25 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (III)

III. PLURALIDADE E ALTERIDADE: O DIÁLOGO COMO COMPROMISSO RELIGIOSO

Factos como o 11-S fizeram ganhar uma consciência ainda mais clara da urgência de nos comprometermos numa decidida opção pelo diálogo inter-religioso. No fim, assumiu-se que toda a religião é expressão simbólica dum encontro: encontro entre a Divindade e a humanidade, encontro do crente com a Palavra de Deus, encontro do mestre espiritual com o seu discípulo, encontro da comunidade de crentes para celebrar a liturgia… A convicção da impossibilidade de atingir a paz entre as civilizações sem trabalhar, ao mesmo tempo, em favor da paz entre as religiões aparecia diáfana. E –não é segredo para ninguém- todos os dedos assinalavam o Cristianismo e o Islão como sendo aquelas religiões sobre as quais recaía o peso deste compromisso. Certo é que estas duas religiões estão a fazer um trabalho bem louvável em favor da mútua aproximação desde há décadas e, embora a ritmos diferentes, nunca antes tinham sido as posições tão coincidentes. Encontros de todo o tipo têm ajudado a reconciliar ao longo dos séculos e a estabelecer ligações interpessoais.

Assumiu-se decididamente que o debate acerca da diversidade é inevitável e chave num contexto de globalização. É o imperativo da aceitação duma extraordinária variedade que reclama ser acolhida; é a exigência dumas relações entre as religiões baseadas no reconhecimento e não na imposição. Teologicamente, isto está a supor uma autêntica revolução: aprofunda-se na tese segundo a qual a humanidade espera das religiões uma resposta aos enigmas da condição humana; renuncia-se formalmente às teses exclusivistas segundo as quais não existe possibilidade fora da própria religião; reformula-se a histórica proposta da tarefa missionária e substitui-se por uma aposta pela evangelização; abre-se o debate acerca a dimensão salvífica da pessoa de Jesus Cristo, numa apaixonada e apaixonante tensão entre adeptos do inclusivismo e do pluralismo…

Não é preciso demorar muito mais na descrição deste fenómeno no qual ainda estamos imersos, sem saber sequer por quanto tempo. O que parece inegável é que o Islão e o Cristianismo têm assumido que não há atitude de respeito se um deles não consentir meter-se nessa experiência de gerir ao mesmo tempo a unidade e a diversidade, a igualdade e a diferença. Mas o respeito só enraíza no terreno fértil do diálogo aberto à novidade que o outro nos aporta, na procura conjunta da Verdade através do estabelecimento de critérios, a colocação de perguntas, a ponderação de opções e a avaliação de decisões.

Reconhece-se que todas as religiões são respeitáveis porque todas elas andam à procura duma Verdade dinâmica e um Absoluto nos caminhos particulares de cada situação histórica; porque todas elas são ao mesmo tempo um convite e uma provocação, uma constatação das diferenças e um imperativo de hospitalidade, uma defesa da boa fundamentação da própria esperança e um esforço de conversão, uma proposta de discurso dirigido ao outro e de disponibilidade para uma escuta sincera. E, continuando com a mesma lógica, entende-se que a exigência de respeito fica aberta à dúvida quando se questiona que a base da espiritualidade é a origem comum de todos os seres humanos criados à imagem duma Divindade que sela uma aliança sempre único com cada um e universal com toda a humanidade; quando é negado o esforço conjunto que se concretiza em compromissos de solidariedade que consolidam aquilo que há de mais humano em nós; quando se renega a fé entendida como diálogo ao mesmo tempo com a Divindade e com a humanidade; quando o indivíduo vira as costas à iniciação espiritual entendida como um permanente recomeçar; quando faz ouvidos moncos à dimensão iniludivelmente interpretativa da fé e se cai na espiral diabólica do dogmatismo; quando há quem se erija como auto-suficiente e o resto dos seres humanos se tornam obstáculo para ele…

Em definitivo, aceita-se que as religiões põem também em risco –literalmente- a sua credibilidade na capacidade de serem respeitosas com o pluralismo; que perdem a sua razão de ser quando deixam de ajudar o ser humano a ultrapassar as reclusões asfixiantes e os horizontes sem perspectiva; que devêm malsãs quando não aportam sentido nem capacidade de admiração; que são destrutivas quando não geram crentes, mas que degeneram em fanáticos incapazes de dialogarem; que perdem interesse no mesmo instante em que abandonam o sentido crítico…

Encontramos um exemplo paradigmático deste novo espírito de concórdia nos encontros de oração pela paz de Assis: o primeiro teve lugar no 27 de Outubro de 1986 em protesto contra a guerra do Iraque; o segundo foi convocado para o 9-10 de Janeiro de 1993; o terceiro teve lugar no 24 de Janeiro de 2002, em reacção aos atentados do 11-S e culminou num Decálogo de Compromissos no qual as religiões optaram por condenar toda a forma de violência, por educar no respeito à diferença, por promover o diálogo e o perdão e por estar perto das pessoas necessitadas; já para acabar, para comemorar o 25º aniversário destes encontros, foi anunciada uma nova sessão para o próximo 27 de Outubro de 2011.

Através de iniciativas como esta pretende-se constatar que, no debate dos processos de construção da identidade, intervém poderosamente a percepção que temos dos outros. O nosso olhar sobre a realidade (invasivo ou atento, de recusa ou de aceitação) constrói os mapas mentais que determinam a nossa perspectiva: nós/eles, próximos/afastados, próprios/alheios, familiares/estranhos, amigos/inimigos…

Comprometermo-nos com o diálogo deveria ajudar a ver a realidade evitando as direcções etnocêntricas que conferem essência às diferenças e nos fazem perceber estas diferenças como ameaças. Talvez haja quem se negue irreflectidamente a conviver com os demais, mas não pode evitar coexistir com eles. As religiões não podem passar despercebidas entre si hoje, pretendendo ser invisíveis num mundo global no qual já não há canto algum onde se esconderem. Não se trata apenas de capacidade de abertura, mas de escuta respeitosa; não de simples tolerância, mas de capacidade de reconhecimento. Neste sentido, a diversidade cultural e religiosa não é mais do que uma releitura do clássico binómio Eu-Outros, um novo olhar sobra uma Identidade e uma Alteridade de perfis cada vez mais desfocado num mundo pós-moderno onde o medo ao Outro cedeu ao medo aos Semelhantes, e o Islão (enquanto religião abraâmica) se assemelha demasiado a nós…

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

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