.AO disse...

Gostei da dimensão de totalidade!

Mas achei que podia ser mais desenvolvida a partir da perspectiva da humanização e personalização da sexualidade, dependente do amor, para a qual é determinante não olhar para o outro como um objecto do qual se obtém prazer mas sim como sujeito, humano, pessoal e único e irrepetível, o mesmo que dizer que o sujeito não é apenas acessório e prescindível para a sexualidade, mas que toda ela se volta para aquela pessoa em particular e não para outra.

alfredo dinis disse...

Caro J.AO,

Obigado pelo seu comentário com o qual estou muito de acordo.

Alfredo Dinis,sj

João "o discipulo amado" Silveira disse...

Muito bom!

J.AO disse...

Caro Pe. Alfredo,

Se estiver interessado, li recentemente um curto e incisivo texto de Viktor Frankl e outro de Miguel Esteves Cardoso que me ajudaram a desenvolver este vocabulário personalista, que está bem em harmonia com o princípio de totalidade mas pode ser entendido de uma forma mais imediata, com base psicológica. O de Frankl é bastante na linha do que João Paulo II escreveu em "Amor e Responsabilidade", o artigo "The Dehumanization of Sex" na obra "The Unheard Cry for Meaning: Psychotherapy & Humanism" (1978)

O de Cardoso pode encontrar-se aqui: http://www.citador.pt/pensar.php?op=10&refid=200902090800&author=1133

alfredo dinis disse...

Caro J.AO,
Obrigado pelas indicações.

P. Alfredo

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

O seu texto apresenta-se como uma mistura de diferentes situações:

Mistura o celibato com trindade dita "sagrada" da família, pai, mãe e criança.

A impressão que fica é que as igrejas Romanas TÊM MEDO ou consideram seguro que o SEXO causa dependência e reduz a produtividade do ser humano, e que a pornografia é um pecado.

Pois o instinto natural ao apelo sexual faz parte da nossa natureza e negá-lo é contra-natura. Nada refere sobre o celibato dos seus membros e como obviamente isso é uma contradição da visão «A Igreja Católica baseia-se no princípio da totalidade ou do bem total do ser humano para discernir o valor humanizador das relações interpessoais concretas.»

A trindade dita "sagrada" da família, pai, mãe e criança é a unidade mais pequena que permite a evolução sexuada dos seres humanos.
Mas isso não excluí outras unidades, em sociedades em que um homem deve propagar os seus genes por várias mulheres.

Relativamente ao prazer. Fisiologiamente o apelo sexual é mais forte durante mais ou menos 2 anos, passando gradualmente para outro tipo de atracção. Parece ser esse o objectivo último da igreja.

Negar o prazer explosivo de uma paixão carnal é uma redução perante o princípio da totalidade do ser humano. Mais, negar a possibilidade de relações sexuais grupais é ainda uma maior limitação. Uma vez que o ser humano está programado para reagir a actos sexuais exteriores ficando excitado e aumentando a líbido, apenas por assistir. Religiosamente, estam descritas práticas de reprodução grupais em que o prazer obtido pode ser muito superior ao de um simples orgasmo simultâneo com um único parceiro.

Realmente um homem não é uma ilha e o celibato parece querer tornar um homem numa ilha deserta sem direito à totalidade do seu próprio ser.

saudações,

Apóstolo do Amor disse...

Para saber mais sobre sexo e a religião (o que a Bíblia diz), visite: http://biblianaintimidade.blogspot.com.br/