24 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (II)

II. PLURALIDADE E INTRANSIGÊNCIA: O FUNDAMENTALISMO ENQUANTO TRANSTORNO

Uma das dimensões mais chamativas das proclamas de Bin Laden foi o recurso sistemático a expressões prototipicamente teológicas. Podemos evidenciar nesta análise até que ponto esta estratégia constituiu um abuso flagrante e provocou todo o tipo de reacções de protesto por parte dos sábios do Islão, ainda que não se devesse dar por suposto neste assunto todo a terminologia religiosa em mãos de políticos e jornalistas ocidentais. Tudo isto há-de ser um aviso sério: tanto cristãos como muçulmanos provimos duma história profundamente marcada pelas repetidas interferências entre o político e o religioso. A época actual não parece ser uma excepção, e urge estar em permanente alerta para evitar este perigo. Impõe-se também uma reacção pública de protesto mais enérgica e decidida se é que se quer evitar que as instâncias religiosas sejam tachadas de conivência com multidões violentas.

Certo é que o mundo actual se caracteriza por um progressivo processo de hiper-complexidade dos sistemas. Mas a complexidade constitui um grave problema para quem acredita que é mais fácil gerir coisas simples. Desta maneira, o fundamentalista esforça-se por reduzir artificialmente a complexidade à procura dum sentido que lhe permita afrontar a incerteza. Negação do pluralismo, consciência de minoria, criação dum inimigo, estruturação em volta do princípio do líder, construção duma verdade absoluta, recusa da ambiguidade e defesa do sentido totalitário da tradição… Eis os traços básicos do fundamentalista. Narcisismo preso no sentimento de omnipotência, vivência unilateral do absoluto à margem da historicidade, mal-estar perante os limites, incapacidade para os matizes e a crítica. O fundamentalista não estabelece verdadeiras relações interpessoais, porque só anda à procura de adeptos que se convertam aos seus próprios pontos de vista. É um apologista hipersensível, que só aceita aquilo que confirma a sua tese. No fanatismo não existe pensamento nem diálogo, senão tendência ao doutrinamento. Perdeu a iniciativa e, portanto, é simplesmente reaccionário. A simples existência doutros pontos de vista põe em questão as suas seguranças. O medo às mudanças provoca-lhe uma espécie de regressão ao mundo das seguranças ingénuas, pagando a portagem que fecha as portas que nos comunicam com o exterior. Vive num regime carcerário de isolamento, guiado pela repetição compulsiva e não pela flexibilidade criativa. Perante as perguntas acerca das questões fundamentais, os fundamentalistas têm resposta clara e contundente para tudo; perante umas instituições cada vez mais mudas, eles abusam de tagarelices; perante umas colectividades cada vez mais inexpressivas, eles oferecem um gueto defensivo…

Segue-se que o perfil psicológico do fundamentalista está claramente estabelecido: autoritarismo, adesão rígida a sistemas de valores, atitude submissa perante a autoridade, criação de estereótipos que lhe permitem suportar a ambiguidade, preocupação pelas dualidades, complacência na manipulação, predomínio da intolerância, desconfiança, legalismo implacável e hiper-sensibilidade, intenção proselitista e ausência de flexibilidade, medos persecutórios… Salta à vista que isto tudo é o sintoma da incapacidade para estabelecer uma interacção criativa entre continuidade e mudança, persistência e transformação, vinculação e liberdade. O fundamentalismo é o fracasso sintomático da memória: quer-se viver só de recordações selectivas, sobreviver no meio de esquecimentos e pedaços que não permitem recompor o contexto com fidelidade. Em definitiva, o fundamentalista substitui a fé pela fiabilidade, a experiência religiosa pelo experimento espiritual.

Vivemos uns tempos críticos, que podem ser ao mesmo tempo atractivos e desconcertantes. Sabemos que para nos localizarmos precisamos de orientação, isto é, de sentido; que para definir e classificar há que estabelecer limites. Se não estabelecermos um limite, que sentido tem considerar a Transcendência como um dos elementos determinantes da irrupção da experiência espiritual?; sem um horizonte de compreensão, que sentido tem qualificar a experiência religiosa pela sua capacidade de suscitar auto-transcendência?; sem uma fronteira que desenhe as possibilidades da vivência, como poderíamos apresentar a violência exercida em nome da religião como uma extra-limitação? Sem esta dinâmica entre o interior e o exterior, a religião fica impossibilitada do êxodo que permite explorar novos contextos libertadores, e perde a metáfora do itinerário para simbolizar o nosso permanente estádio de aprendizagem espiritual.

Sabemos também, graças à Fenomenologia, que o sagrado, enquanto âmbito onde se inscrevem os fenómenos religiosos, está constitutivamente caracterizado pela tensão entre o “tremendum” e o “fascinans”, o temor e a confiança. E as ciências da religião têm-nos ensinado que o limite que separa o sagrado do profano, o puro do impuro, se designa tecnicamente com a palavra “santo”. Portanto, o santo encontra-se na periferia do sagrado para o isolar de todo o contacto comprometedor. Devemos considerar, pois, que a irrupção da denominada violência sagrada tem lugar quando se debilita a santidade como factor protector da sacralidade. E é que a religiosidade autêntica casa mal com a perda de consciência da santidade da vida…

Quando se esbate a dimensão santa e sagrada da realidade, dilui-se também a fronteira que separa a ordem da desordem religiosa. Então, o desejo espiritual deixa de ser a motivação e o estímulo para a descoberta da Transcendência e da Alteridade, e degenera num afã por implementar uma violência supostamente reparadora. É a violência gerada pela incapacidade de gerir adequadamente a sensação de vácuo ou, se se preferir, a impossibilidade da plenitude na nossa dimensão temporal. Por isso, as denominadas formas duras da religião são o sintoma dum défice de sentido ou da presença dum sucedâneo de sentido. A violência em nome da religião costuma provir duma sobre-expectativa de sentido que a realidade não pode satisfazer de modo nenhum. Por isso, o fundamentalista idolatra as próprias crenças e, em realidade, profana-as. Sob a aparência de apresentar a verdade como algo evidente, em realidade mascara-a. O fundamentalista é um iluminado que deslumbra os outros. É alguém que confundiu as prioridades e perdeu de vista que as pessoas são a única coisa importante.

É neste contexto onde a religiosidade vivida com autenticidade e esperança é um potente antídoto contra o fanatismo. A sabedoria espiritual ajuda a entender a experiência religiosa como terapia, isto é, como cura-salvação da realidade. As religiões ensinam que a atitude devida não deve ser nem a conformidade nem a rebelião, mas a esperança. Dito doutra maneira, que a incerteza nos submete à desolação e que, precisamente por isso, necessitamos apelar à consolação. Entre tanta violência destrutiva exercida em nome da religião, sempre está ao alcance da mão a religiosidade compreendida enquanto cura. Consolo em vez de luta, reconciliação em vez de divisão.

Todos os mestres espirituais da humanidade sofreram nas suas próprias carnes as iras dos que pretendiam falar em exclusivo em nome de Deus. Eles souberam confrontá-los, e a sua mensagem continua a ser actual contra qualquer pretensão dogmática: o que nos salva é o perdão, a compaixão e a gratuidade. O conhecimento de Deus passa indefectivelmente pelo reconhecimento da alteridade. A nossa atitude perante o próximo estabelecerá o critério de autenticidade da nossa fé. A nossa linguagem não deve ser a da captação, mas a da conversão. As nossas comunidades não devem falar tanto em certezas quanto em testemunhos. Não é questão de excluir os que vêem o mundo doutra maneira, mas de os integrar. Não é para nos instalarmos no centro desde o qual tudo se valoriza, mas de viajar até às margens para encontrarmos ali a renovação. Perante a desmemória dos fundamentos, devemos propugnar a capacidade de perseverar na memória dos outros. O futuro da humanidade e a credibilidade das religiões passa indefectivelmente por adoptar a atitude de quem se sabe em permanente peregrinação, sempre em caminhos rodeados de ambiguidade.

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

3 comentários:

Anónimo disse...

No Cristianismo há:

«Narcisismo preso no sentimento de omnipotência, vivência unilateral do absoluto à margem da historicidade, mal-estar perante os limites, incapacidade para os matizes e a crítica.»

Basta olhar para a omnipotência do deus deles e a luta contra "os pagões" - "vivência unilateral do absoluto à margem da historicidade"

Anónimo disse...

«O Cristão não estabelece verdadeiras relações interpessoais, porque só anda à procura de adeptos que se convertam aos seus próprios pontos de vista. É um apologista hipersensível, que só aceita aquilo que confirma a sua tese. »

Se a IPSS deixa de poder dar de comer a algumas famílias, são simples opções a fazer. E há relatos de que se não vão à missa então não tem direito aos apoios.

Que relações interpessoais o Papa estabelece com os leigos?

O cardeal Patriarca de Lisboa não foi chamado a Roma para ouvir o «apologista hipersensível, que só aceita aquilo que confirma a sua tese.»?

Anónimo disse...

Parabéns pela tentativa de uma direcção certa no saber estar. Mas para a felicidade de um povo também devem saber fazer, devem saber aprender e nesse conjunto saberão ser.

Se um governo tenta retirar caminhos para o saber aprender e saber fazer, deve ser criticado abertamente e "combatido" na melhor forma democrática.

Se não sabem fazer, então deixem a poesia em casa, porque as moscas podem ser felizes por mexer em esterco mas não é essa felicidade que se procura para um povo.