23 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (I)

I.- BARBÁRIE E TEOLOGIA: QUESTÕES PENDENTES

Theodor W. Adorno perguntou-se, num célebre dictum, acerca da possibilidade de continuar a escrever poesia depois de Auschwitz. Queria significar assim a humanidade concretizada nos campos de extermínio como símbolo daquilo que é irreversível, irrevocável e imprescritível que, apesar da justiça, não pode ser reparado. Auschwitz teria levado a perder perdera toda a possibilidade de inocência humana definitivamente. Outros pensadores judeus (Hans Jonas, por exemplo) seguiram a esteira iniciada por Adorno e colocaram a questão de continuarmos a acreditar em Deus depois de Auschwitz. Seja como for, Auschwitz converteu-se no símbolo da barbárie humana, na expressão máxima dos catastróficos resultados da imoralidade, no paradigma do ignominioso silêncio perante o sofrimento e o atentado sistemático contra a dignidade humana. Expressão e parábola de até onde é capaz de chegar a degradação humana…

Alguns quiseram ver nos atentados do 11 de Setembro de 2001 uma intensificação da capacidade humana de infligir mal aos seus semelhantes. O 11-S seria o símbolo substituto de Auschwitz para exprimir o infeliz ingresso numa nova era de maldade, o expoente máximo daquilo que se acabou por denominar horrorismo, isto é, aquela violência que, apontando à casualidade da vítima, multiplica a imprevisibilidade dos efeitos. Encontramos a violência horrorista em todos aqueles casos em que as vítimas, inermes, devêm seres humanos em dissolução: os horríveis genocídios de todo o tipo, as modernas guerras hiper-tecnológicas que causam “danos colaterais”, o mártir que se suicida sacrificando a quem se encontra ao seu lado ou os sádicos torturadores desumanizados… O horrorismo choca duma maneira brutal precisamente porque quem o aplica não se limita à destruição da vítima, mas sucumbe à indiferença perante o sofrimento alheio. Seja como for, o 11-S teria sido um acontecimento, isto é, um facto que marcou o ponto de inflexão na percepção da realidade, um fenómeno que fracturou muitos pressupostos (sobre segurança, progresso…) porque é, ao mesmo tempo, manifestação de ideologias radicais, mas também expressão das patologias sociais que nos espreitam.

Muito disto tudo pode ser rastreado no 11-S. Alguns têm encontrado aqui a concretização mais extrema da perversão da geoestratégia malsã dos interesses políticos; outros têm descoberto a prova empírica dum choque de civilizações que nos conduziria a um futuro imediato nada animador; outros, finalmente, têm visto a manifestação explícita da incompatibilidade do Islão com a democracia. Para todos eles tem-se completado um ciclo, que abarcaria desde os atentados em Nova Iorque no dia 11 de Setembro de 2001 até a execução de Bin Laden em Abbottabad no dia 1 de Maio de 2011. Muito (talvez demasiado) haveria aqui para comentar: desde a suposta participação de Bin Laden nos atentados do 11-S até a complexa organização descentralizada da Al Qaeda… No entanto, interessa-nos muito mais centrar a nossa atenção numa perspectiva teológica, que leve em consideração aspectos tão decisivos como a ambiguidade das religiões e a urgência do diálogo inter-religioso.

Em verdade, são muitos os reptos teológicos que nos têm colocado os dez anos que transcorreram desde o 11-S. Assim, por exemplo, os textos sagrados partilhados por judeus, cristãos e muçulmanos estabelecem o imperativo de amar o próximo como ao próprio e a proibição da violência em nome de Deus, mas a condição humana parece inclinar-nos antes a odiar o próximo, explorá-lo, humilhá-lo e martirizá-lo. Pareceria que a violência está inscrita no mais íntimo do ser humano e que as civilizações (religiões incluídas) têm fracassado na sua tentativa de impor um pouco de critério que possibilite o convívio humano. Contraste inevitável entre natureza e cultura, conflito permanente entre instinto e educação. Dalguma maneira, este tem sido o debate da humanidade desde as suas origens: tem a Teologia algo a dizer perante a condição humana (contingência, vulnerabilidade, fragilidade, pecado…) que nos mergulha numa espécie de contradição entre o bom e o mau, o aconselhável e o reprovável?, será que pode a Teologia ilustrar-nos acerca do perdão entendido como gratuidade e magnanimidade, como vontade de retomar as relações, como radicalidade do sacrifício disposto a instaurar uma nova ordem na realidade?, está a teologia capacitada para desafiar a profunda memória do nosso tempo, que nos incapacita para descobrir a dimensão salvífica na densidade da história e a singularidade de cada pessoa?, porventura tem a Teologia uma resposta ao mal enquanto desafio que força a pensar doutra maneira, ao mal enquanto provocação que obriga a reconsiderar os atributos de Deus?, será que pode a Teologia habilitar-nos para nos enfrentarmos com a dimensão dogmática das religiões e para nos mostrar a capacidade pacificadora e resistente da espiritualidade vivida com profundidade que, longe de separar as pessoas, as une naquilo que há de essencial?, ajudar-nos-á a Teologia a construir uma identidade cosmopolita num mundo globalizado, respeitosa ao mesmo tempo com a unidade e a diversidade, com o particularismo e o universalismo?, pode colaborar a Teologia na construção duma ética global num contexto de interculturalidade, sendo sensível à actual pluralidade e evitando ao mesmo tempo os escolhos do subjectivismo, do relativismo e do fundamentalismo?, será que a Teologia, de dimensão utópica, é ainda capaz de insuflar esperança perante a fascinação do niilismo, de prometer libertação perante a sedução da banalidade, de apelar à responsabilidade perante a tentação da indiferença, de pregar o messianismo reconciliador perante o avanço esmagador dos interesses criados? (...)

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

4 comentários:

Anónimo disse...

«será que a Teologia, de dimensão utópica, é ainda capaz de insuflar esperança perante a fascinação do niilismo, de prometer libertação perante a sedução da banalidade, de apelar à responsabilidade perante a tentação da indiferença, de pregar o messianismo reconciliador perante o avanço esmagador dos interesses criados? »

A teologia é ela própria um "interesse criado".

Entre a espada e a parede escolha.

Entre a negação de todo o princípio religioso, político e social e a negação de que se é pecador pré-definido e incapaz por natureza.

Entre a banalidade do conhecimento científico ou banalidade de lêr uma tradução alterada a belo prazer de textos hebraicos e aramaicos.

Anónimo disse...

Porque foram perseguidos os Judeus pelos Nazis?

Porque falou Obama de Jacob e da boa teologia militar sobre o 11-S?

Porque mentiu o J.W. Bush sobre o que estava a fazer no 11-S? Porque não reagiu quando lhe disseram que estava sob ataque militar?

Anónimo disse...

Porque foi demolido de forma programada o edifício 7 ?
Procurem por WTC7.

Anónimo disse...

Claro que é uma falácia dizer que:
«Entre a negação de todo o princípio religioso, político e social»

É possível negar um princípio religioso e manter um princípio político e social.

A ideia de que a sociedade necessita de regras vindas de deus, é falsa. A sociedade pode organizar-se com políticas e socialmente sem deus.