4 de outubro de 2011

Deus, acaso e determinismo


Até há pouco tempo, o universo e todos os acontecimentos que nele tiveram lugar ao longo dos biliões de anos da sua existência, desde o big bang, foram considerados de uma forma determinística, tanto por cientistas como por filósofos e teólogos. O determinismo conduziu a duas visões do mundo muito diferentes no que se refere à existência de Deus. Para Laplace, uma vez que tudo o que acontece no universo está determinado pelas leis naturais, não necessitamos da hipótese de Deus para explicarmos a formação do universo e a sua evolução. Uma visão contrária têm tanto os deístas como os teístas para os quais o universo se rege por leis próprias e é de acordo com elas que todos os processos naturais têm lugar. Tais leis têm a sua origem num Criador.

O acaso foi sempre difícil de entender e aceitar. Einstein é certamente o cientista mais conhecido que teve grandes dificuldades em aceitar a realidade de acontecimentos aleatóriso ao nível quântico da matéria. Ficou célebre a sua afirmação: “Deus não joga aos dados!” Hoje, porém, os cientistas sabem que processos aleatórios acontecem com frequência, e que isto é consistente com a ordem que encontramos no universo e na vida. Acontecimentos que não se podem prever parece não se poderem controlar. Isto parece à primeira vista ser uma má notícia tanto para os cientistas cristãos como para os teólogos. Se Deus não controla todos e cada um dos processos que têm lugar no universo a todos os níveis, então a sua omnipotência fica ameaçada.

Hoje é geralmente aceite que no final do período Pérmico, há cerca de 225 milhões de anos, cerca de 96% de todas as espécies então existentes desapareceram. Neste caso, poder-se-á ainda continuar a afirmar que existe um plano divino no universo, um sentido para a vida em geral e para a vida humana em particular? Alguns cristãos temem que a resposta seja negativa. Esta é sem dúvida a razão pela qual William Demsbski, um dos proponentes do ‘propósito inteligente’, procura eliminar o acaso dos fenómenos naturais, como revela no título de uma das suas obras: The Design Inference: Eliminating Chance through Small Probabilities.

David Bartholomew, um cientista cristão, formulou a questão nos seguintes termos: “O problema consiste em reconciliar o papel central que o acaso tem na explicação científica do mundo e a narrativa teológica acerca das relações de Deus com o mundo. O acaso parece indicar que há uma ausência de plano. Esta antiga fonte de tensão adquiriu uma nova actualidade com a proposta do movimento conhecido como ‘projecto inteligente’, que procura eliminar o acaso em favor do projecto. A teoria quântica, que coloca o acaso no núcleo da matéria, coloca essencialmente a mesma questão aos teólogos. “ (D. Bartholomew, God, Chance and Purpose. Can God have it both ways?, Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2008,p. 1).

Torna-se necessária uma nova compreensão de como o acaso não só não é um obstáculo à fé num Deus omnipotente e criador, como é indispensável a um Deus omnipotente que cria o universo e a vida tal como os conhecemos.

26 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

Reproduzo aqui um comentário que fiz, há tempos, no blogue «darwinismo».

A minha formação nestas áreas é de simples amador e curioso. O meu contributo para esclarecer qualquer problema será modesto e irrelevante. Mas, dentro das limitações do que sei, não fujo à responsabilidade de pensar e de tirar conclusões.
Ultimamente, tenho andado a ler R.G. Collingwood, Ciência e Filosofia, e vou tendo algumas intuições. Uma delas é que a Teoria da Evolução não seja compatível com as modernas teorias sobre a matéria. Outra é que a observação e a demonstração pela experiência deixariam de ser possíveis porque não haverá nenhuma substância natural e as chamadas leis da natureza, afinal, não o sejam . Outra ainda, que a Teoria da Evolução possa vir a ser relevante justamente na explicação da Criação, se tiver de concluir-se que o Determinismo não existe para Deus e que Deus não está sujeito a alternativas nem a escolhas.

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

Permita-me que lhe diga que há uma grande diferença entre as coisas acontecerem por acaso e a nossa capacidade de previsão seja limitada a uma probabilidade.

Por exemplo, não sabe o que cada eleitor vai votar, mas sabe qual a probabilidade de um partido ganhar ou perder. Olhe para o PSD na Madeira.

Quando se gera matéria as novas "partículas" iniciam novos caminhos, um pouco como a emissão de luz numa vela ou lâmpada. E como energia é matéria...
Pode antecipar algumas observáveis da vela, a intensidade da luz, a função periódica da chama, mas a previsão que o detector de fotões vai registar um fotão na posição x,y,z no tempo t... é um pouco mais difícil...

Basicamente, não sabe o que cada eleitor da Madeira vai votar, em que urna e a que hora. Mas sabe qual o valor esperado da observável resultados eleitorais.
E isso não é por acaso.

Cumprimentos,

Anónimo disse...

Deus omnipotente e criador?

Não existe.

Eu te insulto no mais profundo sentido, reles Deus impotente.

O que acontece?

NADA.

Deus omnipotente e criador?

Não existe.

Anónimo disse...

Este é o problema de alguém que quer tirar algum sentido das suas premissas, deus, e tenta falar de acaso por acaso.

"eu gosto muito do bolo... "

A lei forte dos grande números é aplicável? Porquê? A lei fraca dos grande números é aplicável? Porquê?
O teorema do limite central tem aplicação? Porquê?

Bem, com inovação e imaginação posso dizer que a variância é infinita e como tal o teorema do limite central não se aplica.

E agora? Ficam sem os estimadores usados na primária... o que fazem?

Anónimo disse...

Heresia! Heresia!

Esse está a dizer que é criador, inovador, inventor. Está a dizer que tudo pode fazer.

Está a dizer que é omnipotente e criador.

Heresia! Heresia!

Matem, matem, acabem com a inovação e com a imaginação...

alfredo dinis disse...

Caro Carlos,

Obrigado pelo seu comentário.

Não entendo bem a sua afirmação:

"se tiver de concluir-se que o Determinismo não existe para Deus e que Deus não está sujeito a alternativas nem a escolhas."

Não lhe parece que se o determinismo não existe para Deus ele tem todas as escolhas e alternativas possíveis?

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (9:13),

Pode dizer-se que há uma distinção entre o sentido epistemológico e o sentido ontológico do termo 'acaso'. No primeiro sentido, a imprevisibilidade de um acontecimento deve-se à nossa incapacidade de conhecer a causa desse acontecimento. No segundo sentido de acaso, a imprevisibilidade existe estruturalmente na natureza. Não é fácil dizer quando se dá um acaso em sentido epistemológico e quando em sentido ontológico. Mas o principio de incerteza de Heisenberg parece indicar que há imprevisibilidade ontológica ao nível quântico.

No que respeita ainda à imprevisibilidade a situação é diferente no que se refere a pequenos números e a grandes números. O exemplo que dá acerca da previsão dos resultados eleitorais, ignorando-se em quem vota cada cidadão, é um exemplo. Quando se passa do nível dos pequenos números passa o dos grandes números há um aumento de previsibilidade.

Basicamente estou de acordo com o que diz.

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

O princípio de incerteza de Heisenberg apenas indica que os instrumentos que usamos para medir o muito pequeno alteram o estado do que queremos medir. Não é o mesmo do que medir a velocidade de um carro com um filme. No mundo do muito pequeno até os fotões ou electrões alteram o que queremos medir, por vezes são os próprios objectos de medida.

O entrelaçamento quântico parece indicar que as coisas são imprevisíveis ou previsíveis?

cumprimentos,

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (5:40)
Sobre este assunto deixo-lhe aqui uma afirmação de S. Hawking que é considerado uma autoridade na matéria:

"The classical view, put forward by Laplace, was that the future motion of particles was completely determined, if one knew their positions and speeds at one time. This view had to be modified, when Heisenberg put forward his Uncertainty Principle, which said that one could not know both the position, and the speed, accurately. However, it was still possible to predict one combination of position and speed. But even this limited predictability disappeared, when the effects of black holes were taken into account. The loss of particles and information down black holes meant that the particles that came out were random. One could calculate probabilities, but one could not make any definite predictions. Thus, the future of the universe is not completely determined by the laws of science, and its present state, as Laplace thought. God still has a few tricks up his sleeve." (S. Hawking, "Does God play dice?" - texto de livre acesso na página pessoal do autor)

Saudações,

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

Muito obrigado pela referência.

Repare:
"One could calculate probabilities, but one could not make any definite predictions."

Se sabe calcular probabilidades tem capacidade de previsão. Pode não ser capaz de prever o que acontece partícula a partícula mas sabe que num periodo de tempo sabe o que é provável acontecer. Exemplo: na síntese de compostos orgânicos, a reacção não é determinística para cada partícula, mas sabe que no final da reacção tem em grande percentagem o produto final desejado. Isso é determinado pelas leis da natureza e que o Homem usa na Química. Como tal, não concordo na totalidade com S. Hawking.

Neste caso penso que S. Hawking está a pensar no Universo em macro-escala. Por exemplo: O sistema solar não é estável pelo simples facto do Sol não ser estável e será o Sol, quando bem "entender", a destruir o sistema solar.

"Thus, the future of the universe is not completely determined by the laws of science."

Porque as leis do interior do Sol são diferentes e em grande parte desconhecidas (ainda, e apenas por falta de experiência) do Homem.

Cumprimentos,

Anónimo disse...

Quando o homem dominar as leis do Sol, teremos os nossos pequenos Sóis da aldeia a produzir energia limpa...

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (10:26),
Como sabe, a interpretação dos fenómenos quânticos não é uniforme. Para entender o que Hawking afirma nesta passagem será interessante ler o texto completo que facilmente encontrará através de uma simples busca na net. Título do texto: "Does God play dice?".

Outros fenómenos considerados aleatórios são as mutações genéticas e o decaimento dos núcleos radiactivos. É claro que há sempre a possibilidade de pensarmso que o que hoje parece aleatório deixará de o ser com o progresso da ciência. Tudo não passa de ignorância da nossa parte. Arthur Peacocke afirma que mesmo o resultado do lançamento de uma moeda ao ar poderia ser calculado se conhecêssemos todas as forças que influenciam o movimento ascendente e descendente da moeda. Parece que, afinal, o determinista Laplace tinha razão! No entanto, os grandes cientistas, com excepções como Einstein, aceitam tranquilamente o carácter aleatório de muitos fenómenos naturais. Este carácter aleatório tende a diminuir ao nível dos grandes números, como afirma.
Saudações,
Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Gostava de deixar uma pergunta: quem é que me pode garantir que o acaso é mesmo acaso?

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

Como refere o lançamento de uma moeda, se completamente automatizado e controlado, não é aleatório. Os profissionais das artes de circo sabem bem disso.

"No entanto, os grandes cientistas, com excepções como Einstein, aceitam tranquilamente o carácter aleatório de muitos fenómenos naturais."

Eu também não concordo inteiramente com essa afirmação. Como Feynman diria, o acaso fica refém da destruição e criação da matéria. E ao que parece S. Hawking.

Por exemplo: as reacções químicas de moléculas orgânicas não são aleatórias, seguem as leis naturais.

No entanto, o caminho que um molécula toma como sendo o mais favorável energeticamente pode não ser o mesmo caminho de outra molécula. Mas ambas seguiram as mesmas leis, "seguir o caminho energético mais favorável".

Não é uma lei aleatória.

Imagine que está no topo de um monte e vai descer. No momento zero tem de começar a descer e tem de seguir o caminho mais fácil: isso vai depender de, o que consegue vêr, para onde está orientado, a velocidade que tem, o tamanho do passo que dá. Mude uma das condições e pode ter um caminho diferente, mas seguiu a mesma lei: tem de seguir o caminho mais fácil.

Assim o resultado pode parecer aleatório mas foi executado segundo uma lei de forma não aleatória.

Por isso não aceito tranquilamente o carácter aleatório de muitos fenómenos naturais. A capacidade de previsão está limitada a uma probabilidade mas não aconteceram por acaso. A natureza tem estrutura.

Cumprimentos,

Anónimo disse...

"Gostava de deixar uma pergunta: quem é que me pode garantir que o acaso é mesmo acaso?"

Estatisticamente, uma distribuição uniforme dos resultados, mostra que um acontecimento tem como resultado todos os valores possíveis sem qualquer tendência. Assim encontrar um determinado resultado é por acaso porque todos os resultados são igualmente prováveis.

Carlos Ricardo Soares disse...

Caro Alfredo,

«Não lhe parece que se o determinismo não existe para Deus ele tem todas as escolhas e alternativas possíveis?»

Foi isso que quis dizer, que Deus não está (e não pode estar) sujeito às leis da natureza.

Saudações.

Anónimo disse...

Foi isso que quis dizer, que Deus não está (e não pode estar) sujeito às leis da natureza.

Pois não. Uma fantasia não está sujeita a nenhuma lei... ;)

deus não existe.

Ilídio Barros disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ilídio Barros disse...

"Gostava de deixar uma pergunta: quem é que me pode garantir que o acaso é mesmo acaso?"

Boa pergunta!

Anónimo disse...

Lá vão os deistas ou teístas a correr para o canto da ignorância...

Anónimo disse...

Se o acaso é mesmo acaso. O resultado de hoje pode ser diferente amanhã.

Curiosamente o conhecimento científico mostra que na natureza o resultado de ontem é o mesmo de hoje.

Anónimo disse...

Se é repetível e reprodutível não é por acaso. Segue as leis da natureza.

Anónimo disse...

E se é repetível e reprodutível por acaso?

Isto é, a Terra está numa determinada fase dos seus ciclos, e o que pensam que são leis, são apenas consequência desses ciclos.

Se a Terra alterar esses ciclos, o eixo alterar a direcção, por exemplo, e as vossas leis deixarem de ser aplicadas.

Os vossos resultados eram repetíveis e reprodutíveis por acaso e toda a ciência será inútil... porque a terra alterou uma variável que nunca olharam...

É um canto da ignorância... sim. Mas possível...

O sofrologista católico disse...

Lamento dizer mas utilizar a expressão "acaso" representa uma afirmação de fé no deus "Ignorância".

O que existe é o Mistério. Não é o acaso.

alfredo dinis disse...

Caro Sofrologista Católico,

Em que se baseia para dizer que não existe o acaso mas sim o Mistério? E a que Mistério se refere?
Obrigado.

Alfredo Dinis

O sofrologista católico disse...

Caro Alfredo

Aparentemente è apenas uma questão de terminologia. Mas, como quase sempre por detrás de diferenças terminológicas excondem-se diferenças mais substanciais.

Quando falo em Mistério, refiro-me a diferentes aspectos do termo "Mistério da Criação" (ponto 280 do catecismo). Quando se refere que algo acontece por acaso (seja a matéria, a vida, o Homem ou um determinado comportamento) estamos a deificar o absurdo. Algo que podia acontecer como podia não acontecer. Significa que esse algo é absurdo, destituido de qualquer causa intencional. As coisas que aparentemente são aleatórias, são misteriosas na medida em que Deus é mistério (ponto 206 do catecismo). Um comportamento aleatório (humano ou de um partícula sub-atómica) não acontece por acaso. Antes exprime um plano misterioso em termos divinos.

É verdade que o Homem goza de livre arbítrio. Mas este é mais um conceito misteioso, uma caixa negra de vários inputs (todos os biliões de variáveis histórico-comportamentais, quimicas e biológicas do sistema complexo que é o Homem mas também a intervenção divina, a Graça, e a vontade humana). Tal como a caixa negra do mundo sub-atómico em que a observação humana altera o comportamento das partículas, nunca se sabendo portanto qual o seu movimento se não fossem observadas. O Mistério da Criação, em sentido amplo, envolve as dimensões do Universo que o Homem nunca poderá entender quer por se situarem fora das dimensões espaço-tempo nas quais o Homem se encontra balizado quer porque as variáveis espacio-temporais interagem em sistemas complexos de modo tendencialmente incognoscível. Neste sentido a diferença entre as dimensões epistemológica e ontológica do "aleatório" são fictícias. O Homem esbarra (felizmente) no Mistério da Criação por razões que são simultaneamente epistemológicas (impossibilidade de cognoscimento de todas as variáveis espacio-temporais) e ontológicas (elementos fora das dimensões espaço e tempo).