29 de outubro de 2011

"PEREGRINOS DA VERDADE, PEREGRINOS DA PAZ"



DIA DE REFLEXÃO, DIÁLOGO E ORAÇÃO PELA PAZ E A JUSTIÇA NO MUNDO

Assis, Basílica de Santa Maria dos Anjos
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Queridos irmãos e irmãs,
distintos Chefes e representantes das Igrejas
e Comunidades eclesiais e das religiões do mundo,
queridos amigos,

(…)
A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião seria causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, no caso em questão, a religião motive de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente. De modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros. O que os representantes das religiões congregados no ano 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós o repetimos com vigor e grande firmeza – era que esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objecta-se: Mas donde deduzis qual seja a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão por acaso não deriva do facto que se apagou entre vós a força da religião? E outros objectarão: Mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos contrastar de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro. Como cristão, quero dizer, neste momento: É verdade, na história, também se recorreu à violência em nome da fé cristã. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas, sem sombra de dúvida, tratou-se de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são irmãos e irmãs entre si e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar com o outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13,11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.
(…)
Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito. Concluindo, queria assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz».

(texto e vídeo completos em www.vatican.va)

3 comentários:

Anónimo disse...

«a Igreja Católica não desistirá da luta»

Nós também não!

Anónimo disse...

Olá Novamente Pe A.Dinis.

Num dos meus ultimos comentários, houve um anónimo que tentou confundir e baralhar sobre o verdadeiro sentido da Palavra Agnóstico.

" no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. "

Portanto Agnóstico, veramente significa, que embora não acreditando ou conotando a Entidade Superior, com Nome, reconhece que algo existe...e procura-o, portanto, só posso concordar com o seguinte.

" Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais."

E é aqui que se me inicia uma enorme confusão.
Como é que pessoas tão bem formadas, (como parece ) como é que religiosos como o Pe A.Dinis e outros jesuítas que por aqui escrevem, caracterizam esta "força Superior " com tal certeza, roçando por vezes, semelhanças humanas?

Bem haja
Nuno

alfredo dinis disse...

Caro Nuno,
Peço desculpa por só agora responder.
Os cristãos não têm outro acesso ao conhecimento de Deus senão a partir de Jesus Cristo, que eles aceitam como a manifestação de Deus em forma humana. O testemunho dos primeiros cristãos chegou até nós, de forma convincente. O testemunho é uma modalidade de 'prova', aceite em muitas instâncias, como os tribunais.

O facto de a história do cristianismo estar cheia de equívocos, confusões, violência, lutas pelo poder, etc., é para alguns um sinal de descrédito. Mas para os cristãos é um sinal de que o cristianismo não poderia ser uma mera construção humana. Se assim fosse, com tantos acidentes de percurso, já teria por certo desaparecido.

Aceitando que Deus se manifestou de forma humana em Cristo, não parece assim tão estranho que encontremos em Deus uma possibilidade e abertura de diálogo com ele. Neste sentido cremos que há algo de comum entre Deus e nós.

Por outro lado, porém, temos plena consciência de que Deus deverá ser muito 'maior' do que possamos pensar. Não reduzimos Deus a um velhinho de barbas, como tantas vezes aparece representado!

Cordiais saudações,

Alfredo Dinis,sj